Archive for the ‘Livros sobre cinema’ Category

Por um cinema sem limite

15/08/2009

porumcinemasemlimiteRogério Sganzerla já fazia cinema antes mesmo de aproximar-se de uma câmera, o que pode ser constatado nas páginas que se seguem. Metade desses textos datam do início da década de 1960 e, portanto, de antes do curta Documentário e da deslumbrante estréia nos longas com O Bandido da Luz Vermelha, quando seu excepcional talento para a direção revelaria-se de maneira inequívoca.” O texto, extraído da orelha do livro e escrito por Paulo Sacramento, dá uma dimensão exata do que o leitor irá encontrar nas páginas assinadas por Sganzerla.

Rogério escreveu sobre cinema no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo numa época onde os críticos não se satisfaziam em dizer se um filme era bom ou ruim. A coletânea de artigos está longe de parecer datada e a força de sua escrita é surpreendentemente atual. Algo preocupante.

Em Por um cinema sem limite, o autor pensa, critica, observa, elogia e discute criadores e obras, indo do prático ao teórico e conseguindo um efervescente debate com suas constantes contradições.

sganzerla02Durante a leitura, iremos aplaudir e discordar enfaticamente de argumentos e conclusões, mas não sairemos impunes de pensar e tentar formular idéias próprias. Mais do que querer ensinar cinema, Sgarzela parece buscar o diálogo, talvez fomentar a discussão e assim elevar o nível tanto de realizadores quanto do público.

Por definição o cinema é ritmo e movimento, gesto e continuidade. Em tudo o que vemos, temos que considerar três aspectos: a posição do olho que olha, a do objeto visto e a da luz que ilumina a realidade. Assim, o cinema não tem a função de preencher um buraco na parede já que a sua missão é bem maior – ser uma janela sobre o mundo.

Por um cinema sem limite

Rogério Sganzerla

Azougue Editorial

Sganzerla filmando O Bandido da Luz Vermelha, em 1968

Sganzerla filmando O Bandido da Luz Vermelha

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Leitura obrigatória

15/07/2009

Se você está pensando em fazer cinema não pode deixar de ler Fazendo Filmes de Sidney Lumet e Sobre Direção de Cinema de David Mamet, e tem que ser nessa ordem, um depois do outro. Primeiro você vai se encher de coragem e correr para escrever um roteiro. Vai pensar que a vida de cineasta tem seus problemas, mas é um mundo maravilhoso e um trabalho excelente. Isso tudo é verdade.

Quem já teve a oportunidade de dirigir um filme ou um vídeo sabe como é ótimo gritar: “Ação! Corta!” e ver as páginas do roteiro se transformando como mágica em imagens. Sidney Lumet sabe que antes da mágica vem trabalho duro e também muitas, mas muitas concessões.

Ao escrever Fazendo Filmes, o diretor nos mostra um retrato inteligente e honesto dos bastidores de seus filmes. Sim, Lumet prefere falar sobre seus filmes: “Certa vez perguntei a Akira Kurosawa por que decidira fazer uma tomada em Ran de determinada maneira. A resposta foi que se tivesse colocado a câmera uma polegada para a esquerda, a fábrica da Sony apareceria na tomada, e se colocasse a câmera uma polegada para a direita veríamos o aeroporto – nenhuma das duas paisagens cabia num filme de época. Somente a pessoa que fez o filme sabe o que pesa nas decisões que resultam em qualquer obra concluída. Pode ser qualquer coisa, de exigências de orçamento à inspiração divina.”

Lumet fazendo o que mais gosta

Essa honestidade aparece em todas as páginas “Não existe maneira certa ou errada de dirigir um filme. O meu objetivo é contar como eu trabalho”. Sidney Lumet conta a experiência da primeira leitura do roteiro, a paciência para agüentar os agentes e maquiadores das estrelas, o abuso dos produtores de estúdio e a angústia do lançamento. Mesmo com todas essas dificuldades, no fim do livro você vai se sentir cheio de energia para entrar no set de filmagem. Essa é a hora do estágio dois.

Se depois de ler Sobre Direção de Cinema você ainda quiser sair correndo para filmar … o problema é seu. Não que David Mamet desanime diretamente o leitor, mas deixa claro que para ser diretor de cinema – mesmo um mal diretor – é preciso dominar muita a técnica cinematográfica, e conhecer o que diferencia o cinema das outras artes. O cinema possui uma característica que o distingue do teatro, pintura, poesia e tantas outras formas de arte: o corte. A montagem é o diferencial do cinema, o controle do tempo e do espaço só pode ser encontrado nas telas.

Quando você coloca um personagem descendo do 10o andar até o térreo de elevador não usa o tempo que ele faria normalmente e sim o tempo cinematográfico. O tempo de duração da cena que pode ser de vinte segundos, um minuto ou até cinco minutos, vai depender da necessidade dramática do filme, e do que o diretor quer passar com ela.

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David Mamet

Esse domínio do corte e do tempo foi esquecido com o advento do som. O cinema sonoro diz, fala, deixou de fazer. É justamente esse resgate da característica básica do cinema que Mamet cobra dos novos e velhos diretores. Mostrar e conduzir o público com imagens é mais difícil do que simplesmente falar para ele. Fazer o ator falar: “Estou com dor de cabeça.” É fácil. Mostrar isso sem falas e de forma convincente é o desafio. Para quem acha isso impossível é só assistir aos filmes mudos e principalmente a obra de Charles Chaplin que odiava usar as caixas de diálogo.

Se você quer realmente fazer cinema: Não desanime! Só é preciso mais do que talento para transformar palavras em imagem.

