Archive for março \22\UTC 2010

Cildo

22/03/2010

Registrar, documentar, arquivar, eternizar, ações usualmente associadas ao cinema documentário. A função do diretor ao lidar com o cotidiano por vezes se confunde com a de um historiador, um jornalista, e essa confusão é prejudicial tanto para o cineasta quanto para a obra a ser feita. Cildo (Cildo, 2008) faz um recorte na carreira do artista plástico Cildo Meireles sem utilizar críticos especializados, eliminando o excesso de explicações e dessa opção surge um filme que mais pergunta do que responde.

O diretor Gustavo Rosa de Moura acompanhou o artista durante quatro anos de forma fragmentada e estabeleceu uma relação que acabou sendo absorvida pela montagem e se mostrando ideal para a condução da narrativa. Gustavo conseguiu achar o ritmo certo para intercalar entrevista e obra, algo difícil e raro nesse tipo de documentário.

Cildo Meireles costuma dizer que não gosta de microfones, é avesso às entrevistas, mas diante do aceite e com uma câmera em seu encalço resolve entrar no jogo. O artista relembra momentos da infância, correlaciona vida e obra, critica os críticos e até se dá ao luxo de pequenas brincadeiras: “Estou me sentindo o Eric Clapton aos 20 anos!”, diz olhando para a lente, após ser abordado na rua, em Londres, por um casal que lhe pede uma foto e elogia sua exposição no Tate Modern.

O espaçamento forçado das filmagens deve ter dado tempo para que Gustavo digerisse e processasse tanto as obras quanto o conteúdo das fitas, das entrevistas. A maturidade com que a câmera percorre as instalações de Cildo, aliada a uma montagem que concede o tempo exato para seja possível uma imersão nas imagens, é resultado de uma cumplicidade que não se conquista de uma hora para outra.

Cada obra exige um tempo de visualização e enquadramentos distintos. Os movimentos de câmera não são utilizados vulgarmente, os cortes não respeitam um ritmo predeterminado e sim o ritmo da obra, do artista, num esforço para transportar o público para dentro da instalação. A concepção pode ser simples e óbvia, e é, mas mesmo assim não é sempre que temos uma comunhão tão grande entre o objeto filmado e o resultado propriamente dito.

Cildo não se propõe a explicar o artista plástico Cildo Meireles, não revela a totalidade de sua obra, não é uma cinebiografia e não contextualiza o artista no panorama nacional ou mundial. Não, o filme não aborda questões existencialistas da criação artística ou responde aos segredos do universo. O diretor Gustavo Rosa de Moura fez um exercício cinematográfico tão simples e eficiente quanto incomum para esse tipo de documentário.

Cildo (Cildo)

Brasil 2008. 78 minutos

Direção: Gustavo Rosa de Moura

Anúncios

Beyond Ipanema: Ondas Brasileiras na Música Global

17/03/2010

Beyond Ipanema: Ondas Brasileiras na Música Global (Beyond Ipanema: Brazilian Waves in Global Music, 2009) navega pela história da música nacional sob a ótica do olhar estrangeiro. Qual o impacto do nosso som no resto do mundo? Existe uma sonoridade tipicamente brasileira? E que influências os nossos artistas absorveram? O que é World Music? Kurt Cobain utilizou elementos brasileiros nos álbuns do Nirvana, ou morreu antes disso? A música brasileira é a verdadeira World Music?

Os diretores Guto Barra e Béco Dranoff conversaram com mais de cinquenta artistas e críticos sobre essas e outras questões envolvendo a música nacional. O resultado é um trabalho instigante, divertido e até mesmo didático, mas que passa longe de assumir um ar professoral. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Roberto Menescal, Bebel Gilberto, Tom Zé, Seu Jorge, nomes que levaram a música nacional para o exterior e que em alguns casos fazem mais sucesso lá fora do que aqui.

Caetano diz que a música brasileira sempre foi fonte de inspiração

O documentário usa como base a relação do cantor/produtor David Byrne com o Brasil. Em 1988, Byrne cria o selo Luaka Bop, segundo ele dedicado ao som de todos os povos, e “descobre” o Tom Zé em suas andanças pelo país. Encantado, Byrne volta aos Estados Unidos e pergunta aos brasileiros quem é Tom Zé? As respostas deixam o músico mais intrigado ainda. Muitos dizem que Tom Zé não representa a música brasileira e que seria um absurdo relançar um disco do artista para o resto do mundo. “Temos coisas muito melhores lá!” Corta para:

Aqui, no Brasil, um Tom Zé desiludido, fazendo shows apenas para o público universitário, resolve abandonar a carreira e trabalhar num posto de gasolina que pertence a um tio. A entrevista de Tom Zé é uma das melhores do filme! A cena dele beijando o álbum que caiu nas mãos de Byrne – obra responsável pelo seu renascimento como artista – é impagável pela emoção e sinceridade.

