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Aqui, doido varrido não vai pra debaixo do tapete

27/09/2014

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Rodrigo Séllos estava no primeiro período de cinema na UFF quando decidiu registrar o dia a dia dos pacientes, ou melhor, clientes do Serviço de Atenção Diária do Espaço Aberto ao Tempo, do Instituto Municipal Nise da Silveira, localizado no Engenho de Dentro, na cidade do Rio de Janeiro. Em 2005, durante seis meses, Rodrigo freqüentou o instituto conversando e gravando com clientes, psicólogos, psiquiatras, funcionários e familiares. Esse material foi mostrado ao amigo Rená Tardim, estudante de jornalismo da Uerj, e os dois decidiram deixar as fitas descansarem enquanto amadureciam, estudavam e aprendiam mais em suas faculdades.

Não podemos precisar o que aconteceria se os jovens tivessem editado e finalizado o material logo após as filmagens, isso seria um exercício leviano e displicente, mas podemos afirmar, ao menos, que o produto nascido dessa espera mantém o frescor e a inocência de um primeiro trabalho. Entre 2009 e 2010, Rodrigo e Rená tiveram que rever todo o material filmado e pensar que documentário poderia surgir daquelas imagens e entrevistas que estavam adormecidas há quatro anos.

aquidoido01O trabalho de montagem é primoroso e respeita a imaturidade e a jovialidade do material captado. As entrevistas são intercaladas com os momentos do dia a dia na clínica, como o jogo de futebol, a aula de música e a preparação do almoço no refeitório, o que permite um espaço, uma reflexão entre as falas, por vezes difíceis de serem absorvidas pelo conteúdo impactante e tão diferente da nossa realidade dita “normal”. As imagens nos ajudam a entender melhor esse mundo distante e ao vermos a seriedade com que a partida de futebol é disputada, gol a gol, lance a lance, nos aproximamos desses excluídos que nós, sociedade, preferimos trancar e esconder.

A liberdade que a equipe de filmagem encontrou para trabalhar é espantosa e a relação de confiança estabelecida com os pacientes comove e faz pensar na responsabilidade que esses dois jovens tiveram ao montar e preparar o documentário. No início, Rodrigo vai chegando devagar e conquistando a confiança de Bruno, um jovem pouco falante e sempre agarrado a um inseparável tambor. Essa timidez de Bruno escondia o intenso interesse pela câmera e pelo filme. Logo Bruno já está com a câmera na mão, filmando e conversando com os pacientes, depois entende que o papel de entrevistador é mais divertido e assume o microfone para nos brindar com tiradas e perguntas delirantes! A interação de Bruno com a equipe desata o resto de resistência que poderia existir e permite que a câmera esteja sempre no centro das atenções e das conversas.

Aqui, doido varrido não vai pra debaixo do tapete é um filme para ser aplaudido de pé! Rodrigo, Rená,aquidoido04 e claro, Bruno, nos levam por uma viagem fantástica onde o preconceito é jogado para escanteio, o bom humor impera, mas os assuntos delicados são respeitados e tratados de forma direta e sem rodeios. É impossível levantar da cadeira até o fim dos créditos finais. Os dois realizadores merecem o acadêmico dez com louvor!

Aqui, doido varrido não vai pra debaixo do tapete (Here wackos are not swept under the rug)

BRASIL, 2010. 81 minutos

Direção: Rodrigo Selló e Rená Tardin

 

Os Representantes

27/09/2014

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O Nordeste brasileiro sofre com duas pragas há décadas: a seca, que parece ser eterna, e os políticos locais, que estão longe de mudar a maneira como governam a região. As mudanças climáticas que preocupam ambientalistas pelo mundo inteiro já ameaçam a maior bacia hidrográfica do planeta e, por incrível que pareça, a seca está chegando aos afluentes do Amazonas. E seca lembra Nordeste, que lembra verba extra, que lembra ajuda humanitária, doações, políticos, desvio de dinheiro…

O cineasta Felipe Lacerda, co-diretor de Ônibus 174 (2002), assina seu primeiro trabalho como realizador-solo partindo para o interior do país tentando mostrar como funciona a distribuição de alimentos para a população ribeirinha. O documentário tinha a intenção de registrar a logística operacional, o transporte e a entrega das cestas básicas, mas logo o diretor percebeu que uma história maior esperava para ser contada. O filme que seria voltado para a preocupação ambiental assume outros contornos, revelando os bastidores do circo político no Brasil.

