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A Margem da Linha

17/02/2010

Para quê serve a arte? Essa pergunta encerra o documentário de Gisella Callas sobre a arte contemporânea e pode ser usada para abrir esse texto: para quê serve um filme sobre arte? A margem da linha (2009) percorre os caminhos da criação artística, debate a relação obra-autor e levanta temas polêmicos e atuais como a crescente supervalorização da figura do curador.

Gisella entrevistou artistas, críticos, curadores, historiadores, sociólogos, arquitetos, filósofos e até um físico quântico ordenado Lama Budista. Existe mesmo diferença entre a Arte Moderna e Contemporânea? O museu ainda é um lugar sagrado ou o espaço não importa mais? Podemos chamar tudo de arte? Questões como essas são abordadas de forma direta pelos especialistas.

Num primeiro olhar, podemos supor que a diretora faria um documentário didático sobre a arte e sua importância, mas é uma agradável surpresa perceber que esse caminho foi evitado. Não que um filme explicativo sobre a arte contemporânea seja desnecessário, nada disso, mas já que Callas está assinando seu primeiro trabalho em longa-metragem que fosse, ao menos, autoral.

Regina Silveira

É possível perceber que A margem da linha foi concebido com duas preocupações: não ser inacessível ao leigo e não ser monótono ao público alvo. Os créditos nos entrevistados são mantidos até os primeiros vinte minutos e a divisão do tema em tópicos permite debater e, ao mesmo tempo, esclarecer pontos pouco comuns para os “não entendidos em arte”. O documentário utiliza a fala de três artistas plásticos brasileiros como fio condutor, mas não se restringe a focar apenas nas obras de Regina Silveira, Sergio Sister e José Spaniol.

As questões são divididas em seis partes e a montagem constrói o discurso partindo do superficial, do genérico para depois aprofundar. A presença de personagens que fogem ao círculo característico das artes plásticas funciona como forma de tirar a discussão do abstrato e dar outro ângulo à questão. Podemos estranhar um budista analisando conceitos de arte, mas o Lama Padma Samten contribui com comentários precisos e bem-humorados.

É preciso destacar a fotografia de Carlos Ebert que se adapta a cada entrevistado e consegue moldar um enquadramento que combina com o estilo de cada artista. Um trabalho difícil e sensível, mas fundamental num filme como esse. A luz é recortada, rebatida, refletida num visível esforço para recriar o ambiente de trabalho do ateliê e descolar a figura em primeiro plano do fundo composto pelas obras, ou seja, uma metáfora visual que se encaixa na proposta do filme.

Artista e ateliê. Inspiração e intuição. Arte e espetáculo. Obra e espaço. A margem da linha não esgota o tema, não entrega respostas prontas, ao contrário, aguça a curiosidade e convida o espectador a adquirir um olhar mais inquieto sobre a arte contemporânea brasileira.

A Margem da Linha

Brasil, 2009. 96 minutos

Direção: Giselle Callas

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Caramel

12/02/2010

A atriz Nadine Labaki estréia na direção de longa-metragem com um filme sensível e emocionante. Caramel (Caramel, 2007) é uma produção franco-libanesa e retrata a vida de cinco mulheres que moram em Beirute, capital do Líbano.

Nadine participou do projeto Residência do Festival de Cannes em 2005. A idéia de Gilles Jacob, presidente do festival, é reunir jovens talentos que queiram desenvolver um roteiro ou fazer o primeiro filme. Oito roteiristas e diretores dividiram um apartamento, alugado pelos organizadores, nos arredores de Paris e lá tiveram todo o conforto para compartilhar histórias e tocar seus roteiros. O diretor brasileiro Karim Ainouz ficou 18 meses na moradia experimental e concebeu “Madame Satã” (2002).

Nadine Labaki aproveitou a oportunidade e fez de Caramel uma declaração de amor à Beirute, sua cidade natal. Nadine escreveu o roteiro, dirigiu e ainda ficou com a personagem principal. Muito ego para pouco talento? Negativo. Poucas vezes o universo feminino foi abordado com tanta objetividade e transparência, e o maior mérito do filme é não querer passar uma lição de moral, apenas mostrar, questionar.

No salão de beleza Sibelle, cinco mulheres compartilham problemas, sonhos e decepções. A bela Layale, interpretada por Nadine, tem um relacionamento com um homem casado e passa o dia esperando o telefone tocar. Nisrine é de família mulçumana, mas está longe do estilo de vida que seus pais praticam, para piorar a situação está com o casamento marcado e não tem coragem de contar ao noivo que não é mais virgem. Rima sente atração por outras mulheres. Jamale é uma atriz veterana que não quer envelhecer. Rose é uma costureira que abdicou da felicidade para cuidar da irmã mais velha.

