Sequestro

É difícil explicar qual o sentimento predominante ao fim da exibição de Sequestro (Kidnapping, 2009) de Wolney Atalla. O documentário revela os bastidores e ações da DAS, Divisão Anti-sequestro de São Paulo e acompanha o dia-a-dia de policiais e  familiares durante as investigações. Entre 2006 e 2009, a equipe de Atalla registrou o trabalho até então secreto e cercado de mistério da DAS. Nesse período de quatro anos quase quatrocentas pessoas foram sequestradas na capital paulista.

Anderson Silva, Liliane Ramos, Wellington Camargo e outras vítimas que pediram para não serem identificadas, mas que tiveram a coragem de falar para a câmera, tentam explicar de maneira racional como se dá o rapto, o que acontece no cativeiro e qual o sentimento quando ouvem o grito: “Polícia! Tá na mão! Tá na mão!” – expressão usada pelos agentes da DAS que significa o fim da ação. Palavras não conseguem dar a dimensão exata do que essas pessoas passaram, por isso, Wolney opta por deixar as imagens tomarem a dianteira na narrativa.

O filme já seria surpreendente por revelar com detalhes os métodos tanto de criminosos quanto da inteligência da DAS, mas a câmera de Dario Dezem – num trabalho tão eficiente quanto corajoso – nos leva para dentro do jogo de rato-e-gato que se transforma a investigação. De forma inédita, vemos o estouro do cativeiro e a libertação de um refém que ainda não acredita no que está acontecendo e demora longos e angustiantes segundos até perceber que está a salvo.

Wolney Atalla evita banalizar as situações e utiliza com minimalismo os recursos de edição e trilha sonora, seria fácil perder o tom e transformar uma cena forte e impactante em “novela das oito. O diretor percebe que a matéria-prima necessária para a realização da obra é bruta, quase natural e que seria um erro tentar enfeitar ou lapidar as imagens e depoimentos.

Outro grande acerto de Atalla foi realizar uma montagem direta, dividida em blocos e que utiliza como fio condutor um caso de sequestro que a equipe registra do início ao fim. Durante os 94 minutos de exibição vemos o sofrimento da família do empresário raptado e, em paralelo, o que outras vítimas passaram nessa mesma situação. Uma edição enxuta, que move o filme em linha reta e torna impossível desviar a atenção da trama.

Após o fim do sequestro, já em casa, o empresário tenta racionalizar o que passou. Tentativa inútil. Ele não consegue verbalizar, assim como outras vítimas que se calam no meio da explicação. Ao fim da sessão, com as luzes acessas, ainda demoramos um pouco para absorver o que está à nossa volta. Definir em poucas palavras o impacto do filme de Wolney Atalla também se mostra uma tentativa inútil.

Sequestro (Kidnapping)

Brasil, 2009. 94 minutos

Direção: Wolney Atalla

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4 Respostas to “Sequestro”

  1. 12deoliveira4 Says:

    Um filme de 2009 e que ainda não está disponível para o grande público?!
    Pode ser um grande filme, mas em termos de divulgação e acessibilidade é (com o perdão da palavra) uma grande merda.

    • christianjafas Says:

      Nossa, que falta de educação…

      A distribuição no nosso país é um dos principais problemas encontrados pelos cineastas.

      Fazer um filme, na Era Digital e com os incentivos fiscais, até que não é uma missão impossível, mas distribuir…

      As salas, concentradas nos shoppings, estão cheias de filmes norte-americanos e o documentário nacional acaba restrito aos festivais.

      A TV é um caminho de escoamento da produção, mas não é a tela grande.

  2. Dario Dezem Says:

    Christian, muito obrigado por suas palavras.
    E parabéns pelo seu trabalho.
    Abraços
    Dario Dezem

    • christianjafas Says:

      Olá Dario,

      vi o filme no Festival do Rio do ano passado e tive a oportunidade de escrever sobre ele.

      Sei que é uma obra difícil e que exigiu muito de vocês, mas o resultado final é impressionante.

      Um grande abraço,

      Christian

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