Um gângster bem britânico

gangsterposter3Nos primeiros cinco minutos de projeção somos obrigados a perguntar se estamos vendo uma ficção ou um documentário. A figura de Dominic Noonan, chefe de uma famosa família de mafiosos irlandeses, em primeiro plano, dizendo: “Olá, eu sou Don e está é Manchester, minha cidade.”, só pode ter saído de um roteiro de Quentin Tarantino ou das tiras de Frank Miller.

Um gângster bem britânico é a estréia de Donal Macintyre como diretor de documentários e nos mostra o dia a dia de Don e sua família mafiosa. Donal trabalhou como jornalista investigativo da BBC, se infiltrou em diversas facções criminosas na Inglaterra e ainda realizou reportagens em Beirute, na Bósnia e no Congo.

Dominic Noonan e o diretor Donal Macintyre

Dominic Noonan e o diretor Donal Macintyre

Macintyre utiliza pequenas câmeras digitais para acompanhar Dominic durante seus passeios por Manchester e realiza uma série de entrevistas onde pergunta tudo ao temido bandido, até se ele é gay! A agilidade da equipe de filmagem permite cenas inusitadas e divertidas. Don é preso numa mega-operação policial, os demais membros da gangue não são detidos e o segundo no comando tem apenas 17 anos. O que vemos a seguir é típico de uma comédia pastelão: os rapazes discutem no meio da rua, minutos após a polícia deixar o local, e as armas são visíveis na altura da cintura. Nem Woody Allen faria melhor.

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Dominic passeando pelas ruas de Manchester

A montagem dinâmica e sugestiva deixa espaço para o público respirar e rir livremente. É impossível segurar o riso quando Don explica ao diretor que obriga o bando a se vestir com terno e gravata porque “Estamos sempre sendo fotografados e filmados. Não quero ir preso sem estar bem vestido.” Na seqüência, o diretor faz um pequeno clipe com a música clássica de Pulp Fiction e fotos dos bandidos em preto e branco. Hilário.

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Gang em estilo Vincent Vega

Alguns críticos ingleses disseram que Macintyre deu toques de sofisticação ao mafioso e não revelou sua verdadeira face. O filme acompanha quatro anos na vida de Dominic Noonan, incluindo suas idas e vindas do tribunal e da cadeia, e se isso não é o suficiente para deixar claro quem é o personagem principal, bem, só com uma confissão de culpa assinada.

No momento mais tenso do documentário vemos a reação de Don ao assassinato do irmão, o mais temido membro da família, e suas palavras deixam claro o que vai acontecer a seguir: “Eu sei quem foi. Ele está morto, ele já está morto. Ele sabe que está morto. Está acabado.

O funeral de Desmond Noonan parou Manchester

O funeral de Desmond Noonan parou Manchester

Macintyre abusa das perguntas inconvenientes e dispara: “Você não acha que já correu sangue demais?” Dominic responde sem pestanejar: “O quê? Isso está só começando. Esse é só o começo“. No primeiro dia que passa na cadeia, o traficante que matou Desmond Noonan é esfaqueado e transferido para uma prisão de segurança máxima.

Poucas vezes o mundo da máfia foi retratado tão de perto e de forma tão simples e direta. Macintyre não usa câmera escondida ou filma disfarçado, ele anda na rua com sua PD-150 em punho, lado a lado com Dominic Noonan e freqüenta os bares e restaurantes com a gangue. “Não estou vendo você comer nada, Donal. Coma.”, sugere calmamente o chefe mafioso.

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Católico como todo bom mafioso

O documentário não registra apenas o cotidiano de Don, o diretor também quer saber como é a família Noonan na intimidade e conversa com a irmã, sobrinhos e amigos. A relação de Dominic com os filhos recebe uma atenção especial no filme – seria uma homenagem à saga O poderoso chefão de Mario Puzo e imortalizada por Francis Ford Coppola?

Um gângster bem britânico está longe de ser um filme que faz apologia ao crime organizado, é uma denúncia, um tapa na cara das autoridades britânicas. Macintyre usa elementos da cultura pop para contar uma história tão antiga quanto a coroa da rainha.

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Um gângster bem britânico (A very british gangster)

Reino Unido, 2007. 87 minutos

Direção: Donal Macintyre

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2 Respostas to “Um gângster bem britânico”

  1. ronaldo Says:

    Vi esse filme há uns bons dois anos… Com você no cinema. Fiquei pensando em como a violência é mundial e só vemos, no Rio, os problemas como nossos.

    • christianjafas Says:

      Olá Ronaldo,

      é isso mesmo, vimos esse filme no Festival.

      A ideia de crime organizado vai pelo ralo quando nos deparamos com figuras como essa.

      E claro, a violência não foi inventada no Brasil – como alguns estrangeiros costumam pensar.

      Um abraço,

      Christian

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