Posts com Tag ‘Luis Buñuel’

Jean Vigo

20/07/2009

capajenavigo

Jean Vigo escrito por Paulo Emílio Salles Gomes é uma descoberta. Foi uma descoberta quando escrito em Paris no ano de 1957. Vigo, que morrera em 1934, ainda não era tido como um dos grandes do cinema francês, e a busca de um brasileiro em levantar dados precisos sobre o cineasta que produziu três longas e morreu antes dos trinta anos chamou a atenção da crítica especializada.

André Bazin, o grande crítico e líder da geração que formaria mais tarde a Nouvelle Vague, escreveu “Com um amor só igualado por sua paciência e erudição, Paulo Emílio Salles Gomes, responsável pela Cinemateca de São Paulo, escreveu sobre Jean Vigo uma obra que eu qualificaria de exemplar.

O livro serve para revelar dois grandes amantes do cinema, Jean Vigo e o próprio Paulo Emílio. Lançado em Paris e traduzido para o inglês em 1971 pela Universidade da Califórnia, só chegou ao Brasil em 1984, quase trinta anos depois de publicado na França.

Quando perguntado pela demora na publicação nacional de uma de suas maiores obras Paulo dizia “Não sei se Jean Vigo terá aqui o mesmo interesse.” Como não se interessar pelo cineasta que é citado nas memórias de Jean Renoir, Luís Buñuel e François Truffaut?

CAPAZERO

Depois de ler o trabalho de Paulo Emílio escrito em 1957 podemos ter a certeza que a obra continua atual e intacta. Tanto Vigo quanto o livro. Jean Vigo morreu pobre e tendo seu terceiro e último filme mutilado pelos produtores. Somente depois da guerra, na década de 50, L’ Atalante é relançado com quase todo o material que Vigo montou.

De seus três filmes principais todos tiveram problemas. O primeiro A Propos de Nice (1929) sofreu com a produção, a falta de apoio e com o pouco interesse por parte da crítica, o segundo Zéro de Conduite (1933) foi censurado na estréia e antes disso Jean teve sérios atritos com o estúdio co-produtor a Gaumont-Franco-Film.

L’ Atalante nasceu dentro do medo. Poucos acreditavam nele e ter um filme censurado abalou a confiança dos produtores em Vigo. Antes de morrer Jean Vigo dizia que L’ Atalante era o responsável por sua doença. Vigo que sempre teve uma saúde fraca se submeteu a um verdadeiro martírio para concluir o filme e chegou a filmar com trinta e oito graus, febril, embaixo da neve.

Cena de Zéro de Conduite

Cena de Zéro de Conduite

Jean Vigo faleu em 5 de outubro de 1934 e seu filme cortado, mutilado e transformado no fracasso Le Chaland qui passe parece ter morrido junto com ele. Somente nas décadas de 50 e 60, o nome de Jean Vigo iria ressurgir na França, na Europa e até na América. Paulo Emílio afirma:

O lugar ocupado por Vigo no cinema francês é extraordinário. A lista de cineastas franceses cujas obras – sem levar em conta sua significação momentânea ou seu interesse histórico – constituem por seu valor permanente, uma contribuição à cultura cinematográfica (Méliès, Cohl, Linder, Gance, Clair, Renoir e Vigo) é curta e poderia ainda ser reduzida. Se, com rigor exagerado, reduzíssemos esta lista a quatro nomes, o de Vigo nela permaneceria. A obra principal de Vigo, situada entre Le Million e La Règle du Jeu, domina, com a de Renoir e Clair, o cinema francês moderno, isto é, o dos anos trinta.

Cena de Zéro de Conduite

Cena de Zéro de Conduite

Meu Último Suspiro

19/07/2009

Luis Bunuel01

Para os apaixonados por cinema assistir a filmes pode não ser o suficiente. Ler sobre cinema, sobre os diretores se torna tão obrigatório quanto gabaritar os filmes em cartaz. Isso para os cinéfilos. Se você pretende um dia ser cineasta ou videasta (argh! Que termo horrível!) não deve se contentar só com as imagens, é preciso mais.

Uma vez me perguntaram: “Por que ler sobre cineastas e filmes?”, confesso que fiquei paralisado, não tinha resposta, nunca parei para pensar nisso. Leio por que é livro, se fosse música eu escutava! Nunca pensei nisso por que foi um caminho lógico: assistir filmes, assistir muitos filmes, assistir todos os filmes possíveis, ler roteiros, ler sobre filmes e por fim procurar livros sobre diretores.

Vários grandes nomes costumam dizer que para conhecer um cineasta basta ver seus filmes. Talvez por essa máxima todos fujam das biografias ou autobiografias. Mas no fim, sempre se rendem.

bela-da-tarde-poster03

Foi o que aconteceu com Luis Buñuel. O diretor de A Bela da Tarde, O discreto charme da burguesia e O Anjo Exterminador precisou do apoio de Jean-Claude Carrière – seu fiel colaborador – para escrever Meu Último Suspiro. Segundo Buñuel “Não sou um homem de letras. Depois de longas conversas, Jean-Claude Carrière, seguindo fielmente tudo o que lhe disse, ajudou-me a escrever este livro”.

