Archive for the ‘Festival do Rio 2008’ Category

Um dia perfeito

04/12/2009

Traição. Ciúme. Esperança. Paixão. Medo. Angústia. Esses elementos se misturam de forma fria, dura, impassível e atingem a vida de personagens sensíveis e bem construídos. O diretor Ferzan Özpetek joga com as emoções de forma bruta e direta. Quando menos esperamos somos arremessados numa tempestade de violência que se dissipa de forma rápida e banal. Mas a violência aqui não é estilizada ou utilizada gratuitamente, ela só não é esperada.

Um dia perfeito nos faz mergulhar num mundo simples, com pessoas normais, tentando encontrar a tão sonhada felicidade. O roteiro escrito por Sandro Petraglia e Ferzan Özpetek é uma adaptação do romance homônimo de Melania Mazzucco. A história intrincada e repleta de elementos se move sempre em frente, nunca hesita e nos oferece um olhar breve, porém preciso, da vida de Emma (Isabella Ferrari).

Para construir esse olhar, a fotografia de Fabio Zamarion contrasta as cores vibrantes de Emma com o ambiente frio e azulado da cidade. Esse efeito deixa a protagonista isolada, solitária, mas também a destaca do meio. Emma está à margem da sociedade.

Özpetek decidiu usar tons suaves e levou a direção de atores para o mínimo, para o necessário, sem exageros. Quando as ações de Antonio (Valerio Mastandrea) contradizem suas palavras, ficamos tão pasmos quanto Emma. O jogo entre texto e imagem está presente desde o início e esse direcionamento impede uma projeção do que irá acontecer. Somos apenas expectadores acompanhando a trama, não recebemos informações privilegiadas, nada nos prepara para o próximo passo. No fim, Özpetek muda esse posicionamento, transforma o público em testemunha, mas não em cúmplice, e quando a verdade chega já é tarde demais.

Quando a tela escurece, temos a dimensão do todo, montamos o quebra-cabeça, mas percebemos que algumas peças estão soltas no tabuleiro e não pertencem a esse jogo. O roteiro não tem amarras soltas, apenas nos oferece personagens expectadores, que passam pela história observando, assistindo, sem penetrar no núcleo principal. Tanto o roteiro quanto a direção deixam esses peões estrategicamente posicionados, mas afastados da ação direta. Essa dinâmica traz um frescor, um alívio e impede que a história caminhe para o lugar-comum dos contos policiais.

O diretor Ferzan Özpetek nasceu em Istambul, Turquia, e foi estudar História do Cinema e Direção Cinematográfica na Itália. Começa a carreira como assistente de direção e trabalha em treze filmes. Em 1997, realiza Banho Turco, seu primeiro longa-metragem, exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Um dia perfeito é seu sétimo filme.

Um dia perfeito (Un giorno perfetto)

Itália, 2008. 105 minutos

Direção: Ferzan Özpetek

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A Raiva

02/12/2009

A diretora Albertina Carri está longe de ser uma iniciante, A Raiva é seu quarto longa-metragem, mas parece que a cineasta precisa rever alguns conceitos. Carri estudou fotografia, roteiro, direção e começou trabalhando como assistente de câmera até se aventurar, em 2000, na direção de No quiero volver a casa. Na seqüência, em 2001, realizou dois curtas de animação, Aurora e Barbie tambien puede estar triste. Em 2003, retornou aos longas com Los Rubius, eleito Melhor Filme Argentino no BaFICI e Géminis (2005) que foi exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes.

A sinopse de seu novo filme nos passa uma idéia interessante do que veremos na tela grande:

Poldo é um fazendeiro forte e calado que vive no Árido Pampa Argentino junto de sua mulher e sua jovem filha Nati, que é muda. Ao suspeitar que seu vizinho Pichón insultou Nati, Poldo decide prontamente cortar contato com o amigo, obrigando sua mulher a fazer o mesmo. Ela, no entanto, mantém um caso secreto com o vizinho, sobre o qual Poldo nem desconfia. Nati sabe da infidelidade de sua mãe, assim como o filho de Pichón, seu único amigo. Na ausência de palavras, a menina desenha o que vê. Quando Poldo descobre estes desenhos, uma grande tragédia tem início na vida de todos”.

Quando partimos dessa premissa básica podemos imaginar que será um filme duro, austero e até certo ponto violento. Ora, não temos raiva logo no título? Mas o tom que Carri utiliza resvala mais para a comédia do que para o drama, e parece que essa não foi a intenção da cineasta.

