Posts Tagged ‘Cinema’

Imagens do novo Capitão América

02/06/2010

Chris Evans como Capitão América

O site “Ain’t It Cool News” vazou na rede quatro imagens conceituais do uniforme usado pelo ator Chris Evans na adaptação para os cinemas do personagem de quadrinhos Capitão América. O filme será produzido pelo selo Marvel Studios e dirigido por Joe Johnston das comédias Querida, encolhi as crianças (1989), Jumanji (1995) e o recente O Lobisomen com Benício Del Toro.

Chris Evans já viveu outro personagem da Marvel: O Tocha Humana

Capitain America: The Firt Avenger tem o lançamento previsto para 21 de julho de 2011 e um elenco que inclui além de Chris Evan (Steve Rogers/Capitão América), Sebastian Stan (Bucky Barnes), Hugo Weaving (Caveira Vermelha) e Hayley Atwell (Peggy Carter).

Aposta arriscada da Marvel numa época de sentimentos tão anti-americanos

Chris Evans não me parece o ator adequado para o papel

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Patrick Swayze em cinco momentos

15/09/2009

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Patrick Swayze não foi o galã que Hollywood esperava, mas deixou alguns personagens marcantes e fez filmes desacreditados que se tornaram fenômenos de bilheteria. Dirty Dancing, lançado em 1987, esteve prestes a ser cancelado e o sucesso ao redor do mundo certamente deu um nó na cabeça dos executivos da indústria.

Swayse e Jennifer Grey em Dirty Dancing

Swayze e Jennifer Grey em Dirty Dancing

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Em 1989, Patrick Swayze deixa a dança de lado e leva a carreira para outro rumo ao fazer Matador de Aluguel. O filme, que pegou carona na moda Jean-Claude Van Damme, fez grande sucesso nas locadoras brasileiras. Swayze conseguiu equilibrar uma boa atuação com cenas de luta bem coreografadas. O veterano Sam Elliot, uma belíssima Kelly Linch e um roteiro enxuto fizeram um filminho de ação virar uma diversão interessante.  Outro ponto positivo para o ator que mostrou ser possível misturar artes marciais com uma história certinha.

ghost

Os anos 90 foram os melhores da carreira do ator. Quem não se lembra de Ghost – Do outro lado da vida? A história do casal formado por Swayze e Demi Moore, no auge da beleza, rendeu milhões de dólares e o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Whoopi Goldberg. Após dois filmes leves e românticos que renderam boas críticas e bilheterias estrondosas, o ator parecia ter encontrado um lugar na indústria cinematográfica.

caçadores de emoção 5Apostando na diversidade de papéis e com ótimo feeling para farejar novos sucessos, Swayze embarca em outro projeto fadado a ser apenas mais um filminho de ação. Caçadores de Emoção reuniu um elenco afinado, encabeçado por Patrick Swayze, Keanu Reeves e Gary Busey, um roteiro interessante e uma fotografia de cair o queixo! Tudo isso combinado a boa direção de Kathryn Bigelow resultou em novo sucesso para Swayze e um grande empurrão para Keanu Reeves que começaria a escrever seu nome nos projetos de ação.

cidade

Em 1992 estrelou A cidade da esperança, de Roland Joffé, e esse talvez seja seu último bom papel nos cinemas.  Swayze é Max Lowe um jovem médico norte-americano, atormentado pela culpa após perder um paciente na mesa de cirurgia, que parte para a Índia buscando conforto para suas angústias. O filme não obteve grande êxito comercial, mas fez uma considerável carreira nas locadores de vídeo e merece uma olhada mais atenta.

Professor de dança, leão-de-chácara, executivo, surfista e médico, personagens distintos e que possuíam um carisma marcante. Não gosto de rotular ou empregar termos  de forma exagerada, mas acompanhando cinco momentos de Swayze, o termo cult veio à tona.

