Archive for the ‘Festival do Rio 2009’ Category

Intruso

29/07/2010

O mérito do diretor Paulo Fontenelle foi convencer um grande elenco a embarcar na viagem de Intruso (The Guest, 2009), seu primeiro longa-metragem. Atores experientes como Lu Grimaldi e Genésio de Barros, ou globais como Eriberto Leão, Danton Mello e Juliana Knust acreditaram no texto e aceitaram o desafio de serem dirigidos por um estreante.

Mas será que podemos chamar Paulo Fontenelle de estreante? Fontenelle dirigiu e roteirizou os documentários “Evandro Teixeira – Instantâneos da Realidade” (2004) e “Sobreviventes – Filhos da Guerra de Canudos” (2007). Além de ser sócio da produtora Canal Imaginário, Paulo trabalhou com nomes consagrados do cinema nacional como Luís Carlos Barreto e Nelson Pereira dos Santos.

A história de Intruso é cercada de mistério. Seria muita covardia esmiuçar a trama e revelar pontos que o diretor tentou esconder até o fim. Mas é possível dizer que este é um filme diferente, quase uma ficção-científica, quase. Os diálogos mereciam um cuidado especial, o texto segura a tensão, mas em alguns momentos a repetição do assunto e até mesmo a falta de assunto chega a incomodar. Um elenco tão bom merecia diálogos mais lapidados.

Eriberto Leão não costuma fazer cinema, participou de apenas três filmes em treze anos de carreira e todos em 2008. Os trabalhos na TV e no teatro são mais frequentes: foram nove telenovelas, seis minisséries e seis peças. Eriberto não costuma fazer cinema, mas deveria. Seu personagem é obscuro e de poucas falas, porém isso não o impede de dominar a cena e concentrar as atenções mesmo diante de um time tão bom de atores. Danton Mello é outro que merece destaque, faz um papel secundário com segurança e ajuda a dar coesão a um filme que depende do roteiro e de seus atores.

O ponto negativo do trabalho de Paulo Fontenelle, que disse ter desembolsado apenas dez mil reais para fazer o filme, é a edição de som ou a captação do áudio. Na verdade, esses dois fatores estão interligados. Uma péssima captação na filmagem só é ajustada com muito trabalho na ilha de edição e isso significa custo, ou seja, dinheiro.

Em alguns momentos o som ambiente está tão alto que incomoda, quebra a magia e nos joga para fora do filme. Numa cena onde os atores estariam teoricamente tramando, conspirando e assim falando num tom de voz mais baixo do que o normal, nós ouvimos tudo no mesmo volume da cena anterior e também da próxima. Não me pareceu ser um exercício ou até mesmo um estilo de montagem.

Intruso apresenta esses e outros pequenos contratempos, mas apresenta também uma história nova, uma tentativa de trilhar um caminho diferente para as produções nacionais de ficção, uma ousadia. Paulo Fontenelle explicou que não houve tempo para fechar a edição de áudio e que a cópia exibida no Festival do Rio 2009 realmente apresentava problemas de finalização. Uma pena já que uma janela de exibição tão interessante como a do festival carioca foi desperdiçada.

Intruso (The Guest)

Brasil, 2009. 80 minutos

Direção: Paulo Fontenelle

Com: Eriberto Leão, Danton Mello, Lu Grimaldi e Juliana Knust

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Reidy, A Construção da Utopia

06/07/2010

Affonso Eduardo Reidy nasceu na França, em Paris, em 1909, mas seu nome está marcado de forma indelével na história de outra cidade tão famosa quanto a capital francesa. Reidy foi diretor do Departamento de Urbanismo do Rio de Janeiro, coordenou a radical transformação que modificou o centro do Distrito Federal no fim da década de 40 e foi um dos pioneiros do brutalismo arquitetônico no Brasil. O projeto do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1953, foi o primeiro em concreto aparente do país.

Reidy, A Construção da Utopia (Reidy, Building Utopia, 2008) faz tanto uma análise minuciosa da carreira do arquiteto quanto uma homenagem merecida ao homem que projetou e desenhou um dos símbolos da carioquice, o Aterro do Flamengo. Em 2005, Ana Maria Magalhães dirigiu o documentário para TV “Reidy, Saudades do Futuro” e percebeu que a linguagem televisiva não era a ideal para seus propósitos.

