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Gretchen Filme Estrada

05/04/2011

Gretchen Filme Estrada (2010) começa a surpreender o público já com o estranho título, pouco comum para um documentário. As surpresas vão surgindo na tela enquanto viajamos com a Rainha do Bumbum em duas aventuras distintas, mas que são incrivelmente semelhantes no Brasil. Nos fins de semana, a cantora Gretchen percorre o interior do país, o Nordeste para ser preciso, fazendo aparições em pequenos circos itinerantes que cobram R$ 3,00 pelo ingresso da Geral. Na segunda pela manhã, após viajar de carro centenas de quilômetros, encontramos Gretchen, agora candidata ao governo da pequena Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, discutindo com membros do partido detalhes da campanha eleitoral.

A narrativa tem um início lento nos primeiros minutos de projeção e um espectador mais ansioso poderia vaticinar que a produção estaria fadada ao fracasso. Nada disso! Passada a confusão inicial, Eliane Brum e Paschoal Samora retomam o controle da história, passam a intercalar as duas vidas da cantora-candidata e constroem um rico perfil de um ícone da cultura brasileira. Deixando de lado o gosto pessoal ou até mesmo um pré-conceito, é preciso admitir que poucas pessoas conseguiram entrar no imaginário popular como Gretchen. Pelos quatros cantos do Brasil é difícil encontrar alguém que nunca tenha escutado esse nome antes.

A força de Gretchen não reside mais no requebrar de suas cadeiras e nas avantajadas curvas. Não, não mais, a força de Gretchen está no nome, no mito. A cantora sabe disso e nos raros momentos em que conversa com a câmera revela que já não suporta ouvir as mesmas músicas. “É uma prisão. Eu cumpri 30 anos. Quero ser livre.” A liberdade tem um preço e alto. A vida política substituiria a vida artística e o nome Gretchen seria útil uma última vez antes de ser relegado ao passado. O peso de tal decisão, ou reflexão, parece abalar a cantora que agora vê a campanha eleitoral como uma porta de salvação.

O filme consegue perceber esse momento de transição, de mudança na personagem e usa essa ruptura para alterar também a estrutura da narrativa. Antes estávamos vendo um típico exemplar da escola do cinema direto norte-americano, ou seja, a equipe invisível, a câmera como uma mosca na parede e apenas o personagem interagindo com o mundo que o cerca, como no famoso Primary (1960) de Robert Drew. Os diretores são confrontados pela personagem que exige um distanciamento da equipe para poder tocar a campanha que está “indo de mal a pior”. Esse repentino embate não é negado e sim absorvido pela montagem.

Desse momento em diante, a equipe se faz presente – como no cinema-verdade francês – uma câmera registra a outra, a diretora segura o microfone e resolve entrevistar os eleitores nas ruas, vemos os técnicos de som tentando captar o melhor áudio possível no meio da multidão e o foco é dividido entre a estrela Gretchen e sua própria equipe de filmagem. Bem ao estilo Eduardo Coutinho – que ele não me leia! – acompanhamos os inúmeros pedidos de “Autorização do Uso de Imagem” sendo assinados nas filas dos circos e até mesmo Gretchen, após o show, regendo o público: “Eu autorizo o uso da minha imagem para o filme Gretchen Filme Estrada”. Uma ousadia sem dúvida, mas recompensada pelos risos da plateia.

Eliane Brum e Paschoal Samora fizeram um filme sensível, uma homenagem justa, mas sem fazer concessões à personagem ou mesmo apelar para o sentimentalismo fácil. Altamente indicado para estudantes de cinema e para aqueles que gostam de um bom Road Movie.

Gretchen Filme Estrada (Gretchen The Road Movie)

Brasil, 2010. 90 minutos

Direção: Eliane Brum e Paschoal Samora

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