Archive for julho \24\UTC 2009

Prática do Roteiro Cinematográfico

24/07/2009

praticaJean-Claude Carrière e Pascal Bonitzer nos trazem o eficiente Prática do Roteiro Cinematográfico e posso afirmar que é simplesmente indispensável para diretores e roteiristas. Não se trata de mais um livro sobre “Como escrever para o cinema”, mas de um compromisso sério com o ensino do roteiro.

Carrière chega a sugerir vários exercícios para serem aproveitados em sala de aula e defende que o ofício do cinema pode ser aprendido na escola. Mas deixa um aviso, falta o estudo do roteiro. Para Carrière poucas universidades possuem cursos para roteiristas, e o debate entre os alunos deveria acontecer mesmo sem a presença de professores ou orientadores.

A preocupação em criar novos e bons roteiristas e também de deixar textos sobre roteiro aparece em todo o livro. Outro assunto que chama a atenção é a diferença entre o romance e o roteiro. Tanto Carrière quanto Bonitzer se debruçam sobre o assunto e afirmam que o roteirista está mais perto de ser um diretor do que de ser um romancista.

Cena de Os amantes da Pont-Neuf

Cena de Os amantes da Pont-Neuf

Com menos de 150 páginas, Prática do Roteiro Cinematográfico é facilmente digerido do início ao fim. Mas não se trata de uma leitura tão simples quanto os livros de Syd Field. A parte conduzida por Pascal Bonitzer (roteirista do filme Os amantes da Pont-Neuf) merece uma atenção especial e várias relidas. Nada que dificulte a compreensão do texto, apenas exige do leitor que acompanhe a linha de pensamento do roteirista. Bonitzer usa exemplos extraídos de Buñuel, Antonioni, Hitchcook e até de … Rambo!

Jean-Claude Carrière

Jean-Claude Carrière

O último capítulo fala exatamente da importância de um bom final. Nesse momento as idéias de Pascal Bonitzer se aproximam do pensamento de Syd Field. Os dois mundos não estão tão distantes assim. Os dois concordam que é preciso saber o fim antes de rabiscar qualquer palavra no papel.

Se você realmente quer escrever um roteiro não fique só com esse livro, leia A Linguagem Secreta do Cinema escrito por Jean-Claude Carrière.

Anúncios

Relato Autobiográfico

21/07/2009

kurosawa1

Não é fácil de achar, talvez só em sebos, mas leia o Relato Autobiográfico de Akira Kurosawa. Essa pode não ser a forma convencional de se começar uma crítica, mas é simples e direta, como o texto do cineasta japonês. Kurosawa sempre foi reticente quando pediam que escrevesse sobre sua vida. Pensava que não teria nada a acrescentar contando histórias que não sejam aquelas que estão em seus filmes. “Fundamentalmente, não creio que escrever sobre si mesmo seja algo interessante e que mereça ser registrado para a posteridade.

Akira só mudou de idéia ao ler a biografia de outro gênio do cinema: “Creio que está capitulação se deve a minha leitura da autobiografia do diretor francês Jean Renoir (1894-1979). Em uma ocasião o encontrei e ele me convidou a um jantar durante o qual conversamos sobre vários assuntos. A impressão que tive nesse encontro foi a de que absolutamente não era o tipo que se sentaria para escrever uma autobiografia. Saber que ele havia se aventurado a isso foi como sentir uma explosão em meu interior.

Ainda bem que Akira Kurosawa mudou de idéia! A mesma força e energia que usou para fazer seus filmes está presente no texto. Cada página folheada cria em nossa mente as imagens contidas nas palavras, é um livro para ficar por perto, um daqueles que não basta ler uma só vez.

Claro que depois, e mesmo durante a leitura, temos o desejo de ver ou rever seus filmes. E essa é a melhor parte. Combinar o Kurosawa que se revela nas páginas ao Kurosawa que já se revelou por completo nos seus filmes.

