Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo

O título pouco convencional, Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo, é uma pista de que podemos estar diante de um documentário que foge ao lugar-comum, mas as surpresas desse delicioso filme não estão apenas no conteúdo. A diretora Yulene Olaizola tem apenas 24 anos, cursa o quinto período no Centro de Capacitación Cinematográfica, na Cidade do México, e este é seu primeiro longa-metragem.

A casa de Rosa, avó de Yulene, fica na esquina das ruas Shakespeare e Victor Hugo, na Cidade do México. Rosa, viúva, decide abrir a residência e alugar quartos para jovens estudantes que tentam a sorte na capital mexicana. As memórias da mansão se confundem com as memórias da família, da avó e da própria Yulene.

Nos momentos de devaneio, os pensamentos de Rosa e Florência, a fiel governanta, se detêm na figura de Jorge Riosse. O rapaz morou oito anos na casa e conquistou a confiança e a amizade de Rosa. Histórias divertidas e curiosas se sucedem enquanto o roteiro avança revelando uma figura carismática e misteriosa.

Yulene assume o aspecto pessoal do filme e dosa com firmeza e convicção seu papel na trama. Como não poderia deixar de ser, ela assina a direção, produção, montagem, roteiro e também a fotografia. A câmera de Yulene segue os passos da avó de perto e consegue, sem esforço, captar depoimentos sinceros e emocionantes.

A jovem diretora Yulene Olaizola

A diretora Yulene Olaizola

A ação, centrada na figura de Riosse, se concentra na residência de Rosa. A lente da câmera só procura outra locação quando o entrevistado tem apenas ligações com Jorge. A direção demonstra uma coerência madura e precisa, nesses momentos Yulene se ocupa da entrevista e deixa a função com o fotógrafo Ruben Imáz.

Quando a vida de Jorge Riosse parece estar desenhada e o ritmo da montagem diminui, temos a sensação que Yulene irá perder o controle da trama e deixar escapar um final à altura da proposta inicial. Mas é nesse momento que somos apresentados ao verdadeiro mote do documentário. Uma virada surpreendente, guardada com cuidado e plantada aos poucos durante a primeira parte do filme.

Fosse Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo uma película de ficção, o espanto com a reviravolta já seria grande, mas em se tratando de documentário, a capacidade de Yulene de controlar as peças, mostrar apenas o necessário e na hora certa, é digno de aplausos.

O tema incomum e a condução brilhante de Yulene Olaizola fazem deste documentário algo raro e precioso, uma brincadeira estética de forma e conteúdo que permanece na nossa memória após a projeção.

Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo (Intimidades de Shakespeare y Victor Hugo)

México, 2008. 83 minutos

Direção: Yulene Olaizola

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