Archive for julho \29\UTC 2010

Intruso

29/07/2010

O mérito do diretor Paulo Fontenelle foi convencer um grande elenco a embarcar na viagem de Intruso (The Guest, 2009), seu primeiro longa-metragem. Atores experientes como Lu Grimaldi e Genésio de Barros, ou globais como Eriberto Leão, Danton Mello e Juliana Knust acreditaram no texto e aceitaram o desafio de serem dirigidos por um estreante.

Mas será que podemos chamar Paulo Fontenelle de estreante? Fontenelle dirigiu e roteirizou os documentários “Evandro Teixeira – Instantâneos da Realidade” (2004) e “Sobreviventes – Filhos da Guerra de Canudos” (2007). Além de ser sócio da produtora Canal Imaginário, Paulo trabalhou com nomes consagrados do cinema nacional como Luís Carlos Barreto e Nelson Pereira dos Santos.

A história de Intruso é cercada de mistério. Seria muita covardia esmiuçar a trama e revelar pontos que o diretor tentou esconder até o fim. Mas é possível dizer que este é um filme diferente, quase uma ficção-científica, quase. Os diálogos mereciam um cuidado especial, o texto segura a tensão, mas em alguns momentos a repetição do assunto e até mesmo a falta de assunto chega a incomodar. Um elenco tão bom merecia diálogos mais lapidados.

Eriberto Leão não costuma fazer cinema, participou de apenas três filmes em treze anos de carreira e todos em 2008. Os trabalhos na TV e no teatro são mais frequentes: foram nove telenovelas, seis minisséries e seis peças. Eriberto não costuma fazer cinema, mas deveria. Seu personagem é obscuro e de poucas falas, porém isso não o impede de dominar a cena e concentrar as atenções mesmo diante de um time tão bom de atores. Danton Mello é outro que merece destaque, faz um papel secundário com segurança e ajuda a dar coesão a um filme que depende do roteiro e de seus atores.

O ponto negativo do trabalho de Paulo Fontenelle, que disse ter desembolsado apenas dez mil reais para fazer o filme, é a edição de som ou a captação do áudio. Na verdade, esses dois fatores estão interligados. Uma péssima captação na filmagem só é ajustada com muito trabalho na ilha de edição e isso significa custo, ou seja, dinheiro.

Em alguns momentos o som ambiente está tão alto que incomoda, quebra a magia e nos joga para fora do filme. Numa cena onde os atores estariam teoricamente tramando, conspirando e assim falando num tom de voz mais baixo do que o normal, nós ouvimos tudo no mesmo volume da cena anterior e também da próxima. Não me pareceu ser um exercício ou até mesmo um estilo de montagem.

Intruso apresenta esses e outros pequenos contratempos, mas apresenta também uma história nova, uma tentativa de trilhar um caminho diferente para as produções nacionais de ficção, uma ousadia. Paulo Fontenelle explicou que não houve tempo para fechar a edição de áudio e que a cópia exibida no Festival do Rio 2009 realmente apresentava problemas de finalização. Uma pena já que uma janela de exibição tão interessante como a do festival carioca foi desperdiçada.

Intruso (The Guest)

Brasil, 2009. 80 minutos

Direção: Paulo Fontenelle

Com: Eriberto Leão, Danton Mello, Lu Grimaldi e Juliana Knust

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Imagens do novo Thor

16/07/2010

A adaptação do personagem da Marvel tem a direção de Kenneth Branagh e roteiro de Mark Protosevich, Zack Stentz e Don Payne. No elenco estão Chris Hemsworth (Thor), Anthony Hopkins (Odin), Jaimie Alexander (Lady Sif) e Tom Hiddleston (Loki).

Thor tem a estreia prevista para 6 de maio de 2011.