Loja em Nova Iorque vende discos de vinil de artistas brazucas

Barra e Dranoff sabiam que seria impossível contar uma história tão longa e rica em apenas um filme e decidem – acertadamente – focar nos estilos e nas personalidades mais expoentes das diversas ondas que a música nacional produziu. Carmem Miranda, contestada por diversos críticos, recebe uma merecida releitura e é tratada como o marco zero da invasão brasileira nos Estados Unidos. Bossa Nova, Tropicália, Samba, Funk, o Brasil é visto como um oásis de ideias e ritmos que serve de inspiração constante para DJ´s e músicos ao redor do mundo.

Beyond Ipanema: Ondas Brasileiras na Música Global é uma massagem no ego nacional sem ser exageradamente ufanista. Barra e Dranoff fazem um filme coerente e equilibrado. A montagem, dinâmica e ritmada, deixa espaços para o público absorver as informações e seguir em frente, navegando nos diversos sotaques que partem do Rio, passam pela Bahia e vão até o Harlem encontrar uma escola de samba no coração de Nova Iorque. No fim, fica aquele pedido de “Mais um, mais um!”

Beyond Ipanema: Ondas Brasileiras na Música Global (Beyond Ipanema: Brazilian Waves in Global Music)

Brasil, EUA 2009. 87 minutos

Direção: Guto Barra e Béco Dranoff

Rock Brasileiro – História em Imagens

11/03/2010

Rodar um documentário percorrendo os cinquenta anos do rock brasileiro não é tarefa fácil, mas também não é a missão mais impossível do mundo. O diretor Bernardo Palmeiro se diz roqueiro de carteirinha! Beleza, tudo bem, mas e aí? Isso o credencia para dirigir um filme sobre o nosso Rock BR? Não sei a resposta, só sei que Palmeiro fez um trabalho pouco inspirado, sonolento e carente de ideias.

Rock Brasileiro – História em Imagens (Brazilian Rock – History in Imagens, 2009) é tão criativo quanto o título, e não se deixem enganar, as imagens devem ter ficado no HD da ilha de edição, já que é difícil achar um respiro no filme. As entrevistas são jogadas uma a uma numa colagem apressada e falsamente moderna. Palmeiro colheu uma série de conversas e depoimentos com expoentes da música brasileira, mas desperdiça esse material ao não dar ritmo e descanso à narrativa.

A versão final de setenta minutos poderia receber um acréscimo de pelo menos dez minutos de músicas e imagens, o que daria uma riqueza e equilíbrio à montagem. As diversas fases, transições e transformações que definem o rock nacional são apenas faladas, contadas, e não marcadas com exemplos audiovisuais. Tudo feito de uma forma muito simples, sem esmero algum. Parece que os produtores entendem tanto de rock que não se importaram em esboçar didaticamente essas passagens ao público.

Num raro lampejo de lucidez, vemos a canção “Mosca na Sopa” de Raul Seixas ser usada para definir o momento em que os artistas nacionais misturaram os elementos norte-americanos com as influências nordestinas e tipicamente tupiniquins. É nesse instante que nos lembramos de como o filme teria ficado interessante se fosse realizado com ousadia, uma dose de rebeldia e atitude, muita atitude. Definitivamente faltou atitude à direção e faltou também o Nelson Motta. Não tem como conceber um trabalho sobre o rock brasileiro sem gravar uma entrevista com o Nelson Motta.

O documentário mesmo com todos esses defeitos consegue estabelecer uma empatia com a platéia, mas isso se deve exclusivamente ao carisma dos entrevistados e à paixão que cerca o tema. Talvez, só talvez, o lugar de Bernardo Palmeiro, por ser um fã declarado e de carteirinha do rock nacional, devesse ser o de espectador e não o de condutor da obra. Mas como sabiamente disse Raul Seixas: “Tente outra vez!”

Rock Brasileiro – História em Imagens (Brazilian Rock – History in Images)

Brasil, 2009. 70 minutos

Direção: Bernardo Palmeiro

Sequestro

07/03/2010

É difícil explicar qual o sentimento predominante ao fim da exibição de Sequestro (Kidnapping, 2009) de Wolney Atalla. O documentário revela os bastidores e ações da DAS, Divisão Anti-sequestro de São Paulo e acompanha o dia-a-dia de policiais e  familiares durante as investigações. Entre 2006 e 2009, a equipe de Atalla registrou o trabalho até então secreto e cercado de mistério da DAS. Nesse período de quatro anos quase quatrocentas pessoas foram sequestradas na capital paulista.

Anderson Silva, Liliane Ramos, Wellington Camargo e outras vítimas que pediram para não serem identificadas, mas que tiveram a coragem de falar para a câmera, tentam explicar de maneira racional como se dá o rapto, o que acontece no cativeiro e qual o sentimento quando ouvem o grito: “Polícia! Tá na mão! Tá na mão!” – expressão usada pelos agentes da DAS que significa o fim da ação. Palavras não conseguem dar a dimensão exata do que essas pessoas passaram, por isso, Wolney opta por deixar as imagens tomarem a dianteira na narrativa.

