Temporada de seca

O diretor e roteirista Mahamat-Saleh Haroun nasceu na República do Chad, em 1969. O Chad e outros três países formavam a antiga África Equatorial Francesa. Os franceses tomaram a região em 1905 e a independência só veio em 1960. O presidente François Tombalbaye era ligado às tribos do sul, de maioria católica, e os muçulmanos, no norte, foram deixados em segundo plano pelo governo instaurado. A crise que começou como guerrilha explodiu numa guerra civil que devastou o país.

Em 1991, o coronel Idriss Deby assume o poder e prepara o governo de transição para a democracia. Em 1994, depois de três décadas de conflitos, Deby anistia todos os presos políticos. Temporada de seca (Daratt, 2006) começa exatamente nesse momento. O jovem Atim e seu avô acompanham pelo rádio a anistia aos criminosos de guerra. Em seguida, Atim, de 16 anos, recebe a arma do pai e o conselho do avô: “Seja prudente, seja esperto”.

Atim deixa as montanhas e parte para sua missão. Na capital, ele busca por Nassara, um famoso criminoso de guerra, agora velho e doente, dono de uma pequena padaria e que passa os dias rezando na Mesquita. O jovem perambula pela cidade e sem dinheiro começa a praticar pequenos golpes como roubar as lâmpadas da rua e revender na feira. A miséria, a falta de emprego e a constante presença de militares e mutilados revelam a intenção do diretor em retratar e denunciar o dia a dia do país.

Mahamat-Saleh Haroun poderia contar a história do jovem órfão que parte em busca de vingança contra o assassino do pai. Certamente Haroun faria esse filme se fosse norte-americano, mas o diretor vai além, deixa as explosões de lado e nos leva para ver as feridas de um povo que passou o último século em guerra.

Fugindo dos clichês e atalhos de roteiro, Haroun narra com força e vitalidade o embate dos dois personagens. O diretor estudou em Paris e antes de se dedicar ao cinema trabalhou vários anos como jornalista, talvez venha daí esse olhar direto, seco. A fotografia não busca os planos belos que a África proporciona e a montagem não é acelerada, não tem pressa. Os atores perseguem uma atuação contida, íntima, pouco é dito e o olhar é a nossa única pista, a única forma de imaginar o que pode acontecer.

O desfecho certamente não vai agradar aos fãs do cinema convencional, mas é coerente e objetivo com a mensagem que Haroun quer passar. Um filme triste e sincero que carrega as dores de um povo que está cansado de lutar.

Temporada de Seca (Daratt)

França, 2006. 95 minutos

Direção: Mahamat-Saleh Haroun

Elenco: Ali Bacha Barkai, Youssouf Djaoro, Aziza Hisseine

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