No meio do rio, entre árvores

Jorge Bodansky mantém um profundo contato com a Amazônia e com a cultura ribeirinha. O projeto TV Navegar, criado por ele, tem como característica “dar voz à população local, capacitando-a a gerar seus próprios conteúdos, numa visão de dentro para fora” nas palavras do próprio cineasta. Bodansky vai e vem da Amazônia, e da região Norte do Brasil, desde a década de 60. Nesse período, o diretor realizou dezenas de documentários, vídeos, curtas e programas de TV sempre tirando imagens, informações, conteúdo de lá pra cá, ou seja, entrando na mata e explorando as riquezas para repassá-las ao mundo civilizado.

Claro que esse comentário não pode ser destacado do texto e muito menos analisado fora do contexto estabelecido aqui. As imagens de uma queimada no coração da floresta amazônica, ao longo da recém inaugurada Transamazônica, num angustiante travelling de quase um minuto, sem cortes, rodou o mundo e chocou nações numa época em que a preocupação com o meio ambiente ainda não estava na pauta mundial. “Iracema – Uma Transamazônica”, realizada em parceria com Orlando Senna, na década de 70, só foi liberado pela censura do regime militar em 1981, mas antes disso, o filme já tinha sido exibido de forma clandestina no Brasil e percorreu festivais pelo mundo todo.

Com No meio do rio, entre as árvores, Bodansky continua nos trazendo imagens, belíssimas por sinal, da floresta, mas agora percebemos que o cineasta está mais preocupado em trocar experiências do que simplesmente absorver a cultura local através da lente de sua câmera. A ideia de levar oficinas de vídeo, circo e fotografia para os moradores das comunidades ribeirinhas do Alto Solimões, na Amazônia, por si só já seria de tirar o chapéu, mas Bodansky vai além, registra esses momentos e utiliza imagens feitas pelos próprios moradores dentro do filme, como corte para sua própria câmera. Um trabalho de troca, confiança e desprendimento por parte do autor que mostra estar em harmonia com o ambiente que o cerca há mais de 40 anos.

O gosto pela polêmica e pela denúncia continua o mesmo e Jorge Bodansky não se furta a ouvir reclamações dos moradores, presidentes de associação e professores. O poder público pouco avança dentro da mata e o descaso com a saúde é a principal queixa dos ribeirinhos. Aqui no Rio, e por todo o Sul Maravilha, estamos mais do que acostumados com essas reclamações vindas dos moradores de áreas de risco ou controladas pelo tráfico de drogas. Mas qual a desculpa para a falta de atenção com os moradores da Amazônia?

O documentário consegue alcançar o objetivo proposto que é nos mostrar as oficinas e o trabalho realizado pela equipe da expedição, mas também nos faz entrar no meio do rio, entre as árvores, como o próprio título adianta. O avanço da tecnologia digital foi fundamental nesse processo. Com uma pequena câmera de vídeo, que não chega a custar R$ 500,00, os moradores produzem entrevistas e as imagens já não possuem um abismo técnico quando contrapostas ao material profissional.

Algo impensável nas décadas de 70, 80 e até 90, a Era do S-VHS, único formato acessível à população e que perdia qualidade de forma absurda quando copiado de uma fita para outra. Justificativas para entender porque essa experiência não fora realizada antes? Quem sabe. Mas definitivamente esse era o momento e Bodansky mais uma vez conseguiu uma obra digna de aplausos. Quando vemos os créditos subindo, e percebemos que o filme acabou, ficamos com aquela sensação de quero mais. Será que Jorge Bodansky já está com saudades da Amazônia também?

No meio do rio, entre árvores (Within the river, among the trees)

Brasil, 2010. 72 minutos

Direção: Jorge Bodansky

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