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Homem de Ferro

30/04/2010

Homem de Ferro (Iron Man, 2008) foi o primeiro filme produzido pelo selo Marvel Studios e com controle total da empresa de quadrinhos. Sem a pressão dos grandes estúdios e a incômoda interferência dos chefões de Hollywood nos sets, a Marvel não tinha mais desculpas para um possível fracasso.

Livre dos produtores tradicionais, a equipe de criação da Casa das Ideias, Avi Arad, Kevin Feige e Stan Lee, pôde finalmente escolher roteiro, elenco e diretor que se encaixassem perfeitamente no estilo de cada personagem que seria levado para as telas. E as escolhas se mostraram acertadas quando analisamos a adaptação de Homem de Ferro para o cinema.

Robert Downey Jr. perfeito como Tony Stark

O milionário Tony Stark, criação inspirada em Howard Hughes, era tudo o que Robert Downey Jr. precisava para voltar ao topo da indústria cinematográfica. Depois de cair na lista negra dos estúdios por seu envolvimento com drogas e álcool, poucos apostariam em seu retorno e ninguém estava disposto a incluí-lo numa superprodução.

O diretor Jon Favreau pensava em usar um ator desconhecido para o papel, mas decidiu dar uma chance a Downey, fã do personagem, e que seria capaz de criar um “canalha simpático”. Grande acerto de Favreau e um raro momento de união entre ator e personagem.

A chatinha Gwyneth Paltrow e o engraçado Terrence Howard são os coadjuvantes perfeitos para o brilho de Robert Downey Jr. Já o sempre correto Jeff Bridges consegue transformar um raso antagonista num vilão cínico e espirituoso. A cena da coletiva de imprensa onde Obadiah Stane pede um hamburger a Tony Stark é hilária e parece ter sido criada pelos atores.

Formar um grande elenco já é uma característica da Marvel Studios

Os melhores momentos do filme ficam por conta do excelente desempenho de Downey e do afiado texto que consegue aproveitar a veia cômica do ator que já viveu Charles Chaplin nos cinemas na aclamada produção Chaplin (1992) que lhe rendeu a indicação ao Oscar de Melhor Ator.

O Homem de Ferro só aparece com 35 minutos de projeção e antes disso nos divertimos com as sacadas sem noção de Tony Stark, um alterego tão interessante quanto o herói de armadura. Prova que um bom roteiro e uma boa história ainda são mais importantes que os shows de efeitos especiais.

Clássico dos quadrinhos: Stark testando os raios repulsores

Um erro normalmente cometido em filmes de ação, o excesso de efeitos, é evitado pela direção segura de Jon Favreau e a perspicácia dos homens da Marvel que sabem que seus personagens são fortes o suficiente para não serem ofuscados por explosões e pirotecnia desnecessária. Os efeitos visuais são usados para tornar verossímeis os sonhos de Stan Lee e Jack Kirby, criadores do herói, mas nunca chegam a roubar a cena. O que pode parecer contraditório, mas não é.

Um filme de ação não precisa mais só ter tiros, câmeras tortas, montagem acelerada e todo o pacote dos filmes dos anos 80 e 90. Uma nova geração de cineastas – e de público – diminuiu o ritmo frenético da Era Rambo permitindo que o enredo e diálogo tenham um espaço maior entre os corpos caindo do telhado.

Stark risca os céus com uma ajudinha da tecnologia digital

Claro que seria impensável realizar o filme na década de 90, pois os recursos tecnológicos da época não seriam capazes de proporcionar as cenas de combate, impressionantes, e as simulações do computador J.A.V.I.S., dublado por Paul Bettany, que dão o toque futurista pedido pelo roteiro. Aliás, as brincadeiras entre Stark e os robôs do laboratório funcionam como alívio cômico e uma forma de introduzir a tecnologia ao longo do filme.

A história atualizada tira o personagem do conflito no Vietnã e o leva para o Afeganistão. Nada que afete a cronologia do herói, já que guerras sem fundamento não faltam para os norte-americanos. Os árabes, inimigos da vez, não podiam ficar de fora e a era do politicamente correto obriga a produção a usar os árabes-bons e os árabes-maus.