Ler Akira Kurosawa leva o leitor a amar com mais força o cinema, tira as dúvidas de quem pensa em trabalhar com filmes, mas não tem coragem. Por tudo isso, não tenho dúvidas ao afirmar que Relato Autobiográfico é um livro poderoso, e mesmo que Kurosawa não pensasse nisso, ele já se transformou, junto com seus filmes, em leitura para a posteridade.

KURUSAWA

Jean Vigo

20/07/2009

capajenavigo

Jean Vigo escrito por Paulo Emílio Salles Gomes é uma descoberta. Foi uma descoberta quando escrito em Paris no ano de 1957. Vigo, que morrera em 1934, ainda não era tido como um dos grandes do cinema francês, e a busca de um brasileiro em levantar dados precisos sobre o cineasta que produziu três longas e morreu antes dos trinta anos chamou a atenção da crítica especializada.

André Bazin, o grande crítico e líder da geração que formaria mais tarde a Nouvelle Vague, escreveu “Com um amor só igualado por sua paciência e erudição, Paulo Emílio Salles Gomes, responsável pela Cinemateca de São Paulo, escreveu sobre Jean Vigo uma obra que eu qualificaria de exemplar.

O livro serve para revelar dois grandes amantes do cinema, Jean Vigo e o próprio Paulo Emílio. Lançado em Paris e traduzido para o inglês em 1971 pela Universidade da Califórnia, só chegou ao Brasil em 1984, quase trinta anos depois de publicado na França.

Quando perguntado pela demora na publicação nacional de uma de suas maiores obras Paulo dizia “Não sei se Jean Vigo terá aqui o mesmo interesse.” Como não se interessar pelo cineasta que é citado nas memórias de Jean Renoir, Luís Buñuel e François Truffaut?

CAPAZERO

Depois de ler o trabalho de Paulo Emílio escrito em 1957 podemos ter a certeza que a obra continua atual e intacta. Tanto Vigo quanto o livro. Jean Vigo morreu pobre e tendo seu terceiro e último filme mutilado pelos produtores. Somente depois da guerra, na década de 50, L’ Atalante é relançado com quase todo o material que Vigo montou.

De seus três filmes principais todos tiveram problemas. O primeiro A Propos de Nice (1929) sofreu com a produção, a falta de apoio e com o pouco interesse por parte da crítica, o segundo Zéro de Conduite (1933) foi censurado na estréia e antes disso Jean teve sérios atritos com o estúdio co-produtor a Gaumont-Franco-Film.

L’ Atalante nasceu dentro do medo. Poucos acreditavam nele e ter um filme censurado abalou a confiança dos produtores em Vigo. Antes de morrer Jean Vigo dizia que L’ Atalante era o responsável por sua doença. Vigo que sempre teve uma saúde fraca se submeteu a um verdadeiro martírio para concluir o filme e chegou a filmar com trinta e oito graus, febril, embaixo da neve.

Cena de Zéro de Conduite

Cena de Zéro de Conduite

Jean Vigo faleu em 5 de outubro de 1934 e seu filme cortado, mutilado e transformado no fracasso Le Chaland qui passe parece ter morrido junto com ele. Somente nas décadas de 50 e 60, o nome de Jean Vigo iria ressurgir na França, na Europa e até na América. Paulo Emílio afirma:

O lugar ocupado por Vigo no cinema francês é extraordinário. A lista de cineastas franceses cujas obras – sem levar em conta sua significação momentânea ou seu interesse histórico – constituem por seu valor permanente, uma contribuição à cultura cinematográfica (Méliès, Cohl, Linder, Gance, Clair, Renoir e Vigo) é curta e poderia ainda ser reduzida. Se, com rigor exagerado, reduzíssemos esta lista a quatro nomes, o de Vigo nela permaneceria. A obra principal de Vigo, situada entre Le Million e La Règle du Jeu, domina, com a de Renoir e Clair, o cinema francês moderno, isto é, o dos anos trinta.