A menina Nati (Nazarena Duarte) tem o hábito de desenhar e tirar a roupa quando fica nervosa. Podemos imaginar que esse estranho costume, o de tirar a roupa, possa estar relacionado com o hábito da mãe de também tirar a roupa e gritar. A diferença, nem um pouco sutil, é que a mãe (Analía Couceyro) também geme com as estocadas que o amante lhe dá.

Os dois antagonistas, Poldo (Victor Hugo Carrizo) e Pichón (Javier Lorenzo), possuem a mesma construção e os atores não escapam da superficialidade do machão dos pampas. Pichón poderia receber o sugestivo apelido de tripé dos pampas. Ele não deixa escapar nada e seu alvo diário é a esposa de Poldo.

Como Albertina Carri assinou também o roteiro, podemos atribuir a ela grande parte do que ocorre na tela. Os desenhos de Nati ganham vida e transbordam na tela em segundos longíssimos e chatos. Parece que sobrou algum material dos curtas-metragens de animação e a diretora resolveu não desperdiçar a oportunidade. Os poucos momentos de tensão são estragados por essa técnica refinada e pedante.

A raiva que o título tanto pede só acontece de fato em duas cenas dispensáveis. Vemos Pichón, pela quarta vez, currar a mulher de Poldo. Ele amarra um cinto de couro no pescoço da danada e manda ver. Carri ainda teve tempo de mandar matar e estripar um porco para fazer um churrasquinho. Parte da platéia, em maioria feminina, fez sons guturais. Nas duas cenas. Dispensável.

A raiva (La Rabia)

Argentina, 2008. 83 minutos

Direção: Albertina Carri

Minha vida dentro

30/11/2009

O documentário Minha vida dentro, de Lucia Gajá, pode ser resumido com a frase: “Apesar de ser do México, ela é inteligente”. A sentença foi proferida no tribunal do júri, na cidade de Austin, estado do Texas, pela promotora pública durante o julgamento de Rosa Jimenés. Rosa, babá e imigrante clandestina, é acusada pelo homicídio de um bebê que ficava sob seus cuidados.

A câmera acompanha a personagem antes do julgamento, durante e após a condenação. Sim, podemos entregar aqui o resultado do veredicto, pois em momento algum acreditamos que Rosa sairá livre do tribunal. Os doze membros do júri aplicam uma pena pesada: noventa e nove anos de reclusão.

O início do filme é lento e as entrevistas são muito entrecortadas. Lucia parece não saber como apresentar a história de Rosa, uma história tão comum a tantos imigrantes ilegais que tentam a vida na terra do Tio Sam. Depois de vinte minutos de idas e vindas, a edição consegue dar um ritmo ao material e entramos na sala do júri para acompanhar de perto as tentativas do advogado de defesa. Apesar de não existir nenhuma prova substancial de que Rosa cometeu alguma infração, a promotora a trata como culpada desde o início.

A equipe obtém permissão para filmar doze dias de audiência, algo incomum no sistema judiciário norte-americano. Lucia consegue também fazer longas entrevistas com Rosa na prisão. O julgamento é claramente uma mensagem aos imigrantes de Austin e a promotora afirma que “Eles não podem vir aqui e fazer o que querem”. Talvez por isso a equipe tenha conseguido tamanha liberdade das autoridades locais. Parece que a idéia é: Façam o filme e exibam no México!

Lucia Gajá, cineasta e mexicana

Lucia Gajá é mexicana e também é inteligente. Minha vida dentro é seu primeiro documentário, antes disso trabalhou como assistente de direção em vários filmes até rodar, em 1995, o curta Soy, vencedor do prêmio da Academia Mexicana de Melhor Curta-Metragem Documental.

A diretora e roteirista parece ter abraçado a saga de Rosa como uma bandeira particular. Esse olhar próximo transparece na tela e vemos que Lucia não está fazendo apenas um filme, e sim um manifesto. O envolvimento da direção atrapalha a montagem que deixa de ser enxuta e direta para ter um ar arrastado que cansa em vários momentos. E a culpa não é somente da longa duração – cento e vinte minutos – o que falta mesmo é ritmo.

Lucia conversa com a mãe e o marido de Rosa e também com outras famílias que estão passando pelo mesmo drama. A diretora vai além, procura outras mexicanas na cadeia de Rosa, fala com outros imigrantes ilegais e se perde. O que poderia ser uma história forte, centrada em Rosa, se transforma num lamento e numa mistura de personagens que enfraquece e esvazia o discurso. O efeito é o oposto do desejado.