Nadine parte dessas cinco histórias para criar um roteiro bem trançado e lançar um olhar sobre a sociedade libanesa. Ao invés de lamentar, as personagens lutam, sonham e vivem numa cultura machista e dominada pelas tradições familiares. Temos a possibilidade de mergulhar no dia a dia de um povo que mantém a alegria e a esperança, apesar de todos os problemas. E nesse ponto eles se aproximam do jeito brasileiro.

Algumas passagens revelam as diferenças que existem entre o Ocidente e o Oriente de forma simples e direta. Layale quer alugar um quarto de hotel para passar uma tarde com o amante no dia do seu aniversário. Para isso ela tem que cruzar a cidade até encontrar um local que não lhe peça a identidade do marido, acaba numa espelunca e confundida com uma prostituta.

Nadine Labaki precisou deixar o país que ama para seguir na carreira que escolheu. Primeiro trabalhou como atriz e agora começa uma nova frente como cineasta. Nadine prova que suas personagens não são tão fictícias assim, ela é um exemplo do que vemos na tela.

Caramel foi selecionado para o Festival de Toronto 2007 e para a Quinzena dos Realizadores de Cannes 2007. Parece que Gilles Jacob sabia o que estava fazendo quando criou o projeto Residência.

Caramel (Caramel)

França, 2007. 95 minutos

Direção: Nadine Labaki

Com: Nadine Labaki, Yasmine Al Masri, Siham Haddad

Sombras elétricas

03/02/2010

É impossível não associar Sombras elétricas (Meng ving tong nian, 2004) do diretor Xiao Jiang ao “Cinema Paradiso” (1989) de Giuseppe Tornatore. E isso já é o suficiente para arrancar aplausos do público no fim da projeção.

Cinéfilos costumam gostar de filmes que falam sobre cinema, é a catarse máxima. A lista inclui sucessos como “Oito e meio” (1963) de Federico Fellini, “A noite americana” (1973) de François Truffaut, “Dirigindo no escuro” (2002) de Woody Allen, e esquecidos como “Vivendo no abandono” (1995) de Tom DiCillo e o ótimo documentário “Cinemania” que foi exibido no Festival do Rio 2002.

No Brasil, encontramos os recentes “Celeste & Estrela” (2005) de Betse de Paula e “Sal de Prata” (2005) de Carlos Gerbase, e o consagrado “Cabra Marcado para Morrer” (1984) de Eduardo Coutinho.

A trama de Sombras elétricas começa com uma explícita declaração de amor ao cinema. O entregador de água Mao Dabing separa o salário do mês para comida e aluguel, o resto ele gasta com filmes. Cada sessão custa três dias de trabalho, mas para Mao esse sacrifício vale cada centavo.

Certo dia, Mao pedala para casa pensando na próxima estréia quando derruba uma pilha de tijolos. Ao se levantar é atacado por uma jovem que ele não conhece. Dabing acorda no hospital, com a bicicleta quebrada e sem emprego. Na delegacia confronta a moça que o atingiu. Ela não fala, mas lhe escreve para ir alimentar os seus peixes, e lhe entrega as chaves de casa. Conformado com a situação Dabing resolve ajudar. Ao chegar ao apartamento descobre que a moça é tão apaixonada por filmes quanto ele.

Impressionado com a descoberta, Dabing começa a ler o diário da garota e mergulha num verdadeiro roteiro que conta a história de seus pais. A fotografia explora a terra vermelha do interior da China e se apóia nas belas paisagens para enquadrar a narrativa da misteriosa garota.

O diretor Xiao Jiang utiliza o conto para tocar em assuntos polêmicos como o preconceito com a mãe solteira, o machismo e a intolerância ao que é diferente. Os trabalhadores da cidade dizem amar o regime comunista, todos são iguais, mas a inveja e a cobiça são sentimentos enraizados em qualquer sociedade.

Jiang começou como roteirista criando programas de televisão e dirigiu três telefilmes antes de se aventurar na direção de um longa-metragem. O roteiro desenha uma história bem contada que perde um pouco o ritmo lá pelos 50 minutos de projeção, mas se recupera a tempo de ser agraciado com as já citadas palmas.

Sombras elétricas (Meng ving tong nian)

China, 2004. 95 minutos

Direção: Xiao Jiang

Elenco: Jiang Yihong, Xia Yu, Qi Zhongyang, Li Haibin