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Olhos Azuis

25/05/2010

Preconceito sm. 1. Ideia preconcebida. 2. Suspeita, intolerância, aversão a outras raças, credos, religiões, etc.

A definição dada pelo Dicionário Aurélio parece simplista ao primeiro olhar, mas as poucas palavras utilizadas são precisas, diretas e garantem um significado inequívoco para o termo. Olhos Azuis, oitavo longa-metragem de José Joffily, também possui essa rara qualidade e consegue transpor para a película, com exatidão, os sentimentos de quem um dia aprendeu o sentido do vocábulo sem ter que procurar no dicionário.

O ponto de partida para a análise que Joffily propõe parece ter saído de um filme de ação norte-americano, mas tiros e explosões são desnecessários aqui. Marshall (David Rasche), chefe do Departamento de Imigração do Aeroporto JFK, em Nova Iorque, celebra o último dia de trabalho, antes da aposentadoria forçada, incomodando um grupo de latino-americanos que ainda sonham com a terra prometida pelo Tio Sam. O incômodo que os latinos sofrem na sala de espera do aeroporto transcende a tela e recaí sobre os expectadores que, impassíveis como os personagens, compartilham das humilhações e agressões.

Imagem síntese do filme: o brasileiro entre a liberdade e as garras da águia

Para atingir esse estágio de interação com a platéia, José Joffily utiliza metáforas audiovisuais, um elenco forte e o recurso da montagem paralela. Vemos a trama ser revelada aos poucos, lentamente, passo a passo, enquanto nos aprofundamos na construção dos personagens. A montagem paralela nos leva a antever os acontecimentos e a julgar antes da hora, do mesmo modo que os oficiais da imigração fazem quando precisam decidir quem entra nos Estates e quem pega o avião de volta para seu país de origem.

A escolha por esse estilo de edição se mostra mais do que acertada, já que também permite aos atores coadjuvantes brilharem nos seus momentos em cena. Cada microuniverso que a narrativa constrói possui tensão e conflito na mesma escala da trama principal e esses elementos somados contribuem para a sensação de incômodo que atravessa a projeção do início ao fim.

O gringo (David Rasche) perdido e à espera de um anjo (Cristina Lago)

O roteiro é dividido em camadas que apresentam duas realidades distintas, mas que irão percorrer caminhos paralelos até a inevitável fusão. A relação entre Marshall e o brasileiro Nonato, interpretado magistralmente por Irandhir Santos, é o fio condutor da história. Quando Marshall deixa de ser “O Chefe” para ser “O Gringo” a perspectiva muda e a relação dele com a prostituta Bia (Cristina Lago) estabelece uma segunda realidade no filme. A alternância entre essas duas realidades ora imprime um ritmo de road movie, ora de suspense impedindo que o expectador se acomode e evitando que o desfecho seja facilmente revelado.

Olhos Azuis foi o grande vencedor do Festival de Paulínia 2009 conquistando o troféu Menina de Ouro nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem, Melhor Atriz (Cristina Lago), Melhor Ator Coadjuvante (Irandhir Santos) e Melhor Som. O desafio agora é conseguir ultrapassar as barreiras impostas por outra forma de preconceito.

Brasil, paraíso dos gringos: cachaça e puta a preço de banana

O filme será lançado nesta sexta, 28 de maio, e dividirá as salas de cinema com os blockbusters do verão norte-americano. A invasão dos ‘olhos azuis’ em terras tupiniquins começou com Homem de Ferro 2, Robin Hood, Fúria de Titãs e na próxima semana teremos a estréia de Príncipe da Pérsia – adaptação do famoso joguinho da década de 80. Não seria o caso de utilizarmos o mesmo discurso de qualquer fiscal da alfândega norte-americana: “Vocês entram aqui, pegam nossos empregos, ganham dinheiro, mandam para seus países e nós, como ficamos?”

Sem apelar para o nacionalismo exacerbado podemos dizer que nós temos escolhas e uma delas é ver o ótimo trabalho de José Joffily na tela grande. Não deixe para ver em DVD. A elaborada fotografia de Nonato Estrela e a inquietante trilha sonora de Jaques Morelenbaum esperam por você.

