Archive for novembro \02\UTC 2011

No meio do rio, entre árvores

02/11/2011

Jorge Bodansky mantém um profundo contato com a Amazônia e com a cultura ribeirinha. O projeto TV Navegar, criado por ele, tem como característica “dar voz à população local, capacitando-a a gerar seus próprios conteúdos, numa visão de dentro para fora” nas palavras do próprio cineasta. Bodansky vai e vem da Amazônia, e da região Norte do Brasil, desde a década de 60. Nesse período, o diretor realizou dezenas de documentários, vídeos, curtas e programas de TV sempre tirando imagens, informações, conteúdo de lá pra cá, ou seja, entrando na mata e explorando as riquezas para repassá-las ao mundo civilizado.

Claro que esse comentário não pode ser destacado do texto e muito menos analisado fora do contexto estabelecido aqui. As imagens de uma queimada no coração da floresta amazônica, ao longo da recém inaugurada Transamazônica, num angustiante travelling de quase um minuto, sem cortes, rodou o mundo e chocou nações numa época em que a preocupação com o meio ambiente ainda não estava na pauta mundial. “Iracema – Uma Transamazônica”, realizada em parceria com Orlando Senna, na década de 70, só foi liberado pela censura do regime militar em 1981, mas antes disso, o filme já tinha sido exibido de forma clandestina no Brasil e percorreu festivais pelo mundo todo.

Com No meio do rio, entre as árvores, Bodansky continua nos trazendo imagens, belíssimas por sinal, da floresta, mas agora percebemos que o cineasta está mais preocupado em trocar experiências do que simplesmente absorver a cultura local através da lente de sua câmera. A ideia de levar oficinas de vídeo, circo e fotografia para os moradores das comunidades ribeirinhas do Alto Solimões, na Amazônia, por si só já seria de tirar o chapéu, mas Bodansky vai além, registra esses momentos e utiliza imagens feitas pelos próprios moradores dentro do filme, como corte para sua própria câmera. Um trabalho de troca, confiança e desprendimento por parte do autor que mostra estar em harmonia com o ambiente que o cerca há mais de 40 anos.

O gosto pela polêmica e pela denúncia continua o mesmo e Jorge Bodansky não se furta a ouvir reclamações dos moradores, presidentes de associação e professores. O poder público pouco avança dentro da mata e o descaso com a saúde é a principal queixa dos ribeirinhos. Aqui no Rio, e por todo o Sul Maravilha, estamos mais do que acostumados com essas reclamações vindas dos moradores de áreas de risco ou controladas pelo tráfico de drogas. Mas qual a desculpa para a falta de atenção com os moradores da Amazônia?

O documentário consegue alcançar o objetivo proposto que é nos mostrar as oficinas e o trabalho realizado pela equipe da expedição, mas também nos faz entrar no meio do rio, entre as árvores, como o próprio título adianta. O avanço da tecnologia digital foi fundamental nesse processo. Com uma pequena câmera de vídeo, que não chega a custar R$ 500,00, os moradores produzem entrevistas e as imagens já não possuem um abismo técnico quando contrapostas ao material profissional.

Algo impensável nas décadas de 70, 80 e até 90, a Era do S-VHS, único formato acessível à população e que perdia qualidade de forma absurda quando copiado de uma fita para outra. Justificativas para entender porque essa experiência não fora realizada antes? Quem sabe. Mas definitivamente esse era o momento e Bodansky mais uma vez conseguiu uma obra digna de aplausos. Quando vemos os créditos subindo, e percebemos que o filme acabou, ficamos com aquela sensação de quero mais. Será que Jorge Bodansky já está com saudades da Amazônia também?

No meio do rio, entre árvores (Within the river, among the trees)

Brasil, 2010. 72 minutos

Direção: Jorge Bodansky

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Nélida Piñon: Mapas dos Afetos

02/11/2011

Nélida Piñon nasceu no Rio de Janeiro, em 1937, filha de pais espanhóis de origem galega, e ao completar dez anos mudou-se com a família para Borela, na Galícia, cidade natal de seu pai, onde assimilou costumes e tradições que acabariam por influenciar sua futura obra. O primeiro livro, “Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo”, foi publicado em 1961 e a crítica especializada considerou a linguagem inovadora. Ao todo, Nélida já publicou mais de vinte livros entre romances, contos e ensaios. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1989, sendo a primeira mulher a presidir a academia. Em 2005, a escritora foi agraciada com o Prêmio Príncipe das Astúrias tornando-se a primeira mulher e o primeiro escritor de Língua Portuguesa a receber esta homenagem.

O filme Nélida Piñon: Mapas dos Afetos (2010), roteirizado e dirigido por Júlio Lellis, reúne entrevistas realizadas com a escritora e imagens captadas em palestras, eventos e encontros. Nélida recorda o passado, conta histórias do avô, do pai e de como comprou a primeira máquina de escrever. Esse início consegue prender a atenção e o documentário parece seguir a trilha da cinebiografia, o que já seria um material muito interessante, mas ao invés disso se perde com uma montagem frouxa e sem direção.