Doze homens e uma sentença de Sidney Lumet

Doze homens e uma sentença de Sidney Lumet

Os bastidores de um filme

14/07/2009

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Quem tem acesso aos bastidores de uma super-produção? Conhecer os detalhes do roteiro, a criação do cenário e a escolha dos planos de filmagem é quase impossível. Agora imagine ter entrada livre no mundo do “melhor filme de todos os tempos”.

Essa é a proposta de Cidadão Kane: O Making Of escrito por Robert L. Carringer. O livro foi mais longe do que qualquer outra obra sobre Cidadão Kane. Além de ler e pesquisar todas as fontes disponíveis, Carringer conversou com antigos funcionários dos estúdios RKO Pictures (onde o filme foi rodado) e alguns importantes colaboradores nas áreas de som e fotografia. Mostra também rabiscos e plantas da cenografia e do figurino. Mas o maior trunfo do autor está no próprio Orson Welles que leu e releu os capítulos e forneceu informações precisas sobre a criação do filme que é aclamado há mais de três décadas como o melhor de todos.

Durante muitos anos Citizen Kane foi considerado uma obra autoral e talvez a primeira do cinema norte-americano. Nunca um diretor teve tanta liberdade para conduzir um filme como Welles. A grande discussão do livro se baseia na autoria total do diretor. O mito da criação absoluta de Welles não foi questionada por anos e o grande mérito de Carringer é justamente analisar de forma fria e séria o surgimento do filme, passo a passo, do roteiro ao lançamento e resgatando o crédito aos colaboradores de Orson Welles.

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Para entender por que Cidadão Kane é considerado um marco na história do cinema é preciso não só assistir ao filme, mas também entender o contexto social e político dos anos 30 e 40. Até hoje o filme é forte e atual. Os efeitos especiais, os planos e ângulos de câmera, a edição entrecortada e a cadência precisa do roteiro fizeram gerações de jovens no mundo todo sonharem em fazer cinema.

Como disse François Truffaut: “Filmar Cidadão Kane aos 25 anos de idade não é o sonho de todos os jovens freqüentadores das cinematecas?”. Ou ainda Jean-Luc Godard: “Quando Orson Welles realizou Cidadão Kane, tinha 25 anos. Desde então, jovens cineastas do mundo inteiro tem sonhado com nada menos do que realizar seu primeiro grande filme antes de atingir essa idade.”

O livro de Carringer passeia pela criação do filme e também mostra as decepções do jovem diretor que embora já famoso no rádio pelo episódio “A Guerra dos Mundos” teve a humildade de estudar e aprender com os melhores técnicos antes de rodar Citizen Kane.
Sobre cinema Welles disse uma vez “É o maior brinquedo que qualquer criança já teve nas mãos.”

Para muitos estudiosos e críticos de cinema a carreira de Orson Welles já começou em declínio. Ao filmar, aos 25 anos, o melhor filme de todos os tempos o jovem diretor passou o resto da vida tentando repetir a genialidade de Cidadão Kane.

Assista ao filme e leia o livro … quem sabe você não descobre a vocação de fazer cinema.

Cidadão Kane: O Making Of

Robert L. Carringer

Editora Civilização Brasileira

A Linguagem Secreta do Cinema

12/07/2009

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Poucas vezes temos a mão um livro tão indispensável como este do roteirista Jean-Claude Carrière: A Linguagem Secreta   do Cinema. Roteirista e colaborador de Luis Buñuel, Carrière escreveu mais de cinqüenta roteiros e tem no currículo filmes como O discreto charme da burguesia, Este obscuro objeto do desejo, A bela da tarde e A insustentável leveza do ser.

O livro traça a evolução do cinema em cem anos e também a evolução do público:

No começo, quando um ator olhava para outro ator que estava fora do quadro, olhava nitidamente para longe da câmera. Fixava os olhos a cerca de um metro à direita ou à esquerda, de acordo com o que lhe determinavam (…) Pouco a pouco, mais ou menos por toda parte esse olhar foi deslocando mais para perto da câmera. (…) Nos anos 60, o ator olhava para um rosto encostado à câmera. Nos anos 70, ele olhava para a própria borda do aparelho. Hoje em dia, olha para um pedaço de fita presa ao lado da lente. No futuro, talvez olhe direto para dentro da câmera.”

Carrière é um estudioso da arte cinematográfica, mas acima de tudo é um contador de histórias e por isso, A Linguagem Secreta do Cinema é um livro que é absorvido da primeira até a última palavra e como um bom filme é preciso ler e reler para extrair tudo o que o autor procurou mostrar. Carrière não escreveu só para cinema e conseguiu sucesso também no teatro. Da amizade com Buñuel ele guarda boas histórias, e foi com ajuda de Carrière que Luis Buñuel escreveu sua biografia.

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A amizade de Carrière e Buñuel produziu obras-primas, mas também aventuras fantásticas. Em Esse obscuro objeto do desejo, Buñuel utiliza duas atrizes para fazer o mesmo personagem. Uma era espanhola e outra francesa e totalmente diferente nas feições físicas. Um estudo de uma universidade norte-americana apontou que 70% dos estudantes não perceberam o engodo. Na época do lançamento do filme em 1977, a imprensa escreveu sobre o assunto e mesmo assim 50% dos espectadores não viram nada irregular. Qual seria o mistério?

Deveríamos nos admirar ou preocupar? Isto nos mostra até que ponto os olhos podem permanecer sem ver, por mais de uma hora e meia, em conseqüência do poder quase assustador dos nossos hábitos de percepção, de nossa rejeição secreta fora do comum, por tudo o que nos perturba e desconcerta.”

Como Buñuel costumava dizer a Carrière: “Por hora pode-se dormir em paz.”

A Linguagem Secreta do Cinema

Jean-Claude Carrière

Editora Nova Fronteria