Ana resolveu dar outro olhar para o material, evitando o excesso de informação e assim assumindo uma abordagem menos didática. O novo filme pode não ter as informações básicas sobre o arquiteto, mas procura mergulhar fundo nos seus textos e pensamentos – que sempre foram vistos como utópicos.

Ana Maria contou com o olhar de Dib Lufti para fotografar o documentário

A cineasta tem uma ligação afetiva com o personagem, já que Carmem Portinho, companheira de Reidy na vida pessoal e profissional, era sua tia. Carmem, além de ser engenheira da prefeitura, era a diretora da Revista Municipal de Engenharia do Distrito Federal e uma das principais divulgadoras do trabalho do urbanista no Brasil e no mundo.

A engenheira lidera a lista de entrevistados que esmiúçam o trabalho e a utopia de Reidy. Ana conversou ainda com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, com Roland Castro, fundador do Movimento de Utopia Concreta (MUC) e candidato à presidência da França em 2007, e colheu um raro depoimento de Lúcio Costa.

A montagem privilegia o discurso, mas não deixa de abrir espaços para a contemplação dos projetos, maquetes e das obras acabadas. Mesmo com a intenção de fugir do tom professoral, Ana nos permite vislumbrar e entender as diferenças entre o que estava no projeto elaborado por Reidy e que o foi aprovado e construído pelo governo. Na tentativa de ilustrar e evitar o uso simplista da narração, a diretora introduz um ator para ler os manuscritos deixados pelo urbanista. Um toque ficcional que não brigou com a estética proposta para o filme e ainda trouxe um ar nostálgico e poético.

O Conjunto Habitacional Pedregulho é um marco na carreira de Reidy

Reidy projetou o Aterro e o Parque do Flamengo, o MAM/RJ e participou da equipe de criação do Ministério da Educação e Saúde, marco fundamental na história da arquitetura moderna brasileira. Mas sua principal contribuição para a arquitetura foram os projetos de habitação social. O Conjunto Habitacional Pedregulho, construído em 1946, e o Conjunto Marquês de São Vicente, inacabado desde 1952, ganharam reconhecimento internacional e recebem a visita de estudantes de arquitetura do mundo todo.

Ana Maria tinha duas grandes preocupações antes de fazer o filme, a primeira era debater o caráter utópico das obras de Reidy – desculpa dada por críticos e pelo governo para a não realização completa de muitos de seus trabalhos, e a segunda era assegurar que o nome do arquiteto fosse definitivamente associado ao projeto do Aterro do Flamengo. “O Aterro é do Niemeyer, é do Carlos Lacerda, é do Burle Marx, o Reidy quase nunca é citado. Ele já sonhava em fazer esse parque desde os anos 30, desde o morro do Castelo. Era preciso falar sobre isso.”

Reidy, A Construção da Utopia traça um paralelo entre homem e obra com precisão matemática.

Reidy, A construção da utopia (Reidy, Building Utopia)

Brasil, 2008. 77 minutos

Direção: Ana Maria Magalhães

Fotografia: Dib Lufti

Vida de Balconista

09/06/2010

Você já imaginou ficar um dia inteiro dentro de uma locadora de vídeo? Já imaginou quantos tipos não devem aparecer perguntando pelo “último do Godard”? Se você já trabalhou numa locadora sabe muito bem o que acontece por lá. E claro, se você é cinéfilo vai citar o filme mais famoso sobre o assunto: “O Balconista” de Kevin Smith. Rodado em 1994, Clerks, no original, mostra a loucura que é o dia a dia de dois amigos que trabalham e praticamente fazem tudo na loja. Vida de balconista (Clerk’s Life, 2009) de Cavi Borges e Pedro Monteiro é uma sátira muito bem-humorada sobre o tema, mas com toques e retoques tupiniquins.

