Vá logo e volte tarde

A peste negra ou morte negra foi uma epidemia de peste bubônica e peste pneumônica que devastou mais de um terço da população européia no século XIV. A falta de higiene pessoal, de infraestrutura nas cidades, a maioria com esgoto correndo a céu aberto, e a limitação da medicina, a Igreja Católica acusava de bruxaria quem fizesse experimentos científicos, resultaram num ambiente propício para a disseminação da doença.

Os porões dos navios chegavam da China abarrotados de especiarias e de um visitante indesejado: ratos contaminados com o bacilo da peste. Os roedores rapidamente se multiplicaram nas ruas e nos esgotos e infestaram as cidades.

Os livros de História pouco abordam esse assunto que é tabu até hoje em algumas regiões do continente. Famílias inteiras pereceram e pequenas vilas tiveram o número de habitantes zerado.

Em Il Decamerone (1351), Giovanni Boccaccio (1313-1375) descreve com precisão o que aconteceu em Florença, no ano de 1348, considerado o início da peste:

Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano bem farto da Encarnação do Filho de Deus de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por iniciativa dos corpos superiores ou em razão de nossas iniqüidades, a peste atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais, há alguns anos. Tal praga ceifara, naquelas plagas, uma enorme quantidade de pessoas vivas. Incansável, fora de um lugar para outro; e estendera-se, de forma miserável, para o Ocidente”.

Vá logo e volte tarde (Pars vite et reviens tard, 2007) de Regis Wargnier mistura elementos policiais e místicos para fugir do lugar-comum do filme de suspense, e podemos perceber isso no título, já que essa expressão era usada pelos purificadores que combatiam a peste.

O policial Jean-Baptiste investiga a aparição de estranhos desenhos pintados nas portas das casas de Paris. O que poderia ser um trote, uma simples brincadeira, acaba em crime quando corpos aparecem, nos prédios atacados, com indícios da peste negra. A notícia do retorno da doença, erradicada no século XV, assusta a população e leva caos ao departamento de polícia.

Wargnier ganhou o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1993, com “Indochina” (1992) e dirigiu ainda “Leste-Oeste – O amor no exílio” (1999) e “O elo perdido” (2004). Seu primeiro longa-metragem, “La femme de ma vie“, foi vencedor do César de Melhor Diretor Estreante, em 1986. Esse currículo talvez explique o tratamento diferenciado que os atores recebem na trama, Wargnier utiliza os truques do bom cinema policial nas cenas de ação e suspense, mas consegue mergulhar mais do que o normal na construção dos personagens.

O que seria um mero filme policial ganha força com a inclusão do misticismo que envolve a Idade Média e o combate à peste. Em alguns momentos achamos que a história vai se aproximar de Seven (1995) ou Jogos Mortais (2004), mas Regis Wargnier faz a trama voltar ao cotidiano e foge das soluções mágicas para encontrar motivações mais carnais do que ritualísticas para os assassinatos.

Vá logo e volte tarde (Pars vite et reviens tard)

França, 2007. 111 minutos

Direção: Regis Wargnier

Elenco: José Garcia, Lucas Belvaux, Marie Gillain

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