Outubro de 2005. Felipe chega no dia da votação do Plebiscito Nacional sobre o Desarmamento e, sem conhecer a região, decide seguir os passos de um líder comunitário que conseguiu se eleger vereador. Em todos os ambientes, o assistencialismo e os constantes pedidos de ajuda, emprego, dinheiro e remédio se mostram parte da rotina do vereador, quase uma liturgia sagrada e obrigatória. Todos querem um benefício individual e uma palavra de conforto, querem ouvir que tudo será resolvido, não importa qual seja o problema. Mesmo sabendo que não pode solucionar todos pedidos, o político é obrigado a balançar a cabeça concordando.

repre05A montagem conta duas histórias que logo se transformarão em uma. Vemos a Base de Operações do Exército, onde militares, políticos e conselheiros decidem a estratégia de ação. E as andanças do vereador e dos assessores do governador preparando o terreno para receber o auxílio vindo do Governo Federal, mas que “foi totalmente costurado e intermediado através do poder do Governo Estadual”, como gostam de afirmar os assessores. Desde a base de operações, passando pelos sucessivos embarques e desembarques, até a distribuição final, as cestas básicas são tratadas como uma mina de ouro, um cartão de visitas dos políticos locais.

A lente da câmera de Lacerda é atrevida, busca a fala escondida pela mão, pelo abraço amigo dos políticos, mas sabe respeitar a dor e angústia dos populares que mesmo com a vergonha precisam pedir, precisam tentar conseguir ajuda da forma que seja. O único momento em que Lacerda se detém é ao entrar na Prefeitura para participar de uma reunião entre os vereadores e o prefeito. A câmera fica sempre alguns passos atrás dos políticos e não sabemos se ela terá permissão para registrar a conversa. Do alto da escadaria, enquanto conversa animadamente com os outros políticos, o vereador-personagem acena discretamente para a equipe continuar em movimento, continuar seguindo seus passos até entrar sem aviso, sem preparação, quase que no susto na sala do prefeito.

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Felipe Lacerda, na montagem, valoriza esse momento, repetindo e colocando em câmera lenta a mão do vereador dando o discreto sinal para a câmera. Sim, isso é um filme, é um filme político onde alianças são costuradas. Se o governador faz questão de desembarcar com as cestas básicas, abraçar a população e receber o crédito pela ajuda, Felipe deixa claro qual o papel do vereador-personagem dentro do filme e faz questão de mostrar isso de forma bem explícita.

Os Representantes faz um recorte preciso da situação política do interior do Brasil – será só no interior? – mostrando que os dois lados da moeda, os governantes e o povo, jogam em times diferentes, mas que conhecem as regras do jogo. Como bem disse um vereador no filme: “Antes era só chegar com cinquenta reais, um saco de cimento e pronto. Agora, não. É preciso fazer alguma coisinha…”

OS REPRESENTANTES (The Representatives)

BRASIL, 2010. 71 minutos

Direção: Felipe Lacerda

No meio do rio, entre árvores

02/11/2011

Jorge Bodansky mantém um profundo contato com a Amazônia e com a cultura ribeirinha. O projeto TV Navegar, criado por ele, tem como característica “dar voz à população local, capacitando-a a gerar seus próprios conteúdos, numa visão de dentro para fora” nas palavras do próprio cineasta. Bodansky vai e vem da Amazônia, e da região Norte do Brasil, desde a década de 60. Nesse período, o diretor realizou dezenas de documentários, vídeos, curtas e programas de TV sempre tirando imagens, informações, conteúdo de lá pra cá, ou seja, entrando na mata e explorando as riquezas para repassá-las ao mundo civilizado.