A Cavídeo é uma locadora instalada no bairro de Botafogo, na Cobal do Humaitá, e muito famosa no circuito-cult-independente do cenário-nerd-carioca. Cavi Borges sempre dizia que um dia faria um filme com as histórias que viveu e ouviu na loja. E esse dia chegou. Bom, na verdade não foi um dia e sim uma noite. Cavi e Pedro Monteiro receberam dois mil reais de um projeto da OI e partiram para a batalha. Como a grana era curta e o tempo dos atores mais escasso ainda, a solução encontrada foi queimar todo o negativo de uma vez.

Mateus Solano e a difícil tarefa de agradar a todos os gostos

Negativo, mas que negativo? O fotógrafo Paulo F. Camacho bem que gostaria de ter rodado o filme numa câmera 35 mm novinha, até uma antiga Bolex seria uma benção, mas Paulo teve que se contentar com as modernas câmeras digitais. A opção por usar uma lente grande angular – o espaço na locadora era mínimo – incomoda e causa uma estranheza no início, mas depois nos acostumamos com os closes e as caretas de Mateus Solano.

O elenco, formado por atores de teatro, foi fundamental para que fosse possível gravar tudo numa única noite. Alguns esquetes são longos e sem cortes, ou seja, os atores tiveram que decorar o texto, e claro, improvisar para não ouvir o terrível: “Corta! Vamos fazer outra vez!”. Mateus Solano faz o balconista do título e na época estava gravando a minissérie Maysa da Rede Globo e ainda não era – como podemos dizer – famoso como agora.

Pelo jeito a senhorinha não gostou do filme indicado

Cavi Borges e Pedro Monteiro fizeram uma experimentação, quase uma brincadeira, e provaram que o vídeo digital é a materialização da frase cunhada por Glauber Rocha: “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça!”. Vida de balconista foi feito com paixão, tem um texto interessante e bons atores, mas somente isso não seria o suficiente para fazer a magia acontecer: roteiro virar filme!

O vídeo digital permite que milagres como esse aconteçam. Cavi, agradecido, nos brinda com uma refilmagem da já clássica cena de abertura de Pulp Fiction. Hilário! Ficamos com vontade de ver de novo, mas isso não é problema, é só passar na Cavídeo e alugar o DVD – que deve ter um monte de extras.

Vida de Balconista (Clerk’s Life)

Brasil, 2009. 75 minutos

Direção: Cavi Borges e Pedro Monteiro

Elenco: Mateus Solano, Gregório Duvivier e Paula Braum

Cidadão Boilesen

22/04/2010

Quem foi Henning Boilesen? Você já ouviu falar desse nome? Com perguntas inocentes, comuns ao telejornalismo, uma equipe que parece ser de TV aborda moradores e transeuntes na Rua Henning Boilesen, no bairro de Jaguaré, zona oeste da cidade de São Paulo. Na velha placa de rua apenas os dizeres: “Administrador de empresas”.

Na sequência, simpáticos velhinhos relatam a camaradagem de Boilesen, seu amor pelo Brasil, pela caipirinha, pelas mulatas e pelo Palmeiras. Temos aí uma pista, o executivo é estrangeiro e ama o nosso país, é quase um brasileiro. A equipe parte para a Dinamarca, terra natal de Boilesen, procura amigos, parentes e vai até a escola buscar os boletins do aluno. Mas qual o interesse nesse tal de Henning Albert Boilesen? O que ele fez de importante para merecer um filme?

Mulherengo, galanteador e apaixonado pelo Palmeiras

Cidadão Boilesen (Citizen Boilesen, 2009) revela a verdadeira face do executivo dinamarquês que desembarcou pobre no Brasil, chegou à presidência do poderoso Grupo Ultra, dono de diversas empresas como a Ultragaz, e que foi assassinado em 15 de abril de 1971, no bairro dos Jardins, em São Paulo. O documentário entrevista militares, policiais, empresários, políticos e membros dos grupos de esquerda que lutavam contra a ditadura militar imposta pelo Golpe de 64.

Falar de Henning Boilesen é relembrar eventos que foram “varridos para debaixo do tapete” após a volta do regime democrático ao país. Se os presos políticos e exilados receberam a anistia plena do governo federal, por outro lado, militares e agentes do DOI-Codi foram agraciados com o esquecimento da mídia, da justiça e da sociedade.