As falas se sucedem, ora arrastadas, ora desnecessárias, travando a narrativa e impedindo o avanço da história. Não existe um fio condutor capaz de unir as entrevistas ou mesmo reforçar a ideia principal do filme: a relação de Nélida com os amigos. Os capítulos são apresentados como sendo o índice de um livro, uma boa sacada da edição, mas esse efeito visual não é o suficiente para segurar a atenção do público. Mas e os convidados famosos?

As participações especiais funcionam apenas para abrilhantar o cartaz de divulgação da fita: vemos a atriz Fernanda Montenegro em duas raras aparições, a cantora Maria Bethânia dirige poucas palavras para a câmera e a escritora Lygia Fagundes Telles sequer foi entrevistada. Apenas o escritor Mario Vargas Llosa, amigo de Nélida, conversa de forma tradicional com a equipe, mas até nesse momento algo não funciona. Mario e Nélida contam a mesma história e ao invés da montagem encadear um complementando a fala do outro – e assim restabelecer a agilidade perdida – decide fazer o oposto e contrapor quase as mesmas frases, ditas pelos dois personagens.

A fotografia é outro problema sério: as imagens são desnecessariamente tremidas, vemos a câmera se ajeitar de um lado para o outro e isso passa um desconforto visual que casa perfeitamente com a monotonia da montagem, ou seja, é quase impossível ficar dentro do filme, mergulhar na proposta e escutar o que Nélida Piñon tem a dizer. E convenhamos que uma senhora de 73 anos merece uma fotografia bem trabalhada e não uma imagem que parece sair de uma S-VHS.

Durante 85 minutos, com exceção ao breve início, vemos Nélida ir e voltar nas memórias, em momentos pessoais que são importantes apenas para a própria personagem. Faltou distanciamento crítico ao diretor-roteirista Júlio Lellis na hora da montagem, na hora de decidir o que cortar e o que usar do material filmado. Após os créditos finais, ainda vemos um prólogo que se estende por bons minutos e nesse momento é possível recordar uma frase dita pela escritora: “Peço a Deus que me ajude a conviver com as diferenças do mundo.”

Nélida Piñon: Mapas dos Afetos (Nélida Piñon: Maps of Affections)

Brasil, 2010. 85 minutos

Direção: Júlio Lellis

Agreste

02/11/2011

A fotografia do filme nos traz imagens de uma beleza impressionante! Um trabalho de câmera primoroso e sensível. Controle da luz, foco e desfoque, movimentos precisos, firmeza na mão, quase uma aula de cinematografia. Quem sabe essa não tenha sido a intenção dos três operadores: mostrar que sabem todos os truques e técnicas de uma câmera digital. Ou pensando melhor, será que eles sabiam o que estavam fazendo ou tudo foi um mero acaso, um achado na ilha de edição? Questões complexas que ficam sem explicação. Como saber se um desfoque foi intencional e não um erro bem encaixado pelo montador? Ficaremos sem respostas e sendo assim que cada um formule sua própria teoria. E isso tem importância?

A capacidade técnica dos realizadores me parece inquestionável. A montagem une pequenos fragmentos isolados que nunca irão se encontrar, mas que são editados com perfeição. A não-linearidade dos eventos foi uma escolha consciente da direção e que permeia toda a narrativa. Narrativa? Não, de forma alguma, o certo seria dizer que “a não-linearidade dos eventos foi uma escolha consciente da direção e que permeia toda a não-narrativa imposta pelo não-roteiro escrito por Paula Gaitán”. Confuso? Complicado? Experimente assistir ao filme. São setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos. Setenta e seis. Setenta. E seis. Longos minutos.

A experimentação da equipe assume uma forma mais contundente tanto na edição de som quanto na formulação da trilha sonora. Outra vez o trabalho é impecável. O excesso de adjetivos é a única saída para explicar de forma direta e sem rodeios como alguns elementos chamam a atenção. Isolados formam uma pequena obra de arte, mas juntos não conseguem estabelecer um diálogo com o expectador. Cada parte da estrutura, aí incluindo o elenco, ou o não-elenco, cumpre o seu papel com eficiência, mas a soma dessas partes não faz um filme. A soma desses elementos não funciona. Tudo parece separado demais. Isolado demais. Solto demais. Parece um vídeoarte para ser utilizado na instalação de algum artista plástico.

Para compreendermos melhor, ou não compreendermos melhor – quem se importa? – com o que vimos na tela é preciso saber mais sobre os realizadores. Paula Gaitán, roteirista, câmera, diretora e montadora, é “artista visual, fotógrafa e cineasta. Formada em Artes Visuais e Filosofia pela Universidad de los Andes, Colômbia, é professora de Cinema e Vídeo na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, no Rio de Janeiro. Trabalha como cineasta desde 1978, quando participou como diretora de arte de Idade da Terra, de Glauber Rocha. Sua carreia autoral inclui documentários, videoartes e instalações”.

Agreste é um trabalho experimental, duro, indireto, sem preocupação com o público, sem vontade de agradar, sem meio, sem início, sem narrativa, mas felizmente com fim. São setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos. Setenta e seis. Setenta. E seis. Longos minutos.      

Agreste (Drylands)

Brasil, 2010. 76 minutos

Direção: Paula Gaitán

Com: Marcélia Cartaxo, Sara Antunes, Zabé da Loca e Maíra Senise