A Milícia de Camarões

Em 2000, o presidente da República de Camarões cria um efetivo militar para reprimir o excesso de roubos e crimes em Douala, a cidade mais populosa do país. O Comando Operacional recebe carta branca do poder público para instaurar a lei e a ordem.

No início, a milícia é recebida com entusiasmo pelo povo, mas doze meses depois o resultado é um banho de sangue e mais de mil e seiscentos desaparecidos.

A imagem que a imprensa costuma divulgar pelo mundo afora é o retrato de um povo alegre. Quem não se recorda das cores vibrantes nas roupas? Das festas em cada vitória dos “Leões Indomáveis”? Das comemorações nos gols de Roger Milla e Omam-Biyik? Enquanto a Europa descobria o futebol de Samuel Eto’o, então atacante do Mallorca, centenas de pessoas eram assassinadas em Douala.

O título original de A Milícia de Camarões é “Une Affaire des Nègres”, o que significa um assunto de negros, e dessa forma o massacre foi deixado de lado pelos órgãos internacionais. As denúncias contra o governo camaronês foram abafadas e uma investigação superficial enterrou as esperanças de justiça dos familiares. A “democracia tropicalizada” atinge o ápice. É nesse contexto que a jornalista Osvalde Lewat-Hallade resolve voltar para Camarões e contar a história do Comando Operacional.

Logo na abertura do documentário percebemos o grau de envolvimento da realizadora com a obra: “Eu preciso fazer esse filme. Eu simplesmente tenho que fazer”. Osvalde passou quatro anos pesquisando e procurando familiares e sobreviventes. A pesquisa rendeu personagens fortes que aceitaram mergulhar no passado e relembrar um trauma ainda recente.

Mesmo com um precioso material em mãos, a diretora, talvez pela inexperiência, não permitiu que a montagem seguisse seu próprio caminho. Osvalde faz questão de marcar sua presença, seja fisicamente ou pela narração. O constante uso da voz em off enfraquece os depoimentos e deixa o filme arrastado. Em alguns casos o texto se torna pedante e desnecessário, os entrevistados repetem a mesma informação, só que com o vigor de quem vivenciou o assunto.

A câmera busca o sentimentalismo fácil através de um apressado zoom que se esforça para não perder uma lágrima que subitamente aparece. O efeito é o oposto do pretendido, pois na hora percebemos que aquilo é um zoom, que estamos no cinema e que nos esquecemos de pagar a conta de gás. Um erro infantil, característico de quem ainda está encontrando uma linguagem.

Mas a vontade de acertar também leva o filme a ter momentos mágicos. Osvalde reúne membros de uma família que teve vários parentes chacinados. A conversa acontece de noite, ao redor da fogueira e a luz vacilante do fogo parece jogar na tela a dor que estava escondida nas palavras.

Osvalde chega no máximo do envolvimento ao entrevistar um soldado que fez parte do Comando Especial. O homem não demonstra nenhum remorso e relata com detalhes o treinamento e as orientações recebidas do capitão. “Matei umas quatrocentas pessoas.”, diz com a simplicidade de quem estava cumprindo o dever. “Meu capitão nos elogiava. Nós fazíamos o trabalho muito bem”. Diante de tamanho cinismo, ou ingenuidade, a diretora se perde e começa a confrontar o personagem, impedindo que ele continuasse o relato de forma espontânea.

A condução das entrevistas foi realizada com o coração e movida por um olhar parcial, mas nunca covarde. A diretora optou por utilizar, de forma equivocada, uma linguagem televisiva, quase artesanal – a narração é desnecessária e deveria ser suprimida. Mesmo com tantos problemas, A Milícia de Camarões é um filme poderoso.

Osvalde apresenta o filme no Festival de Cannes

A milícia de Camarões (Une affaire de nègres)

França/Camarões, 2007. 90 minutos

Direção: Osvalde Lewat-Hallade

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