A participação de empresários e da elite paulistana na instalação do principal equipamento de tortura e repressão da ditadura, a Operação Bandeirante, conhecida como Oban, é dos tabus mais incômodos da recente democracia brasileira.

Sorridente, brincalhão e figura cativa nos porões da ditadura

O filme de Chaim Litewski faz um trabalho de pesquisa primoroso, recolhe documentos preciosos, conversa com pessoas que viveram os fatos e vai reconstruindo a figura apagada e nebulosa de Boilesen. A edição vai intercalando as entrevistas e temos a impressão de ver uma cebola sendo descascada, cada camada abre uma porta e nos leva aos recantos mais secretos dos porões da ditadura.

Mulherengo. Charmoso. A cara do Kirk Douglas. Extremamente amável. Contato da CIA. Amigo dos generais. O responsável por levantar fundos para a Oban. O gringo que participava das torturas. O inventor da “pianola boilesen”. Frequentador assíduo do DOI-Codi. Quem era Henning Albert Boilesen? O que ele fez para ter uma rua com seu nome? O que ele fez de importante para merecer um filme? Essas talvez sejam as perguntas erradas. Por que eu nunca ouvi esse nome antes? Por que esses eventos não estão nos livros escolares? Por que a Operação Bandeirante não foi tema de novela? Essas sim são perguntas interessantes.

O inventor da Pianola Boilesen: um terrível instrumento de tortura

Cidadão Boilesen (Citizen Boilesen)

Brasil, 2009. 93 minutos

Direção: Chaim Litewski

Luto como mãe

08/04/2010

Treze de julho de 1990. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é instituído pela Lei 8.069. Vinte e seis de julho de 1990. Onze pessoas, entre elas sete menores são retiradas de um sítio em Suruí, distrito de Magé, município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e levadas por homens armados que se identificaram como policiais. Os corpos nunca foram encontrados. Os familiares iniciam uma busca por justiça e o movimento fica conhecido como Mães de Acari.

Seis de dezembro de 2003. Quatro jovens são detidos por policiais militares que trabalhavam como segurança de uma casa noturna na Via Dutra. Os corpos são encontrados num sítio em Imbariê, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Esse é o Caso Via Show.

Trinta de março de 2005. Num intervalo de poucas horas vinte e nove pessoas são assassinadas em diversos pontos da Baixada Fluminense. Seis são executadas na porta de um bar, no bairro da Posse, em Nova Iguaçu. As outras vítimas são de Queimados. A matança seria uma represália à Operação Navalha na Carne que prendeu mais de sessenta policiais que teriam ligações com o crime. A Chacina da Baixada é considerada a maior e mais sangrenta da história do Rio de Janeiro.

Luto como Mãe (Right to Mourn, 2009) acompanha os familiares das vítimas desses três crimes na peregrinação por justiça em tribunais, passeatas e atos políticos. As mães são as mais engajadas no processo e as diversas associações formadas buscam dar apoio jurídico e psicológico, além de cobrar punição para os envolvidos.

O filme ilustra os três acontecimentos utilizando recortes de jornal e reportagens do rádio e da TV. O roteiro parte da explicação dos casos para chegar até as mães e insere o espectador no contexto socioeconômico e político da época. Um trabalho de pesquisa eficiente e preciso.

O diretor Luis Carlos Nascimento, um dos fundadores da ONG Nós do Cinema, editou o premiado curta-metragem Uma mãe como eu (2007) que serviu como teste para o corte final do documentário. Luis Carlos registrou passeatas, encontros e acompanhou os julgamentos realizados de 2006 até 2009. A montagem dispensa a figura do narrador e opta por deixar a história a cargo dos personagens.

Em alguns momentos a câmera registra o trabalho da imprensa e esse material, assim como as entradas ao vivo dos repórteres de rádio, servem para situar a ação. Simples e criativo. Ideias como essa evitam que a edição fique arrastada e ao mesmo tempo deixa o público sempre informado.