Patrick Swayze não foi o galã ou o ator que a indústria do entretenimento almejava, mas foi, sem dúvida, um ícone dos anos 80 e 90. Para a geração que cresceu com os esquecidos VHS e que fazia da ida à locadora uma verdadeira festa, Patrick Swayze e seus filmes foram exatamente o que eles estavam procurando. Swayze encantava as meninas sem enciumar os namorados, “Ora, o cara é mesmo maneiro”, era a frase comum para definir o galã.

Pois é, vale a pena rever esses cinco filmes. O cara é mesmo maneiro.

Reeves e Swayse em Caçadores de Emoção

Reeves e Swayze em Caçadores de Emoção

Fellini & Rossellini

10/09/2009

federico-felliniPoucos cineastas conquistaram o direito de serem chamados de artistas. Federico Fellini criou um mundo tão particular em seus filmes que é impossível sair do cinema sem compartilhar um pouco dessa visão.

Fellini por Fellini reúne textos escritos pelo próprio diretor. É um livro difícil de ser achado, a ultima edição saiu em 1986 – mas pode ser encontrado em sebos.

Federico Fellini – Fazer um filme é uma chance de conhecer o cineasta através de sua obra. Fellini tenta explicar como surge a criação, como as idéias nascem e como o filme vai ganhando forma no meio do caminho.

Nunca imaginei me tornar diretor, mas do primeiro dia, da primeira vez que gritei: ‘Luz! Câmera! Ação! Corta!’, pareceu-me sempre ter feito aquilo, não poderia fazer nada diferente, aquilo era eu e aquela era minha vida.

maoFellini fala sobre o mundo do circo que tanto o apaixona, comenta a escolha de elenco, conta histórias dos bastidores, a amizade com Mastroianni. Um livro para ficar na cabeceira.

Eu, Fellini escrito por Charlotte Chandler é nas palavras do próprio Fellini um livro definitivo: “Eu só tenho uma vida, e eu a contei a você . Esse é o meu testamento, pois nada mais tenho a dizer.

O diretor sempre odiou entrevistas e nunca gostou de festas e recepções, mas nesse livro Fellini mostra uma paciência sem limites, fala de todos os filmes, discute a crítica cinematográfica, se derrama de amores pela sua Giulietta e revela pensamentos antes desconhecidos.

Era de se pensar que Fellini seria um grande diretor. Seu primeiro trabalho no cinema foi como assistente de direção de Roberto Rossellini em Roma, cidade aberta.

O script de Roma città aperta foi obra de uma semana. Fui contratado como roteirista e assistente de direção. Eu merecia aquele trabalho, mas nem todo mundo nos dá o que merecemos. Robertino jamais foi avarento com algo.

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A admiração era mútua. Em Fragmentos de uma autobiografia, Roberto Rossellini fala de seus filmes e das idéias de um novo cinema. Rossellini deixou Hollywood de lado para se dedicar ao seu próprio cinema. Poucos diretores teriam essa coragem.

Roberto Rossellini morreu antes de terminar o livro. “O texto fica tal como o cineasta o deixou: fragmentos no plano autobiográfico, mas um trabalho articulado quanto à interpretação. Rossellini escrevia por fragmentos (mas não era também assim que filmava?).”

Para quem acha que o neo-realismo foi um movimento pensado, estudado … que tal ler o que o chamado ‘pai do neo-realismo’ tem a dizer?

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Fellini por Fellini

Editora L&PM

Federico Fellini, Fazer um filme

Civilização Brasileira

Eu, Fellini de Charlotte Chandler

Editora Record

Roberto Rossellini, Fragmentos de uma autobiografia

Editora Nova Fronteira

Stanley Kubrick: A Live in Pictures

27/08/2009

20012O que sabemos sobre o diretor que revolucionou o cinema em trabalhos como 2001: Uma Odisséia no Espaço? A resposta é muito pouco. E mesmo o documentário Imagens de uma vida, dirigido por Jan Harlan, e narrado por Tom Cruise, parece responder as perguntas com mais perguntas.