Claro que esse comentário não pode ser destacado do texto e muito menos analisado fora do contexto estabelecido aqui. As imagens de uma queimada no coração da floresta amazônica, ao longo da recém inaugurada Transamazônica, num angustiante travelling de quase um minuto, sem cortes, rodou o mundo e chocou nações numa época em que a preocupação com o meio ambiente ainda não estava na pauta mundial. “Iracema – Uma Transamazônica”, realizada em parceria com Orlando Senna, na década de 70, só foi liberado pela censura do regime militar em 1981, mas antes disso, o filme já tinha sido exibido de forma clandestina no Brasil e percorreu festivais pelo mundo todo.

Com No meio do rio, entre as árvores, Bodansky continua nos trazendo imagens, belíssimas por sinal, da floresta, mas agora percebemos que o cineasta está mais preocupado em trocar experiências do que simplesmente absorver a cultura local através da lente de sua câmera. A ideia de levar oficinas de vídeo, circo e fotografia para os moradores das comunidades ribeirinhas do Alto Solimões, na Amazônia, por si só já seria de tirar o chapéu, mas Bodansky vai além, registra esses momentos e utiliza imagens feitas pelos próprios moradores dentro do filme, como corte para sua própria câmera. Um trabalho de troca, confiança e desprendimento por parte do autor que mostra estar em harmonia com o ambiente que o cerca há mais de 40 anos.

O gosto pela polêmica e pela denúncia continua o mesmo e Jorge Bodansky não se furta a ouvir reclamações dos moradores, presidentes de associação e professores. O poder público pouco avança dentro da mata e o descaso com a saúde é a principal queixa dos ribeirinhos. Aqui no Rio, e por todo o Sul Maravilha, estamos mais do que acostumados com essas reclamações vindas dos moradores de áreas de risco ou controladas pelo tráfico de drogas. Mas qual a desculpa para a falta de atenção com os moradores da Amazônia?

O documentário consegue alcançar o objetivo proposto que é nos mostrar as oficinas e o trabalho realizado pela equipe da expedição, mas também nos faz entrar no meio do rio, entre as árvores, como o próprio título adianta. O avanço da tecnologia digital foi fundamental nesse processo. Com uma pequena câmera de vídeo, que não chega a custar R$ 500,00, os moradores produzem entrevistas e as imagens já não possuem um abismo técnico quando contrapostas ao material profissional.

Algo impensável nas décadas de 70, 80 e até 90, a Era do S-VHS, único formato acessível à população e que perdia qualidade de forma absurda quando copiado de uma fita para outra. Justificativas para entender porque essa experiência não fora realizada antes? Quem sabe. Mas definitivamente esse era o momento e Bodansky mais uma vez conseguiu uma obra digna de aplausos. Quando vemos os créditos subindo, e percebemos que o filme acabou, ficamos com aquela sensação de quero mais. Será que Jorge Bodansky já está com saudades da Amazônia também?

No meio do rio, entre árvores (Within the river, among the trees)

Brasil, 2010. 72 minutos

Direção: Jorge Bodansky

Mário Filho: O Criador das Multidões

29/05/2011

O Brasil é o país do futebol por excelência! Cinco vezes Campeão do Mundo! Berço de craques como Zizinho, Heleno de Freitas, Leônidas da Silva, Didi, Nilton Santos, Zagallo, Mané Garrincha e, claro, o Rei Pelé. Sediou o primeiro Mundial do pós-guerra, em 1950, e para tanto construiu o Maior Estádio do Mundo, o Maracanã. Qualquer garoto sabe que as “cinco estrelas” nasceram de uma vitória heróica, de virada, em solo europeu – fato inédito, contra os suecos, donos da casa. Mas essa história teve um capítulo conturbado com a derrota para o Uruguai em 1950. E o jornalista Mário Filho teve participação decisiva em todos esses eventos.