O livro faz um passeio pelo mundo do cineasta. Começamos em Calanda, uma cidadezinha espanhola, onde a Idade Média se prolongou até o fim da Primeira Grande Guerra. Os relatos são parecidos com seus filmes, conseguimos visualizar por completo a antiga Espanha e seus costumes.

A vida de Buñuel é tão interessante quanto seus filmes. Será que podemos criar histórias, escrever enredos fantásticos tendo vivido uma vida medíocre? Luis Buñuel é o primeiro a confirmar a teoria de que é preciso viver e viver com intensidade.

Buñel e Denevue

Buñuel e Denevue

Da Idade Média de Calanda partimos para Madri e de lá para Paris. Tudo isso passando por guerras e revoluções! Diferente da maioria dos cineastas, Luis Buñuel veio de uma família rica e sem problemas financeiros. Buñuel não só conheceu como era amigo de Federico Garcia Lorca e Salvador Dali, participou do movimento surrealista, mas se recusou a ser enquadrado por ele nele. Buñuel só aceitava seguir suas próprias regras.

E para fazer Meu Último Suspiro ele só seguiu suas regras “O retrato que ofereço é de toda maneira meu, com minhas repetições, minhas lacunas, minhas verdades e minhas mentiras, em suma, minha memória.

Nas memórias sobra espaço para analisar cada filme. Um trabalho difícil e cruel. Rever os filmes é, sobretudo, se deparar com os erros. Mas isso não incomoda o cineasta, nem a morte, o único desejo seria “(…) gostaria de poder erguer-me entre os mortos, a cada dez anos, caminhar até a banca de jornais e comprar alguns. Não pediria mais nada. Com os jornais debaixo do braço, lívido, esbarrando nos muros, retornaria ao cemitério e leria os desastres do mundo, antes de tornar a dormir, satisfeito na proteção tranquilizadora da sepultura”.

Leia Meu Último Suspiro e veja os filmes de Luis Buñuel novamente. É um ótimo exercício, para cinéfilos e para quem quer algo mais.

Luis Buñel e Glauber Rocha

Luis Buñuel e Glauber Rocha

A Linguagem Secreta do Cinema

12/07/2009

linguagem

Poucas vezes temos a mão um livro tão indispensável como este do roteirista Jean-Claude Carrière: A Linguagem Secreta   do Cinema. Roteirista e colaborador de Luis Buñuel, Carrière escreveu mais de cinqüenta roteiros e tem no currículo filmes como O discreto charme da burguesia, Este obscuro objeto do desejo, A bela da tarde e A insustentável leveza do ser.

O livro traça a evolução do cinema em cem anos e também a evolução do público:

No começo, quando um ator olhava para outro ator que estava fora do quadro, olhava nitidamente para longe da câmera. Fixava os olhos a cerca de um metro à direita ou à esquerda, de acordo com o que lhe determinavam (…) Pouco a pouco, mais ou menos por toda parte esse olhar foi deslocando mais para perto da câmera. (…) Nos anos 60, o ator olhava para um rosto encostado à câmera. Nos anos 70, ele olhava para a própria borda do aparelho. Hoje em dia, olha para um pedaço de fita presa ao lado da lente. No futuro, talvez olhe direto para dentro da câmera.”

Carrière é um estudioso da arte cinematográfica, mas acima de tudo é um contador de histórias e por isso, A Linguagem Secreta do Cinema é um livro que é absorvido da primeira até a última palavra e como um bom filme é preciso ler e reler para extrair tudo o que o autor procurou mostrar. Carrière não escreveu só para cinema e conseguiu sucesso também no teatro. Da amizade com Buñuel ele guarda boas histórias, e foi com ajuda de Carrière que Luis Buñuel escreveu sua biografia.

esse-obscuro-objeto-do-desejo-poster01

A amizade de Carrière e Buñuel produziu obras-primas, mas também aventuras fantásticas. Em Esse obscuro objeto do desejo, Buñuel utiliza duas atrizes para fazer o mesmo personagem. Uma era espanhola e outra francesa e totalmente diferente nas feições físicas. Um estudo de uma universidade norte-americana apontou que 70% dos estudantes não perceberam o engodo. Na época do lançamento do filme em 1977, a imprensa escreveu sobre o assunto e mesmo assim 50% dos espectadores não viram nada irregular. Qual seria o mistério?

Deveríamos nos admirar ou preocupar? Isto nos mostra até que ponto os olhos podem permanecer sem ver, por mais de uma hora e meia, em conseqüência do poder quase assustador dos nossos hábitos de percepção, de nossa rejeição secreta fora do comum, por tudo o que nos perturba e desconcerta.”

Como Buñuel costumava dizer a Carrière: “Por hora pode-se dormir em paz.”

A Linguagem Secreta do Cinema

Jean-Claude Carrière

Editora Nova Fronteria


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.