A Linguagem Secreta do Cinema

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Poucas vezes temos a mão um livro tão indispensável como este do roteirista Jean-Claude Carrière: A Linguagem Secreta   do Cinema. Roteirista e colaborador de Luis Buñuel, Carrière escreveu mais de cinqüenta roteiros e tem no currículo filmes como O discreto charme da burguesia, Este obscuro objeto do desejo, A bela da tarde e A insustentável leveza do ser.

O livro traça a evolução do cinema em cem anos e também a evolução do público:

No começo, quando um ator olhava para outro ator que estava fora do quadro, olhava nitidamente para longe da câmera. Fixava os olhos a cerca de um metro à direita ou à esquerda, de acordo com o que lhe determinavam (…) Pouco a pouco, mais ou menos por toda parte esse olhar foi deslocando mais para perto da câmera. (…) Nos anos 60, o ator olhava para um rosto encostado à câmera. Nos anos 70, ele olhava para a própria borda do aparelho. Hoje em dia, olha para um pedaço de fita presa ao lado da lente. No futuro, talvez olhe direto para dentro da câmera.”

Carrière é um estudioso da arte cinematográfica, mas acima de tudo é um contador de histórias e por isso, A Linguagem Secreta do Cinema é um livro que é absorvido da primeira até a última palavra e como um bom filme é preciso ler e reler para extrair tudo o que o autor procurou mostrar. Carrière não escreveu só para cinema e conseguiu sucesso também no teatro. Da amizade com Buñuel ele guarda boas histórias, e foi com ajuda de Carrière que Luis Buñuel escreveu sua biografia.

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A amizade de Carrière e Buñuel produziu obras-primas, mas também aventuras fantásticas. Em Esse obscuro objeto do desejo, Buñuel utiliza duas atrizes para fazer o mesmo personagem. Uma era espanhola e outra francesa e totalmente diferente nas feições físicas. Um estudo de uma universidade norte-americana apontou que 70% dos estudantes não perceberam o engodo. Na época do lançamento do filme em 1977, a imprensa escreveu sobre o assunto e mesmo assim 50% dos espectadores não viram nada irregular. Qual seria o mistério?

Deveríamos nos admirar ou preocupar? Isto nos mostra até que ponto os olhos podem permanecer sem ver, por mais de uma hora e meia, em conseqüência do poder quase assustador dos nossos hábitos de percepção, de nossa rejeição secreta fora do comum, por tudo o que nos perturba e desconcerta.”

Como Buñuel costumava dizer a Carrière: “Por hora pode-se dormir em paz.”

A Linguagem Secreta do Cinema

Jean-Claude Carrière

Editora Nova Fronteria

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