A Margem da Linha

Para quê serve a arte? Essa pergunta encerra o documentário de Gisella Callas sobre a arte contemporânea e pode ser usada para abrir esse texto: para quê serve um filme sobre arte? A margem da linha (2009) percorre os caminhos da criação artística, debate a relação obra-autor e levanta temas polêmicos e atuais como a crescente supervalorização da figura do curador.

Gisella entrevistou artistas, críticos, curadores, historiadores, sociólogos, arquitetos, filósofos e até um físico quântico ordenado Lama Budista. Existe mesmo diferença entre a Arte Moderna e Contemporânea? O museu ainda é um lugar sagrado ou o espaço não importa mais? Podemos chamar tudo de arte? Questões como essas são abordadas de forma direta pelos especialistas.

Num primeiro olhar, podemos supor que a diretora faria um documentário didático sobre a arte e sua importância, mas é uma agradável surpresa perceber que esse caminho foi evitado. Não que um filme explicativo sobre a arte contemporânea seja desnecessário, nada disso, mas já que Callas está assinando seu primeiro trabalho em longa-metragem que fosse, ao menos, autoral.

Regina Silveira

É possível perceber que A margem da linha foi concebido com duas preocupações: não ser inacessível ao leigo e não ser monótono ao público alvo. Os créditos nos entrevistados são mantidos até os primeiros vinte minutos e a divisão do tema em tópicos permite debater e, ao mesmo tempo, esclarecer pontos pouco comuns para os “não entendidos em arte”. O documentário utiliza a fala de três artistas plásticos brasileiros como fio condutor, mas não se restringe a focar apenas nas obras de Regina Silveira, Sergio Sister e José Spaniol.

As questões são divididas em seis partes e a montagem constrói o discurso partindo do superficial, do genérico para depois aprofundar. A presença de personagens que fogem ao círculo característico das artes plásticas funciona como forma de tirar a discussão do abstrato e dar outro ângulo à questão. Podemos estranhar um budista analisando conceitos de arte, mas o Lama Padma Samten contribui com comentários precisos e bem-humorados.

É preciso destacar a fotografia de Carlos Ebert que se adapta a cada entrevistado e consegue moldar um enquadramento que combina com o estilo de cada artista. Um trabalho difícil e sensível, mas fundamental num filme como esse. A luz é recortada, rebatida, refletida num visível esforço para recriar o ambiente de trabalho do ateliê e descolar a figura em primeiro plano do fundo composto pelas obras, ou seja, uma metáfora visual que se encaixa na proposta do filme.

Artista e ateliê. Inspiração e intuição. Arte e espetáculo. Obra e espaço. A margem da linha não esgota o tema, não entrega respostas prontas, ao contrário, aguça a curiosidade e convida o espectador a adquirir um olhar mais inquieto sobre a arte contemporânea brasileira.

A Margem da Linha

Brasil, 2009. 96 minutos

Direção: Giselle Callas

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2 Respostas to “A Margem da Linha”

  1. ronaldo Says:

    (Como a internet aqui caiu, vou escrever de novo)

    E como temos acesso ao filme? Locadora? Empréstimo? Torrent?

    • christianjafas Says:

      Fala Ronaldo,

      o filme entrou em cartaz no ano passado, 23 de outubro, e deve ser lançado em DVD.

      Numa rápida olhada na internet vi que existem várias páginas para download.

      Um abraço,

      Jafas

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