Archive for agosto \27\UTC 2009

Stanley Kubrick: A Live in Pictures

27/08/2009

20012O que sabemos sobre o diretor que revolucionou o cinema em trabalhos como 2001: Uma Odisséia no Espaço? A resposta é muito pouco. E mesmo o documentário Imagens de uma vida, dirigido por Jan Harlan, e narrado por Tom Cruise, parece responder as perguntas com mais perguntas.

O filme mostra Kubrick da infância até a primeira experiência no cinema, revela parte da vida familiar que o diretor sempre fez questão de afastar dos jornais e reafirma a imagem de um profissional perfeccionista. Vemos o diretor trabalhando em cada filme e a acompanhamos as críticas na época do lançamento. O que teriam dito os críticos sobre Laranja Mecânica?

Entre os entrevistados estão diretores consagrados como Martin Scorcese, Woody Allen, Sidney Pollack, Steven Spielberg e Alan Parker. Rara oportunidade para ver a obra de Kubrick analisada por seus pares. Para eles o grande diferencial era o pioneirismo do cineasta, 2001: Uma Odisséia no Espaço começou a ser filmado em 1964 e foi lançado em 1968, ou seja, antes do homem pisar na Lua. Como ele conseguiu imaginar as seqüências espaciais com nenhuma, ou pouquíssima, referência?

2001

Podemos dizer que Stanley Kubrick tem uma filmografia singular, desde que teve a chance de produzir, escrever, dirigir e montar seus filmes não repetiu formas esperadas. Atacou a sociedade puritana, em 1962, com Lolita; irritou o governo norte-americano (no auge da Guerra Fria) com Dr. Fantástico de 1964; ganhou milhões com 2001; chocou a Inglaterra (o filme foi tirado de circulação) com Laranja Mecânica em 1971; foi incompreendido nos EUA e aclamado na Europa com Barry Lindon; mudou os filmes de terror com O Iluminado (1980); fez o que para muitos é o filme definitivo sobre a guerra do Vietnã com Nascido para Matar (1987) e tirou a roupa de Tom Cruise e Nicole Kidman em De olhos bem fechados.

Cruise e Kidman

Cruise e Kidman

Quando faleceu no dia 7 de março de 1999 – uma semana depois de terminar a primeira montagem do filme – Stanley Kubrick já era um cineasta único na recente história da Sétima Arte.

Qual cineasta se deu ao luxo de fazer ficção científica, romance, filme de época, um grande épico como Spartacus, abordar a guerra de modo tão sutil e direto, se aventurar no terror e fechar com uma história cheia de mistério e traição?

Cada filme feito por Stanley Kubrick tinha sua marca e todos eram diferentes entre si. Uma pena que não tenha produzido de perto seu projeto mais ambicioso: AI – Inteligência Artificial, e também é uma pena que não tivesse o corte final de Spartacus (o produtor era Kirk Douglas).

Mas imaginem o que Kubrick poderia estar fazendo agora com a tecnologia digital? Imaginem quantas idéias ficaram perdidas nas décadas de 60 e 70?

Jack em O Iluminado

Jack em O Iluminado

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Por um cinema sem limite

15/08/2009

porumcinemasemlimiteRogério Sganzerla já fazia cinema antes mesmo de aproximar-se de uma câmera, o que pode ser constatado nas páginas que se seguem. Metade desses textos datam do início da década de 1960 e, portanto, de antes do curta Documentário e da deslumbrante estréia nos longas com O Bandido da Luz Vermelha, quando seu excepcional talento para a direção revelaria-se de maneira inequívoca.” O texto, extraído da orelha do livro e escrito por Paulo Sacramento, dá uma dimensão exata do que o leitor irá encontrar nas páginas assinadas por Sganzerla.

Rogério escreveu sobre cinema no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo numa época onde os críticos não se satisfaziam em dizer se um filme era bom ou ruim. A coletânea de artigos está longe de parecer datada e a força de sua escrita é surpreendentemente atual. Algo preocupante.

Em Por um cinema sem limite, o autor pensa, critica, observa, elogia e discute criadores e obras, indo do prático ao teórico e conseguindo um efervescente debate com suas constantes contradições.

sganzerla02Durante a leitura, iremos aplaudir e discordar enfaticamente de argumentos e conclusões, mas não sairemos impunes de pensar e tentar formular idéias próprias. Mais do que querer ensinar cinema, Sgarzela parece buscar o diálogo, talvez fomentar a discussão e assim elevar o nível tanto de realizadores quanto do público.