O filme mostra Kubrick da infância até a primeira experiência no cinema, revela parte da vida familiar que o diretor sempre fez questão de afastar dos jornais e reafirma a imagem de um profissional perfeccionista. Vemos o diretor trabalhando em cada filme e a acompanhamos as críticas na época do lançamento. O que teriam dito os críticos sobre Laranja Mecânica?

Entre os entrevistados estão diretores consagrados como Martin Scorcese, Woody Allen, Sidney Pollack, Steven Spielberg e Alan Parker. Rara oportunidade para ver a obra de Kubrick analisada por seus pares. Para eles o grande diferencial era o pioneirismo do cineasta, 2001: Uma Odisséia no Espaço começou a ser filmado em 1964 e foi lançado em 1968, ou seja, antes do homem pisar na Lua. Como ele conseguiu imaginar as seqüências espaciais com nenhuma, ou pouquíssima, referência?

2001

Podemos dizer que Stanley Kubrick tem uma filmografia singular, desde que teve a chance de produzir, escrever, dirigir e montar seus filmes não repetiu formas esperadas. Atacou a sociedade puritana, em 1962, com Lolita; irritou o governo norte-americano (no auge da Guerra Fria) com Dr. Fantástico de 1964; ganhou milhões com 2001; chocou a Inglaterra (o filme foi tirado de circulação) com Laranja Mecânica em 1971; foi incompreendido nos EUA e aclamado na Europa com Barry Lindon; mudou os filmes de terror com O Iluminado (1980); fez o que para muitos é o filme definitivo sobre a guerra do Vietnã com Nascido para Matar (1987) e tirou a roupa de Tom Cruise e Nicole Kidman em De olhos bem fechados.

Cruise e Kidman

Cruise e Kidman

Quando faleceu no dia 7 de março de 1999 – uma semana depois de terminar a primeira montagem do filme – Stanley Kubrick já era um cineasta único na recente história da Sétima Arte.

Qual cineasta se deu ao luxo de fazer ficção científica, romance, filme de época, um grande épico como Spartacus, abordar a guerra de modo tão sutil e direto, se aventurar no terror e fechar com uma história cheia de mistério e traição?

Cada filme feito por Stanley Kubrick tinha sua marca e todos eram diferentes entre si. Uma pena que não tenha produzido de perto seu projeto mais ambicioso: AI – Inteligência Artificial, e também é uma pena que não tivesse o corte final de Spartacus (o produtor era Kirk Douglas).

Mas imaginem o que Kubrick poderia estar fazendo agora com a tecnologia digital? Imaginem quantas idéias ficaram perdidas nas décadas de 60 e 70?

Jack em O Iluminado

Jack em O Iluminado

Por um cinema sem limite

15/08/2009

porumcinemasemlimiteRogério Sganzerla já fazia cinema antes mesmo de aproximar-se de uma câmera, o que pode ser constatado nas páginas que se seguem. Metade desses textos datam do início da década de 1960 e, portanto, de antes do curta Documentário e da deslumbrante estréia nos longas com O Bandido da Luz Vermelha, quando seu excepcional talento para a direção revelaria-se de maneira inequívoca.” O texto, extraído da orelha do livro e escrito por Paulo Sacramento, dá uma dimensão exata do que o leitor irá encontrar nas páginas assinadas por Sganzerla.

Rogério escreveu sobre cinema no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo numa época onde os críticos não se satisfaziam em dizer se um filme era bom ou ruim. A coletânea de artigos está longe de parecer datada e a força de sua escrita é surpreendentemente atual. Algo preocupante.

Em Por um cinema sem limite, o autor pensa, critica, observa, elogia e discute criadores e obras, indo do prático ao teórico e conseguindo um efervescente debate com suas constantes contradições.

sganzerla02Durante a leitura, iremos aplaudir e discordar enfaticamente de argumentos e conclusões, mas não sairemos impunes de pensar e tentar formular idéias próprias. Mais do que querer ensinar cinema, Sgarzela parece buscar o diálogo, talvez fomentar a discussão e assim elevar o nível tanto de realizadores quanto do público.