Um pequeno erro que de maneira alguma tira o brilho e a necessidade do trabalho de Lucia. Minha vida dentro merece uma nova edição, mas é um documentário corajoso e que precisa ser visto.

Rosa Jimenés: culpada ou inocente?

Minha vida dentro (Mi vida dentro)

México, 2007. 120 minutos

Direção: Lucia Gajá

Recycle

23/11/2009

A rede terrorista Al Qaeda ficou conhecida mundialmente após os ataques de 11 de setembro de 2001 contra o complexo do World Trade Center, em Nova Iorque. O grupo teria surgido durante o Jihad, a “guerra santa” para libertar o Afeganistão da ocupação soviética. No confronto que durou uma década, de 1979 a 1989, os afegãos tiveram apoio e treinamento da CIA, o principal órgão de inteligência do governo norte-americano. No momento, Osama Bin Laden e os líderes da Al Qaeda são procurados em todo globo como inimigos públicos dos Estados Unidos.

O núcleo central da Al Qaeda, “A Base” em árabe, é formado por ex-combatentes, os Mujahedines, e sua teia de comando é móvel e espalhada por mais de sessenta países. Abu Amar é um ex-Mujahidin que trabalhou como guarda-costas dos principais chefes do grupo terrorista, incluindo Abu Musab Al-Zarqawi, o príncipe da Al Qaeda no Iraque.

Após um período de reclusão, Abu Amar retorna para a Jordânia, seu país natal, e luta para continuar a vida, mas a ligação de Amar com o movimento é forte. Al-Zarqawi também nasceu em Zarga, a poucos quarteirões de sua casa e os familiares do terrorista são seus amigos de longa data. Como retornar ao convívio de uma sociedade em profunda transformação e ainda assim manter a fé no Islã?

Recycle acompanha o dia a dia de Abu Amar e nos convida a conhecer um pensamento muito temido, mas pouco compreendido no Ocidente. O diretor Mahmoud Al Massad encontrou espaço na edição final para colocar diversas conversas sobre o Islã e a atual situação do mundo árabe. Al Massad nasceu na Jordânia, como Amar, e hoje vive na Holanda. A opção da direção em abrir a montagem para o debate reflete a importância do tema e a tensão que perpassa todo o documentário. As reuniões de Abu Amar com os amigos, nunca creditados, pontuam o filme e funcionam como fio condutor da história.

Em oitenta minutos de projeção, vemos as tentativas frustradas de Abu Amar para conseguir reestruturar seus negócios e dar uma condição decente para a família. Amar rompeu ligações com o pai e se recusa a falar sobre o assunto. Sem contar com o apoio financeiro familiar, sua loja vai a falência e ele se vê obrigado a trabalhar recolhendo papelão nas ruas. Acompanhado dos filhos, Amar engole o orgulho e percorre os bairros com a esperança de lotar a carroceria de seu pequeno caminhão e levar dinheiro suficiente para casa.

A lente da câmera foca o rosto do protagonista e as ruas de Zarga desfilam sem importância diante de um olhar severo e impaciente. Abu Amar não está satisfeito com o rumo que sua vida tomou e planeja escrever um livro sobre os preceitos do Islã.

Mas a realidade não pode ser moldada. Amar é preso preventivamente depois de novas ações do grupo liderado por Abu Musab Al-Zarqawi. O Príncipe do Iraque é agora o segundo no comando da Al Qaeda e enfurece o Ocidente com uma série de ataques terroristas, incluindo a destruição do prédio da Onu, em Bagdá, que culminou na morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello.

Abu Amar fica detido como suspeito por quatro meses, mas é liberado por falta de provas e dado como inocente. “A justiça foi feita. Estou satisfeito”, suas palavras não revelam frustração ou raiva, mas seu rosto se torna mais firme, duro e a barba raspada é um sinal da humilhação e da incompreensão em seu próprio país.

Recycle é um retrato inacabado de um homem que precisa escolher entre o futuro e o passado, entre o dever e a fé.

Recycle (Recycle)

Jordânia/Alemanha/Holanda/Estados Unidos, 2008. 80 minutos

Direção: Mahmoud Al Massad

A Milícia de Camarões

18/11/2009

Em 2000, o presidente da República de Camarões cria um efetivo militar para reprimir o excesso de roubos e crimes em Douala, a cidade mais populosa do país. O Comando Operacional recebe carta branca do poder público para instaurar a lei e a ordem.