Por definição o cinema é ritmo e movimento, gesto e continuidade. Em tudo o que vemos, temos que considerar três aspectos: a posição do olho que olha, a do objeto visto e a da luz que ilumina a realidade. Assim, o cinema não tem a função de preencher um buraco na parede já que a sua missão é bem maior – ser uma janela sobre o mundo.

Por um cinema sem limite

Rogério Sganzerla

Azougue Editorial

Sganzerla filmando O Bandido da Luz Vermelha, em 1968

Sganzerla filmando O Bandido da Luz Vermelha

Rocco e seus irmãos

10/08/2009

roccoEm que ponto uma família perde o amor e entra no processo de autodestruição? O que leva um jovem à ruína? São as más companhias? Podemos escolher nosso próprio caminho?

Luchino Visconti aprendeu a arte do cinema com o mestre Jean Renoir, sendo seu assistente em vários filmes. Visconti é considerado o pai do neo-realismo. No auge de sua fama na Itália fez Rocco e seus irmãos e ganhou projeção internacional. O diretor que nasceu na aristocracia e na riqueza também viu de perto a miséria que as duas guerras trouxeram e, talvez por isso, seu tema preferido seja justamente a decadência.

Alain Delon como Rocco

Alain Delon como Rocco

Rocco e seus irmãos, filmado em 1960, apresenta um Alain Delon enigmático e com uma atuação irretocável. Visconti, que foi ator e diretor teatral antes de se apaixonar pelo cinema, conseguia tirar o máximo do elenco.

O filme tem quase três horas de uma trama densa e ao mesmo tempo suave e agradável. Os personagens são apresentados, vão tomando forma, encorpando até crescerem e tomarem conta da história. Visconti dá uma aula de como introduzir vários personagens e manter o ritmo da narrativa sem se perder na construção de cada um.

Depois de quase cinqüenta anos, Rocco e seus irmãos impressiona pela vitalidade, o filme poderia muito bem ter sido rodado em São Paulo, no Rio com uma família vinda do nordeste ou do interior.

Cena de Rocco e seus irmãos

Histórias de Marlon Brando

05/08/2009

viva-zapata-marlon-brando.jpg.comTalento, rebeldia e ironia. Essas palavras são facilmente associadas a Marlon Brando. O astro não deixou apenas suas poderosas interpretações, deixou também muitas histórias e lendas.

Uma delas foi vivida com outro grande ator, Anthony Quinn. Os dois trabalharam juntos em Viva Zapata! (1951) e se encontraram em 1982 num jantar para colocar o papo em dia. Na ocasião, Marlon apareceu com uma linda oriental e falava com ela em chinês.

Ficaram a noite toda conversando e relembrando o passado. Marlon contou a verdade sobre a sua famosa tática das dálias. Depois de famoso, ele colocava pedaços de papéis com as falas por todo o cenário. Chegou a prender cola na testa de seus coadjuvantes! Para os diretores dizia que isso fazia com que o texto estivesse fresco. Parecia que o personagem estava pensando naquelas palavras na hora exata e não era algo frio e decorado. Quem iria discordar do método de Marlon Brando?

Mas com uma gargalhada disse a Anthony Quinn que não agüentava mais ficar decorando os textos e que ninguém nunca desconfiava dele. “Você acredita nessa merda!”  Finalizou. Mais gargalhadas entre os dois. Depois traduziu tudo para a namorada que riu também.

Cena de Viva Zapata!

Cena de Viva Zapata!

Fim de noite, hora das despedidas. Quinn foi com a esposa levar o casal ao hotel. Marlon desceu do carro. A jovem se aproximou de Anthony e disse em inglês perfeito:

– Senhor Quinn, perdoe por não conversar com vocês, mas Marlon me disse para representar uma chinesa autêntica. Na verdade, nem falo chinês muito bem.

– Mas a noite toda? Você não teve problemas para entender o que Marlon dizia?

– Marlon? Ele não sabe falar chinês.

– Ah, que filho da puta! E que par de trouxas fomos nós!

Enquanto Anthony Quinn pensava se deveria entregar o jogo, Marlon abriu a porta para a jovem, deu um tapinha nas costas dele, e um boa noite.

Quer ler mais? Tango Solo, a biografia de Anthony Quinn.

Quinn e Brando em Viva Zapata!

Quinn e Brando em Viva Zapata!