Mário Filho e o irmão Nelson Rodrigues defenderam com ardor a construção do Maracanã quando os políticos discutiam a viabilidade do projeto. Para Mário era preciso mostrar ao mundo que o Brasil poderia organizar uma competição como aquela e que tinha a capacidade de construir um gigante que se tornaria o maior estádio do mundo. Hoje, o Maraca é motivo de orgulho nacional e recebe turistas vindos de toda parte do mundo. E não vamos sediar outra Copa em 2014?

Mário Filho e Nelson Rodrigues lutaram pela construção do Maracanã!

Após a derrota de 50, os críticos colocaram a culpa nas costas de Barbosa e dos demais jogadores negros da seleção brasileira. Um dossiê chegou a ser preparado pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos) indicando que o jogador mestiço, mulato, negro ou índio não conseguiria suportar a pressão de vencer uma final de Copa do Mundo. A nossa raça era frágil e pouco competitiva. A ordem era pra “embranquecer” a seleção brasileira.

Mário Filho foi a voz dissonante e a história provou quem tinha razão. Pelé, aos 18 anos, fez dois gols na final – o primeiro um golaço! – e era negro. Didi, mulato, foi eleito o melhor jogador do mundial e apelidado pela imprensa estrangeira de Mr. Football. E para completar a salada multicultural, hoje vista como uma característica positiva do nosso povo, Mané Garrincha tinha sangue índio nas veias. Tudo muito óbvio hoje em dia. Quem pensaria em barrar Pelé e Garrincha? Quem questionaria Romário? Ou Jairzinho? Ou Paulo César Lima? Se hoje pensamos assim, em parte devemos agradecer à máquina de escrever de Mário Filho.

Djalma Santos, Garrincha, Didi e Pelé na Seleção Brasileira de 1958

O cineasta Oscar Maron Filho, de posse do catálogo de imagens da Atlântida Cinematográfica, reconstrói o Rio de Janeiro do início do século XX e nos faz mergulhar numa época onde o futebol era um esporte de elite, “coisa de inglês”. Difícil imaginar cenário assim, não? Pois foi nesse momento histórico que o jornalista começou a reinventar a crônica esportiva brasileira. O filme tem o mérito de conseguir explicar a importância de Mário Filho através de seus textos e ações, mas para isso a volta ao passado era fundamental.

O trabalho de montagem é primoroso e logo somos transformados em “geraldinos e arquibaldos” vibrando com gols, lances de perigo e bolas na trave. Maron faz um documentário tão emocionante quanto os grandes clássicos do futebol brasileiro, tão emocionante quanto o amado “Fla-Flu” de Mário Filho. A bela fotografia envelhecida do material de arquivo poderia ser atrapalhada pelo excessivo colorido contemporâneo, mas, acertadamente, o diretor decidiu usar o preto-e-branco como tom dominante nas entrevistas captadas e mesmo em algumas imagens atuais. Graças a essa simples concepção foi possível passear pelo Rio Antigo e ouvir os relatos de amigos, estudiosos e jornalistas que conviveram com Mário Filho sem perder a relação espaço/tempo proposta pela montagem.

Mário Filho: O Criador das Multidões é um trabalho cuidadoso e planejado nos mínimos detalhes. Oscar Maron Filho realiza uma obra de paixão pelo futebol e amor ao Brasil, exatamente as mesmas paixões que cercavam a vida do jornalista. Quem gosta de futebol irá se deslumbrar com imagens do Maracanã lotado para ver jogos de Santos, Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, América e Olaria. Quem gosta de cinema poderá apreciar um documentário enxuto, organizado, emocionante, bem dirigido e com uma montagem impecável.