Olhos Azuis (Blue eyes)

Brasil, 2009. 111 minutos

Direção: José Joffily

Elenco: David Rasche, Irandhir Santos e Cristina Lago

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Pelé Eterno

17/05/2010

Em ano de Copa do Mundo a polêmica é a mesma: a seleção não é a ideal, o Brasil tem que entrar como favorito, surge aquele craque de última hora e sempre tem o Pelé dando opinião sobre tudo e sobre todos. E se é para falar de Pelé, bem, eu prefiro falar do jogador Pelé e não do comentarista Pelé, pois como definiu Romário: “O Pelé calado é um poeta.”

O documentário Pelé Eterno de Aníbal Massaini foi lançado nos cinemas em 2004 e vendeu a ideia de ser o filme definitivo sobre o Rei do Futebol, mas passa longe disso. A abertura extremamente brega já anunciava o estilo de condução do filme. Existem 1001 maneiras de se fazer uma abertura de um documentário sobre Pelé, e não é que eles escolheram justamente a que não deveria ser sequer cogitada!

Outro ponto negativo foi a escolha dos entrevistados. Poucos craques falaram, poucos jornalistas esportivos foram procurados, e até grandes jogadores de hoje ficaram de fora. Nilton Santos, Zico, Juca Kfouri, Bebeto, Zagallo, Carlos Alberto Parreira, Ronaldo, o que eles diriam sobre Pelé? Vamos ficar sem saber.


O Rei e a querida Jules Rimet

Assisti ao filme nos cinemas, as jogadas de Pelé ficam sensacionais na tela grande, e comprei o DVD, mas nunca coloquei no meu aparelho para tocar. Esse é o tipo de filme que deve ser visto com os amigos (que gostem de futebol, é claro!), regado a cervejinha e muita discussão.

Quem era melhor, Pelé ou Garrincha? O Pelé marcaria mil gols hoje em dia? A preparação física tornou o futebol previsível? Onde estão os pontas que encantaram gerações?

Claro que essas questões não aparecem no filme de Massaini, que é centrado na figura de Pelé, mas estão por ali, rondando como pano de fundo entre os golaços inesquecíveis. É uma pena que o diretor não tenha fugido um pouco dessa linha, pois em alguns momentos ficamos com a impressão de ver um grande institucional pago pelo Edson Arantes do Nascimento.

Para falar do camisa 10 do Santos temos que contextualizar o futebol da época e para isso seria preciso falar dos craques que ajudaram o menino de Bauru a se transformar no Atleta do Século.


Menino Edson assinando um pré-contrato?

Na Copa de 58 os gols de Vavá, os lançamentos de Didi, a técnica de Nilton Santos e os dribles de Mané foram tão importantes quantos os gols de Pelé. Didi foi eleito o Craque da Copa e recebeu o apelido de Mr. Football pela imprensa internacional.

A Copa de 62 foi ganha sem Pelé. Dizem que Mané Garrincha só faltou fazer chover nesse mundial. A base era a mesma daquela equipe que encantou a Suécia em 58: Djalma Santos, Nilton Santos, Zito, Didi, Zagallo, Vavá, Mané e Amarildo no lugar do Rei.

Até mesmo o Santos jogou a final do Mundial Interclubes, em 63, contra o Milan sem Pelé. E venceu duas partidas aqui no Maracanã. Nada disso apaga o valor das diversas condecorações que Pelé recebeu. Ele é o maior jogador de futebol de todos os tempos, ele é o Atleta do Século. Mas ele não chegou lá sozinho e sabe disso.


Bola na rede e o famoso soco no ar

Pelé Eterno é obrigatório. Obrigatório para a nova geração que acha Romário-melhor-que-Pelé, obrigatório para os jovens da década de 60 matarem a saudade do Rei, e ainda obrigatório para estudantes de cinema. Ah, como eu gostaria de editar os gols do Pelé. Na verdade não é preciso criar muito, ele já fez isso. As jogadas são tão cinematográficas que parecem ensaiadas.

Vendo as imagens em preto e branco, desgastadas, sujas, arranhadas, não resta dúvida! Não existe e não vai existir outro jogador como Pelé. É fato. E antes que pensem em Maradona… Vou terminar com uma frase do próprio Pelé: “Antes do Maradona chegar ao Pelé ele vai ter que pedir licença aos outros craques inquestionáveis do nosso futebol. Primeiro ao Mané, depois vem o Didi, aí o Leônidas…”.

Pelé Eterno

Brasil, 2004, 120 min

Direção: Aníbal Massaini

Zelito Viana apresenta Terra em Transe

14/05/2010