Cena de Zéro de Conduite

Cena de Zéro de Conduite

Meu Último Suspiro

19/07/2009

Luis Bunuel01

Para os apaixonados por cinema assistir a filmes pode não ser o suficiente. Ler sobre cinema, sobre os diretores se torna tão obrigatório quanto gabaritar os filmes em cartaz. Isso para os cinéfilos. Se você pretende um dia ser cineasta ou videasta (argh! Que termo horrível!) não deve se contentar só com as imagens, é preciso mais.

Uma vez me perguntaram: “Por que ler sobre cineastas e filmes?”, confesso que fiquei paralisado, não tinha resposta, nunca parei para pensar nisso. Leio por que é livro, se fosse música eu escutava! Nunca pensei nisso por que foi um caminho lógico: assistir filmes, assistir muitos filmes, assistir todos os filmes possíveis, ler roteiros, ler sobre filmes e por fim procurar livros sobre diretores.

Vários grandes nomes costumam dizer que para conhecer um cineasta basta ver seus filmes. Talvez por essa máxima todos fujam das biografias ou autobiografias. Mas no fim, sempre se rendem.

bela-da-tarde-poster03

Foi o que aconteceu com Luis Buñuel. O diretor de A Bela da Tarde, O discreto charme da burguesia e O Anjo Exterminador precisou do apoio de Jean-Claude Carrière – seu fiel colaborador – para escrever Meu Último Suspiro. Segundo Buñuel “Não sou um homem de letras. Depois de longas conversas, Jean-Claude Carrière, seguindo fielmente tudo o que lhe disse, ajudou-me a escrever este livro”.

O livro faz um passeio pelo mundo do cineasta. Começamos em Calanda, uma cidadezinha espanhola, onde a Idade Média se prolongou até o fim da Primeira Grande Guerra. Os relatos são parecidos com seus filmes, conseguimos visualizar por completo a antiga Espanha e seus costumes.

A vida de Buñuel é tão interessante quanto seus filmes. Será que podemos criar histórias, escrever enredos fantásticos tendo vivido uma vida medíocre? Luis Buñuel é o primeiro a confirmar a teoria de que é preciso viver e viver com intensidade.

Buñel e Denevue

Buñuel e Denevue

Da Idade Média de Calanda partimos para Madri e de lá para Paris. Tudo isso passando por guerras e revoluções! Diferente da maioria dos cineastas, Luis Buñuel veio de uma família rica e sem problemas financeiros. Buñuel não só conheceu como era amigo de Federico Garcia Lorca e Salvador Dali, participou do movimento surrealista, mas se recusou a ser enquadrado por ele nele. Buñuel só aceitava seguir suas próprias regras.

E para fazer Meu Último Suspiro ele só seguiu suas regras “O retrato que ofereço é de toda maneira meu, com minhas repetições, minhas lacunas, minhas verdades e minhas mentiras, em suma, minha memória.

Nas memórias sobra espaço para analisar cada filme. Um trabalho difícil e cruel. Rever os filmes é, sobretudo, se deparar com os erros. Mas isso não incomoda o cineasta, nem a morte, o único desejo seria “(…) gostaria de poder erguer-me entre os mortos, a cada dez anos, caminhar até a banca de jornais e comprar alguns. Não pediria mais nada. Com os jornais debaixo do braço, lívido, esbarrando nos muros, retornaria ao cemitério e leria os desastres do mundo, antes de tornar a dormir, satisfeito na proteção tranquilizadora da sepultura”.

Leia Meu Último Suspiro e veja os filmes de Luis Buñuel novamente. É um ótimo exercício, para cinéfilos e para quem quer algo mais.

