Archive for dezembro \29\UTC 2009

O Engenho de Zé Lins

29/12/2009

José Lins do Rego Cavalcanti nasceu no Engenho Corredor, município de Pilar, no Estado da Paraíba, em três de julho de 1901. Cursou a escola secundária em Itabaiana e se formou em Direito, no Recife, em 1923.

Vladimir Carvalho nasceu em Itabaiana, no dia 31 de janeiro de 1935. Formado Bacharel em Filosofia, mas cineasta por natureza.

O Engenho de Zé Lins (2006) já seria imprescindível se fosse um documentário sobre um dos maiores escritores brasileiros, mas Vladimir Carvalho não ficou apenas no superficial e na pesquisa. A ligação entre os dois intelectuais vai além do estado de nascimento. “Meu pai contava as histórias como se fossem dele, eu ouvia isso desde pequeno. Quando aprendi a ler vi que meu pai misturava a vida dele em Itabaiana com trechos de Menino de Engenho”, relembra Vladimir.

Vladimir Carvalho

Insatisfeito com as verdades que aí estão – como todo documentarista – Vladimir parte para descobrir detalhes da vida de Zé Lins e investigar a razão da melancolia que se abatia sobre o escritor. “Ele tinha variações grandes de humor, ia da tristeza à alegria em instantes”, revela o diretor. “Tinha sempre a morte rondando sua mente. Queria muito saber a causa disso”.

O resultado desse questionamento é um documentário de apenas 81 minutos, digo apenas, pois este é um daqueles filmes que não queremos que termine tão cedo. Vladimir percorre o Brasil para encontrar pessoas ligadas ao escritor e registra depoimentos únicos. A lista de entrevistados vai de familiares, como as primas com mais de noventa anos, Carlos Heitor Cony, Ariano Suassuna, e ainda vemos uma das últimas entrevistas de Raquel de Queiroz, grande amiga e confidente de Zé Lins.

Para narrar as passagens da infância no Engenho Corredor, a equipe de filmagem vai até o local e encontra a fazenda ocupada pelo Movimento dos Sem-terra e as casas quase destruídas. Como mostrar a beleza do engenho, das máquinas, da cana, do melaço? Como voltar ao passado e fazer o público de hoje ver essas imagens? A resposta foi utilizar cenas de “Menino de Engenho” (1965) de Walter Lima Júnior como se fossem documentais. Walter rodou o filme no verão de 1965 e essas imagens são as mais próximas que existem da infância de Zé Lins e da época áurea dos Engenhos de Açúcar.

Vladimir Carvalho e o montador Renato Martins intercalam cenas do filme de Walter com as recentes feitas pela equipe. Num desses momentos encontram Sávio Rolim, o ator que viveu o menino Carlinhos em 65. Ficção e documento se misturam: o menino Sávio deixa as imagens em preto-e-branco e percorre com saudade os locais onde a trupe se aventurou há quase 50 anos.

Sávio Rolim: presente e passado

Ao ser confrontado com a realidade do lugar, a invasão do MST, a disputa pela terra, o documentário absorve essas questões e dá voz aos novos moradores do Engenho. Vladimir percebe que essa situação não é nova e que as mudanças ficam mais pelo efeito do tempo nas edificações do que nas relações humanas. “Eles me mostraram a foto de um companheiro que morreu na invasão. Eu vi ali um novo João Pedro Teixeira, um novo moleque Ricardo. Era a história se recontando”.

O documentário ganha sua forma definitiva nos retoques da ilha de edição e Vladimir percebe que é incoerente não se posicionar como personagem nessa história. O cineasta assume sua paixão pela obra e vida de Zé Lins e cria um filme único, onde o diretor questiona e percorre junto com o público as trilhas de um Brasil que está perto de desaparecer.