Para aplaudir de pé e gritar Gooooooooooool!

Copa do Mundo de 1950: Maracanã lotado esperando pelo título brasileiro!

Mário Filho: O criador das multidões (The Creator of Crowds)

Brasil, 2010. 78 minutos

Direção: Oscar Maron Filho

Gretchen Filme Estrada

05/04/2011

Gretchen Filme Estrada (2010) começa a surpreender o público já com o estranho título, pouco comum para um documentário. As surpresas vão surgindo na tela enquanto viajamos com a Rainha do Bumbum em duas aventuras distintas, mas que são incrivelmente semelhantes no Brasil. Nos fins de semana, a cantora Gretchen percorre o interior do país, o Nordeste para ser preciso, fazendo aparições em pequenos circos itinerantes que cobram R$ 3,00 pelo ingresso da Geral. Na segunda pela manhã, após viajar de carro centenas de quilômetros, encontramos Gretchen, agora candidata ao governo da pequena Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, discutindo com membros do partido detalhes da campanha eleitoral.

A narrativa tem um início lento nos primeiros minutos de projeção e um espectador mais ansioso poderia vaticinar que a produção estaria fadada ao fracasso. Nada disso! Passada a confusão inicial, Eliane Brum e Paschoal Samora retomam o controle da história, passam a intercalar as duas vidas da cantora-candidata e constroem um rico perfil de um ícone da cultura brasileira. Deixando de lado o gosto pessoal ou até mesmo um pré-conceito, é preciso admitir que poucas pessoas conseguiram entrar no imaginário popular como Gretchen. Pelos quatros cantos do Brasil é difícil encontrar alguém que nunca tenha escutado esse nome antes.

A força de Gretchen não reside mais no requebrar de suas cadeiras e nas avantajadas curvas. Não, não mais, a força de Gretchen está no nome, no mito. A cantora sabe disso e nos raros momentos em que conversa com a câmera revela que já não suporta ouvir as mesmas músicas. “É uma prisão. Eu cumpri 30 anos. Quero ser livre.” A liberdade tem um preço e alto. A vida política substituiria a vida artística e o nome Gretchen seria útil uma última vez antes de ser relegado ao passado. O peso de tal decisão, ou reflexão, parece abalar a cantora que agora vê a campanha eleitoral como uma porta de salvação.

O filme consegue perceber esse momento de transição, de mudança na personagem e usa essa ruptura para alterar também a estrutura da narrativa. Antes estávamos vendo um típico exemplar da escola do cinema direto norte-americano, ou seja, a equipe invisível, a câmera como uma mosca na parede e apenas o personagem interagindo com o mundo que o cerca, como no famoso Primary (1960) de Robert Drew. Os diretores são confrontados pela personagem que exige um distanciamento da equipe para poder tocar a campanha que está “indo de mal a pior”. Esse repentino embate não é negado e sim absorvido pela montagem.

Desse momento em diante, a equipe se faz presente – como no cinema-verdade francês – uma câmera registra a outra, a diretora segura o microfone e resolve entrevistar os eleitores nas ruas, vemos os técnicos de som tentando captar o melhor áudio possível no meio da multidão e o foco é dividido entre a estrela Gretchen e sua própria equipe de filmagem. Bem ao estilo Eduardo Coutinho – que ele não me leia! – acompanhamos os inúmeros pedidos de “Autorização do Uso de Imagem” sendo assinados nas filas dos circos e até mesmo Gretchen, após o show, regendo o público: “Eu autorizo o uso da minha imagem para o filme Gretchen Filme Estrada”. Uma ousadia sem dúvida, mas recompensada pelos risos da plateia.

Eliane Brum e Paschoal Samora fizeram um filme sensível, uma homenagem justa, mas sem fazer concessões à personagem ou mesmo apelar para o sentimentalismo fácil. Altamente indicado para estudantes de cinema e para aqueles que gostam de um bom Road Movie.