Típico do cinismo norte-americano que mesmo tentando fazer um filme para o mundo não consegue deixar de ser o guardião da moral e dos bons costumes. Um efeito colateral que não chega a prejudicar a diversão. E o que é Homem de Ferro senão simples diversão?

Hum, qual modelo seria este? O Mark IV?

Homem de Ferro (Iron Man)

EUA, 2008, 126 min

Direção: Jon Favreau

Elenco: Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow e Terrence Howard

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Leitura obrigatória

15/07/2009

Se você está pensando em fazer cinema não pode deixar de ler Fazendo Filmes de Sidney Lumet e Sobre Direção de Cinema de David Mamet, e tem que ser nessa ordem, um depois do outro. Primeiro você vai se encher de coragem e correr para escrever um roteiro. Vai pensar que a vida de cineasta tem seus problemas, mas é um mundo maravilhoso e um trabalho excelente. Isso tudo é verdade.

Quem já teve a oportunidade de dirigir um filme ou um vídeo sabe como é ótimo gritar: “Ação! Corta!” e ver as páginas do roteiro se transformando como mágica em imagens. Sidney Lumet sabe que antes da mágica vem trabalho duro e também muitas, mas muitas concessões.

Ao escrever Fazendo Filmes, o diretor nos mostra um retrato inteligente e honesto dos bastidores de seus filmes. Sim, Lumet prefere falar sobre seus filmes: “Certa vez perguntei a Akira Kurosawa por que decidira fazer uma tomada em Ran de determinada maneira. A resposta foi que se tivesse colocado a câmera uma polegada para a esquerda, a fábrica da Sony apareceria na tomada, e se colocasse a câmera uma polegada para a direita veríamos o aeroporto – nenhuma das duas paisagens cabia num filme de época. Somente a pessoa que fez o filme sabe o que pesa nas decisões que resultam em qualquer obra concluída. Pode ser qualquer coisa, de exigências de orçamento à inspiração divina.”

Lumet fazendo o que mais gosta

Essa honestidade aparece em todas as páginas “Não existe maneira certa ou errada de dirigir um filme. O meu objetivo é contar como eu trabalho”. Sidney Lumet conta a experiência da primeira leitura do roteiro, a paciência para agüentar os agentes e maquiadores das estrelas, o abuso dos produtores de estúdio e a angústia do lançamento. Mesmo com todas essas dificuldades, no fim do livro você vai se sentir cheio de energia para entrar no set de filmagem. Essa é a hora do estágio dois.

Se depois de ler Sobre Direção de Cinema você ainda quiser sair correndo para filmar … o problema é seu. Não que David Mamet desanime diretamente o leitor, mas deixa claro que para ser diretor de cinema – mesmo um mal diretor – é preciso dominar muita a técnica cinematográfica, e conhecer o que diferencia o cinema das outras artes. O cinema possui uma característica que o distingue do teatro, pintura, poesia e tantas outras formas de arte: o corte. A montagem é o diferencial do cinema, o controle do tempo e do espaço só pode ser encontrado nas telas.

Quando você coloca um personagem descendo do 10o andar até o térreo de elevador não usa o tempo que ele faria normalmente e sim o tempo cinematográfico. O tempo de duração da cena que pode ser de vinte segundos, um minuto ou até cinco minutos, vai depender da necessidade dramática do filme, e do que o diretor quer passar com ela.

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David Mamet

Esse domínio do corte e do tempo foi esquecido com o advento do som. O cinema sonoro diz, fala, deixou de fazer. É justamente esse resgate da característica básica do cinema que Mamet cobra dos novos e velhos diretores. Mostrar e conduzir o público com imagens é mais difícil do que simplesmente falar para ele. Fazer o ator falar: “Estou com dor de cabeça.” É fácil. Mostrar isso sem falas e de forma convincente é o desafio. Para quem acha isso impossível é só assistir aos filmes mudos e principalmente a obra de Charles Chaplin que odiava usar as caixas de diálogo.

Se você quer realmente fazer cinema: Não desanime! Só é preciso mais do que talento para transformar palavras em imagem.

Doze homens e uma sentença de Sidney Lumet

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