Reidy, A Construção da Utopia

Affonso Eduardo Reidy nasceu na França, em Paris, em 1909, mas seu nome está marcado de forma indelével na história de outra cidade tão famosa quanto a capital francesa. Reidy foi diretor do Departamento de Urbanismo do Rio de Janeiro, coordenou a radical transformação que modificou o centro do Distrito Federal no fim da década de 40 e foi um dos pioneiros do brutalismo arquitetônico no Brasil. O projeto do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1953, foi o primeiro em concreto aparente do país.

Reidy, A Construção da Utopia (Reidy, Building Utopia, 2008) faz tanto uma análise minuciosa da carreira do arquiteto quanto uma homenagem merecida ao homem que projetou e desenhou um dos símbolos da carioquice, o Aterro do Flamengo. Em 2005, Ana Maria Magalhães dirigiu o documentário para TV “Reidy, Saudades do Futuro” e percebeu que a linguagem televisiva não era a ideal para seus propósitos.

Ana resolveu dar outro olhar para o material, evitando o excesso de informação e assim assumindo uma abordagem menos didática. O novo filme pode não ter as informações básicas sobre o arquiteto, mas procura mergulhar fundo nos seus textos e pensamentos – que sempre foram vistos como utópicos.

Ana Maria contou com o olhar de Dib Lufti para fotografar o documentário

A cineasta tem uma ligação afetiva com o personagem, já que Carmem Portinho, companheira de Reidy na vida pessoal e profissional, era sua tia. Carmem, além de ser engenheira da prefeitura, era a diretora da Revista Municipal de Engenharia do Distrito Federal e uma das principais divulgadoras do trabalho do urbanista no Brasil e no mundo.

A engenheira lidera a lista de entrevistados que esmiúçam o trabalho e a utopia de Reidy. Ana conversou ainda com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, com Roland Castro, fundador do Movimento de Utopia Concreta (MUC) e candidato à presidência da França em 2007, e colheu um raro depoimento de Lúcio Costa.

A montagem privilegia o discurso, mas não deixa de abrir espaços para a contemplação dos projetos, maquetes e das obras acabadas. Mesmo com a intenção de fugir do tom professoral, Ana nos permite vislumbrar e entender as diferenças entre o que estava no projeto elaborado por Reidy e que o foi aprovado e construído pelo governo. Na tentativa de ilustrar e evitar o uso simplista da narração, a diretora introduz um ator para ler os manuscritos deixados pelo urbanista. Um toque ficcional que não brigou com a estética proposta para o filme e ainda trouxe um ar nostálgico e poético.

O Conjunto Habitacional Pedregulho é um marco na carreira de Reidy

Reidy projetou o Aterro e o Parque do Flamengo, o MAM/RJ e participou da equipe de criação do Ministério da Educação e Saúde, marco fundamental na história da arquitetura moderna brasileira. Mas sua principal contribuição para a arquitetura foram os projetos de habitação social. O Conjunto Habitacional Pedregulho, construído em 1946, e o Conjunto Marquês de São Vicente, inacabado desde 1952, ganharam reconhecimento internacional e recebem a visita de estudantes de arquitetura do mundo todo.

Ana Maria tinha duas grandes preocupações antes de fazer o filme, a primeira era debater o caráter utópico das obras de Reidy – desculpa dada por críticos e pelo governo para a não realização completa de muitos de seus trabalhos, e a segunda era assegurar que o nome do arquiteto fosse definitivamente associado ao projeto do Aterro do Flamengo. “O Aterro é do Niemeyer, é do Carlos Lacerda, é do Burle Marx, o Reidy quase nunca é citado. Ele já sonhava em fazer esse parque desde os anos 30, desde o morro do Castelo. Era preciso falar sobre isso.”

Reidy, A Construção da Utopia traça um paralelo entre homem e obra com precisão matemática.

Reidy, A construção da utopia (Reidy, Building Utopia)

Brasil, 2008. 77 minutos

Direção: Ana Maria Magalhães

Fotografia: Dib Lufti

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