Gretchen Filme Estrada (Gretchen The Road Movie)

Brasil, 2010. 90 minutos

Direção: Eliane Brum e Paschoal Samora

Complexo: Universo Paralelo

31/03/2011

O poder público conferiu ao Complexo do Alemão o status de bairro em 1993, mas os problemas continuaram os mesmos. Estima-se que 160 mil pessoas vivam na região formada por dezesseis comunidades que fazem divisa com os bairros da Penha, Ramos, Olaria, Inhaúma e Bonsucesso, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O complexo de favelas é considerado um dos locais mais perigosos do Rio e a Vila Cruzeiro ficou conhecida mundialmente depois do assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002. Durante os Jogos Pan-Americanos, em 2007, uma ação conjunta orquestrada pela Polícia Militar e a Força Nacional ocupou a região para diminuir o poder das facções criminosas que atuam na cidade.

Foi nesse contexto que dois irmãos portugueses adentraram no Complexo do Alemão para filmar o novo cotidiano dos moradores, agora sob a proteção do Estado. Os dois resolveram fixar residência na região para acompanhar de perto o dia da comunidade e, claro, encontrar personagens para o filme. Seu Zé, presidente vitalício da Associação de Moradores, Dona Célia, mãe de oito filhos, e MC Playboy, conhecido funkeiro, se encarregam de mostrar as peças do quebra-cabeças que será montado na edição. Mário Patrocínio assina a direção do documentário, enquanto a câmera do irmão Pedro procura capturar um universo diferente e desconhecido.

E é justamente através das imagens que temos a primeira dica de como o olhar estrangeiro absorve e devolve a rotina que o cerca na favela. A câmera nunca é apontada diretamente para a ação, ela está sempre fugindo, à espreita, como que com vergonha ou medo de observar. Será que estamos vendo a Estética do Medo? Os homens da Força Nacional faziam poses para as lentes do Jornal Nacional, mas aqui são fotografados de longe, com reverência, com medo. As imagens são tremidas, estão sempre em movimento e raramente conhecem repouso para contemplar ou ver melhor. Não existe tempo para ver mais uma vez, o corte logo chega acompanhado de outra imagem.

A fotografia das entrevistas segue a mesma linha de raciocínio e por vezes não conseguimos focalizar o rosto, os olhos, a expressão da fala. A luz estourada, ou a falta de luz, nos deixa apenas com o som, apenas com as palavras. É verdade que em alguns momentos chega a ser belo, mas seria essa a intenção? Os olhos possuem o recurso para regular a entrada da luz e da mesma forma a câmera. A ideia da não intervenção, de filmar a realidade, de capturar a verdade do momento pode não ter sido a mais apropriada para as entrevistas, mas ao menos é coerente com o todo.

A montagem não usa legendas para marcar a passagem do tempo, apenas aceitamos que os dias estão se sucedendo, sempre iguais, num ciclo contínuo e monótono na vida dos personagens. A inserção de pequenos clipes entre uma entrevista e outra, para aliviar e dar respiro ao filme, não consegue se encaixar de forma orgânica e causa certa estranheza.

O ponto mais polêmico do documentário começa após um desses momentos clipados, quando traficantes armados ensinam como funciona o respeito na favela e qual o exato papel da polícia nisso tudo. Ao dar voz a um lado, a do tráfico, e negar espaço a outro, ao Governo, o filme se posiciona e assume uma postura político-social que aparentemente tentava negar ou anular.

O envolvimento afetivo dos cineastas com o Complexo do Alemão deve ter pesado na hora da edição e o inevitável “Happy End”… não foi evitado. Seu Zé continua lutando contra os políticos corruptos que só querem saber de ganhar os votos do povo na época das eleições; Dona Célia perdeu um filho, mas continua acreditando que tudo vai dar certo e MC Playboy segue cantando e criando suas músicas.

