Já que nascemos

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Já que nascemos é o terceiro documentário do casal Andréa Santana e Jean-Pierre Duret. Andréa estudou Arquitetura na Universidade do Ceará e Geografia na Universidade de São Paulo. Engenheiro de som em filmes de Claude Chabrol, Agnès Varda e Louis Malle, Jean-Pierre Duret assina seu primeiro documentário, Un beau jardin, par exemple, em 1986. A colaboração de Andréa com o marido começou com Romances de terre et d’eau, realizado em 2001.

Andréa e Duret podem agradecer aos céus por terem encontrado personagens tão impressionantes como Cocada e Nego. Os dois amigos moram no município de São Caetano, em Pernambuco, e passam o tempo de forma completamente diferente das outras crianças: trabalhando.

JAQUE4O expectador mais atento irá observar que o trabalho infantil é muito comum no Brasil e nos demais países do Terceiro Mundo – ou países em desenvolvimento para ser politicamente correto. A diferença aqui, e acreditem faz toda a diferença, é que Cocada e Nego precisam trabalhar. Eles não trabalham por dinheiro, não trabalham para ajudar a família, não trabalham obrigados pelos pais, eles simplesmente precisam trabalhar.

Cocada, quatorze anos, e Nego, treze, decidiram passar o dia trabalhando para fugir da sina que persegue os meninos pobres da região. Cocada sabe que a sedução das drogas e das armas é forte, o pai morreu em seus braços quando ele tinha dez anos. “Eu não penso em matar ninguém. Eu nunca vou entrar nisso, matar. E também não vou ser ladrão.”

Os dois vagueiam pelo posto de gasolina na beira da rodovia e fazem todo tipo de serviço: lavam carros, caminhões, ajudam o camelô aleijado a montar a mercadoria, encontram clientes para comprar os santinhos e até vendem no lugar do dono da barraca. E tudo isso sem salário, sem pagamento combinado, eles apenas fazem e quando aparece um real, é sempre bem-vindo.

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Com o cair da noite, os caminhões são substituídos pelos ônibus de viagem e Nego pede alguns trocados aos passageiros. O amigo Cocada lhe dá uma bronca: “Não gosto de ver você pedindo esmola.” Eles iniciam mais uma conversa-confissão, algo comum entre os dois, e falam do futuro, do passado e do que irão ser quando crescerem. Cocada, por ser o mais velho, dá conselhos a Nego e lhe ensina a conseguir emprego, quando chegar a hora.

A desenvoltura dos meninos quase nos faz acreditar que estamos diante de uma obra de ficção, de um roteiro muito bem amarrado e de uma direção de atores impecável. Mas o que a lente da câmera registra é o retrato de dois jovens talentosos que estão condenados a viver o presente sem direito ao futuro.

Andréa e Jean-Pierre

Andréa e Jean-Pierre

Jean-Pierre Duret poderia ter caprichado mais no som do filme. Em alguns momentos é impossível compreender o que é dito, menos mal que a película tinha legendas em inglês. Mas esse defeito não deve incomodar os realizadores, afinal o destino de Já que nascemos é o mercado europeu.

O filme foi produzido, editado e finalizado por franceses em Paris. Será que eu estou sendo preconceituoso?

JAQUE5Os enquadramentos no tripé ou com a câmera estática são precisos, mas basta entrar em movimento para termos a sensação de que a direção queria tremer, queria dar uma idéia de precariedade, confusão. Algo absolutamente desnecessário nessa realidade. Nenhum grande fotógrafo seria capaz de eclipsar a presença daquele lugar ou a verdade que transborda dos dois amigos.

Andréa e Duret merecem crédito por terem encontrado os meninos e darem forma ao material, mas é inegável que a força de Já que nascemos vem do carisma e da inteligência de Cocada e da rebeldia ingênua de Nego. Um filme tipicamente brasileiro, mesmo que venha com selo de importação.

Já que nascemos (Puisque que nous sommes nés)

França/Brasil, 2008. 90 minutos.

Direção: Jean-Pierre Duret e Andréa Santana

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