O filme já seria surpreendente por revelar com detalhes os métodos tanto de criminosos quanto da inteligência da DAS, mas a câmera de Dario Dezem – num trabalho tão eficiente quanto corajoso – nos leva para dentro do jogo de rato-e-gato que se transforma a investigação. De forma inédita, vemos o estouro do cativeiro e a libertação de um refém que ainda não acredita no que está acontecendo e demora longos e angustiantes segundos até perceber que está a salvo.

Wolney Atalla evita banalizar as situações e utiliza com minimalismo os recursos de edição e trilha sonora, seria fácil perder o tom e transformar uma cena forte e impactante em “novela das oito. O diretor percebe que a matéria-prima necessária para a realização da obra é bruta, quase natural e que seria um erro tentar enfeitar ou lapidar as imagens e depoimentos.

Outro grande acerto de Atalla foi realizar uma montagem direta, dividida em blocos e que utiliza como fio condutor um caso de sequestro que a equipe registra do início ao fim. Durante os 94 minutos de exibição vemos o sofrimento da família do empresário raptado e, em paralelo, o que outras vítimas passaram nessa mesma situação. Uma edição enxuta, que move o filme em linha reta e torna impossível desviar a atenção da trama.

Após o fim do sequestro, já em casa, o empresário tenta racionalizar o que passou. Tentativa inútil. Ele não consegue verbalizar, assim como outras vítimas que se calam no meio da explicação. Ao fim da sessão, com as luzes acessas, ainda demoramos um pouco para absorver o que está à nossa volta. Definir em poucas palavras o impacto do filme de Wolney Atalla também se mostra uma tentativa inútil.

Sequestro (Kidnapping)

Brasil, 2009. 94 minutos

Direção: Wolney Atalla

Penas Alternativas

01/03/2010

Penas Alternativas (Avoiding Jail, 2008), primeiro longa-metragem de Lucas Margutti e João Valle, debate a crise do sistema penitenciário brasileiro. Tendo como ponto de partida a cidade de Bauru, no interior de São Paulo, onde as penas estão sendo aplicadas em parceria com a ONG Patronato Professor Damásio de Jesus Evangelista, os diretores entrevistaram detentos e magistrados na tentativa de fazer uma leitura que refletisse as estatísticas.

O patronato, criado em 1997, fiscaliza os sentenciados na execução da pena alternativa em Bauru. O índice de reincidência criminal de detentos em regime fechado gira em torno de 70%, seja em países em desenvolvimento, como o Brasil, ou em países ricos, como a Dinamarca. De 1997 a 2005, a cidade do interior paulista registrou apenas seis casos de reincidência criminal entre os seiscentos apenados inscritos no sistema alternativo. O custo médio da manutenção de um detento no sistema carcerário varia de R$ 700,00 a R$ 2.000,00. Organizar e fiscalizar o cumprimento da pena alternativa em Bauru custa aproximadamente trinta reais por apenado, segundo o patronato. Mas porque esse sistema não é implantado em todo o país?

Essa é a questão que norteia o trabalho de Lucas Margutti e João Valle. A falta de uma estrutura fiscalizadora e o preconceito da sociedade civil são apontados como principais elementos que dificultam a proliferação do sistema no Brasil. Apesar de defender abertamente a maior implantação das penas alternativas, o documentário se mostra tímido na condução do debate.

O filme adota um tom didático e professoral que atinge dois objetivos: instruir superficialmente e cansar o público. As entrevistas são longas e muitas vezes repetitivas, e ao optar por uma montagem linear, evitando intercalar os personagens, a direção – talvez por inexperiência ou comodismo – faz com que o ritmo normalmente lento dos magistrados afete todo o andamento do filme.

A pesquisa de imagens de cobertura, ou de apoio, é fraca ou inexistente e a excessiva repetição de uma cena, ou imagem, acaba se revelando mais uma fragilidade da edição do que um recurso estético. A fotografia das entrevistas é tão estéril e austera quanto o discurso dos entrevistados. Juízes, advogados, promotores, presos, todos recebem o mesmo tratamento da câmera e a monotonia visual prejudica a transmissão da mensagem. Mesmo os personagens engraçados ou espirituosos, responsáveis por dar um alívio, um ar ao filme, perdem força entre falas arrastadas e imagens pessimamente fotografadas. O distanciamento do espectador acaba sendo inevitável.

Se o preconceito da sociedade civil se baseia no desconhecimento de causa e na falta de informação, Penas Alternativas falha em estabelecer um contato com o público e transmitir de forma simples e direta o assunto. Levar o problema do sistema penitenciário brasileiro às telas se faz necessário, já que normalmente esse debate é restrito ao meio acadêmico e judiciário, e por isso mesmo é uma pena que Margutti e Valle tenham se mantido presos a essa estética rígida desperdiçando a oportunidade de fazer uma obra alternativa, uma obra de referência.

Penas Alternativas (Avoiding Jail)

Brasil, 2008. 71 minutos

Direção: Lucas Margutti e João Valle