A cortina de açúcar

Quando o principal marco do Socialismo foi ao chão no dia nove de novembro de 1989, os cidadãos cubanos ainda viviam o sonho da Revolução Comunista. Todas as televisões do mundo acompanharam a demolição do Muro de Berlim, ou melhor, quase todas. Em Havana, no dia seguinte ao fato histórico, nenhum jornal estampava a manchete de primeira página obrigatória e óbvia. O Governo de Fidel Castro ainda tentava proteger a população do que viria a seguir.

O documentário de Camila Gusmán Urzúa relembra os dias da primeira geração nascida após a Revolução de 1959. Camila nasceu no Chile, mas dois anos depois seus pais foram para a ilha cubana fugindo do golpe militar de 1973 que depôs o presidente Salvador Allende e iniciou os 17 anos de ditadura do General Augusto Pinochet. Em Cuba, a família de Camila ganhou um apartamento, emprego e educação para as duas filhas.

Dois anos após assumir o poder, Fidel derrubou os índices de analfabetismo de 27% para 3%. O projeto cubano de eliminar o analfabetismo estava associada à idéia de que instruindo a população o domínio capitalista e a influência estrangeira seriam combatidos.

O doce que Camila coloca no título de A cortina de açúcar (El télon de azúcar, 2006) mostra a forma como ela vê Cuba, relembra sua infância e pensa no futuro da ilha. A diretora, com a câmera em punho, procura amigos que frequentaram a mesma escola, partilharam os mesmos sonhos e formaram o grupo conhecido como os Pioneiros que tinha a missão de propagar os ideais socialistas de Che Guevara.

A honestidade inicial de ser uma personagem cativa o público e faz um pacto de confiança imediato. Sabemos que Camila vai conversar basicamente com seus amigos que ficaram em Havana, sabemos que ela vai tentar, mas não necessariamente conseguir, ser imparcial nas entrevistas, mas sabemos que Camila está narrando essa história com a sua verdade. Esse é ponto que transforma o filme em uma obra única e pessoal.

O documentário, na idéia original, até poderia ter a ilusão de ser uma denúncia, um manifesto, tratar de números e estatísticas, mas o que a direção faz é focar nas pessoas. Claro que recebemos informações para entender as mudanças que Cuba sofreu com a Revolução de 59 e perceber os desvios no caminho, principalmente após o esfacelamento da URSS em 1989, mas são nas entrevistas que vemos claramente a ilusão e o sonho que dominaram a ilha nessas três décadas.

A câmera de Camila percorre as ruínas de antigas instalações acadêmicas enquanto a narração relembra o passado com saudade e tristeza. Esse tom pessoal foi utilizado na fotografia (já que Camila opera a câmera), na montagem (com cortes mais lentos e generosos) e na escolha das locações (do passado da diretora) e se mostra outra vez acertado. As entrevistas assumem um caráter de confidencia, de uma conversa entre amigos que não se vêem há anos e nesse momento o que não é dito tem tanta importância quanto o que está sendo falado.

A maioria dos jovens daquela geração privilegiada deixou Cuba para seguir a vida na Europa, nos Estados Unidos ou no Canadá. Poucos foram os que ficaram para construir ‘o glorioso destino da nação cubana socialista’. Os que ainda estão em Cuba, muitos com curso superior, trabalham em empregos de salário mínimo e assistem ao futuro traçado na infância desmoronar – mas não perdem a esperança.

Camila mora na França, em Paris, e quer ser cineasta como o pai, Patrício Guzmán, que fez o documentário A Batalha do Chile (1979). A Cortina de Açúcar é um primeiro filme por natureza: honesto e direto. A coragem de se inserir na história e não posar apenas como uma fria observadora lhe rende elogios e também o peso de ter começado tão bem na carreira.

A cortina de açúcar (El télon de azúcar)

França, Cuba, Espanha, 2006. 85 minutos

Direção: Camila Gusmán Urzúa

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