Por definição o cinema é ritmo e movimento, gesto e continuidade. Em tudo o que vemos, temos que considerar três aspectos: a posição do olho que olha, a do objeto visto e a da luz que ilumina a realidade. Assim, o cinema não tem a função de preencher um buraco na parede já que a sua missão é bem maior – ser uma janela sobre o mundo.

Por um cinema sem limite

Rogério Sganzerla

Azougue Editorial

Sganzerla filmando O Bandido da Luz Vermelha, em 1968

Sganzerla filmando O Bandido da Luz Vermelha

Rocco e seus irmãos

10/08/2009

roccoEm que ponto uma família perde o amor e entra no processo de autodestruição? O que leva um jovem à ruína? São as más companhias? Podemos escolher nosso próprio caminho?

Luchino Visconti aprendeu a arte do cinema com o mestre Jean Renoir, sendo seu assistente em vários filmes. Visconti é considerado o pai do neo-realismo. No auge de sua fama na Itália fez Rocco e seus irmãos e ganhou projeção internacional. O diretor que nasceu na aristocracia e na riqueza também viu de perto a miséria que as duas guerras trouxeram e, talvez por isso, seu tema preferido seja justamente a decadência.

Alain Delon como Rocco

Alain Delon como Rocco

Rocco e seus irmãos, filmado em 1960, apresenta um Alain Delon enigmático e com uma atuação irretocável. Visconti, que foi ator e diretor teatral antes de se apaixonar pelo cinema, conseguia tirar o máximo do elenco.

O filme tem quase três horas de uma trama densa e ao mesmo tempo suave e agradável. Os personagens são apresentados, vão tomando forma, encorpando até crescerem e tomarem conta da história. Visconti dá uma aula de como introduzir vários personagens e manter o ritmo da narrativa sem se perder na construção de cada um.

Depois de quase cinqüenta anos, Rocco e seus irmãos impressiona pela vitalidade, o filme poderia muito bem ter sido rodado em São Paulo, no Rio com uma família vinda do nordeste ou do interior.

Cena de Rocco e seus irmãos

Histórias de Marlon Brando

05/08/2009

viva-zapata-marlon-brando.jpg.comTalento, rebeldia e ironia. Essas palavras são facilmente associadas a Marlon Brando. O astro não deixou apenas suas poderosas interpretações, deixou também muitas histórias e lendas.

Uma delas foi vivida com outro grande ator, Anthony Quinn. Os dois trabalharam juntos em Viva Zapata! (1951) e se encontraram em 1982 num jantar para colocar o papo em dia. Na ocasião, Marlon apareceu com uma linda oriental e falava com ela em chinês.

Ficaram a noite toda conversando e relembrando o passado. Marlon contou a verdade sobre a sua famosa tática das dálias. Depois de famoso, ele colocava pedaços de papéis com as falas por todo o cenário. Chegou a prender cola na testa de seus coadjuvantes! Para os diretores dizia que isso fazia com que o texto estivesse fresco. Parecia que o personagem estava pensando naquelas palavras na hora exata e não era algo frio e decorado. Quem iria discordar do método de Marlon Brando?

Mas com uma gargalhada disse a Anthony Quinn que não agüentava mais ficar decorando os textos e que ninguém nunca desconfiava dele. “Você acredita nessa merda!”  Finalizou. Mais gargalhadas entre os dois. Depois traduziu tudo para a namorada que riu também.

Cena de Viva Zapata!

Cena de Viva Zapata!

Fim de noite, hora das despedidas. Quinn foi com a esposa levar o casal ao hotel. Marlon desceu do carro. A jovem se aproximou de Anthony e disse em inglês perfeito:

– Senhor Quinn, perdoe por não conversar com vocês, mas Marlon me disse para representar uma chinesa autêntica. Na verdade, nem falo chinês muito bem.

– Mas a noite toda? Você não teve problemas para entender o que Marlon dizia?

– Marlon? Ele não sabe falar chinês.

– Ah, que filho da puta! E que par de trouxas fomos nós!

Enquanto Anthony Quinn pensava se deveria entregar o jogo, Marlon abriu a porta para a jovem, deu um tapinha nas costas dele, e um boa noite.

