Nélida Piñon: Mapas dos Afetos

Nélida Piñon nasceu no Rio de Janeiro, em 1937, filha de pais espanhóis de origem galega, e ao completar dez anos mudou-se com a família para Borela, na Galícia, cidade natal de seu pai, onde assimilou costumes e tradições que acabariam por influenciar sua futura obra. O primeiro livro, “Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo”, foi publicado em 1961 e a crítica especializada considerou a linguagem inovadora. Ao todo, Nélida já publicou mais de vinte livros entre romances, contos e ensaios. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1989, sendo a primeira mulher a presidir a academia. Em 2005, a escritora foi agraciada com o Prêmio Príncipe das Astúrias tornando-se a primeira mulher e o primeiro escritor de Língua Portuguesa a receber esta homenagem.

O filme Nélida Piñon: Mapas dos Afetos (2010), roteirizado e dirigido por Júlio Lellis, reúne entrevistas realizadas com a escritora e imagens captadas em palestras, eventos e encontros. Nélida recorda o passado, conta histórias do avô, do pai e de como comprou a primeira máquina de escrever. Esse início consegue prender a atenção e o documentário parece seguir a trilha da cinebiografia, o que já seria um material muito interessante, mas ao invés disso se perde com uma montagem frouxa e sem direção.

As falas se sucedem, ora arrastadas, ora desnecessárias, travando a narrativa e impedindo o avanço da história. Não existe um fio condutor capaz de unir as entrevistas ou mesmo reforçar a ideia principal do filme: a relação de Nélida com os amigos. Os capítulos são apresentados como sendo o índice de um livro, uma boa sacada da edição, mas esse efeito visual não é o suficiente para segurar a atenção do público. Mas e os convidados famosos?

As participações especiais funcionam apenas para abrilhantar o cartaz de divulgação da fita: vemos a atriz Fernanda Montenegro em duas raras aparições, a cantora Maria Bethânia dirige poucas palavras para a câmera e a escritora Lygia Fagundes Telles sequer foi entrevistada. Apenas o escritor Mario Vargas Llosa, amigo de Nélida, conversa de forma tradicional com a equipe, mas até nesse momento algo não funciona. Mario e Nélida contam a mesma história e ao invés da montagem encadear um complementando a fala do outro – e assim restabelecer a agilidade perdida – decide fazer o oposto e contrapor quase as mesmas frases, ditas pelos dois personagens.

A fotografia é outro problema sério: as imagens são desnecessariamente tremidas, vemos a câmera se ajeitar de um lado para o outro e isso passa um desconforto visual que casa perfeitamente com a monotonia da montagem, ou seja, é quase impossível ficar dentro do filme, mergulhar na proposta e escutar o que Nélida Piñon tem a dizer. E convenhamos que uma senhora de 73 anos merece uma fotografia bem trabalhada e não uma imagem que parece sair de uma S-VHS.

Durante 85 minutos, com exceção ao breve início, vemos Nélida ir e voltar nas memórias, em momentos pessoais que são importantes apenas para a própria personagem. Faltou distanciamento crítico ao diretor-roteirista Júlio Lellis na hora da montagem, na hora de decidir o que cortar e o que usar do material filmado. Após os créditos finais, ainda vemos um prólogo que se estende por bons minutos e nesse momento é possível recordar uma frase dita pela escritora: “Peço a Deus que me ajude a conviver com as diferenças do mundo.”

Nélida Piñon: Mapas dos Afetos (Nélida Piñon: Maps of Affections)

Brasil, 2010. 85 minutos

Direção: Júlio Lellis

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