Um dos recursos narrativos do filme foi distribuir pequenas câmeras de vídeo digital para que as mães conversassem umas com as outras e tivessem liberdade para perguntar e responder às questões que surgissem naturalmente dos encontros. As pequenas filmadoras são leves, fáceis de operar e acabaram sendo usadas para gerar imagens que foram anexadas a outros inquéritos envolvendo violência policial.

O que deveria ser apenas mais uma experiência do chamado cinema reflexivo – os filmes em primeira pessoa que inundaram as últimas edições do Festival É Tudo Verdade – recebe um novo olhar ao gerar um terceiro produto, as denúncias, que são assimiladas pela montagem.

Mães de Acari, Caso Via Show, Chacina da Baixada, Chacina de Vigário Geral, Chacina da Candelária, Chacina da Favela do Barbante, Chacina do Pan, a lista é interminável. Luis Carlos poderia usar seu talento contando histórias sobre o Rio, usar sua criatividade para construir roteiros de ficção, mas infelizmente Luto como mãe é mais necessário.

Infelizmente, o filme é atual. Infelizmente, ele ainda será atual daqui a vinte anos. Infelizmente, não estaremos vivos para saber se um dia ele será visto como espelho de uma época, quase uma obra de ficção. Infelizmente.

Luto como mãe (Right to Mourn)

Brasil, 2009. 70 minutos

Direção: Luis Carlos Nascimento

Morgue Story

02/04/2010

Morgue Story – Sangue, Baiacu & Quadrinhos (Morgue Story – Blood, Bloowfish & Comics, 2009) foi apresentado no Rio durante o Festival do Rio do ano passado. O filme foi realizado com menos de cento e trinta mil reais. Na verdade, a produção gastou exatos cento e vinte e seis mil e quatrocentos reais e o diretor Paulo Biscaia Filho, do grupo Vigor Mortis de Curitiba, Paraná, anuncia em tom grave: “Espero que vocês gostem de trash”. Silêncio. “Esse é um filme trash!” A plateia descamba para a gargalhada. A sequência de abertura é criativa e emenda direto no diálogo mordaz entre Ana Argento (Mariana Zanette) e o barman (Fábio Silvestre). Pronto, não precisa de mais nada, o público está ganho.

Paulo não deve ter tido muita preocupação com os ensaios para o filme. O roteiro do longa-metragem é uma adaptação de uma peça teatral de sua autoria e encenada pela primeira vez em abril de 2004, na capital paranaense. O elenco principal é o mesmo da estreia, Mariana Zanette como Ana Argento, Anderson Faganello como Tom e Leandro Daniel Colombo faz o engraçado Doutor Daniel Torres.

A trama gira em torno de Ana Argento, uma cartunista que ganhou notoriedade ao criar Oswaldo, o morto-vivo caolho. Mariana Zanette domina com perfeição o tempo cômico e o bom entrosamento vindo dos palcos com Anderson Faganello garante o tom certo para os diálogos. Como em todo bom filme de terror, a mocinha em perigo precisa ser salva pelo herói e é aí que os problemas de Argento se multiplicam: ela também precisa salvar o herói. Alguém conseguiu anotar a receita do drink da Ana Argento?

Sangue, magia negra, necrotério, bebidas envenenadas, reviravoltas espetaculares e até a presença do exército brasileiro no Haiti entra na história. O diretor-roteirista Paulo Biscaia Filho ainda reservou um lugar especial para o baiacu do título. Não, não senhor, ele não foi esquecido. Paulo sabia que tinha um texto criativo nas mãos e um elenco capaz de levar esse roteiro para o cinema, cabia ao diretor encontrar a fotografia ideal e um estilo de montagem que servisse para sua trama trash. Paulo que já era diretor-roteirista acumulou mais uma função e passou a ser montador-diretor-roteirista.

Brincadeiras à parte, a edição é rápida, mas não acelerada – cortes excessivos iriam enfraquecer a ação e matar a atuação dos atores e olha que eles já morrem muito em cena. A fotografia de Alexander De Marco – essa função o Paulo deixou passar – marca as cores de acordo com os personagens e adota desde o tenebroso cinza aos vermelhos berrantes. Os enquadramentos clássicos também estão presentes e os closes dos gritos antecedem ao sangue jorrando para fora do quadro. E a trilha sonora? Mais surpresas!