No início, a milícia é recebida com entusiasmo pelo povo, mas doze meses depois o resultado é um banho de sangue e mais de mil e seiscentos desaparecidos.

A imagem que a imprensa costuma divulgar pelo mundo afora é o retrato de um povo alegre. Quem não se recorda das cores vibrantes nas roupas? Das festas em cada vitória dos “Leões Indomáveis”? Das comemorações nos gols de Roger Milla e Omam-Biyik? Enquanto a Europa descobria o futebol de Samuel Eto’o, então atacante do Mallorca, centenas de pessoas eram assassinadas em Douala.

O título original de A Milícia de Camarões é “Une Affaire des Nègres”, o que significa um assunto de negros, e dessa forma o massacre foi deixado de lado pelos órgãos internacionais. As denúncias contra o governo camaronês foram abafadas e uma investigação superficial enterrou as esperanças de justiça dos familiares. A “democracia tropicalizada” atinge o ápice. É nesse contexto que a jornalista Osvalde Lewat-Hallade resolve voltar para Camarões e contar a história do Comando Operacional.

Logo na abertura do documentário percebemos o grau de envolvimento da realizadora com a obra: “Eu preciso fazer esse filme. Eu simplesmente tenho que fazer”. Osvalde passou quatro anos pesquisando e procurando familiares e sobreviventes. A pesquisa rendeu personagens fortes que aceitaram mergulhar no passado e relembrar um trauma ainda recente.

Mesmo com um precioso material em mãos, a diretora, talvez pela inexperiência, não permitiu que a montagem seguisse seu próprio caminho. Osvalde faz questão de marcar sua presença, seja fisicamente ou pela narração. O constante uso da voz em off enfraquece os depoimentos e deixa o filme arrastado. Em alguns casos o texto se torna pedante e desnecessário, os entrevistados repetem a mesma informação, só que com o vigor de quem vivenciou o assunto.

A câmera busca o sentimentalismo fácil através de um apressado zoom que se esforça para não perder uma lágrima que subitamente aparece. O efeito é o oposto do pretendido, pois na hora percebemos que aquilo é um zoom, que estamos no cinema e que nos esquecemos de pagar a conta de gás. Um erro infantil, característico de quem ainda está encontrando uma linguagem.

Mas a vontade de acertar também leva o filme a ter momentos mágicos. Osvalde reúne membros de uma família que teve vários parentes chacinados. A conversa acontece de noite, ao redor da fogueira e a luz vacilante do fogo parece jogar na tela a dor que estava escondida nas palavras.

Osvalde chega no máximo do envolvimento ao entrevistar um soldado que fez parte do Comando Especial. O homem não demonstra nenhum remorso e relata com detalhes o treinamento e as orientações recebidas do capitão. “Matei umas quatrocentas pessoas.”, diz com a simplicidade de quem estava cumprindo o dever. “Meu capitão nos elogiava. Nós fazíamos o trabalho muito bem”. Diante de tamanho cinismo, ou ingenuidade, a diretora se perde e começa a confrontar o personagem, impedindo que ele continuasse o relato de forma espontânea.

A condução das entrevistas foi realizada com o coração e movida por um olhar parcial, mas nunca covarde. A diretora optou por utilizar, de forma equivocada, uma linguagem televisiva, quase artesanal – a narração é desnecessária e deveria ser suprimida. Mesmo com tantos problemas, A Milícia de Camarões é um filme poderoso.

Osvalde apresenta o filme no Festival de Cannes

A milícia de Camarões (Une affaire de nègres)

França/Camarões, 2007. 90 minutos

Direção: Osvalde Lewat-Hallade

Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo

16/11/2009

O título pouco convencional, Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo, é uma pista de que podemos estar diante de um documentário que foge ao lugar-comum, mas as surpresas desse delicioso filme não estão apenas no conteúdo. A diretora Yulene Olaizola tem apenas 24 anos, cursa o quinto período no Centro de Capacitación Cinematográfica, na Cidade do México, e este é seu primeiro longa-metragem.

A casa de Rosa, avó de Yulene, fica na esquina das ruas Shakespeare e Victor Hugo, na Cidade do México. Rosa, viúva, decide abrir a residência e alugar quartos para jovens estudantes que tentam a sorte na capital mexicana. As memórias da mansão se confundem com as memórias da família, da avó e da própria Yulene.

