Archive for janeiro \25\UTC 2010

Encontro com Milton Santos ou: O Mundo Global Visto do Lado de Cá

25/01/2010

Milton de Almeida Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, no dia três de maio de 1926, formou-se em Direito no ano de 1948, pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), e foi professor em Ilhéus e Salvador. Em 1958, voltou da Universidade de Estrasburgo, na França, com o doutorado em Geografia.

Milton foi preso e exilado pelo Golpe de 64. Entre os anos de 1964 e 1977, ensinou na França, Estados Unidos, Canadá, Peru, Venezuela e Tanzânia. Foi o único brasileiro a receber o Prêmio Vautrin Lud, considerado o Nobel de Geografia. Escreveu mais de 40 livros, entre eles Por Uma Outra Globalização” (2000) e Território e Sociedade no Século XXI(2001) que alertavam para os perigos causados pelo processo de globalização nos países em desenvolvimento.

Essa pequena introdução se faz necessária, já que Silvio Tendler não se estendeu sobre a vida do homem Milton, e sim sobre a obra de Milton. Uma decisão que se mostrou acertada. Nos 89 minutos do documentário Encontro com Milton Santos ou: O Mundo Global Visto do Lado de Cá, o diretor se debruça sobre as teses do pensador Milton. Vários cineastas consagrados são arredios à ideia das biografias. “Querem me conhecer? Vejam meus filmes!” Essa frase pode ser atribuída a Hitchcock, Buñuel, ou Fellini. Seguindo essa linha de raciocínio, Silvio Tendler deixou a pesquisa biográfica para a curiosidade do público.

O cineasta conheceu Milton Santos em 1995, e desde então tinha planos para filmar o geógrafo. Os anos foram passando e, somente em 2001, Tendler realizou o que seria a última entrevista de Milton (que viria a morrer cinco meses depois). Baseado nesse primeiro ponto de partida o documentário procura explicar, ou até mesmo elucidar, essa tal Globalização da qual tanto ouvimos falar.

É na evidência das contradições e dos paradoxos que constituem o cotidiano desta globalização que Milton Santos enxerga as possibilidades, já em andamento, de construção de uma outra realidade. Inova, portanto, quando, ao invés de se colocar contra a globalização, propõe e aponta caminhos para uma outra globalização. Agora, o novo vem da periferia. Como exemplo de uma cultura que surge dos ‘de baixo’, o professor cita o movimento Hip-Hop.”, revela Silvio.

O documentário percorre algumas trilhas desses caminhos apontados por Milton, vemos movimentos na Bolívia, na França, México e chegamos ao Brasil, na periferia de Brasília. Em Ceilândia, a câmera nos mostra pessoas dispostas a mudar as manchetes dos jornais que só falam da comunidade para retratar a violência local. Adirley Queiroz, ex-jogador de futebol, hoje cineasta, estudou os textos de Milton e procura novos caminhos para fugir do ‘sistema’ ou do Globaritarismo – termo criado por Milton Santos para designar a nova ordem mundial.

Para tornar o documentário atraente ao público acostumado à ficção ou aos telejornais, Tendler usa uma montagem ‘moderninha’ com gráficos e animações. Atores globais foram chamados para narrar o texto sobre Globalização: Beth Goulart, Fernanda Montenegro, Milton Gonçalves, Matheus Nachtergaele e Osmar Prado. Mas, na verdade, o que realmente importa é o conteúdo do filme. Num país tão carente de pensadores e e até mesmo ideais, um filme como esse deveria ser de exibição obrigatória nas salas de aula. Um sonho, uma utopia se pensarmos que será um grande desafio manter o documentário um mês em cartaz no eixo Rio-São Paulo.

Milton Santos, geógrafo e livre pensador, dizia que a maior coragem, nos dias atuais, é pensar, coragem que sempre teve. O documentário de Silvio Tendler não é uma cinebiografia, nem pretende ser, mas atingiu o objetivo principal de seu personagem: fazer pensar.

Creio que as condições da história atual permitem ver que outra realidade é possível. Essa outra realidade é boa para a maior parte da sociedade. Nesse sentido, a gente é otimista. A gente é pessimista quanto ao que está aí. Mas é otimista quanto ao que pode chegar”.

Milton Santos (1926-2001).