Não posso cometer a injustiça de deixar passar a atuação de Leandro Daniel Colombo como o médico-legista Doutor Daniel Torres e é melhor não chamá-lo de Doutor Dan. E para terminar uma última dica, não desligue o DVD antes dos créditos finais, Paulo e Cia. aprontaram outra maldade.

Morgue Story – Sangue, Baiacu & Quadrinhos (Morgue Story – Blood, Bloowfish & Comics)

Brasil, 2009. 78 minutos

Direção: Paulo Biscaia Filho

Com: Mariana Zanette, Leandro Daniel Colombo e Anderson Faganello

Cildo

22/03/2010

Registrar, documentar, arquivar, eternizar, ações usualmente associadas ao cinema documentário. A função do diretor ao lidar com o cotidiano por vezes se confunde com a de um historiador, um jornalista, e essa confusão é prejudicial tanto para o cineasta quanto para a obra a ser feita. Cildo (Cildo, 2008) faz um recorte na carreira do artista plástico Cildo Meireles sem utilizar críticos especializados, eliminando o excesso de explicações e dessa opção surge um filme que mais pergunta do que responde.

O diretor Gustavo Rosa de Moura acompanhou o artista durante quatro anos de forma fragmentada e estabeleceu uma relação que acabou sendo absorvida pela montagem e se mostrando ideal para a condução da narrativa. Gustavo conseguiu achar o ritmo certo para intercalar entrevista e obra, algo difícil e raro nesse tipo de documentário.

Cildo Meireles costuma dizer que não gosta de microfones, é avesso às entrevistas, mas diante do aceite e com uma câmera em seu encalço resolve entrar no jogo. O artista relembra momentos da infância, correlaciona vida e obra, critica os críticos e até se dá ao luxo de pequenas brincadeiras: “Estou me sentindo o Eric Clapton aos 20 anos!”, diz olhando para a lente, após ser abordado na rua, em Londres, por um casal que lhe pede uma foto e elogia sua exposição no Tate Modern.

O espaçamento forçado das filmagens deve ter dado tempo para que Gustavo digerisse e processasse tanto as obras quanto o conteúdo das fitas, das entrevistas. A maturidade com que a câmera percorre as instalações de Cildo, aliada a uma montagem que concede o tempo exato para seja possível uma imersão nas imagens, é resultado de uma cumplicidade que não se conquista de uma hora para outra.

Cada obra exige um tempo de visualização e enquadramentos distintos. Os movimentos de câmera não são utilizados vulgarmente, os cortes não respeitam um ritmo predeterminado e sim o ritmo da obra, do artista, num esforço para transportar o público para dentro da instalação. A concepção pode ser simples e óbvia, e é, mas mesmo assim não é sempre que temos uma comunhão tão grande entre o objeto filmado e o resultado propriamente dito.

Cildo não se propõe a explicar o artista plástico Cildo Meireles, não revela a totalidade de sua obra, não é uma cinebiografia e não contextualiza o artista no panorama nacional ou mundial. Não, o filme não aborda questões existencialistas da criação artística ou responde aos segredos do universo. O diretor Gustavo Rosa de Moura fez um exercício cinematográfico tão simples e eficiente quanto incomum para esse tipo de documentário.

Cildo (Cildo)

Brasil 2008. 78 minutos

Direção: Gustavo Rosa de Moura

Beyond Ipanema: Ondas Brasileiras na Música Global

17/03/2010

Beyond Ipanema: Ondas Brasileiras na Música Global (Beyond Ipanema: Brazilian Waves in Global Music, 2009) navega pela história da música nacional sob a ótica do olhar estrangeiro. Qual o impacto do nosso som no resto do mundo? Existe uma sonoridade tipicamente brasileira? E que influências os nossos artistas absorveram? O que é World Music? Kurt Cobain utilizou elementos brasileiros nos álbuns do Nirvana, ou morreu antes disso? A música brasileira é a verdadeira World Music?

