Agreste

A fotografia do filme nos traz imagens de uma beleza impressionante! Um trabalho de câmera primoroso e sensível. Controle da luz, foco e desfoque, movimentos precisos, firmeza na mão, quase uma aula de cinematografia. Quem sabe essa não tenha sido a intenção dos três operadores: mostrar que sabem todos os truques e técnicas de uma câmera digital. Ou pensando melhor, será que eles sabiam o que estavam fazendo ou tudo foi um mero acaso, um achado na ilha de edição? Questões complexas que ficam sem explicação. Como saber se um desfoque foi intencional e não um erro bem encaixado pelo montador? Ficaremos sem respostas e sendo assim que cada um formule sua própria teoria. E isso tem importância?

A capacidade técnica dos realizadores me parece inquestionável. A montagem une pequenos fragmentos isolados que nunca irão se encontrar, mas que são editados com perfeição. A não-linearidade dos eventos foi uma escolha consciente da direção e que permeia toda a narrativa. Narrativa? Não, de forma alguma, o certo seria dizer que “a não-linearidade dos eventos foi uma escolha consciente da direção e que permeia toda a não-narrativa imposta pelo não-roteiro escrito por Paula Gaitán”. Confuso? Complicado? Experimente assistir ao filme. São setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos. Setenta e seis. Setenta. E seis. Longos minutos.

A experimentação da equipe assume uma forma mais contundente tanto na edição de som quanto na formulação da trilha sonora. Outra vez o trabalho é impecável. O excesso de adjetivos é a única saída para explicar de forma direta e sem rodeios como alguns elementos chamam a atenção. Isolados formam uma pequena obra de arte, mas juntos não conseguem estabelecer um diálogo com o expectador. Cada parte da estrutura, aí incluindo o elenco, ou o não-elenco, cumpre o seu papel com eficiência, mas a soma dessas partes não faz um filme. A soma desses elementos não funciona. Tudo parece separado demais. Isolado demais. Solto demais. Parece um vídeoarte para ser utilizado na instalação de algum artista plástico.

Para compreendermos melhor, ou não compreendermos melhor – quem se importa? – com o que vimos na tela é preciso saber mais sobre os realizadores. Paula Gaitán, roteirista, câmera, diretora e montadora, é “artista visual, fotógrafa e cineasta. Formada em Artes Visuais e Filosofia pela Universidad de los Andes, Colômbia, é professora de Cinema e Vídeo na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, no Rio de Janeiro. Trabalha como cineasta desde 1978, quando participou como diretora de arte de Idade da Terra, de Glauber Rocha. Sua carreia autoral inclui documentários, videoartes e instalações”.

Agreste é um trabalho experimental, duro, indireto, sem preocupação com o público, sem vontade de agradar, sem meio, sem início, sem narrativa, mas felizmente com fim. São setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos. Setenta e seis. Setenta. E seis. Longos minutos.      

Agreste (Drylands)

Brasil, 2010. 76 minutos

Direção: Paula Gaitán

Com: Marcélia Cartaxo, Sara Antunes, Zabé da Loca e Maíra Senise

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