Tecnicamente bem acabado, Complexo: Universo Paralelo (2010) não acrescenta novidades dentro do rico cenário de produções sobre violência e favela quando pensamos apenas no conteúdo, mas, sem dúvida, a Estética do Medo desenvolvida aqui irá agradar ao mercado estrangeiro.

Complexo: Universo Paralelo (Complexo: Parallel Universe)

Portugal, 2010. 75 minutos

Direção: Mário Patrocínio

Um táxi para a escuridão

08/01/2010

Em 2006, o diretor Alex Gibney perdeu o Oscar de Melhor Documentário para Marcha dos Pingüins (2005), na ocasião concorria com Eron: Os mais espertos da sala (2005) que investigava a falência da sétima maior empresa dos Estados Unidos. O caso foi um grande escândalo no mundo corporativo: os executivos simplesmente fugiram com bilhões de dólares deixando funcionários e acionistas sem um tostão.

Durante a festa de premiação, em meio à ressaca pela perda da estatueta dourada, um grupo de advogados sugeriu para Gibney se meter em outra polêmica questão e investigar as denúncias envolvendo tortura e abusos dos militares norte-americanos no Afeganistão.

Em 2005, o jornalista Tim Golden, do The New York Times, publicou uma série de reportagens amparado em documentos oficiais mostrando que a prática da tortura era comum nas prisões de Abu Ghraib, em Bagdá, e na Base Aérea de Bagram, no Afeganistão.

As investigações do jornal começaram em 2002, após a morte do jovem taxista Dillawar, de apenas 22 anos. Preso e acusado sem provas de pertencer ao regime talibã, o afegão foi espancado e mantido em pé, algemado pelos pulsos. Na certidão de óbito, emitida pelo exército norte-americano, constava morte por homicídio. O documento estava escrito em inglês, e foi entregue à família da vítima que não fala a língua do Tio Sam. Em 2004, fotos que mostravam presos sendo humilhados por soldados na base de Abu Ghraib correram o mundo, mas a cúpula do exército considerou o caso como ‘obra de maçãs podres’.

Realizar Um táxi para a escuridão (Taxi to the dark side, 2007) foi a forma encontrada pelo diretor Alex Gibney para fazer um povo acostumado ao audiovisual questionar as políticas de seu governo. O documentário contou com a colaboração dos correspondentes de guerra dos principais veículos da imprensa norte-americana e pelos jornalistas do NYT que divulgaram a morte de Dillawar dois anos antes.

Alex Gibney e a montadora Sloane Klevin sabiam que estavam mexendo num barril de pólvora. Quem ousava questionar os métodos do ‘imperador‘  George Bush sofria sérias represálias por parte da máquina de poder da Casa Branca. Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 elevaram o grau de tolerância da população com o que era permitido fazer para defender a América.

Um táxi para a escuridão entrevista soldados que estavam nas bases militares de Abu Ghraib e Bagram, jornalistas, assessores militares e chega ao alto escalão de George Bush. O documentário parte do caso isolado do jovem taxista Dillawar e segue o rastro até a base norte-americana de Guantánamo, em Cuba, onde a CIA e o exército desenvolveram e criaram métodos de tortura e testaram nos detentos.

A produção do filme conseguiu pilhas de documentos oficiais entregues por fonte anônima que relatam passo a passo a aplicação da chamada engenharia da tortura: eletrochoque, LSD, mescalina, pentatol de sódio (soro da verdade) e uma série de métodos para induzir a privação sensorial.

A capitã Carolyn Wood, oficial encarregada dos interrogatórios em Abu Ghraib e Bagram, nunca foi processada e é mantida intocável pelo exército norte-americano.