Encontro com Milton Santos ou: O Mundo Global Visto do Lado de Cá

Brasil. 2006. 89 minutos

Direção: Sílvio Tendler

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Os mal-criados

25/01/2010

A diretora Pia Marais nasceu em Johanesburgo, África do Sul e Os Mal-criados (Die Unerzogenen, 2007) é seu primeiro longa-metragem. Filha de pais hippies, Pia viveu em vários países do sul da África, na Suécia, na Espanha e essa bagagem serve de base para a construção da personagem Stevie. Podemos nos arriscar a dizer que seu filme de estréia tem muito de um auto-retrato.

Stevie é uma jovem de 14 anos que tenta ser normal mesmo vivendo com pais completamente desequilibrados. Álcool, drogas e promiscuidade são comuns no dia a dia de sua família. Quando eles se mudam para uma cidade do interior, ela acredita que vai começar um novo ciclo, a tão desejada vida normal.

Para fazer amizade com os adolescentes vizinhos, Stevie inventa que seus pais são diplomatas em missão no Brasil. Tudo vai caminhando bem e a jovem começa a freqüentar uma escola regular, mas as confusões recomeçam. O pai de Stevie, o ótimo Birol Ünel (Contra a parede, 2004), é um traficante que acabou de sair da cadeia e parece desesperado para voltar a ser preso. Mesmo vigiado pela polícia, ele prepara um novo carregamento de drogas para levar à Bélgica.

A família é composta pelos parceiros traficantes e pela mãe que vive na cama, fumando ou no quintal, fumando. E para contrariedade de Stevie, os jovens locais não demoram a perceber que na casa dos novos vizinhos drogas, álcool e sexo são liberados e isso arruína suas chances de ter uma vida normal.

Pia Marais trabalhou como assistente de direção e foi diretora de elenco antes de se aventurar como cineasta. Pia distribuiu os papéis com incrível precisão e buscou atuações intimistas, contidas que contrastam com o clima pesado do filme. A diretora mostra que conhece muito bem o universo adolescente e os problemas de uma família fora do convencional. Como formar um caráter vivendo no limite? Aos 14 anos tudo o que a jovem Stevie precisa são bons exemplos e conselhos, e isso é algo que ela não vai encontrar com a família.

O filme tem uma direção firme e seu desfecho escapa aos finais felizes, o que combina exatamente com o tom da obra. Nada mal para um trabalho de estréia. Resta saber se Pia vai acertar a mão com outros temas ou vai ficar marcada por rodar apenas projetos depressivos.

Os mal-criados (Die Unerzogenen)

Alemanha, 2007. 95 minutos

Direção: Pia Marais

Elenco: Birol Ünel, Ceci Chuh, Pacale Schiller, Georg Friedrich

Vá logo e volte tarde

19/01/2010

A peste negra ou morte negra foi uma epidemia de peste bubônica e peste pneumônica que devastou mais de um terço da população européia no século XIV. A falta de higiene pessoal, de infraestrutura nas cidades, a maioria com esgoto correndo a céu aberto, e a limitação da medicina, a Igreja Católica acusava de bruxaria quem fizesse experimentos científicos, resultaram num ambiente propício para a disseminação da doença.

Os porões dos navios chegavam da China abarrotados de especiarias e de um visitante indesejado: ratos contaminados com o bacilo da peste. Os roedores rapidamente se multiplicaram nas ruas e nos esgotos e infestaram as cidades.

Os livros de História pouco abordam esse assunto que é tabu até hoje em algumas regiões do continente. Famílias inteiras pereceram e pequenas vilas tiveram o número de habitantes zerado.

Em Il Decamerone (1351), Giovanni Boccaccio (1313-1375) descreve com precisão o que aconteceu em Florença, no ano de 1348, considerado o início da peste:

Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano bem farto da Encarnação do Filho de Deus de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por iniciativa dos corpos superiores ou em razão de nossas iniqüidades, a peste atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais, há alguns anos. Tal praga ceifara, naquelas plagas, uma enorme quantidade de pessoas vivas. Incansável, fora de um lugar para outro; e estendera-se, de forma miserável, para o Ocidente”.

Vá logo e volte tarde (Pars vite et reviens tard, 2007) de Regis Wargnier mistura elementos policiais e místicos para fugir do lugar-comum do filme de suspense, e podemos perceber isso no título, já que essa expressão era usada pelos purificadores que combatiam a peste.

O policial Jean-Baptiste investiga a aparição de estranhos desenhos pintados nas portas das casas de Paris. O que poderia ser um trote, uma simples brincadeira, acaba em crime quando corpos aparecem, nos prédios atacados, com indícios da peste negra. A notícia do retorno da doença, erradicada no século XV, assusta a população e leva caos ao departamento de polícia.

