Sem fôlego

O diretor sul-coreano Kim Ki-Duk só começou a dirigir filmes depois dos 35 anos, mas já aparece com destaque no cenário internacional. Kim recebeu o Leão de Prata de Melhor Diretor no Festival de Veneza 2004 por Casa Vazia (2004) e Primavera, verão, outono, inverno… e primavera (2003) foi o vencedor do Prêmio do Público no Festival de San Sebastián 2003. Em Sem fôlego (Soom, 2007), o diretor questiona valores básicos do mundo oriental e mostra que homens e mulheres reagem de formas diferentes quando postos numa situação limite.

Yeon (Park Ji-a) segue a cartilha do dia a dia de toda mulher oriental, submissa ao marido, devota a casa e cuidadosa com a filha. Yeon é sempre deixada de lado e parece estar resignada com seu papel na família e na sociedade. O máximo de rebeldia que consegue é jogar no lixo a camisa branca do marido. O marido (Ha Jung-Woo) também acredita que tem uma vida perfeita ao lado da esposa, e claro, arruma tempo para ter uma amante. A descoberta da traição quebra a linha tênue que mantém Yeon domesticada. Num primeiro momento ela se recusa a falar, relega suas tarefas e mostra a insatisfação ao marido que não percebe sua mudança de comportamento.

Nesse ponto, o diretor começa a construir o alicerce para o desenrolar da trama que seria completamente equivocada sem essa base bem fundamentada. Achamos que a seqüência da história será banal ou até mesmo normal, outro filme sobre traição e reconciliação, mas Kim não está interessado no óbvio e sim em incomodar.

Yeon resolve visitar um detento condenado à execução e que está nos noticiários por tentar o suicídio pela terceira vez. O diretor do presídio curioso com as intenções da moça que diz ser uma antiga namorada permite que eles se encontrem. Jin (Chen Chang) sabe que não conhece aquela pessoa, mas como recusar uma visita estando no corredor da morte? O diretor do presídio aproveita a situação para viver um reality show particular e utiliza as câmeras de segurança para acompanhar cada momento.

Com as peças no tabuleiro, Kim Ki-Duk conduz o roteiro com precisão, ora faz rir, ora faz calar, e aproveita o inusitado da situação para analisar e criticar comportamentos já enraizados na cultura oriental. Só percebemos algumas verdades quando elas são expostas à luz do ridículo.

No fim, Kim Ki-Duk nos deixa com a sensação de ‘termos ido longe demais’, ficamos com a culpa de ver tantos pecados íntimos expostos e compartilhamos os segredos dos personagens com tristeza. Para quem acha que a vingança coreana se resume ao cru Old Boy (2004) aí vai uma grata surpresa.

Sem fôlego (Soom)

Coréia do Sul, 2007. 84 minutos

Direção: Kim Ki-Duk

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