O Engenho de Zé Lins

Brasil, 2006. 81 minutos

Direção: Vladimir Carvalho

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Crítica de Cinema: Introdução

22/12/2009

Discutir a influência da crítica especializada pode render um debate tanto sadio quanto polêmico. O professor Marildo Nercolini, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM/UFF), organizou um seminário para a disciplina Crítica Cultural. Os alunos Carla Sobrosa, Guilherme Reis e Maurício Caleiro apresentaram trabalhos sobre crítica cinematográfica.

 

Adhemar Gonzaga: crítico e cineasta

Para traçar um panorama da evolução da crítica de cinema no Brasil Caleiro utilizou o livro “Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte”, de Paulo Emílio Salles Gomes. As primeiras publicações com seções especializadas em cinema foram a Para Todos (1919) e A Scena Muda (1921-1955). Adhemar Gonzaga e Pedro Lima fazem parte da primeira geração de críticos que tinham Hollywood como padrão para a profissionalização do cinema nacional. Os primeiros textos exigiam a elevação da qualidade técnica dos filmes, que se evitasse fotografar o feio (pobreza, fome, miséria e tudo o que fugisse a estética hollywoodiana) e a abolição de histórias que tivessem um olhar negativo sobre a sociedade.

Os filmes feitos em terras tupiniquins não conseguiam seguir as inovações tecnológicas do cinema norte-americano e por isso recebiam pouco espaço nas revistas e periódicos da época. Adhemar Gonzaga foi um dos pioneiros na defesa da nossa produção, acreditando que fazer cinema era uma vocação do brasileiro. A revista Cinearte (1926-1942) nasceu dessa vontade de escrever, analisar e indicar um caminho para o desenvolvimento das obras realizadas no Rio e em São Paulo.

A valorização dos filmes nacionais foi importante para tirar o estigma de malandragem que corria nos primeiros estúdios de cinema. Fazer cinema e trabalhar em filmes não era uma profissão encarada como séria na época. Nenhuma moça de família gostaria de apresentar ao pai um rapaz que estivesse envolvido nesse meio social.

O jornalista Moniz Vianna encabeça a chamada ‘crítica clássica’ que vai dos anos 40 aos anos 60. Vianna escreveu no diário Correio da Manhã, de 1946 até 1973, e pregava que um cinema de qualidade deveria se utilizar da narrativa clássica, ou seja, da invisibilidade da montagem e da linearidade de tempo/espaço. O cinema nacional era tido pelos críticos brasileiros como subdesenvolvido e a solução seria se aproximar dos padrões hollywoodianos.

Neo-realismo italiano, Nouvelle Vague, Cinema Novo. Muitas mudanças para as cabeças dos críticos clássicos como Vianna que não entendiam o valor de Roma, Cidade Aberta e achavam Roberto Rossellini uma fraude. Uma nova crítica precisou nascer para acompanhar os rumos do cinema no pós-guerra. A onda dos filmes autorais onde o diretor-autor-crítico fugia dos estúdios e negava as grandes histórias para fazer um cinema que buscava um contato mais próximo ao cotidiano inundou as páginas da revista francesa Cahiers du Cinéma e aqui no Brasil encontrou guarita na mineira Revista de Cinema e no crítico Maurício Gomes Leite.

Outro refúgio para a crítica nascente foi a revista Senhor, criada em 1959 com o intuito de preencher uma lacuna no mercado editorial brasileiro com um mensal formador de opinião. Nela discutia-se o Cinema Novo, a Nouvelle Vague, o cinema japonês, Bertolt Brecht, a Bossa Nova, a poesia moderna, a literatura de cordel, o folclore e a cultura indígena e os textos culturais eram assinados por Paulo Francis. Um terreno fértil que permitiu a proliferação dos ideais que combatiam a mesmice da crítica clássica.

José Lino Grünewald

Vários ensaístas, críticos e intelectuais tomaram parte nos debates que estavam agitando o mundo, entre eles, o jornalista e crítico José Lino Grünewald recebe atenção especial por ser apontado por seus pares como o introdutor do cinema de Jean-Luc Godard e Alain Resnais nas rodas culturais do eixo Rio-São Paulo.