Luis Buñel e Glauber Rocha

Luis Buñuel e Glauber Rocha

Woody Allen por Eric Lax

18/07/2009

woodylax

Quando você estiver em uma livraria e se deparar com a capa branca do livro de Eric Lax sobre o diretor, ator e escritor Woody Allen pense seriamente em pegar o livro e ir direto ao caixa. Allen está longe de ser uma unanimidade. Alguns amam seus filmes e outros não suportam. Para as duas correntes ler a biografia de Allen permitirá um olhar diferente da obra e do homem.

Allan Stewart Konigsberg nasceu no Bronx, no primeiro dia de dezembro de 1935, já Woody Allen nasceu no Brooklyn em 1952. O jovem e tímido Allan decidiu se tornar escritor de comédias e enviou tiras de piadas para alguns jornais novaiorquinos, mas como não queria que seus colegas de turma descobrissem mudou seu nome para Woody Allen.

WOODY01

Aos 17 anos, Woody era considerado um gênio precoce e sua vida foi marcada pelas mudanças bruscas. No início, a luta foi para vencer como escritor de piadas para as colunas dos jornais, depois passou a escrever para alguns programas de televisão. Logo que conseguia um aparente sucesso na profissão atual já pulava para outra área.

Com dezoito anos ganhava 40 dólares, por semana, como escritor de piadas. Quando foi contratado pela rede de televisão NBC para ser redator de alguns programas abocanhou 169 dólares semanais. Sete anos depois, em 1960, Woody Allen era tão requisitado que ganhava 1700 dólares por semana de trabalho.

Apesar da escalada de sucesso, Allen já estava planejando deixar a TV para iniciar outra fase de sua vida. Começou a atuar como comediante stand up ainda em 60. O início não foi nada promissor: ficou meses sem ganhar um centavo, fez apresentações para dez pessoas em pequenos clubes e muitas noites não ouviu nenhuma risada. Doze anos depois estava no Caesars Palace de Las Vegas com um cachê de 85 mil dólares por duas semanas. Aliás, essas seriam as últimas apresentações como comediante stand up, daquele ano para frente se ocuparia unicamente com o cinema.

Um dos seus primeiros filmes, “Tudo que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar”, feito no mesmo ano, rendeu a Allen quase dois milhões de dólares. Mas o dinheiro não teve nenhuma influência na decisão de Woody em largar a vida de comediante.

WOODY02

Allen deu o primeiro passo no cinema como roteirista e recebeu 35 mil dólares pelo trabalho. No filme “O que é que há, gatinha?”, estrelado por Warren Beatty, Woody também conseguiu um papel. Aos vinte e oito anos Woody Allen estreava em Holywoody como ator e assinando seu primeiro roteiro.

Considerado único entre os diretores norte-americanos, Allen recebe dos estúdios regalias só comparadas com as concedidas a Orson Welles e em menor escala a Steven Spielberg. Seu nome e eficiência permitem que acerte o orçamento sem precisar submeter o roteiro a nenhuma aprovação.

Mesmo com grandes sucessos como “A Rosa Púrpura do Cairo”, “Manhattan”, “Crimes e Pecados”, “Noivo neurótico, noiva nervosa” e “Hannah e suas irmãs”, Woody Allen sempre está insatisfeito com seus filmes “Ainda bem que o público só vê o produto final.” Allen gostaria de atingir o nível de grandes mestres como Jean Renoir, Ingmar Bergman ou Akira Kurosawa. Sem pestanejar dispara “Acho que fiz alguns filmes decentes e muitos outros divertidos, mas nunca fiz um grande filme. Um grande filme para mim é A Grande Ilusão, Cidadão Kane, Ladrão de Bicicletas ou Quando as mulheres pecam.

Talvez isso ajude a explicar ao público as constantes mudanças de rumo nos seus projetos. Desde o início sua carreira é mutante. De escritor de comédias para redator de TV, depois para escritor teatral e comediante stand up e por fim, diretor, roteirista e ator de cinema. Allen deixa claro que quer fazer cinema e não comédias.

