Cildo

Registrar, documentar, arquivar, eternizar, ações usualmente associadas ao cinema documentário. A função do diretor ao lidar com o cotidiano por vezes se confunde com a de um historiador, um jornalista, e essa confusão é prejudicial tanto para o cineasta quanto para a obra a ser feita. Cildo (Cildo, 2008) faz um recorte na carreira do artista plástico Cildo Meireles sem utilizar críticos especializados, eliminando o excesso de explicações e dessa opção surge um filme que mais pergunta do que responde.

O diretor Gustavo Rosa de Moura acompanhou o artista durante quatro anos de forma fragmentada e estabeleceu uma relação que acabou sendo absorvida pela montagem e se mostrando ideal para a condução da narrativa. Gustavo conseguiu achar o ritmo certo para intercalar entrevista e obra, algo difícil e raro nesse tipo de documentário.

Cildo Meireles costuma dizer que não gosta de microfones, é avesso às entrevistas, mas diante do aceite e com uma câmera em seu encalço resolve entrar no jogo. O artista relembra momentos da infância, correlaciona vida e obra, critica os críticos e até se dá ao luxo de pequenas brincadeiras: “Estou me sentindo o Eric Clapton aos 20 anos!”, diz olhando para a lente, após ser abordado na rua, em Londres, por um casal que lhe pede uma foto e elogia sua exposição no Tate Modern.

O espaçamento forçado das filmagens deve ter dado tempo para que Gustavo digerisse e processasse tanto as obras quanto o conteúdo das fitas, das entrevistas. A maturidade com que a câmera percorre as instalações de Cildo, aliada a uma montagem que concede o tempo exato para seja possível uma imersão nas imagens, é resultado de uma cumplicidade que não se conquista de uma hora para outra.

Cada obra exige um tempo de visualização e enquadramentos distintos. Os movimentos de câmera não são utilizados vulgarmente, os cortes não respeitam um ritmo predeterminado e sim o ritmo da obra, do artista, num esforço para transportar o público para dentro da instalação. A concepção pode ser simples e óbvia, e é, mas mesmo assim não é sempre que temos uma comunhão tão grande entre o objeto filmado e o resultado propriamente dito.

Cildo não se propõe a explicar o artista plástico Cildo Meireles, não revela a totalidade de sua obra, não é uma cinebiografia e não contextualiza o artista no panorama nacional ou mundial. Não, o filme não aborda questões existencialistas da criação artística ou responde aos segredos do universo. O diretor Gustavo Rosa de Moura fez um exercício cinematográfico tão simples e eficiente quanto incomum para esse tipo de documentário.

Cildo (Cildo)

Brasil 2008. 78 minutos

Direção: Gustavo Rosa de Moura

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