Grünewald escreveu no Correio da Manhã, O Globo, Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Última Hora, O Estado de S. Paulo, Folha da Tarde e Folha de S. Paulo. Organizou e traduziu A ideia do Cinema, lançado em 1969, com textos de Walter Benjamim, Sergei Eisenstein, Godard, entre outros.

Podemos dizer que a crítica brasileira acompanhou o desenvolvimento do cinema nacional e em alguns momentos caminhou lado a lado com autores e diretores. Nos anos 60, com a explosão trazida pelas “novas ondas” que sacudiram o classicismo, críticos e cineastas se misturaram e até trocaram de lugar.

Pálpebras azuis

21/12/2009

Pálpebras Azuis (Párpados Ázules, 2007) do diretor Ernesto Contreras foi eleito o Melhor Longa-metragem Iberoamericano de Ficção no Festival de Guadalajara 2007 e foi selecionado para a Semana da Crítica em Cannes 2007. O filme mostra Marina uma jovem que mora sozinha, trabalha numa confecção e não tem amigos. O seu dia se resume em ir para o trabalho e voltar para casa. Um dia, Marina é sorteada e ganha uma viagem de dez dias para uma praia paradisíaca, mas o pacote vem com direito a acompanhante.

Erneso Contreras utiliza essa situação curiosa para mostrar que a solidão está mais presente no nosso dia-a-dia do que pensamos. O que vemos a seguir é uma seqüência de piadas e gags que força aquele riso abafado. Nós rimos e nos divertimos com os apuros de Marina, mas no fundo sabemos o que ela está sentindo. Quem nunca ficou pendurado no telefone, sábado à noite, tentando achar uma alma para ir naquela festa de última hora? Quem nunca debulhou as páginas da agenda telefônica e viu que não tem tantos amigos assim?

Marina percebe o desespero quando encontra um conhecido do tempo de escola. Victor fala dos amigos em comum, das aulas, dos professores, mas Marina não se lembra de ninguém, não reconhece ninguém, para piorar a situação, ela também não se lembra de Victor. Marina está completamente isolada do mundo e não sabe o que fazer para sair dessa bolha que ela mesma criou, é preciso coragem e inovar. Marina decide convidar Victor para a viagem na praia. Marina vive uma solidão solidária.

Solidão sf. Estado de quem se acha ou vive só.

Solidariedade sf. 1. Laço ou vínculo recíproco de pessoas ou coisas independentes. 2. Apoio a causa, princípio, etc., de outrem. 3. Sentido moral que vincula o indivíduo à vida, aos interesses dum grupo social, duma nação, ou da humanidade.

As duas palavras aparecem no Dicionário Aurélio assim, uma depois da outra. A personagem Marina parece viver nesse antagonismo, ela ama a vida, mas está sempre só. Ela gosta da companhia de Victor, mas não quer conversar, impõe o silêncio.

Erneso Contreras acerta o tempo das piadas e usa a montagem paralela para enfatizar a solidão dos dois personagens com muita habilidade. A atriz Cecília Suárez (do grande sucesso mexicano “Sexo, pudor e Lágrimas”, 1999) tem uma atuação contida, quase um clow, e consegue passar a tristeza de Marina sem afetação.

Pálpebras azuis é uma pequena fábula sobre solidão, um bom retrato dos nossos tempos. Diverte e faz pensar.