WOODY03

Grande parte do público e da crítica espera que Woody volte a temas que fizeram sucesso nas suas primeiras comédias. O que mais irrita Allen é ser um artista acomodado e preso a fórmulas que fizeram sucesso, “A visão do público nunca é tão profunda quanto a visão do artista. O público está sempre querendo decidir pelo mais fácil.

O livro lançado em 1991 acompanhou as filmagens e a montagem de “Simplesmente Alice” que foi bem recebido pelo público e pela crítica. Depois, o diretor fez mais 20 filmes e sempre alternando entre comédias e dramas. Allen parece perseguir o objetivo de sua vida:

Terei ocasião de fazer um ou dois filmes que serão considerados grandes sobre qualquer aspecto (…). Qualquer artista – Fellini, Bergman – encontra-se na mesma situação. Fizeram um grande número de filmes. Nem sempre fazem Amacord ou Gritos e sussurros. (…) Contudo, o conjunto de suas obras é elevado por essas pequenas estrelas brilhantes. O que falta no conjunto de meus filmes são esses pequenos brilhos de luz. Talvez agora, que passei dos cinqüenta anos, esteja mais confiante, e possa produzir algo que seja verdadeiramente literário.

WOODY04

Woody Allen

Eric Lax

Companhia das Letras


Fragmentos de um cineasta

17/07/2009

rosse01

Diferente da maioria dos grandes diretores de cinema de seu tempo, Roberto Rossellini procurou não somente contar histórias, mas também ajudar os homens a se conhecerem. E podemos conhecer mais sobre Rossellini em Fragmentos de uma Autobiografia. Roberto morreu em 1977 e deixou o texto inacabado. Mas isso não significa incompleto.

Rossellini não procura apenas contar um pedaço de sua vida ou falar sobre seus filmes: “Este livro é um ato deliberadamente político, pois denuncia o espetáculo: quero dizer, a insignificante ficção a que se encontra reduzida a expressão audiovisual em nossa sociedade, bem como o contágio de que esta foi vítima e que a transformou em uma sociedade de espetáculo.”

roma_citta_aperta

Roberto Rossellini nasceu na Itália onde crescia o ideal fascista. A Itália do Império Romano e de tantas guerras, mas também a mesma Itália que se recusa a crescer e a se americanizar. Quando os americanos desembarcaram em Roma não esperavam encontrar uma sociedade tão diferente da sua. Existe a história do italiano e do soldado americano. O italiano estava deitado repousando ao sol e o soldado não resistiu: “O que você está fazendo?” “Nada.” – foi a resposta. “E você não se envergonha?” – continuou o americano. “Não. De quê?”, perguntou o italiano. “Se você trabalhasse, poderia ter um salário. Poderia construir uma família, ter filhos. Seus filhos iriam à escola; cresceriam; você compraria uma pequena casa no campo e, depois dos filhos casados, poderia aposentar-se. E aí você descansaria.” – finalizou o profético soldado americano. O italiano bocejou, fitou o yankee nos olhos e disparou: “Ora, é exatamente o que estou tentando fazer.

Da Itália, Rossellini nos leva até a França de Jean Renoir, Jean Cocteau, Pagnol, e lamenta a americanização da França. Mas não passa impune. “Com que direito esse italiano nos julga?” Rossellini sempre foi o alvo de duras críticas e também responsável por fazer duras críticas.

Bergman e Rossellini na Itália

Bergman e Rossellini na Itália

O sucesso de Roma, cidade aberta e depois Paisà não foi capaz de dobrar o pensamento do diretor. Foi procurado pelos grandes estúdios de Hollywood, passando por David Selznick, Samuel Goldwyn, Daniel Zanuck e até Howard Hughes. Resistiu a todas as propostas e se tornou a ovelha negra entre os cineastas.

O casamento dentro e fora das telas com a maior estrela de Hollywood fez com que fosse odiado nos Estados Unidos. “Ele destruiu a carreira dela!”, era o comentário mais simpático que o casal recebia. Ingrid Bergman se apaixonou pelo cineasta Rossellini e pelo homem Roberto, o casamento trouxe três filhos.

