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Meu Último Suspiro

19/07/2009

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Para os apaixonados por cinema assistir a filmes pode não ser o suficiente. Ler sobre cinema, sobre os diretores se torna tão obrigatório quanto gabaritar os filmes em cartaz. Isso para os cinéfilos. Se você pretende um dia ser cineasta ou videasta (argh! Que termo horrível!) não deve se contentar só com as imagens, é preciso mais.

Uma vez me perguntaram: “Por que ler sobre cineastas e filmes?”, confesso que fiquei paralisado, não tinha resposta, nunca parei para pensar nisso. Leio por que é livro, se fosse música eu escutava! Nunca pensei nisso por que foi um caminho lógico: assistir filmes, assistir muitos filmes, assistir todos os filmes possíveis, ler roteiros, ler sobre filmes e por fim procurar livros sobre diretores.

Vários grandes nomes costumam dizer que para conhecer um cineasta basta ver seus filmes. Talvez por essa máxima todos fujam das biografias ou autobiografias. Mas no fim, sempre se rendem.

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Foi o que aconteceu com Luis Buñuel. O diretor de A Bela da Tarde, O discreto charme da burguesia e O Anjo Exterminador precisou do apoio de Jean-Claude Carrière – seu fiel colaborador – para escrever Meu Último Suspiro. Segundo Buñuel “Não sou um homem de letras. Depois de longas conversas, Jean-Claude Carrière, seguindo fielmente tudo o que lhe disse, ajudou-me a escrever este livro”.

O livro faz um passeio pelo mundo do cineasta. Começamos em Calanda, uma cidadezinha espanhola, onde a Idade Média se prolongou até o fim da Primeira Grande Guerra. Os relatos são parecidos com seus filmes, conseguimos visualizar por completo a antiga Espanha e seus costumes.

A vida de Buñuel é tão interessante quanto seus filmes. Será que podemos criar histórias, escrever enredos fantásticos tendo vivido uma vida medíocre? Luis Buñuel é o primeiro a confirmar a teoria de que é preciso viver e viver com intensidade.

Buñel e Denevue

Buñuel e Denevue

Da Idade Média de Calanda partimos para Madri e de lá para Paris. Tudo isso passando por guerras e revoluções! Diferente da maioria dos cineastas, Luis Buñuel veio de uma família rica e sem problemas financeiros. Buñuel não só conheceu como era amigo de Federico Garcia Lorca e Salvador Dali, participou do movimento surrealista, mas se recusou a ser enquadrado por ele nele. Buñuel só aceitava seguir suas próprias regras.

E para fazer Meu Último Suspiro ele só seguiu suas regras “O retrato que ofereço é de toda maneira meu, com minhas repetições, minhas lacunas, minhas verdades e minhas mentiras, em suma, minha memória.

Nas memórias sobra espaço para analisar cada filme. Um trabalho difícil e cruel. Rever os filmes é, sobretudo, se deparar com os erros. Mas isso não incomoda o cineasta, nem a morte, o único desejo seria “(…) gostaria de poder erguer-me entre os mortos, a cada dez anos, caminhar até a banca de jornais e comprar alguns. Não pediria mais nada. Com os jornais debaixo do braço, lívido, esbarrando nos muros, retornaria ao cemitério e leria os desastres do mundo, antes de tornar a dormir, satisfeito na proteção tranquilizadora da sepultura”.

Leia Meu Último Suspiro e veja os filmes de Luis Buñuel novamente. É um ótimo exercício, para cinéfilos e para quem quer algo mais.

Luis Buñel e Glauber Rocha

Luis Buñuel e Glauber Rocha

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A Linguagem Secreta do Cinema

12/07/2009

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Poucas vezes temos a mão um livro tão indispensável como este do roteirista Jean-Claude Carrière: A Linguagem Secreta   do Cinema. Roteirista e colaborador de Luis Buñuel, Carrière escreveu mais de cinqüenta roteiros e tem no currículo filmes como O discreto charme da burguesia, Este obscuro objeto do desejo, A bela da tarde e A insustentável leveza do ser.

O livro traça a evolução do cinema em cem anos e também a evolução do público:

No começo, quando um ator olhava para outro ator que estava fora do quadro, olhava nitidamente para longe da câmera. Fixava os olhos a cerca de um metro à direita ou à esquerda, de acordo com o que lhe determinavam (…) Pouco a pouco, mais ou menos por toda parte esse olhar foi deslocando mais para perto da câmera. (…) Nos anos 60, o ator olhava para um rosto encostado à câmera. Nos anos 70, ele olhava para a própria borda do aparelho. Hoje em dia, olha para um pedaço de fita presa ao lado da lente. No futuro, talvez olhe direto para dentro da câmera.”

Carrière é um estudioso da arte cinematográfica, mas acima de tudo é um contador de histórias e por isso, A Linguagem Secreta do Cinema é um livro que é absorvido da primeira até a última palavra e como um bom filme é preciso ler e reler para extrair tudo o que o autor procurou mostrar. Carrière não escreveu só para cinema e conseguiu sucesso também no teatro. Da amizade com Buñuel ele guarda boas histórias, e foi com ajuda de Carrière que Luis Buñuel escreveu sua biografia.

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A amizade de Carrière e Buñuel produziu obras-primas, mas também aventuras fantásticas. Em Esse obscuro objeto do desejo, Buñuel utiliza duas atrizes para fazer o mesmo personagem. Uma era espanhola e outra francesa e totalmente diferente nas feições físicas. Um estudo de uma universidade norte-americana apontou que 70% dos estudantes não perceberam o engodo. Na época do lançamento do filme em 1977, a imprensa escreveu sobre o assunto e mesmo assim 50% dos espectadores não viram nada irregular. Qual seria o mistério?

Deveríamos nos admirar ou preocupar? Isto nos mostra até que ponto os olhos podem permanecer sem ver, por mais de uma hora e meia, em conseqüência do poder quase assustador dos nossos hábitos de percepção, de nossa rejeição secreta fora do comum, por tudo o que nos perturba e desconcerta.”

Como Buñuel costumava dizer a Carrière: “Por hora pode-se dormir em paz.”

A Linguagem Secreta do Cinema

Jean-Claude Carrière

Editora Nova Fronteria