Pálpebras azuis (Párpados Ázules)

México, 2007. 98 minutos

Direção: Ernesto Contreras

Elenco: Cecília Suárez, Enrique Arreola, Ana Ofélia Murguía

Sem fôlego

16/12/2009

O diretor sul-coreano Kim Ki-Duk só começou a dirigir filmes depois dos 35 anos, mas já aparece com destaque no cenário internacional. Kim recebeu o Leão de Prata de Melhor Diretor no Festival de Veneza 2004 por Casa Vazia (2004) e Primavera, verão, outono, inverno… e primavera (2003) foi o vencedor do Prêmio do Público no Festival de San Sebastián 2003. Em Sem fôlego (Soom, 2007), o diretor questiona valores básicos do mundo oriental e mostra que homens e mulheres reagem de formas diferentes quando postos numa situação limite.

Yeon (Park Ji-a) segue a cartilha do dia a dia de toda mulher oriental, submissa ao marido, devota a casa e cuidadosa com a filha. Yeon é sempre deixada de lado e parece estar resignada com seu papel na família e na sociedade. O máximo de rebeldia que consegue é jogar no lixo a camisa branca do marido. O marido (Ha Jung-Woo) também acredita que tem uma vida perfeita ao lado da esposa, e claro, arruma tempo para ter uma amante. A descoberta da traição quebra a linha tênue que mantém Yeon domesticada. Num primeiro momento ela se recusa a falar, relega suas tarefas e mostra a insatisfação ao marido que não percebe sua mudança de comportamento.

Nesse ponto, o diretor começa a construir o alicerce para o desenrolar da trama que seria completamente equivocada sem essa base bem fundamentada. Achamos que a seqüência da história será banal ou até mesmo normal, outro filme sobre traição e reconciliação, mas Kim não está interessado no óbvio e sim em incomodar.

Yeon resolve visitar um detento condenado à execução e que está nos noticiários por tentar o suicídio pela terceira vez. O diretor do presídio curioso com as intenções da moça que diz ser uma antiga namorada permite que eles se encontrem. Jin (Chen Chang) sabe que não conhece aquela pessoa, mas como recusar uma visita estando no corredor da morte? O diretor do presídio aproveita a situação para viver um reality show particular e utiliza as câmeras de segurança para acompanhar cada momento.

Com as peças no tabuleiro, Kim Ki-Duk conduz o roteiro com precisão, ora faz rir, ora faz calar, e aproveita o inusitado da situação para analisar e criticar comportamentos já enraizados na cultura oriental. Só percebemos algumas verdades quando elas são expostas à luz do ridículo.

No fim, Kim Ki-Duk nos deixa com a sensação de ‘termos ido longe demais’, ficamos com a culpa de ver tantos pecados íntimos expostos e compartilhamos os segredos dos personagens com tristeza. Para quem acha que a vingança coreana se resume ao cru Old Boy (2004) aí vai uma grata surpresa.

Sem fôlego (Soom)

Coréia do Sul, 2007. 84 minutos

Direção: Kim Ki-Duk

Garrafas vazias

14/12/2009

Várias estrelas de Hollywood reclamam que a vida útil de suas carreiras está diminuindo. Atores e atrizes com mais de 40 anos já fazem as contas para a aposentadoria. O caso é mais sério entre as mulheres, já que poucas conseguem papéis de destaque e quase nunca como protagonistas. Uma solução é se inventar como diretor e atuar nos próprios filmes. Esse caminho está sendo bem trilhado por Clint Eastwood, que mesmo nadando contra a maré, consegue ser sucesso de crítica e público.

A indústria do cinema só se interessa em contar histórias de jovens ou o público só quer se lembrar da juventude? Faltam histórias sobre pessoas de sessenta anos ou pessoas de sessenta não vivem mais histórias? O certo é que Hollywood só aposta no mediano, não arrisca. E o mundo segue essa tendência.

No Brasil, Roberto Bomtempo estreou na direção de longa-metragem com o belo Depois daquele baile (2006) que narra as aventuras românticas do trio formado por Irene Ravache, Marcos Caruso e Lima Duarte. O resultado é um filme sensível sobre a vida na Terceira Idade, ou Melhor Idade.