Wargnier ganhou o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1993, com “Indochina” (1992) e dirigiu ainda “Leste-Oeste – O amor no exílio” (1999) e “O elo perdido” (2004). Seu primeiro longa-metragem, “La femme de ma vie“, foi vencedor do César de Melhor Diretor Estreante, em 1986. Esse currículo talvez explique o tratamento diferenciado que os atores recebem na trama, Wargnier utiliza os truques do bom cinema policial nas cenas de ação e suspense, mas consegue mergulhar mais do que o normal na construção dos personagens.

O que seria um mero filme policial ganha força com a inclusão do misticismo que envolve a Idade Média e o combate à peste. Em alguns momentos achamos que a história vai se aproximar de Seven (1995) ou Jogos Mortais (2004), mas Regis Wargnier faz a trama voltar ao cotidiano e foge das soluções mágicas para encontrar motivações mais carnais do que ritualísticas para os assassinatos.

Vá logo e volte tarde (Pars vite et reviens tard)

França, 2007. 111 minutos

Direção: Regis Wargnier

Elenco: José Garcia, Lucas Belvaux, Marie Gillain

A garota do lago

15/01/2010

Numa pequena e pacata cidade do interior da Itália, uma menina de seis anos está desaparecida e os policiais locais chamam o inspetor Sanzio para ajudar. A garota reaparece e tudo não passa de um mal-entendido, mas durante a investigação os policiais descobrem o corpo de uma jovem assassinada.

Essa pequena sinopse é o ponto de partida que Andrea Molaioli transforma num filme simples, eficiente e enxuto. O roteiro não é original, foi baseado no livro Don’t Look Back, de Karim Fossum.

A montagem parece evoluir lentamente, mas na verdade caminha com um ritmo marcado e firme que represa o suspense até a conclusão do mistério. O público que está acostumado aos cortes rápidos e frenéticos pode estranhar essa forma compassada que Molaioli usa para conduzir a ação. A simplicidade dos movimentos de câmera e uma fotografia quase neutra (apesar das belas paisagens) forçam a atenção para dentro do que está sendo dito, para dentro da história, não há desvios ou pirotecnia para disfarçar possíveis equívocos de roteiro.

Ver, observar e analisar: nunca fazemos isso no cinema policial, no cinema de suspense. O realizador passa a ser o explicador, é ele quem vai mostrar o bandido fugindo, um detalhe, um plano fechado numa faca. Ao expectador sobra a tarefa de dizer sim e aceitar tudo o que é apresentado na tela.

A intenção de Molaioli é fazer a platéia descobrir o assassino no mesmo passo que o inspetor Sanzio, e para isso percorremos com o policial cada anotação, vemos a cena do crime longamente e entramos na sala de interrogatório. Nesse tempo de estudo também conhecemos a família do inspetor e avaliamos seus problemas pessoais. Será que ele vai ter o discernimento necessário para julgar quem é culpado ou inocente?

A garota do lago (La ragazza del lago, 2007) é o primeiro longa-metragem do italiano Andrea Molaioli que começou a carreira como assistente de direção e trabalhou para cineastas como Nanni Moretti (O quarto do filho, 2001) e Daniele Luchetti (Meu irmão é filho único, 2007). Antes de se aventurar em longas, dirigiu o making of de alguns filmes e séries de televisão.

A garota do lago (La ragazza del lago)

Itália, 2007. 95 minutos

Direção: Andrea Molaioli

Elenco: Toni Servillo, Nello Mascia, Valeria Golino

Nasce o Rei do Rock and Roll!

08/01/2010

Quando começou a dar os primeiros shows em 1956, o jovem Elvis Aaron Presley com certeza não esperava que fosse o precursor das mudanças que arrebatariam os Estados Unidos e o resto do mundo. A juventude norte-americana tinha em Marlon Brando e James Dean a dose de rebeldia que eles precisavam para enfrentar uma sociedade rígida e conservadora – e por que não dizer hipócrita. Mas faltava a música que serviria como um hino para a revolução cultural que estava estourando na década de 50.

Os programas de TV mostravam rapazes brancos, é claro, engomados em terno e gravata – por vezes de smoking! – entoando canções ternas e totalmente estáticos na frente do microfone. Era impensável colocar um negro, ou a música negra, no rádio e na TV das famílias norte-americanas.

O lendário Sam Phillips, dono da Sun Records, deixou uma frase célebre que mostra o espírito da época: “No dia que eu achar um branco que cante como um negro vou ficar milionário.” Não ficou milionário, mas entrou para a história.