Anthony Hopkins faz pose de todo-poderoso e encarna Odin

Reidy, A Construção da Utopia

06/07/2010

Affonso Eduardo Reidy nasceu na França, em Paris, em 1909, mas seu nome está marcado de forma indelével na história de outra cidade tão famosa quanto a capital francesa. Reidy foi diretor do Departamento de Urbanismo do Rio de Janeiro, coordenou a radical transformação que modificou o centro do Distrito Federal no fim da década de 40 e foi um dos pioneiros do brutalismo arquitetônico no Brasil. O projeto do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1953, foi o primeiro em concreto aparente do país.

Reidy, A Construção da Utopia (Reidy, Building Utopia, 2008) faz tanto uma análise minuciosa da carreira do arquiteto quanto uma homenagem merecida ao homem que projetou e desenhou um dos símbolos da carioquice, o Aterro do Flamengo. Em 2005, Ana Maria Magalhães dirigiu o documentário para TV “Reidy, Saudades do Futuro” e percebeu que a linguagem televisiva não era a ideal para seus propósitos.

Ana resolveu dar outro olhar para o material, evitando o excesso de informação e assim assumindo uma abordagem menos didática. O novo filme pode não ter as informações básicas sobre o arquiteto, mas procura mergulhar fundo nos seus textos e pensamentos – que sempre foram vistos como utópicos.

Ana Maria contou com o olhar de Dib Lufti para fotografar o documentário

A cineasta tem uma ligação afetiva com o personagem, já que Carmem Portinho, companheira de Reidy na vida pessoal e profissional, era sua tia. Carmem, além de ser engenheira da prefeitura, era a diretora da Revista Municipal de Engenharia do Distrito Federal e uma das principais divulgadoras do trabalho do urbanista no Brasil e no mundo.

A engenheira lidera a lista de entrevistados que esmiúçam o trabalho e a utopia de Reidy. Ana conversou ainda com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, com Roland Castro, fundador do Movimento de Utopia Concreta (MUC) e candidato à presidência da França em 2007, e colheu um raro depoimento de Lúcio Costa.

A montagem privilegia o discurso, mas não deixa de abrir espaços para a contemplação dos projetos, maquetes e das obras acabadas. Mesmo com a intenção de fugir do tom professoral, Ana nos permite vislumbrar e entender as diferenças entre o que estava no projeto elaborado por Reidy e que o foi aprovado e construído pelo governo. Na tentativa de ilustrar e evitar o uso simplista da narração, a diretora introduz um ator para ler os manuscritos deixados pelo urbanista. Um toque ficcional que não brigou com a estética proposta para o filme e ainda trouxe um ar nostálgico e poético.

O Conjunto Habitacional Pedregulho é um marco na carreira de Reidy

Reidy projetou o Aterro e o Parque do Flamengo, o MAM/RJ e participou da equipe de criação do Ministério da Educação e Saúde, marco fundamental na história da arquitetura moderna brasileira. Mas sua principal contribuição para a arquitetura foram os projetos de habitação social. O Conjunto Habitacional Pedregulho, construído em 1946, e o Conjunto Marquês de São Vicente, inacabado desde 1952, ganharam reconhecimento internacional e recebem a visita de estudantes de arquitetura do mundo todo.

Ana Maria tinha duas grandes preocupações antes de fazer o filme, a primeira era debater o caráter utópico das obras de Reidy – desculpa dada por críticos e pelo governo para a não realização completa de muitos de seus trabalhos, e a segunda era assegurar que o nome do arquiteto fosse definitivamente associado ao projeto do Aterro do Flamengo. “O Aterro é do Niemeyer, é do Carlos Lacerda, é do Burle Marx, o Reidy quase nunca é citado. Ele já sonhava em fazer esse parque desde os anos 30, desde o morro do Castelo. Era preciso falar sobre isso.”

Reidy, A Construção da Utopia traça um paralelo entre homem e obra com precisão matemática.

Reidy, A construção da utopia (Reidy, Building Utopia)

Brasil, 2008. 77 minutos

Direção: Ana Maria Magalhães

Fotografia: Dib Lufti