Garrafas vazias (Vratné Lahve, 2007) fecha a trilogia iniciada com Lições da Infância (1991) e Kolya (1996). O diretor Jan Sverák continua a parceria com o pai, o escritor e ator Zdenek Sverák, para contar a história de um professor que não suportando mais a rebeldia dos alunos prefere se aposentar.

Sverák trata de questões pouco discutidas pelo cinema como a aposentadoria, o sexo na Terceira Idade e a solidão de quem perdeu amigos e parentes. O roteiro flui de modo lento e preciso, as situações vão acontecendo e se resolvendo com a ajuda de personagens comuns e engraçados.

O professor Josef se aposenta e alega: ‘Não sou mais feliz aqui.’ Ao acordar todos os dias ao lado da esposa percebe que não vai conseguir ficar em casa vendo a vida passar. Uma alternativa seria acompanhar os velhos amigos nas caminhadas pelo parque, e isso ele também não quer. A solução é arrumar outro emprego. A primeira tentativa é como tradutor numa livraria, mas ele percebe que ninguém quer os seus talentos acadêmicos. Josef resolve consertar a velha bicicleta e trabalhar como entregador. Alguns tombos depois e ele abandona a idéia, mas não a vontade de trabalhar.

Enquanto procura um trabalho menos perigoso, Josef se vê obrigado a conviver com a esposa, cuidar do neto e confortar a filha recém-separada. Ainda sobra tempo para fazer uns exames cardíacos e voltar a fazer sexo, mas não com a esposa, é claro. Zdenek Sverák vive o personagem principal e serve como argamassa para que seu filho construa um divertido e simples conto sobre a vida de quem conseguiu ultrapassar os sessenta anos. O ator também é bastante parecido com Sean Connery – ou será com Lima Duarte – e isso funciona a favor do filme, já que o público estabelece uma rápida identificação com Zdenek.

As garrafas do título, que tão bem servem de metáfora para essa fase da vida, aparecem junto com o novo emprego. Josef consegue trabalhar no supermercado perto de casa como responsável por trocar as garrafas vazias de cerveja e refrigerante. Prática comum até a década de 80 e que perdeu espaço no novo mundo do plástico e do descartável.

O emprego faz Josef voltar a fazer exercícios, conhecer novos amigos e perceber que ainda tem muito para oferecer à sociedade. Nesse momento, o diretor começa a amarrar os nós do roteiro e parte para a conclusão de forma criativa e cativante. Garrafas vazias prova que pessoas de sessenta anos possuem muitas histórias para contar, e assim como Josef querem continuar a viver dentro da sociedade e não encostados nas praças e esquinas.

Garrafas vazias (Vratné Lahve)

República Tcheca, 2007. 103 minutos

Direção: Jan Sverák

Com: Zdenek Sverák e Daniela Kolárová.

A cortina de açúcar

11/12/2009

Quando o principal marco do Socialismo foi ao chão no dia nove de novembro de 1989, os cidadãos cubanos ainda viviam o sonho da Revolução Comunista. Todas as televisões do mundo acompanharam a demolição do Muro de Berlim, ou melhor, quase todas. Em Havana, no dia seguinte ao fato histórico, nenhum jornal estampava a manchete de primeira página obrigatória e óbvia. O Governo de Fidel Castro ainda tentava proteger a população do que viria a seguir.

O documentário de Camila Gusmán Urzúa relembra os dias da primeira geração nascida após a Revolução de 1959. Camila nasceu no Chile, mas dois anos depois seus pais foram para a ilha cubana fugindo do golpe militar de 1973 que depôs o presidente Salvador Allende e iniciou os 17 anos de ditadura do General Augusto Pinochet. Em Cuba, a família de Camila ganhou um apartamento, emprego e educação para as duas filhas.

Dois anos após assumir o poder, Fidel derrubou os índices de analfabetismo de 27% para 3%. O projeto cubano de eliminar o analfabetismo estava associada à idéia de que instruindo a população o domínio capitalista e a influência estrangeira seriam combatidos.