Nos momentos de devaneio, os pensamentos de Rosa e Florência, a fiel governanta, se detêm na figura de Jorge Riosse. O rapaz morou oito anos na casa e conquistou a confiança e a amizade de Rosa. Histórias divertidas e curiosas se sucedem enquanto o roteiro avança revelando uma figura carismática e misteriosa.

Yulene assume o aspecto pessoal do filme e dosa com firmeza e convicção seu papel na trama. Como não poderia deixar de ser, ela assina a direção, produção, montagem, roteiro e também a fotografia. A câmera de Yulene segue os passos da avó de perto e consegue, sem esforço, captar depoimentos sinceros e emocionantes.

A jovem diretora Yulene Olaizola

A diretora Yulene Olaizola

A ação, centrada na figura de Riosse, se concentra na residência de Rosa. A lente da câmera só procura outra locação quando o entrevistado tem apenas ligações com Jorge. A direção demonstra uma coerência madura e precisa, nesses momentos Yulene se ocupa da entrevista e deixa a função com o fotógrafo Ruben Imáz.

Quando a vida de Jorge Riosse parece estar desenhada e o ritmo da montagem diminui, temos a sensação que Yulene irá perder o controle da trama e deixar escapar um final à altura da proposta inicial. Mas é nesse momento que somos apresentados ao verdadeiro mote do documentário. Uma virada surpreendente, guardada com cuidado e plantada aos poucos durante a primeira parte do filme.

Fosse Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo uma película de ficção, o espanto com a reviravolta já seria grande, mas em se tratando de documentário, a capacidade de Yulene de controlar as peças, mostrar apenas o necessário e na hora certa, é digno de aplausos.

O tema incomum e a condução brilhante de Yulene Olaizola fazem deste documentário algo raro e precioso, uma brincadeira estética de forma e conteúdo que permanece na nossa memória após a projeção.

Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo (Intimidades de Shakespeare y Victor Hugo)

México, 2008. 83 minutos

Direção: Yulene Olaizola

Um gângster bem britânico

13/11/2009

gangsterposter3Nos primeiros cinco minutos de projeção somos obrigados a perguntar se estamos vendo uma ficção ou um documentário. A figura de Dominic Noonan, chefe de uma famosa família de mafiosos irlandeses, em primeiro plano, dizendo: “Olá, eu sou Don e está é Manchester, minha cidade.”, só pode ter saído de um roteiro de Quentin Tarantino ou das tiras de Frank Miller.

Um gângster bem britânico é a estréia de Donal Macintyre como diretor de documentários e nos mostra o dia a dia de Don e sua família mafiosa. Donal trabalhou como jornalista investigativo da BBC, se infiltrou em diversas facções criminosas na Inglaterra e ainda realizou reportagens em Beirute, na Bósnia e no Congo.

Dominic Noonan e o diretor Donal Macintyre

Dominic Noonan e o diretor Donal Macintyre

Macintyre utiliza pequenas câmeras digitais para acompanhar Dominic durante seus passeios por Manchester e realiza uma série de entrevistas onde pergunta tudo ao temido bandido, até se ele é gay! A agilidade da equipe de filmagem permite cenas inusitadas e divertidas. Don é preso numa mega-operação policial, os demais membros da gangue não são detidos e o segundo no comando tem apenas 17 anos. O que vemos a seguir é típico de uma comédia pastelão: os rapazes discutem no meio da rua, minutos após a polícia deixar o local, e as armas são visíveis na altura da cintura. Nem Woody Allen faria melhor.

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Dominic passeando pelas ruas de Manchester

A montagem dinâmica e sugestiva deixa espaço para o público respirar e rir livremente. É impossível segurar o riso quando Don explica ao diretor que obriga o bando a se vestir com terno e gravata porque “Estamos sempre sendo fotografados e filmados. Não quero ir preso sem estar bem vestido.” Na seqüência, o diretor faz um pequeno clipe com a música clássica de Pulp Fiction e fotos dos bandidos em preto e branco. Hilário.

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Gang em estilo Vincent Vega

Alguns críticos ingleses disseram que Macintyre deu toques de sofisticação ao mafioso e não revelou sua verdadeira face. O filme acompanha quatro anos na vida de Dominic Noonan, incluindo suas idas e vindas do tribunal e da cadeia, e se isso não é o suficiente para deixar claro quem é o personagem principal, bem, só com uma confissão de culpa assinada.

