Recycle

A rede terrorista Al Qaeda ficou conhecida mundialmente após os ataques de 11 de setembro de 2001 contra o complexo do World Trade Center, em Nova Iorque. O grupo teria surgido durante o Jihad, a “guerra santa” para libertar o Afeganistão da ocupação soviética. No confronto que durou uma década, de 1979 a 1989, os afegãos tiveram apoio e treinamento da CIA, o principal órgão de inteligência do governo norte-americano. No momento, Osama Bin Laden e os líderes da Al Qaeda são procurados em todo globo como inimigos públicos dos Estados Unidos.

O núcleo central da Al Qaeda, “A Base” em árabe, é formado por ex-combatentes, os Mujahedines, e sua teia de comando é móvel e espalhada por mais de sessenta países. Abu Amar é um ex-Mujahidin que trabalhou como guarda-costas dos principais chefes do grupo terrorista, incluindo Abu Musab Al-Zarqawi, o príncipe da Al Qaeda no Iraque.

Após um período de reclusão, Abu Amar retorna para a Jordânia, seu país natal, e luta para continuar a vida, mas a ligação de Amar com o movimento é forte. Al-Zarqawi também nasceu em Zarga, a poucos quarteirões de sua casa e os familiares do terrorista são seus amigos de longa data. Como retornar ao convívio de uma sociedade em profunda transformação e ainda assim manter a fé no Islã?

Recycle acompanha o dia a dia de Abu Amar e nos convida a conhecer um pensamento muito temido, mas pouco compreendido no Ocidente. O diretor Mahmoud Al Massad encontrou espaço na edição final para colocar diversas conversas sobre o Islã e a atual situação do mundo árabe. Al Massad nasceu na Jordânia, como Amar, e hoje vive na Holanda. A opção da direção em abrir a montagem para o debate reflete a importância do tema e a tensão que perpassa todo o documentário. As reuniões de Abu Amar com os amigos, nunca creditados, pontuam o filme e funcionam como fio condutor da história.

Em oitenta minutos de projeção, vemos as tentativas frustradas de Abu Amar para conseguir reestruturar seus negócios e dar uma condição decente para a família. Amar rompeu ligações com o pai e se recusa a falar sobre o assunto. Sem contar com o apoio financeiro familiar, sua loja vai a falência e ele se vê obrigado a trabalhar recolhendo papelão nas ruas. Acompanhado dos filhos, Amar engole o orgulho e percorre os bairros com a esperança de lotar a carroceria de seu pequeno caminhão e levar dinheiro suficiente para casa.

A lente da câmera foca o rosto do protagonista e as ruas de Zarga desfilam sem importância diante de um olhar severo e impaciente. Abu Amar não está satisfeito com o rumo que sua vida tomou e planeja escrever um livro sobre os preceitos do Islã.

Mas a realidade não pode ser moldada. Amar é preso preventivamente depois de novas ações do grupo liderado por Abu Musab Al-Zarqawi. O Príncipe do Iraque é agora o segundo no comando da Al Qaeda e enfurece o Ocidente com uma série de ataques terroristas, incluindo a destruição do prédio da Onu, em Bagdá, que culminou na morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello.

Abu Amar fica detido como suspeito por quatro meses, mas é liberado por falta de provas e dado como inocente. “A justiça foi feita. Estou satisfeito”, suas palavras não revelam frustração ou raiva, mas seu rosto se torna mais firme, duro e a barba raspada é um sinal da humilhação e da incompreensão em seu próprio país.

Recycle é um retrato inacabado de um homem que precisa escolher entre o futuro e o passado, entre o dever e a fé.

Recycle (Recycle)

Jordânia/Alemanha/Holanda/Estados Unidos, 2008. 80 minutos

Direção: Mahmoud Al Massad

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