Roberto Rossellini sempre esteve à margem, destacado e resumi sua história numa frase: “A solidão é meu território”.

Roberto e a pequena Isabela

Roberto e a pequena Isabela

Anthony Quinn e sua última dança

16/07/2009

quinn02

Em Tango Solo temos a chance de acompanhar de perto a vida pessoal de um grande ator de Hollywood. Desde a infância pobre no México até a adolescência conturbada nos Estados Unidos, Anthony Quinn parece querer nos revelar tudo, sem pudor.

O livro funciona como fragmentos de memória. Enquanto passeia de bicicleta pelos arredores de Roma, pela Via Àpia, Quinn vai relembrando fatos de seu passado e buscando ao mesmo tempo entender suas motivações e compartilhando com o leitor as dúvidas de suas encruzilhadas.

Se um roteirista ou diretor um dia pensar em filmar a trajetória de Anthony Quinn ou fazer uma mini-série, vai encontrar nesse livro um roteiro quase pronto. A vida de Quinn parece realmente feita para as telas. Seu pai lutou ao lado de Pancho Villa e Zapata na Revolução Mexicana. Anos depois em 1952 em Viva Zapata!, Quinn ganhou o Oscar de Ator Coadjuvante.

Ser mexicano e fazer sucesso em Hollywood hoje em dia é uma tarefa muito difícil, agora imagine na década de quarenta. Antes do sucesso, Anthony Quinn foi engraxate, motorista de táxi e lutador de boxe. O caminho foi longo e cheio de falsas promessas. “Fiz uma ou outra figuração, sem créditos, em filmes B perdoáveis, mas já perdia as esperanças de fazer um papel falado. Ou eu era moreno demais, ou mexicano demais, ou tinha um tipo muito marcante, e os papéis bons iam para os atores com aparência mais convencional. Para mim, as oportunidades que apareciam nunca davam em nada.”

Os dois Oscars e os grandes papéis em Lawrence da Arábia, Zorba o grego, Sede de Viver e La Strada de Fellini não fizeram Quinn esquecer o passado pobre e as dificuldades. Viver intensamente alegrias e tristezas parece ser um dos mandamentos do ator e ele divide tudo isso conosco com o mesmo prazer que levava seus personagens para as telas do cinema.

anthony_quinn_audar

Anthony Quinn em Lawrence da Arábia

Tango Solo

Editora Nova Fronteira

Leitura obrigatória

15/07/2009

Se você está pensando em fazer cinema não pode deixar de ler Fazendo Filmes de Sidney Lumet e Sobre Direção de Cinema de David Mamet, e tem que ser nessa ordem, um depois do outro. Primeiro você vai se encher de coragem e correr para escrever um roteiro. Vai pensar que a vida de cineasta tem seus problemas, mas é um mundo maravilhoso e um trabalho excelente. Isso tudo é verdade.

Quem já teve a oportunidade de dirigir um filme ou um vídeo sabe como é ótimo gritar: “Ação! Corta!” e ver as páginas do roteiro se transformando como mágica em imagens. Sidney Lumet sabe que antes da mágica vem trabalho duro e também muitas, mas muitas concessões.

Ao escrever Fazendo Filmes, o diretor nos mostra um retrato inteligente e honesto dos bastidores de seus filmes. Sim, Lumet prefere falar sobre seus filmes: “Certa vez perguntei a Akira Kurosawa por que decidira fazer uma tomada em Ran de determinada maneira. A resposta foi que se tivesse colocado a câmera uma polegada para a esquerda, a fábrica da Sony apareceria na tomada, e se colocasse a câmera uma polegada para a direita veríamos o aeroporto – nenhuma das duas paisagens cabia num filme de época. Somente a pessoa que fez o filme sabe o que pesa nas decisões que resultam em qualquer obra concluída. Pode ser qualquer coisa, de exigências de orçamento à inspiração divina.”