Quer ler mais? Tango Solo, a biografia de Anthony Quinn.

Quinn e Brando em Viva Zapata!

Quinn e Brando em Viva Zapata!

Prática do Roteiro Cinematográfico

24/07/2009

praticaJean-Claude Carrière e Pascal Bonitzer nos trazem o eficiente Prática do Roteiro Cinematográfico e posso afirmar que é simplesmente indispensável para diretores e roteiristas. Não se trata de mais um livro sobre “Como escrever para o cinema”, mas de um compromisso sério com o ensino do roteiro.

Carrière chega a sugerir vários exercícios para serem aproveitados em sala de aula e defende que o ofício do cinema pode ser aprendido na escola. Mas deixa um aviso, falta o estudo do roteiro. Para Carrière poucas universidades possuem cursos para roteiristas, e o debate entre os alunos deveria acontecer mesmo sem a presença de professores ou orientadores.

A preocupação em criar novos e bons roteiristas e também de deixar textos sobre roteiro aparece em todo o livro. Outro assunto que chama a atenção é a diferença entre o romance e o roteiro. Tanto Carrière quanto Bonitzer se debruçam sobre o assunto e afirmam que o roteirista está mais perto de ser um diretor do que de ser um romancista.

Cena de Os amantes da Pont-Neuf

Cena de Os amantes da Pont-Neuf

Com menos de 150 páginas, Prática do Roteiro Cinematográfico é facilmente digerido do início ao fim. Mas não se trata de uma leitura tão simples quanto os livros de Syd Field. A parte conduzida por Pascal Bonitzer (roteirista do filme Os amantes da Pont-Neuf) merece uma atenção especial e várias relidas. Nada que dificulte a compreensão do texto, apenas exige do leitor que acompanhe a linha de pensamento do roteirista. Bonitzer usa exemplos extraídos de Buñuel, Antonioni, Hitchcook e até de … Rambo!

Jean-Claude Carrière

Jean-Claude Carrière

O último capítulo fala exatamente da importância de um bom final. Nesse momento as idéias de Pascal Bonitzer se aproximam do pensamento de Syd Field. Os dois mundos não estão tão distantes assim. Os dois concordam que é preciso saber o fim antes de rabiscar qualquer palavra no papel.

Se você realmente quer escrever um roteiro não fique só com esse livro, leia A Linguagem Secreta do Cinema escrito por Jean-Claude Carrière.

Relato Autobiográfico

21/07/2009

kurosawa1

Não é fácil de achar, talvez só em sebos, mas leia o Relato Autobiográfico de Akira Kurosawa. Essa pode não ser a forma convencional de se começar uma crítica, mas é simples e direta, como o texto do cineasta japonês. Kurosawa sempre foi reticente quando pediam que escrevesse sobre sua vida. Pensava que não teria nada a acrescentar contando histórias que não sejam aquelas que estão em seus filmes. “Fundamentalmente, não creio que escrever sobre si mesmo seja algo interessante e que mereça ser registrado para a posteridade.

Akira só mudou de idéia ao ler a biografia de outro gênio do cinema: “Creio que está capitulação se deve a minha leitura da autobiografia do diretor francês Jean Renoir (1894-1979). Em uma ocasião o encontrei e ele me convidou a um jantar durante o qual conversamos sobre vários assuntos. A impressão que tive nesse encontro foi a de que absolutamente não era o tipo que se sentaria para escrever uma autobiografia. Saber que ele havia se aventurado a isso foi como sentir uma explosão em meu interior.

Ainda bem que Akira Kurosawa mudou de idéia! A mesma força e energia que usou para fazer seus filmes está presente no texto. Cada página folheada cria em nossa mente as imagens contidas nas palavras, é um livro para ficar por perto, um daqueles que não basta ler uma só vez.

Claro que depois, e mesmo durante a leitura, temos o desejo de ver ou rever seus filmes. E essa é a melhor parte. Combinar o Kurosawa que se revela nas páginas ao Kurosawa que já se revelou por completo nos seus filmes.