No momento mais tenso do documentário vemos a reação de Don ao assassinato do irmão, o mais temido membro da família, e suas palavras deixam claro o que vai acontecer a seguir: “Eu sei quem foi. Ele está morto, ele já está morto. Ele sabe que está morto. Está acabado.

O funeral de Desmond Noonan parou Manchester

O funeral de Desmond Noonan parou Manchester

Macintyre abusa das perguntas inconvenientes e dispara: “Você não acha que já correu sangue demais?” Dominic responde sem pestanejar: “O quê? Isso está só começando. Esse é só o começo“. No primeiro dia que passa na cadeia, o traficante que matou Desmond Noonan é esfaqueado e transferido para uma prisão de segurança máxima.

Poucas vezes o mundo da máfia foi retratado tão de perto e de forma tão simples e direta. Macintyre não usa câmera escondida ou filma disfarçado, ele anda na rua com sua PD-150 em punho, lado a lado com Dominic Noonan e freqüenta os bares e restaurantes com a gangue. “Não estou vendo você comer nada, Donal. Coma.”, sugere calmamente o chefe mafioso.

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Católico como todo bom mafioso

O documentário não registra apenas o cotidiano de Don, o diretor também quer saber como é a família Noonan na intimidade e conversa com a irmã, sobrinhos e amigos. A relação de Dominic com os filhos recebe uma atenção especial no filme – seria uma homenagem à saga O poderoso chefão de Mario Puzo e imortalizada por Francis Ford Coppola?

Um gângster bem britânico está longe de ser um filme que faz apologia ao crime organizado, é uma denúncia, um tapa na cara das autoridades britânicas. Macintyre usa elementos da cultura pop para contar uma história tão antiga quanto a coroa da rainha.

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Um gângster bem britânico (A very british gangster)

Reino Unido, 2007. 87 minutos

Direção: Donal Macintyre

Lucio: Anarquista, Falsificador e Ladrilheiro

10/11/2009

posterlucio1Lucio Urtubia nasceu em 1931, na cidade de Cascante, província de Navarra, na Espanha, mas foi em 1954, na França, em Paris, que se tornou o maior falsificador da história.

O jovem Lucio começa suas atividades na informalidade ainda no exército, onde descobre como burlar os registros de suprimentos e fardas. Numa época de crise e racionamento o mercado negro recebe uma enxurrada de botas, cintos e latas de conserva. O esquema é descoberto e o recruta precisa desertar para fugir da prisão militar.

Esse simples delito direciona a vida de Lucio como foragido. “Resolvi pegar a estrada, e naquele tempo todos os caminhos levavam a Paris”. O rapaz sem estudo e de família humilde logo se adapta, consegue emprego numa fábrica, faz novas amizades e descobre, na Cidade Luz, que não era comunista e sim anarquista. Lucio abraça a bandeira da Revolução Cubana e luta com todas as forças contra o regime franquista.

Perfil 1Os diretores espanhóis Aitor Arregi e Jose Mari Goenaga conduzem a história com humor, inteligência e muita criatividade. A excelente pesquisa de imagens concede um realismo necessário ao material e nos torna cúmplices de Lucio.

Eu expedi cinco mil passaportes italianos em um mês. Ora, eu substituí o Governo Italiano. Quem precisa deles? Você quer ir e vir? Eu faço um passaporte francês ou alemão. Isso é liberdade.

Lucio esteve envolvido, direta ou indiretamente, em praticamente todos os atos conspiratórios dos grupos extremistas durante as décadas de 60 e 70. Tinha ligações com os Panteras Negras, o grupo separatista basco ETA, guerrilheiros latino-americanos e muitos outros grupos e siglas, mas quase nunca foram encontradas provas contra ele. Lucio esteve sob investigação de diversas agências de vários países, incluindo a poderosa CIA.

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Identidade falsa de Lucio

Mas nem todos acreditavam nas histórias de falsificação e nas aventuras. Para a família Lucio Urtubia era simplesmente um ótimo pedreiro e ladrilheiro. Para os companheiros de obra era um funcionário que nunca faltava ao trabalho e dono de um acabamento perfeito que os clientes adoravam. “Eu não acredito que ele fez tudo isso. Eu não acredito que ele esteve com Che Guevara.”, nos revela um antigo colega.