Lumet fazendo o que mais gosta

Essa honestidade aparece em todas as páginas “Não existe maneira certa ou errada de dirigir um filme. O meu objetivo é contar como eu trabalho”. Sidney Lumet conta a experiência da primeira leitura do roteiro, a paciência para agüentar os agentes e maquiadores das estrelas, o abuso dos produtores de estúdio e a angústia do lançamento. Mesmo com todas essas dificuldades, no fim do livro você vai se sentir cheio de energia para entrar no set de filmagem. Essa é a hora do estágio dois.

Se depois de ler Sobre Direção de Cinema você ainda quiser sair correndo para filmar … o problema é seu. Não que David Mamet desanime diretamente o leitor, mas deixa claro que para ser diretor de cinema – mesmo um mal diretor – é preciso dominar muita a técnica cinematográfica, e conhecer o que diferencia o cinema das outras artes. O cinema possui uma característica que o distingue do teatro, pintura, poesia e tantas outras formas de arte: o corte. A montagem é o diferencial do cinema, o controle do tempo e do espaço só pode ser encontrado nas telas.

Quando você coloca um personagem descendo do 10o andar até o térreo de elevador não usa o tempo que ele faria normalmente e sim o tempo cinematográfico. O tempo de duração da cena que pode ser de vinte segundos, um minuto ou até cinco minutos, vai depender da necessidade dramática do filme, e do que o diretor quer passar com ela.

mamer1

David Mamet

Esse domínio do corte e do tempo foi esquecido com o advento do som. O cinema sonoro diz, fala, deixou de fazer. É justamente esse resgate da característica básica do cinema que Mamet cobra dos novos e velhos diretores. Mostrar e conduzir o público com imagens é mais difícil do que simplesmente falar para ele. Fazer o ator falar: “Estou com dor de cabeça.” É fácil. Mostrar isso sem falas e de forma convincente é o desafio. Para quem acha isso impossível é só assistir aos filmes mudos e principalmente a obra de Charles Chaplin que odiava usar as caixas de diálogo.

Se você quer realmente fazer cinema: Não desanime! Só é preciso mais do que talento para transformar palavras em imagem.

Doze homens e uma sentença de Sidney Lumet

Doze homens e uma sentença de Sidney Lumet

Os bastidores de um filme

14/07/2009

welles3

Quem tem acesso aos bastidores de uma super-produção? Conhecer os detalhes do roteiro, a criação do cenário e a escolha dos planos de filmagem é quase impossível. Agora imagine ter entrada livre no mundo do “melhor filme de todos os tempos”.

Essa é a proposta de Cidadão Kane: O Making Of escrito por Robert L. Carringer. O livro foi mais longe do que qualquer outra obra sobre Cidadão Kane. Além de ler e pesquisar todas as fontes disponíveis, Carringer conversou com antigos funcionários dos estúdios RKO Pictures (onde o filme foi rodado) e alguns importantes colaboradores nas áreas de som e fotografia. Mostra também rabiscos e plantas da cenografia e do figurino. Mas o maior trunfo do autor está no próprio Orson Welles que leu e releu os capítulos e forneceu informações precisas sobre a criação do filme que é aclamado há mais de três décadas como o melhor de todos.

Durante muitos anos Citizen Kane foi considerado uma obra autoral e talvez a primeira do cinema norte-americano. Nunca um diretor teve tanta liberdade para conduzir um filme como Welles. A grande discussão do livro se baseia na autoria total do diretor. O mito da criação absoluta de Welles não foi questionada por anos e o grande mérito de Carringer é justamente analisar de forma fria e séria o surgimento do filme, passo a passo, do roteiro ao lançamento e resgatando o crédito aos colaboradores de Orson Welles.

cidadao kane

Para entender por que Cidadão Kane é considerado um marco na história do cinema é preciso não só assistir ao filme, mas também entender o contexto social e político dos anos 30 e 40. Até hoje o filme é forte e atual. Os efeitos especiais, os planos e ângulos de câmera, a edição entrecortada e a cadência precisa do roteiro fizeram gerações de jovens no mundo todo sonharem em fazer cinema.

