Meu irmão é filho único

Histórias sobre as duas grandes guerras mundiais, o Nazismo, o Fascismo e as principais revoluções do Século XX foram, e ainda são, matéria-prima para os mais diversos cineastas. Os historiadores defendem a tese de que o tempo é um aliado importante na reflexão dos fatos, e que muitas vezes ainda estamos tão inseridos no contexto que não conseguimos ver com objetividade.

O maniqueísmo que era marca dos primeiros filmes de Hollywood sobre os conflitos está cedendo lugar aos tons de cinza, onde não vemos claramente as bordas e onde os lados se encontram. Em Os sonhadores (2003), Bernardo Bertolucci usa os eventos da Primavera de 68 como pano de fundo de seus personagens e procura conhecer os jovens que farão parte do movimento estudantil. O que eles querem? Liberdade? Qual liberdade? Que teorias eles carregam em seus cadernos?

Meu irmão é filho único (Il Mio Fratello è Figlio Unico, 2007) também usa um período conturbado da história italiana como pano de fundo, e pode ser um bom exemplo da necessidade desse afastamento. O filme parece ter sido feito com esse olhar. O diretor Daniele Luchetti nos mostra a relação de Accio e seu irmão Manrico na Itália dos anos 60 e 70. Os italianos vivem a luta pela reconstrução da pátria com a memória de Mussolini ainda presente.

Sem exagerar nas tintas e focando mais nos personagens do que no simples discurso político, Luchetti passeia pela vida de uma família que sobrevive numa pequena cidade do interior da Itália. O pai é operário, a mãe também trabalha para pagar as contas enquanto a família espera a casa prometida pelo governo e descontada mês a mês, durante quinze anos, do salário da fábrica.

O jovem Accio é temperamental e não sabe que rumo tomar na vida. É mandado para o seminário, mas as tentações o fazem desistir, ao voltar para casa não consegue se encaixar e nutre uma disputa velada com o irmão mais velho. Os anos passam e a política trata de afastá-los ainda mais. Accio entra para o partido fascista, com carteirinha e tudo, enquanto Manrico sonha com os ideais comunistas. Quando a bela Francesca (Diane Fleri) aparece para dividir o coração dos dois irmãos, o trio parte para descobrir o amor e as decepções de crescer num período de sonhos e instabilidade.

Daniele Luchetti nasceu na Itália, em 1960, e viveu a adolescência no período retratado. Ao contrário de Accio que é filho de operário, o pai de Luchetti é escritor e o avô era pintor. Sabendo dessas informações podemos supor que o trabalho de afastamento do diretor é ainda mais louvável.

Meu irmão é filho único (Il mio fratello è figlio unico)

Itália, 2007. 100 minutos

Direção: Daniele Luchetti

Tags: , , , , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: