O Engenho de Zé Lins

José Lins do Rego Cavalcanti nasceu no Engenho Corredor, município de Pilar, no Estado da Paraíba, em três de julho de 1901. Cursou a escola secundária em Itabaiana e se formou em Direito, no Recife, em 1923.

Vladimir Carvalho nasceu em Itabaiana, no dia 31 de janeiro de 1935. Formado Bacharel em Filosofia, mas cineasta por natureza.

O Engenho de Zé Lins (2006) já seria imprescindível se fosse um documentário sobre um dos maiores escritores brasileiros, mas Vladimir Carvalho não ficou apenas no superficial e na pesquisa. A ligação entre os dois intelectuais vai além do estado de nascimento. “Meu pai contava as histórias como se fossem dele, eu ouvia isso desde pequeno. Quando aprendi a ler vi que meu pai misturava a vida dele em Itabaiana com trechos de Menino de Engenho”, relembra Vladimir.

Vladimir Carvalho

Insatisfeito com as verdades que aí estão – como todo documentarista – Vladimir parte para descobrir detalhes da vida de Zé Lins e investigar a razão da melancolia que se abatia sobre o escritor. “Ele tinha variações grandes de humor, ia da tristeza à alegria em instantes”, revela o diretor. “Tinha sempre a morte rondando sua mente. Queria muito saber a causa disso”.

O resultado desse questionamento é um documentário de apenas 81 minutos, digo apenas, pois este é um daqueles filmes que não queremos que termine tão cedo. Vladimir percorre o Brasil para encontrar pessoas ligadas ao escritor e registra depoimentos únicos. A lista de entrevistados vai de familiares, como as primas com mais de noventa anos, Carlos Heitor Cony, Ariano Suassuna, e ainda vemos uma das últimas entrevistas de Raquel de Queiroz, grande amiga e confidente de Zé Lins.

Para narrar as passagens da infância no Engenho Corredor, a equipe de filmagem vai até o local e encontra a fazenda ocupada pelo Movimento dos Sem-terra e as casas quase destruídas. Como mostrar a beleza do engenho, das máquinas, da cana, do melaço? Como voltar ao passado e fazer o público de hoje ver essas imagens? A resposta foi utilizar cenas de “Menino de Engenho” (1965) de Walter Lima Júnior como se fossem documentais. Walter rodou o filme no verão de 1965 e essas imagens são as mais próximas que existem da infância de Zé Lins e da época áurea dos Engenhos de Açúcar.

Vladimir Carvalho e o montador Renato Martins intercalam cenas do filme de Walter com as recentes feitas pela equipe. Num desses momentos encontram Sávio Rolim, o ator que viveu o menino Carlinhos em 65. Ficção e documento se misturam: o menino Sávio deixa as imagens em preto-e-branco e percorre com saudade os locais onde a trupe se aventurou há quase 50 anos.

Sávio Rolim: presente e passado

Ao ser confrontado com a realidade do lugar, a invasão do MST, a disputa pela terra, o documentário absorve essas questões e dá voz aos novos moradores do Engenho. Vladimir percebe que essa situação não é nova e que as mudanças ficam mais pelo efeito do tempo nas edificações do que nas relações humanas. “Eles me mostraram a foto de um companheiro que morreu na invasão. Eu vi ali um novo João Pedro Teixeira, um novo moleque Ricardo. Era a história se recontando”.

O documentário ganha sua forma definitiva nos retoques da ilha de edição e Vladimir percebe que é incoerente não se posicionar como personagem nessa história. O cineasta assume sua paixão pela obra e vida de Zé Lins e cria um filme único, onde o diretor questiona e percorre junto com o público as trilhas de um Brasil que está perto de desaparecer.

O Engenho de Zé Lins

Brasil, 2006. 81 minutos

Direção: Vladimir Carvalho

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