Minha vida dentro

O documentário Minha vida dentro, de Lucia Gajá, pode ser resumido com a frase: “Apesar de ser do México, ela é inteligente”. A sentença foi proferida no tribunal do júri, na cidade de Austin, estado do Texas, pela promotora pública durante o julgamento de Rosa Jimenés. Rosa, babá e imigrante clandestina, é acusada pelo homicídio de um bebê que ficava sob seus cuidados.

A câmera acompanha a personagem antes do julgamento, durante e após a condenação. Sim, podemos entregar aqui o resultado do veredicto, pois em momento algum acreditamos que Rosa sairá livre do tribunal. Os doze membros do júri aplicam uma pena pesada: noventa e nove anos de reclusão.

O início do filme é lento e as entrevistas são muito entrecortadas. Lucia parece não saber como apresentar a história de Rosa, uma história tão comum a tantos imigrantes ilegais que tentam a vida na terra do Tio Sam. Depois de vinte minutos de idas e vindas, a edição consegue dar um ritmo ao material e entramos na sala do júri para acompanhar de perto as tentativas do advogado de defesa. Apesar de não existir nenhuma prova substancial de que Rosa cometeu alguma infração, a promotora a trata como culpada desde o início.

A equipe obtém permissão para filmar doze dias de audiência, algo incomum no sistema judiciário norte-americano. Lucia consegue também fazer longas entrevistas com Rosa na prisão. O julgamento é claramente uma mensagem aos imigrantes de Austin e a promotora afirma que “Eles não podem vir aqui e fazer o que querem”. Talvez por isso a equipe tenha conseguido tamanha liberdade das autoridades locais. Parece que a idéia é: Façam o filme e exibam no México!

Lucia Gajá, cineasta e mexicana

Lucia Gajá é mexicana e também é inteligente. Minha vida dentro é seu primeiro documentário, antes disso trabalhou como assistente de direção em vários filmes até rodar, em 1995, o curta Soy, vencedor do prêmio da Academia Mexicana de Melhor Curta-Metragem Documental.

A diretora e roteirista parece ter abraçado a saga de Rosa como uma bandeira particular. Esse olhar próximo transparece na tela e vemos que Lucia não está fazendo apenas um filme, e sim um manifesto. O envolvimento da direção atrapalha a montagem que deixa de ser enxuta e direta para ter um ar arrastado que cansa em vários momentos. E a culpa não é somente da longa duração – cento e vinte minutos – o que falta mesmo é ritmo.

Lucia conversa com a mãe e o marido de Rosa e também com outras famílias que estão passando pelo mesmo drama. A diretora vai além, procura outras mexicanas na cadeia de Rosa, fala com outros imigrantes ilegais e se perde. O que poderia ser uma história forte, centrada em Rosa, se transforma num lamento e numa mistura de personagens que enfraquece e esvazia o discurso. O efeito é o oposto do desejado.

Um pequeno erro que de maneira alguma tira o brilho e a necessidade do trabalho de Lucia. Minha vida dentro merece uma nova edição, mas é um documentário corajoso e que precisa ser visto.

Rosa Jimenés: culpada ou inocente?

Minha vida dentro (Mi vida dentro)

México, 2007. 120 minutos

Direção: Lucia Gajá

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Uma resposta to “Minha vida dentro”

  1. Texto da confraria Mundo Kane « Minivers's Blog Says:

    […] Mas voltemos ao caso Sakineh. Alguns vão dizer que o problema está na falta de julgamento justo no Irã. Em princípio Sakineh foi condenada também por homicídio – aliás, ninguém apurou isso a fundo. É provável que seja um discurso com o objetivo de legitimar o ilegitimável, mas se for assim,deveríamos dedicar mais atenção aos casos em que imigrantes ilegais, por exemplo, são condenados à morte em solo norte-americano. Ou acham que não há interferências ideológicas no momento da sentença? (recomendo um bom documentário mexicano, chamado “Mi vida dentro”, da diretora Lucía Grajá) […]

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