Complexo: Universo Paralelo

O poder público conferiu ao Complexo do Alemão o status de bairro em 1993, mas os problemas continuaram os mesmos. Estima-se que 160 mil pessoas vivam na região formada por dezesseis comunidades que fazem divisa com os bairros da Penha, Ramos, Olaria, Inhaúma e Bonsucesso, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O complexo de favelas é considerado um dos locais mais perigosos do Rio e a Vila Cruzeiro ficou conhecida mundialmente depois do assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002. Durante os Jogos Pan-Americanos, em 2007, uma ação conjunta orquestrada pela Polícia Militar e a Força Nacional ocupou a região para diminuir o poder das facções criminosas que atuam na cidade.

Foi nesse contexto que dois irmãos portugueses adentraram no Complexo do Alemão para filmar o novo cotidiano dos moradores, agora sob a proteção do Estado. Os dois resolveram fixar residência na região para acompanhar de perto o dia da comunidade e, claro, encontrar personagens para o filme. Seu Zé, presidente vitalício da Associação de Moradores, Dona Célia, mãe de oito filhos, e MC Playboy, conhecido funkeiro, se encarregam de mostrar as peças do quebra-cabeças que será montado na edição. Mário Patrocínio assina a direção do documentário, enquanto a câmera do irmão Pedro procura capturar um universo diferente e desconhecido.

E é justamente através das imagens que temos a primeira dica de como o olhar estrangeiro absorve e devolve a rotina que o cerca na favela. A câmera nunca é apontada diretamente para a ação, ela está sempre fugindo, à espreita, como que com vergonha ou medo de observar. Será que estamos vendo a Estética do Medo? Os homens da Força Nacional faziam poses para as lentes do Jornal Nacional, mas aqui são fotografados de longe, com reverência, com medo. As imagens são tremidas, estão sempre em movimento e raramente conhecem repouso para contemplar ou ver melhor. Não existe tempo para ver mais uma vez, o corte logo chega acompanhado de outra imagem.

A fotografia das entrevistas segue a mesma linha de raciocínio e por vezes não conseguimos focalizar o rosto, os olhos, a expressão da fala. A luz estourada, ou a falta de luz, nos deixa apenas com o som, apenas com as palavras. É verdade que em alguns momentos chega a ser belo, mas seria essa a intenção? Os olhos possuem o recurso para regular a entrada da luz e da mesma forma a câmera. A ideia da não intervenção, de filmar a realidade, de capturar a verdade do momento pode não ter sido a mais apropriada para as entrevistas, mas ao menos é coerente com o todo.

A montagem não usa legendas para marcar a passagem do tempo, apenas aceitamos que os dias estão se sucedendo, sempre iguais, num ciclo contínuo e monótono na vida dos personagens. A inserção de pequenos clipes entre uma entrevista e outra, para aliviar e dar respiro ao filme, não consegue se encaixar de forma orgânica e causa certa estranheza.

O ponto mais polêmico do documentário começa após um desses momentos clipados, quando traficantes armados ensinam como funciona o respeito na favela e qual o exato papel da polícia nisso tudo. Ao dar voz a um lado, a do tráfico, e negar espaço a outro, ao Governo, o filme se posiciona e assume uma postura político-social que aparentemente tentava negar ou anular.

O envolvimento afetivo dos cineastas com o Complexo do Alemão deve ter pesado na hora da edição e o inevitável “Happy End”… não foi evitado. Seu Zé continua lutando contra os políticos corruptos que só querem saber de ganhar os votos do povo na época das eleições; Dona Célia perdeu um filho, mas continua acreditando que tudo vai dar certo e MC Playboy segue cantando e criando suas músicas.

Tecnicamente bem acabado, Complexo: Universo Paralelo (2010) não acrescenta novidades dentro do rico cenário de produções sobre violência e favela quando pensamos apenas no conteúdo, mas, sem dúvida, a Estética do Medo desenvolvida aqui irá agradar ao mercado estrangeiro.

Complexo: Universo Paralelo (Complexo: Parallel Universe)

Portugal, 2010. 75 minutos

Direção: Mário Patrocínio

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