O doce que Camila coloca no título de A cortina de açúcar (El télon de azúcar, 2006) mostra a forma como ela vê Cuba, relembra sua infância e pensa no futuro da ilha. A diretora, com a câmera em punho, procura amigos que frequentaram a mesma escola, partilharam os mesmos sonhos e formaram o grupo conhecido como os Pioneiros que tinha a missão de propagar os ideais socialistas de Che Guevara.

A honestidade inicial de ser uma personagem cativa o público e faz um pacto de confiança imediato. Sabemos que Camila vai conversar basicamente com seus amigos que ficaram em Havana, sabemos que ela vai tentar, mas não necessariamente conseguir, ser imparcial nas entrevistas, mas sabemos que Camila está narrando essa história com a sua verdade. Esse é ponto que transforma o filme em uma obra única e pessoal.

O documentário, na idéia original, até poderia ter a ilusão de ser uma denúncia, um manifesto, tratar de números e estatísticas, mas o que a direção faz é focar nas pessoas. Claro que recebemos informações para entender as mudanças que Cuba sofreu com a Revolução de 59 e perceber os desvios no caminho, principalmente após o esfacelamento da URSS em 1989, mas são nas entrevistas que vemos claramente a ilusão e o sonho que dominaram a ilha nessas três décadas.

A câmera de Camila percorre as ruínas de antigas instalações acadêmicas enquanto a narração relembra o passado com saudade e tristeza. Esse tom pessoal foi utilizado na fotografia (já que Camila opera a câmera), na montagem (com cortes mais lentos e generosos) e na escolha das locações (do passado da diretora) e se mostra outra vez acertado. As entrevistas assumem um caráter de confidencia, de uma conversa entre amigos que não se vêem há anos e nesse momento o que não é dito tem tanta importância quanto o que está sendo falado.

A maioria dos jovens daquela geração privilegiada deixou Cuba para seguir a vida na Europa, nos Estados Unidos ou no Canadá. Poucos foram os que ficaram para construir ‘o glorioso destino da nação cubana socialista’. Os que ainda estão em Cuba, muitos com curso superior, trabalham em empregos de salário mínimo e assistem ao futuro traçado na infância desmoronar – mas não perdem a esperança.

Camila mora na França, em Paris, e quer ser cineasta como o pai, Patrício Guzmán, que fez o documentário A Batalha do Chile (1979). A Cortina de Açúcar é um primeiro filme por natureza: honesto e direto. A coragem de se inserir na história e não posar apenas como uma fria observadora lhe rende elogios e também o peso de ter começado tão bem na carreira.

A cortina de açúcar (El télon de azúcar)

França, Cuba, Espanha, 2006. 85 minutos

Direção: Camila Gusmán Urzúa

Meu irmão é filho único

10/12/2009

Histórias sobre as duas grandes guerras mundiais, o Nazismo, o Fascismo e as principais revoluções do Século XX foram, e ainda são, matéria-prima para os mais diversos cineastas. Os historiadores defendem a tese de que o tempo é um aliado importante na reflexão dos fatos, e que muitas vezes ainda estamos tão inseridos no contexto que não conseguimos ver com objetividade.

O maniqueísmo que era marca dos primeiros filmes de Hollywood sobre os conflitos está cedendo lugar aos tons de cinza, onde não vemos claramente as bordas e onde os lados se encontram. Em Os sonhadores (2003), Bernardo Bertolucci usa os eventos da Primavera de 68 como pano de fundo de seus personagens e procura conhecer os jovens que farão parte do movimento estudantil. O que eles querem? Liberdade? Qual liberdade? Que teorias eles carregam em seus cadernos?