Ler Akira Kurosawa leva o leitor a amar com mais força o cinema, tira as dúvidas de quem pensa em trabalhar com filmes, mas não tem coragem. Por tudo isso, não tenho dúvidas ao afirmar que Relato Autobiográfico é um livro poderoso, e mesmo que Kurosawa não pensasse nisso, ele já se transformou, junto com seus filmes, em leitura para a posteridade.

KURUSAWA

Jean Vigo

20/07/2009

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Jean Vigo escrito por Paulo Emílio Salles Gomes é uma descoberta. Foi uma descoberta quando escrito em Paris no ano de 1957. Vigo, que morrera em 1934, ainda não era tido como um dos grandes do cinema francês, e a busca de um brasileiro em levantar dados precisos sobre o cineasta que produziu três longas e morreu antes dos trinta anos chamou a atenção da crítica especializada.

André Bazin, o grande crítico e líder da geração que formaria mais tarde a Nouvelle Vague, escreveu “Com um amor só igualado por sua paciência e erudição, Paulo Emílio Salles Gomes, responsável pela Cinemateca de São Paulo, escreveu sobre Jean Vigo uma obra que eu qualificaria de exemplar.

O livro serve para revelar dois grandes amantes do cinema, Jean Vigo e o próprio Paulo Emílio. Lançado em Paris e traduzido para o inglês em 1971 pela Universidade da Califórnia, só chegou ao Brasil em 1984, quase trinta anos depois de publicado na França.

Quando perguntado pela demora na publicação nacional de uma de suas maiores obras Paulo dizia “Não sei se Jean Vigo terá aqui o mesmo interesse.” Como não se interessar pelo cineasta que é citado nas memórias de Jean Renoir, Luís Buñuel e François Truffaut?

CAPAZERO

Depois de ler o trabalho de Paulo Emílio escrito em 1957 podemos ter a certeza que a obra continua atual e intacta. Tanto Vigo quanto o livro. Jean Vigo morreu pobre e tendo seu terceiro e último filme mutilado pelos produtores. Somente depois da guerra, na década de 50, L’ Atalante é relançado com quase todo o material que Vigo montou.

De seus três filmes principais todos tiveram problemas. O primeiro A Propos de Nice (1929) sofreu com a produção, a falta de apoio e com o pouco interesse por parte da crítica, o segundo Zéro de Conduite (1933) foi censurado na estréia e antes disso Jean teve sérios atritos com o estúdio co-produtor a Gaumont-Franco-Film.

L’ Atalante nasceu dentro do medo. Poucos acreditavam nele e ter um filme censurado abalou a confiança dos produtores em Vigo. Antes de morrer Jean Vigo dizia que L’ Atalante era o responsável por sua doença. Vigo que sempre teve uma saúde fraca se submeteu a um verdadeiro martírio para concluir o filme e chegou a filmar com trinta e oito graus, febril, embaixo da neve.

Cena de Zéro de Conduite

Cena de Zéro de Conduite

Jean Vigo faleu em 5 de outubro de 1934 e seu filme cortado, mutilado e transformado no fracasso Le Chaland qui passe parece ter morrido junto com ele. Somente nas décadas de 50 e 60, o nome de Jean Vigo iria ressurgir na França, na Europa e até na América. Paulo Emílio afirma:

O lugar ocupado por Vigo no cinema francês é extraordinário. A lista de cineastas franceses cujas obras – sem levar em conta sua significação momentânea ou seu interesse histórico – constituem por seu valor permanente, uma contribuição à cultura cinematográfica (Méliès, Cohl, Linder, Gance, Clair, Renoir e Vigo) é curta e poderia ainda ser reduzida. Se, com rigor exagerado, reduzíssemos esta lista a quatro nomes, o de Vigo nela permaneceria. A obra principal de Vigo, situada entre Le Million e La Règle du Jeu, domina, com a de Renoir e Clair, o cinema francês moderno, isto é, o dos anos trinta.

Cena de Zéro de Conduite

Cena de Zéro de Conduite