Para azar dos invejosos e sorte dos diretores, a imprensa e a polícia estiveram atentas aos passos do anarquista durante décadas. Volumosas pastas de arquivo, pilhas de documentos, milhares de fotos e metros de filmes foram gastos para descobrir como Lucio conseguia fornecer passaportes falsos para perseguidos políticos e ir ao trabalho todos os dias. E não é que vemos, preto no branco, Che e Lucio, lado a lado, durante uma visita do líder cubano à Paris?

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Cheques falsificados por Lucio

O ponto alto do documentário é o famoso golpe que Lucio aplica no First National Bank (hoje Citibank) dos Estados Unidos. O bando de falsificadores – comandados por Lucio – espalhou milhares de Traveller Checks (cheques de viagem) pelo mundo todo, o que resultou num prejuízo aproximado de vinte milhões de euros (em valores corrigidos da época).

LUCIO1O longa-metragem de 93 minutos fica pequeno diante das estripulias de seu personagem, mas a montagem dinâmica e o roteiro bem entrelaçado preenchem as lacunas do tempo. Lucio nunca foi preso mais do que poucos meses, hoje vive em Paris e esteve presente na estréia do documentário, no Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha, no meio de 2008.

Lucio: Anarquista, Falsificador e Ladrilheiro

Espanha, 2007. 93 minutos

Direção: Aitor Arregi e Jose Mari Goenaga

Já que nascemos

03/11/2009

JAQUE1

Já que nascemos é o terceiro documentário do casal Andréa Santana e Jean-Pierre Duret. Andréa estudou Arquitetura na Universidade do Ceará e Geografia na Universidade de São Paulo. Engenheiro de som em filmes de Claude Chabrol, Agnès Varda e Louis Malle, Jean-Pierre Duret assina seu primeiro documentário, Un beau jardin, par exemple, em 1986. A colaboração de Andréa com o marido começou com Romances de terre et d’eau, realizado em 2001.

Andréa e Duret podem agradecer aos céus por terem encontrado personagens tão impressionantes como Cocada e Nego. Os dois amigos moram no município de São Caetano, em Pernambuco, e passam o tempo de forma completamente diferente das outras crianças: trabalhando.

JAQUE4O expectador mais atento irá observar que o trabalho infantil é muito comum no Brasil e nos demais países do Terceiro Mundo – ou países em desenvolvimento para ser politicamente correto. A diferença aqui, e acreditem faz toda a diferença, é que Cocada e Nego precisam trabalhar. Eles não trabalham por dinheiro, não trabalham para ajudar a família, não trabalham obrigados pelos pais, eles simplesmente precisam trabalhar.

Cocada, quatorze anos, e Nego, treze, decidiram passar o dia trabalhando para fugir da sina que persegue os meninos pobres da região. Cocada sabe que a sedução das drogas e das armas é forte, o pai morreu em seus braços quando ele tinha dez anos. “Eu não penso em matar ninguém. Eu nunca vou entrar nisso, matar. E também não vou ser ladrão.”

Os dois vagueiam pelo posto de gasolina na beira da rodovia e fazem todo tipo de serviço: lavam carros, caminhões, ajudam o camelô aleijado a montar a mercadoria, encontram clientes para comprar os santinhos e até vendem no lugar do dono da barraca. E tudo isso sem salário, sem pagamento combinado, eles apenas fazem e quando aparece um real, é sempre bem-vindo.

JAQUE2

Com o cair da noite, os caminhões são substituídos pelos ônibus de viagem e Nego pede alguns trocados aos passageiros. O amigo Cocada lhe dá uma bronca: “Não gosto de ver você pedindo esmola.” Eles iniciam mais uma conversa-confissão, algo comum entre os dois, e falam do futuro, do passado e do que irão ser quando crescerem. Cocada, por ser o mais velho, dá conselhos a Nego e lhe ensina a conseguir emprego, quando chegar a hora.

A desenvoltura dos meninos quase nos faz acreditar que estamos diante de uma obra de ficção, de um roteiro muito bem amarrado e de uma direção de atores impecável. Mas o que a lente da câmera registra é o retrato de dois jovens talentosos que estão condenados a viver o presente sem direito ao futuro.

Andréa e Jean-Pierre

Andréa e Jean-Pierre

Jean-Pierre Duret poderia ter caprichado mais no som do filme. Em alguns momentos é impossível compreender o que é dito, menos mal que a película tinha legendas em inglês. Mas esse defeito não deve incomodar os realizadores, afinal o destino de Já que nascemos é o mercado europeu.