A Sun Records era uma pequena gravadora de Memphis que lançava sucessos locais apostando suas fichas em dois estilos: o Country & Western e o Rhythm & Blues. E era também o lugar onde, por alguns dólares, cantores amadores registravam direto no acetato suas canções.

Pulando meses de história, vamos direto ao dia 6 de julho de 1954 quando o jovem Elvis, então com 19 anos, o guitarrista Scotty Moore e o baixista Bill Black estavam numa sessão com o velho Sam Phillips tentando gravar um compacto nos estúdios da Sun Records. Depois de algumas tentativas sem sucesso, Sam resolveu dar um intervalo para a equipe técnica. Enquanto todos conversavam, Elvis pegou a guitarra e brincou com a canção “That’s All Right, Mama”. Instintivamente Bill Black acompanhou os acordes no baixo e Scotty Moore entrou com sua guitarra.

Ninguém sabia muito bem o que estava fazendo, mas quando Sam Phillips entrou gritando no estúdio mandando que repetissem a música, dessa vez com os gravadores ligados, nascia o Rock and Roll!

Sam Philips temia a repercussão que poderia vir por colocar num só compacto um ritmo negro, “That’s All Right, Mama”, e uma canção tipicamente de branco, “Blue Moon of Kentucky”, fato inédito até então, mas decidiu apostar alto. No dia 07 de julho de 1954, as duas canções são executadas no “Red Hot and Blues”, um programa apenas de blues negros da rádio WHBO. Em poucos minutos os telefones da rádio tocavam sem parar e “That’s All Right, Mama” foi repetida várias vezes naquela noite.

Em 19 de julho de 1954, o disco estava à venda nas lojas de Memphis e no fim do mês já alcançava o terceiro lugar nas paradas. Depois disso, o mundo nunca mais foi o mesmo.

Elvis Presley vendeu mais discos do que qualquer outro cantor ou grupo na história da música. Estimativas recentes indicam que os números passem de 1,7 bilhões de LP’s e CD’s (mais do que o dobro dos segundos e terceiros lugares: Beatles e Rolling Stones, respectivamente). A famosa mansão Graceland, em Memphis, é a segunda casa mais visitada nos Estados Unidos – só perde para a Casa Branca.

Elvis não se destacou apenas como cantor de rock, foi o único a ter sucesso em vários estilos musicais. O Rei gravou country, blues, baladas, pop e gospel. Mas sua grande contribuição foi unir o Country & Western com o Rhythm & Blues e criar não só um novo som, mas um novo estilo de vida. Com Elvis Presley e o Rock and Roll a juventude pode enfim seguir imbatível para fazer a Revolução Cultural dos anos 50 e 60. Vida longa ao Rei!

Não existe nada antes ou depois de Elvis. Ele é tudo.

Bruce Springsteen

Se não fosse por Elvis nós não existiríamos.

John Lennon

Procuro ver e aprender com ele no palco. E passar um pouco do que ele fazia nos nossos shows.

Bono Vox

Ele era e ainda é o Rei.

B. B. King

Um táxi para a escuridão

08/01/2010

Em 2006, o diretor Alex Gibney perdeu o Oscar de Melhor Documentário para Marcha dos Pingüins (2005), na ocasião concorria com Eron: Os mais espertos da sala (2005) que investigava a falência da sétima maior empresa dos Estados Unidos. O caso foi um grande escândalo no mundo corporativo: os executivos simplesmente fugiram com bilhões de dólares deixando funcionários e acionistas sem um tostão.

Durante a festa de premiação, em meio à ressaca pela perda da estatueta dourada, um grupo de advogados sugeriu para Gibney se meter em outra polêmica questão e investigar as denúncias envolvendo tortura e abusos dos militares norte-americanos no Afeganistão.

Em 2005, o jornalista Tim Golden, do The New York Times, publicou uma série de reportagens amparado em documentos oficiais mostrando que a prática da tortura era comum nas prisões de Abu Ghraib, em Bagdá, e na Base Aérea de Bagram, no Afeganistão.

As investigações do jornal começaram em 2002, após a morte do jovem taxista Dillawar, de apenas 22 anos. Preso e acusado sem provas de pertencer ao regime talibã, o afegão foi espancado e mantido em pé, algemado pelos pulsos. Na certidão de óbito, emitida pelo exército norte-americano, constava morte por homicídio. O documento estava escrito em inglês, e foi entregue à família da vítima que não fala a língua do Tio Sam. Em 2004, fotos que mostravam presos sendo humilhados por soldados na base de Abu Ghraib correram o mundo, mas a cúpula do exército considerou o caso como ‘obra de maçãs podres’.

