Cidadão Boilesen

Quem foi Henning Boilesen? Você já ouviu falar desse nome? Com perguntas inocentes, comuns ao telejornalismo, uma equipe que parece ser de TV aborda moradores e transeuntes na Rua Henning Boilesen, no bairro de Jaguaré, zona oeste da cidade de São Paulo. Na velha placa de rua apenas os dizeres: “Administrador de empresas”.

Na sequência, simpáticos velhinhos relatam a camaradagem de Boilesen, seu amor pelo Brasil, pela caipirinha, pelas mulatas e pelo Palmeiras. Temos aí uma pista, o executivo é estrangeiro e ama o nosso país, é quase um brasileiro. A equipe parte para a Dinamarca, terra natal de Boilesen, procura amigos, parentes e vai até a escola buscar os boletins do aluno. Mas qual o interesse nesse tal de Henning Albert Boilesen? O que ele fez de importante para merecer um filme?

Mulherengo, galanteador e apaixonado pelo Palmeiras

Cidadão Boilesen (Citizen Boilesen, 2009) revela a verdadeira face do executivo dinamarquês que desembarcou pobre no Brasil, chegou à presidência do poderoso Grupo Ultra, dono de diversas empresas como a Ultragaz, e que foi assassinado em 15 de abril de 1971, no bairro dos Jardins, em São Paulo. O documentário entrevista militares, policiais, empresários, políticos e membros dos grupos de esquerda que lutavam contra a ditadura militar imposta pelo Golpe de 64.

Falar de Henning Boilesen é relembrar eventos que foram “varridos para debaixo do tapete” após a volta do regime democrático ao país. Se os presos políticos e exilados receberam a anistia plena do governo federal, por outro lado, militares e agentes do DOI-Codi foram agraciados com o esquecimento da mídia, da justiça e da sociedade.

A participação de empresários e da elite paulistana na instalação do principal equipamento de tortura e repressão da ditadura, a Operação Bandeirante, conhecida como Oban, é dos tabus mais incômodos da recente democracia brasileira.

Sorridente, brincalhão e figura cativa nos porões da ditadura

O filme de Chaim Litewski faz um trabalho de pesquisa primoroso, recolhe documentos preciosos, conversa com pessoas que viveram os fatos e vai reconstruindo a figura apagada e nebulosa de Boilesen. A edição vai intercalando as entrevistas e temos a impressão de ver uma cebola sendo descascada, cada camada abre uma porta e nos leva aos recantos mais secretos dos porões da ditadura.

Mulherengo. Charmoso. A cara do Kirk Douglas. Extremamente amável. Contato da CIA. Amigo dos generais. O responsável por levantar fundos para a Oban. O gringo que participava das torturas. O inventor da “pianola boilesen”. Frequentador assíduo do DOI-Codi. Quem era Henning Albert Boilesen? O que ele fez para ter uma rua com seu nome? O que ele fez de importante para merecer um filme? Essas talvez sejam as perguntas erradas. Por que eu nunca ouvi esse nome antes? Por que esses eventos não estão nos livros escolares? Por que a Operação Bandeirante não foi tema de novela? Essas sim são perguntas interessantes.

O inventor da Pianola Boilesen: um terrível instrumento de tortura

Cidadão Boilesen (Citizen Boilesen)

Brasil, 2009. 93 minutos

Direção: Chaim Litewski

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