Meu irmão é filho único (Il Mio Fratello è Figlio Unico, 2007) também usa um período conturbado da história italiana como pano de fundo, e pode ser um bom exemplo da necessidade desse afastamento. O filme parece ter sido feito com esse olhar. O diretor Daniele Luchetti nos mostra a relação de Accio e seu irmão Manrico na Itália dos anos 60 e 70. Os italianos vivem a luta pela reconstrução da pátria com a memória de Mussolini ainda presente.

Sem exagerar nas tintas e focando mais nos personagens do que no simples discurso político, Luchetti passeia pela vida de uma família que sobrevive numa pequena cidade do interior da Itália. O pai é operário, a mãe também trabalha para pagar as contas enquanto a família espera a casa prometida pelo governo e descontada mês a mês, durante quinze anos, do salário da fábrica.

O jovem Accio é temperamental e não sabe que rumo tomar na vida. É mandado para o seminário, mas as tentações o fazem desistir, ao voltar para casa não consegue se encaixar e nutre uma disputa velada com o irmão mais velho. Os anos passam e a política trata de afastá-los ainda mais. Accio entra para o partido fascista, com carteirinha e tudo, enquanto Manrico sonha com os ideais comunistas. Quando a bela Francesca (Diane Fleri) aparece para dividir o coração dos dois irmãos, o trio parte para descobrir o amor e as decepções de crescer num período de sonhos e instabilidade.

Daniele Luchetti nasceu na Itália, em 1960, e viveu a adolescência no período retratado. Ao contrário de Accio que é filho de operário, o pai de Luchetti é escritor e o avô era pintor. Sabendo dessas informações podemos supor que o trabalho de afastamento do diretor é ainda mais louvável.

Meu irmão é filho único (Il mio fratello è figlio unico)

Itália, 2007. 100 minutos

Direção: Daniele Luchetti

Um dia perfeito

04/12/2009

Traição. Ciúme. Esperança. Paixão. Medo. Angústia. Esses elementos se misturam de forma fria, dura, impassível e atingem a vida de personagens sensíveis e bem construídos. O diretor Ferzan Özpetek joga com as emoções de forma bruta e direta. Quando menos esperamos somos arremessados numa tempestade de violência que se dissipa de forma rápida e banal. Mas a violência aqui não é estilizada ou utilizada gratuitamente, ela só não é esperada.

Um dia perfeito nos faz mergulhar num mundo simples, com pessoas normais, tentando encontrar a tão sonhada felicidade. O roteiro escrito por Sandro Petraglia e Ferzan Özpetek é uma adaptação do romance homônimo de Melania Mazzucco. A história intrincada e repleta de elementos se move sempre em frente, nunca hesita e nos oferece um olhar breve, porém preciso, da vida de Emma (Isabella Ferrari).

Para construir esse olhar, a fotografia de Fabio Zamarion contrasta as cores vibrantes de Emma com o ambiente frio e azulado da cidade. Esse efeito deixa a protagonista isolada, solitária, mas também a destaca do meio. Emma está à margem da sociedade.

Özpetek decidiu usar tons suaves e levou a direção de atores para o mínimo, para o necessário, sem exageros. Quando as ações de Antonio (Valerio Mastandrea) contradizem suas palavras, ficamos tão pasmos quanto Emma. O jogo entre texto e imagem está presente desde o início e esse direcionamento impede uma projeção do que irá acontecer. Somos apenas expectadores acompanhando a trama, não recebemos informações privilegiadas, nada nos prepara para o próximo passo. No fim, Özpetek muda esse posicionamento, transforma o público em testemunha, mas não em cúmplice, e quando a verdade chega já é tarde demais.

Quando a tela escurece, temos a dimensão do todo, montamos o quebra-cabeça, mas percebemos que algumas peças estão soltas no tabuleiro e não pertencem a esse jogo. O roteiro não tem amarras soltas, apenas nos oferece personagens expectadores, que passam pela história observando, assistindo, sem penetrar no núcleo principal. Tanto o roteiro quanto a direção deixam esses peões estrategicamente posicionados, mas afastados da ação direta. Essa dinâmica traz um frescor, um alívio e impede que a história caminhe para o lugar-comum dos contos policiais.