Imperador Bush visitando as tropas na colônia rebelde

Um táxi para a escuridão (Taxi to the dark side)

Estados Unidos, 2007. 105 minutos

Direção: Alex Gibney

O Engenho de Zé Lins

29/12/2009

José Lins do Rego Cavalcanti nasceu no Engenho Corredor, município de Pilar, no Estado da Paraíba, em três de julho de 1901. Cursou a escola secundária em Itabaiana e se formou em Direito, no Recife, em 1923.

Vladimir Carvalho nasceu em Itabaiana, no dia 31 de janeiro de 1935. Formado Bacharel em Filosofia, mas cineasta por natureza.

O Engenho de Zé Lins (2006) já seria imprescindível se fosse um documentário sobre um dos maiores escritores brasileiros, mas Vladimir Carvalho não ficou apenas no superficial e na pesquisa. A ligação entre os dois intelectuais vai além do estado de nascimento. “Meu pai contava as histórias como se fossem dele, eu ouvia isso desde pequeno. Quando aprendi a ler vi que meu pai misturava a vida dele em Itabaiana com trechos de Menino de Engenho”, relembra Vladimir.

Vladimir Carvalho

Insatisfeito com as verdades que aí estão – como todo documentarista – Vladimir parte para descobrir detalhes da vida de Zé Lins e investigar a razão da melancolia que se abatia sobre o escritor. “Ele tinha variações grandes de humor, ia da tristeza à alegria em instantes”, revela o diretor. “Tinha sempre a morte rondando sua mente. Queria muito saber a causa disso”.

O resultado desse questionamento é um documentário de apenas 81 minutos, digo apenas, pois este é um daqueles filmes que não queremos que termine tão cedo. Vladimir percorre o Brasil para encontrar pessoas ligadas ao escritor e registra depoimentos únicos. A lista de entrevistados vai de familiares, como as primas com mais de noventa anos, Carlos Heitor Cony, Ariano Suassuna, e ainda vemos uma das últimas entrevistas de Raquel de Queiroz, grande amiga e confidente de Zé Lins.

Para narrar as passagens da infância no Engenho Corredor, a equipe de filmagem vai até o local e encontra a fazenda ocupada pelo Movimento dos Sem-terra e as casas quase destruídas. Como mostrar a beleza do engenho, das máquinas, da cana, do melaço? Como voltar ao passado e fazer o público de hoje ver essas imagens? A resposta foi utilizar cenas de “Menino de Engenho” (1965) de Walter Lima Júnior como se fossem documentais. Walter rodou o filme no verão de 1965 e essas imagens são as mais próximas que existem da infância de Zé Lins e da época áurea dos Engenhos de Açúcar.

Vladimir Carvalho e o montador Renato Martins intercalam cenas do filme de Walter com as recentes feitas pela equipe. Num desses momentos encontram Sávio Rolim, o ator que viveu o menino Carlinhos em 65. Ficção e documento se misturam: o menino Sávio deixa as imagens em preto-e-branco e percorre com saudade os locais onde a trupe se aventurou há quase 50 anos.

Sávio Rolim: presente e passado

Ao ser confrontado com a realidade do lugar, a invasão do MST, a disputa pela terra, o documentário absorve essas questões e dá voz aos novos moradores do Engenho. Vladimir percebe que essa situação não é nova e que as mudanças ficam mais pelo efeito do tempo nas edificações do que nas relações humanas. “Eles me mostraram a foto de um companheiro que morreu na invasão. Eu vi ali um novo João Pedro Teixeira, um novo moleque Ricardo. Era a história se recontando”.

O documentário ganha sua forma definitiva nos retoques da ilha de edição e Vladimir percebe que é incoerente não se posicionar como personagem nessa história. O cineasta assume sua paixão pela obra e vida de Zé Lins e cria um filme único, onde o diretor questiona e percorre junto com o público as trilhas de um Brasil que está perto de desaparecer.

O Engenho de Zé Lins

Brasil, 2006. 81 minutos

Direção: Vladimir Carvalho