Os diretores Guto Barra e Béco Dranoff conversaram com mais de cinquenta artistas e críticos sobre essas e outras questões envolvendo a música nacional. O resultado é um trabalho instigante, divertido e até mesmo didático, mas que passa longe de assumir um ar professoral. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Roberto Menescal, Bebel Gilberto, Tom Zé, Seu Jorge, nomes que levaram a música nacional para o exterior e que em alguns casos fazem mais sucesso lá fora do que aqui.

Caetano diz que a música brasileira sempre foi fonte de inspiração

O documentário usa como base a relação do cantor/produtor David Byrne com o Brasil. Em 1988, Byrne cria o selo Luaka Bop, segundo ele dedicado ao som de todos os povos, e “descobre” o Tom Zé em suas andanças pelo país. Encantado, Byrne volta aos Estados Unidos e pergunta aos brasileiros quem é Tom Zé? As respostas deixam o músico mais intrigado ainda. Muitos dizem que Tom Zé não representa a música brasileira e que seria um absurdo relançar um disco do artista para o resto do mundo. “Temos coisas muito melhores lá!” Corta para:

Aqui, no Brasil, um Tom Zé desiludido, fazendo shows apenas para o público universitário, resolve abandonar a carreira e trabalhar num posto de gasolina que pertence a um tio. A entrevista de Tom Zé é uma das melhores do filme! A cena dele beijando o álbum que caiu nas mãos de Byrne – obra responsável pelo seu renascimento como artista – é impagável pela emoção e sinceridade.

Loja em Nova Iorque vende discos de vinil de artistas brazucas

Barra e Dranoff sabiam que seria impossível contar uma história tão longa e rica em apenas um filme e decidem – acertadamente – focar nos estilos e nas personalidades mais expoentes das diversas ondas que a música nacional produziu. Carmem Miranda, contestada por diversos críticos, recebe uma merecida releitura e é tratada como o marco zero da invasão brasileira nos Estados Unidos. Bossa Nova, Tropicália, Samba, Funk, o Brasil é visto como um oásis de ideias e ritmos que serve de inspiração constante para DJ´s e músicos ao redor do mundo.

Beyond Ipanema: Ondas Brasileiras na Música Global é uma massagem no ego nacional sem ser exageradamente ufanista. Barra e Dranoff fazem um filme coerente e equilibrado. A montagem, dinâmica e ritmada, deixa espaços para o público absorver as informações e seguir em frente, navegando nos diversos sotaques que partem do Rio, passam pela Bahia e vão até o Harlem encontrar uma escola de samba no coração de Nova Iorque. No fim, fica aquele pedido de “Mais um, mais um!”

Beyond Ipanema: Ondas Brasileiras na Música Global (Beyond Ipanema: Brazilian Waves in Global Music)

Brasil, EUA 2009. 87 minutos

Direção: Guto Barra e Béco Dranoff

Rock Brasileiro – História em Imagens

11/03/2010

Rodar um documentário percorrendo os cinquenta anos do rock brasileiro não é tarefa fácil, mas também não é a missão mais impossível do mundo. O diretor Bernardo Palmeiro se diz roqueiro de carteirinha! Beleza, tudo bem, mas e aí? Isso o credencia para dirigir um filme sobre o nosso Rock BR? Não sei a resposta, só sei que Palmeiro fez um trabalho pouco inspirado, sonolento e carente de ideias.

Rock Brasileiro – História em Imagens (Brazilian Rock – History in Imagens, 2009) é tão criativo quanto o título, e não se deixem enganar, as imagens devem ter ficado no HD da ilha de edição, já que é difícil achar um respiro no filme. As entrevistas são jogadas uma a uma numa colagem apressada e falsamente moderna. Palmeiro colheu uma série de conversas e depoimentos com expoentes da música brasileira, mas desperdiça esse material ao não dar ritmo e descanso à narrativa.

A versão final de setenta minutos poderia receber um acréscimo de pelo menos dez minutos de músicas e imagens, o que daria uma riqueza e equilíbrio à montagem. As diversas fases, transições e transformações que definem o rock nacional são apenas faladas, contadas, e não marcadas com exemplos audiovisuais. Tudo feito de uma forma muito simples, sem esmero algum. Parece que os produtores entendem tanto de rock que não se importaram em esboçar didaticamente essas passagens ao público.