O diretor Ferzan Özpetek nasceu em Istambul, Turquia, e foi estudar História do Cinema e Direção Cinematográfica na Itália. Começa a carreira como assistente de direção e trabalha em treze filmes. Em 1997, realiza Banho Turco, seu primeiro longa-metragem, exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Um dia perfeito é seu sétimo filme.

Um dia perfeito (Un giorno perfetto)

Itália, 2008. 105 minutos

Direção: Ferzan Özpetek

A Raiva

02/12/2009

A diretora Albertina Carri está longe de ser uma iniciante, A Raiva é seu quarto longa-metragem, mas parece que a cineasta precisa rever alguns conceitos. Carri estudou fotografia, roteiro, direção e começou trabalhando como assistente de câmera até se aventurar, em 2000, na direção de No quiero volver a casa. Na seqüência, em 2001, realizou dois curtas de animação, Aurora e Barbie tambien puede estar triste. Em 2003, retornou aos longas com Los Rubius, eleito Melhor Filme Argentino no BaFICI e Géminis (2005) que foi exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes.

A sinopse de seu novo filme nos passa uma idéia interessante do que veremos na tela grande:

Poldo é um fazendeiro forte e calado que vive no Árido Pampa Argentino junto de sua mulher e sua jovem filha Nati, que é muda. Ao suspeitar que seu vizinho Pichón insultou Nati, Poldo decide prontamente cortar contato com o amigo, obrigando sua mulher a fazer o mesmo. Ela, no entanto, mantém um caso secreto com o vizinho, sobre o qual Poldo nem desconfia. Nati sabe da infidelidade de sua mãe, assim como o filho de Pichón, seu único amigo. Na ausência de palavras, a menina desenha o que vê. Quando Poldo descobre estes desenhos, uma grande tragédia tem início na vida de todos”.

Quando partimos dessa premissa básica podemos imaginar que será um filme duro, austero e até certo ponto violento. Ora, não temos raiva logo no título? Mas o tom que Carri utiliza resvala mais para a comédia do que para o drama, e parece que essa não foi a intenção da cineasta.

A menina Nati (Nazarena Duarte) tem o hábito de desenhar e tirar a roupa quando fica nervosa. Podemos imaginar que esse estranho costume, o de tirar a roupa, possa estar relacionado com o hábito da mãe de também tirar a roupa e gritar. A diferença, nem um pouco sutil, é que a mãe (Analía Couceyro) também geme com as estocadas que o amante lhe dá.

Os dois antagonistas, Poldo (Victor Hugo Carrizo) e Pichón (Javier Lorenzo), possuem a mesma construção e os atores não escapam da superficialidade do machão dos pampas. Pichón poderia receber o sugestivo apelido de tripé dos pampas. Ele não deixa escapar nada e seu alvo diário é a esposa de Poldo.

Como Albertina Carri assinou também o roteiro, podemos atribuir a ela grande parte do que ocorre na tela. Os desenhos de Nati ganham vida e transbordam na tela em segundos longíssimos e chatos. Parece que sobrou algum material dos curtas-metragens de animação e a diretora resolveu não desperdiçar a oportunidade. Os poucos momentos de tensão são estragados por essa técnica refinada e pedante.

A raiva que o título tanto pede só acontece de fato em duas cenas dispensáveis. Vemos Pichón, pela quarta vez, currar a mulher de Poldo. Ele amarra um cinto de couro no pescoço da danada e manda ver. Carri ainda teve tempo de mandar matar e estripar um porco para fazer um churrasquinho. Parte da platéia, em maioria feminina, fez sons guturais. Nas duas cenas. Dispensável.

A raiva (La Rabia)

Argentina, 2008. 83 minutos

Direção: Albertina Carri