Realizar Um táxi para a escuridão (Taxi to the dark side, 2007) foi a forma encontrada pelo diretor Alex Gibney para fazer um povo acostumado ao audiovisual questionar as políticas de seu governo. O documentário contou com a colaboração dos correspondentes de guerra dos principais veículos da imprensa norte-americana e pelos jornalistas do NYT que divulgaram a morte de Dillawar dois anos antes.

Alex Gibney e a montadora Sloane Klevin sabiam que estavam mexendo num barril de pólvora. Quem ousava questionar os métodos do ‘imperador‘  George Bush sofria sérias represálias por parte da máquina de poder da Casa Branca. Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 elevaram o grau de tolerância da população com o que era permitido fazer para defender a América.

Um táxi para a escuridão entrevista soldados que estavam nas bases militares de Abu Ghraib e Bagram, jornalistas, assessores militares e chega ao alto escalão de George Bush. O documentário parte do caso isolado do jovem taxista Dillawar e segue o rastro até a base norte-americana de Guantánamo, em Cuba, onde a CIA e o exército desenvolveram e criaram métodos de tortura e testaram nos detentos.

A produção do filme conseguiu pilhas de documentos oficiais entregues por fonte anônima que relatam passo a passo a aplicação da chamada engenharia da tortura: eletrochoque, LSD, mescalina, pentatol de sódio (soro da verdade) e uma série de métodos para induzir a privação sensorial.

A capitã Carolyn Wood, oficial encarregada dos interrogatórios em Abu Ghraib e Bagram, nunca foi processada e é mantida intocável pelo exército norte-americano.

Imperador Bush visitando as tropas na colônia rebelde

Um táxi para a escuridão (Taxi to the dark side)

Estados Unidos, 2007. 105 minutos

Direção: Alex Gibney

Temporada de seca

04/01/2010

O diretor e roteirista Mahamat-Saleh Haroun nasceu na República do Chad, em 1969. O Chad e outros três países formavam a antiga África Equatorial Francesa. Os franceses tomaram a região em 1905 e a independência só veio em 1960. O presidente François Tombalbaye era ligado às tribos do sul, de maioria católica, e os muçulmanos, no norte, foram deixados em segundo plano pelo governo instaurado. A crise que começou como guerrilha explodiu numa guerra civil que devastou o país.

Em 1991, o coronel Idriss Deby assume o poder e prepara o governo de transição para a democracia. Em 1994, depois de três décadas de conflitos, Deby anistia todos os presos políticos. Temporada de seca (Daratt, 2006) começa exatamente nesse momento. O jovem Atim e seu avô acompanham pelo rádio a anistia aos criminosos de guerra. Em seguida, Atim, de 16 anos, recebe a arma do pai e o conselho do avô: “Seja prudente, seja esperto”.

Atim deixa as montanhas e parte para sua missão. Na capital, ele busca por Nassara, um famoso criminoso de guerra, agora velho e doente, dono de uma pequena padaria e que passa os dias rezando na Mesquita. O jovem perambula pela cidade e sem dinheiro começa a praticar pequenos golpes como roubar as lâmpadas da rua e revender na feira. A miséria, a falta de emprego e a constante presença de militares e mutilados revelam a intenção do diretor em retratar e denunciar o dia a dia do país.

Mahamat-Saleh Haroun poderia contar a história do jovem órfão que parte em busca de vingança contra o assassino do pai. Certamente Haroun faria esse filme se fosse norte-americano, mas o diretor vai além, deixa as explosões de lado e nos leva para ver as feridas de um povo que passou o último século em guerra.

Fugindo dos clichês e atalhos de roteiro, Haroun narra com força e vitalidade o embate dos dois personagens. O diretor estudou em Paris e antes de se dedicar ao cinema trabalhou vários anos como jornalista, talvez venha daí esse olhar direto, seco. A fotografia não busca os planos belos que a África proporciona e a montagem não é acelerada, não tem pressa. Os atores perseguem uma atuação contida, íntima, pouco é dito e o olhar é a nossa única pista, a única forma de imaginar o que pode acontecer.

O desfecho certamente não vai agradar aos fãs do cinema convencional, mas é coerente e objetivo com a mensagem que Haroun quer passar. Um filme triste e sincero que carrega as dores de um povo que está cansado de lutar.

Temporada de Seca (Daratt)

França, 2006. 95 minutos

Direção: Mahamat-Saleh Haroun

Elenco: Ali Bacha Barkai, Youssouf Djaoro, Aziza Hisseine