Num raro lampejo de lucidez, vemos a canção “Mosca na Sopa” de Raul Seixas ser usada para definir o momento em que os artistas nacionais misturaram os elementos norte-americanos com as influências nordestinas e tipicamente tupiniquins. É nesse instante que nos lembramos de como o filme teria ficado interessante se fosse realizado com ousadia, uma dose de rebeldia e atitude, muita atitude. Definitivamente faltou atitude à direção e faltou também o Nelson Motta. Não tem como conceber um trabalho sobre o rock brasileiro sem gravar uma entrevista com o Nelson Motta.

O documentário mesmo com todos esses defeitos consegue estabelecer uma empatia com a platéia, mas isso se deve exclusivamente ao carisma dos entrevistados e à paixão que cerca o tema. Talvez, só talvez, o lugar de Bernardo Palmeiro, por ser um fã declarado e de carteirinha do rock nacional, devesse ser o de espectador e não o de condutor da obra. Mas como sabiamente disse Raul Seixas: “Tente outra vez!”

Rock Brasileiro – História em Imagens (Brazilian Rock – History in Images)

Brasil, 2009. 70 minutos

Direção: Bernardo Palmeiro

Sequestro

07/03/2010

É difícil explicar qual o sentimento predominante ao fim da exibição de Sequestro (Kidnapping, 2009) de Wolney Atalla. O documentário revela os bastidores e ações da DAS, Divisão Anti-sequestro de São Paulo e acompanha o dia-a-dia de policiais e  familiares durante as investigações. Entre 2006 e 2009, a equipe de Atalla registrou o trabalho até então secreto e cercado de mistério da DAS. Nesse período de quatro anos quase quatrocentas pessoas foram sequestradas na capital paulista.

Anderson Silva, Liliane Ramos, Wellington Camargo e outras vítimas que pediram para não serem identificadas, mas que tiveram a coragem de falar para a câmera, tentam explicar de maneira racional como se dá o rapto, o que acontece no cativeiro e qual o sentimento quando ouvem o grito: “Polícia! Tá na mão! Tá na mão!” – expressão usada pelos agentes da DAS que significa o fim da ação. Palavras não conseguem dar a dimensão exata do que essas pessoas passaram, por isso, Wolney opta por deixar as imagens tomarem a dianteira na narrativa.

O filme já seria surpreendente por revelar com detalhes os métodos tanto de criminosos quanto da inteligência da DAS, mas a câmera de Dario Dezem – num trabalho tão eficiente quanto corajoso – nos leva para dentro do jogo de rato-e-gato que se transforma a investigação. De forma inédita, vemos o estouro do cativeiro e a libertação de um refém que ainda não acredita no que está acontecendo e demora longos e angustiantes segundos até perceber que está a salvo.

Wolney Atalla evita banalizar as situações e utiliza com minimalismo os recursos de edição e trilha sonora, seria fácil perder o tom e transformar uma cena forte e impactante em “novela das oito. O diretor percebe que a matéria-prima necessária para a realização da obra é bruta, quase natural e que seria um erro tentar enfeitar ou lapidar as imagens e depoimentos.

Outro grande acerto de Atalla foi realizar uma montagem direta, dividida em blocos e que utiliza como fio condutor um caso de sequestro que a equipe registra do início ao fim. Durante os 94 minutos de exibição vemos o sofrimento da família do empresário raptado e, em paralelo, o que outras vítimas passaram nessa mesma situação. Uma edição enxuta, que move o filme em linha reta e torna impossível desviar a atenção da trama.

Após o fim do sequestro, já em casa, o empresário tenta racionalizar o que passou. Tentativa inútil. Ele não consegue verbalizar, assim como outras vítimas que se calam no meio da explicação. Ao fim da sessão, com as luzes acessas, ainda demoramos um pouco para absorver o que está à nossa volta. Definir em poucas palavras o impacto do filme de Wolney Atalla também se mostra uma tentativa inútil.

Sequestro (Kidnapping)

Brasil, 2009. 94 minutos

Direção: Wolney Atalla