O filme foi produzido, editado e finalizado por franceses em Paris. Será que eu estou sendo preconceituoso?

JAQUE5Os enquadramentos no tripé ou com a câmera estática são precisos, mas basta entrar em movimento para termos a sensação de que a direção queria tremer, queria dar uma idéia de precariedade, confusão. Algo absolutamente desnecessário nessa realidade. Nenhum grande fotógrafo seria capaz de eclipsar a presença daquele lugar ou a verdade que transborda dos dois amigos.

Andréa e Duret merecem crédito por terem encontrado os meninos e darem forma ao material, mas é inegável que a força de Já que nascemos vem do carisma e da inteligência de Cocada e da rebeldia ingênua de Nego. Um filme tipicamente brasileiro, mesmo que venha com selo de importação.

Já que nascemos (Puisque que nous sommes nés)

França/Brasil, 2008. 90 minutos.

Direção: Jean-Pierre Duret e Andréa Santana

O livro das férias

25/09/2009

Poster

O jovem Ali (Tayfun Gunay) acorda cedo e vai para a escola. O último dia de aula do semestre passa lentamente, mas sem grandes surpresas. Antes de liberar os alunos, o professor entrega o livro das férias e recomenda que os meninos estudem e façam os exercícios para não voltarem sem lembrar da matéria. Na porta do colégio um menino mais velho arranca o livro das mãos de Ali e foge correndo. O garoto percebe que suas férias não serão nada normais.

O roteirista e diretor Seyfi Teoman utiliza um recorte da família do jovem Ali para mostrar as angústias e desesperanças dos moradores de uma pequena cidade próxima a Istambul. O irmão mais velho de Ali também está de férias, ele retorna para casa depois de mais um ano na academia militar. Veysel (Harun Ozua) não suporta a vida militar, pensa em desistir da carreira e toma coragem de contar a decisão ao pai, um austero e avarento agricultor que nem cogita a possibilidade do filho desistir do futuro certo como oficial do exército turco.

livrodasferias2Veysel compartilha do problema com o tio Hasan (Taner Birsel) e pede ajuda para pagar a multa de mil liras turcas. Hasan que não tem o dinheiro, já que a quantia é considerada alta, administra o açougue deixado de herança pelo pai e sempre discuti com o irmão mais velho por não ter conseguido vencer na vida sozinho.

Mustafá (Osman Inan) não quer que seu filho mais novo, Ali, siga os passos rebeldes do tio Hasan e do irmão mais velho e mantém o garoto sempre por perto. Com medo, Ali não conta que teve o livro das férias roubado e sem ter nada para fazer é obrigado a acompanhar o pai ao trabalho e vê seus dias de brincadeira se tornarem um sonho impossível.

livrodasferias4

Güler (Ayten Tokun) sente a tristeza dos filhos e resolve interceder junto ao marido. Na verdade, Güller quer um pretexto para discutir e arrancar o nome da amante que ela jura que Mustafá sustenta.

Com esse mosaico de problemas e confusões estabelecido, Seyfi Teomam nos mostra que as dúvidas são as mesmas em qualquer parte do mundo. O que vou fazer quando crescer? Qual profissão vou escolher? Eu sou um bom pai? Estou acertando em trilhar esse caminho?

Teomam não fez um filme contemplativo e não deixou seus personagens sem rumo, ao contrário, fez questão de colocar mais fogo na lenha. Mustafá sofre um derrame cerebral quando voltava de viagem. Ao recobrar a consciência, o velho só consegue dizer ao jovem Ali que deixou muito dinheiro no carro e pede que o garoto vá buscar antes que alguém o roube. Está instalada a confusão. Güller tem certeza que o dinheiro era para a amante, Veysel vê a oportunidade de escapar do exército, Ali precisa voltar para a escola e sobra para Hasan a tarefa de recuperar o carro, o dinheiro e a honra do irmão.

Teomam nasceu na Turquia, em 1977, e estudou Direção Cinematográfica na famosa Escola Nacional de Cinema de Lodz, Polônia, a mesma de Roman Polanski. Em 2004, fez seu primeiro curta-metragem, Apartman, selecionado para vários festivais. O livro das férias, seu primeiro longa-metragem como diretor, venceu seis prêmios internacionais, entre eles o Zenith de Bronze no Montreal World Film Festival.

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O livro das férias (Tatil Kitabi)

Turquia, 2008. 92 minutos

Direção: Seyfi Teoman