Como disse François Truffaut: “Filmar Cidadão Kane aos 25 anos de idade não é o sonho de todos os jovens freqüentadores das cinematecas?”. Ou ainda Jean-Luc Godard: “Quando Orson Welles realizou Cidadão Kane, tinha 25 anos. Desde então, jovens cineastas do mundo inteiro tem sonhado com nada menos do que realizar seu primeiro grande filme antes de atingir essa idade.”

O livro de Carringer passeia pela criação do filme e também mostra as decepções do jovem diretor que embora já famoso no rádio pelo episódio “A Guerra dos Mundos” teve a humildade de estudar e aprender com os melhores técnicos antes de rodar Citizen Kane.
Sobre cinema Welles disse uma vez “É o maior brinquedo que qualquer criança já teve nas mãos.”

Para muitos estudiosos e críticos de cinema a carreira de Orson Welles já começou em declínio. Ao filmar, aos 25 anos, o melhor filme de todos os tempos o jovem diretor passou o resto da vida tentando repetir a genialidade de Cidadão Kane.

Assista ao filme e leia o livro … quem sabe você não descobre a vocação de fazer cinema.

Cidadão Kane: O Making Of

Robert L. Carringer

Editora Civilização Brasileira

Da idéia original ao roteiro final

13/07/2009

stanley03

A maioria dos grandes cineastas são competentes e profissionais, outros atingem a perfeição pela repetição, outros ainda se dedicam a direção de atores e outros ao processo técnico e a decupagem.

Poucos são considerados geniais. Entre esses encontramos um pequeno grupo de inclassificáveis. E nesse grupo inserimos Stanley Kubrick. O diretor de Spartacus, Laranja Mecânica e O Iluminado poucas vezes se revelou tanto como no livro de Frederic Raphael, Kubrick: De Olhos Bem Abertos.

Colaborador no roteiro de Eyes Wide Shut, o último filme de Kubrick, Frederic conseguiu quebrar a barreira de isolamento que separava o diretor do mundo e fez um desenho preciso e sem veneração do homem que em 36 anos de cinema rodou apenas seis filmes.

Considerado um ermitão rabugento e um diretor perfeccionista, Stanley Kubrick deixa escapar histórias, comentários sobre figuras de Hollywood e o sonho de rodar A. I., Inteligência Artificial – posteriormente filmado por Steven Spielberg.

stanley_kubrick_04

Kubrick no set de O Iluminado

O livro é escrito como um roteiro cinematográfico e mostra desde as páginas iniciais até a finalização de De Olhos Bem Fechados. Frederic faz do livro uma espécie de diário e sem pudor revela o nervosismo do primeiro encontro com o diretor e a angustiada espera pelas ligações que confirmariam ou não se as páginas escritas estavam de acordo com que Kubrick queria para o filme. Frederic que já tinha no currículo um Oscar de Melhor Roteiro sabia da importância de escrever para alguém como Kubrick.

Além de contar um pouco dos últimos anos de vida do mais recluso diretor de Hollywood, Stanley Kubrick morreu pouco depois da finalização de Eyes Wide Shut, o autor mostra parte do processo criativo que desemboca na construção do roteiro final e a luta entre roteirista e diretor.

A impressão que fica é a de uma guerra de trincheiras, onde cada metro deve ser mantido a todo custo, ou uma partida de xadrez como definiu Frederic Raphael “Era como se eu tivesse recebido o convite de um Kasparov do cinema e agora havia um tabuleiro entre nós.”

É uma oportunidade única de conhecer os segredos que rondam a relação entre roteirista e diretor. Ainda mais um diretor como Stanley Kubrick.

Kubrick: De Olhos Bem Abertos

Frederic Raphael

Geração Editorial