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Os Representantes

27/09/2014

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O Nordeste brasileiro sofre com duas pragas há décadas: a seca, que parece ser eterna, e os políticos locais, que estão longe de mudar a maneira como governam a região. As mudanças climáticas que preocupam ambientalistas pelo mundo inteiro já ameaçam a maior bacia hidrográfica do planeta e, por incrível que pareça, a seca está chegando aos afluentes do Amazonas. E seca lembra Nordeste, que lembra verba extra, que lembra ajuda humanitária, doações, políticos, desvio de dinheiro…

O cineasta Felipe Lacerda, co-diretor de Ônibus 174 (2002), assina seu primeiro trabalho como realizador-solo partindo para o interior do país tentando mostrar como funciona a distribuição de alimentos para a população ribeirinha. O documentário tinha a intenção de registrar a logística operacional, o transporte e a entrega das cestas básicas, mas logo o diretor percebeu que uma história maior esperava para ser contada. O filme que seria voltado para a preocupação ambiental assume outros contornos, revelando os bastidores do circo político no Brasil.

Outubro de 2005. Felipe chega no dia da votação do Plebiscito Nacional sobre o Desarmamento e, sem conhecer a região, decide seguir os passos de um líder comunitário que conseguiu se eleger vereador. Em todos os ambientes, o assistencialismo e os constantes pedidos de ajuda, emprego, dinheiro e remédio se mostram parte da rotina do vereador, quase uma liturgia sagrada e obrigatória. Todos querem um benefício individual e uma palavra de conforto, querem ouvir que tudo será resolvido, não importa qual seja o problema. Mesmo sabendo que não pode solucionar todos pedidos, o político é obrigado a balançar a cabeça concordando.

repre05A montagem conta duas histórias que logo se transformarão em uma. Vemos a Base de Operações do Exército, onde militares, políticos e conselheiros decidem a estratégia de ação. E as andanças do vereador e dos assessores do governador preparando o terreno para receber o auxílio vindo do Governo Federal, mas que “foi totalmente costurado e intermediado através do poder do Governo Estadual”, como gostam de afirmar os assessores. Desde a base de operações, passando pelos sucessivos embarques e desembarques, até a distribuição final, as cestas básicas são tratadas como uma mina de ouro, um cartão de visitas dos políticos locais.

A lente da câmera de Lacerda é atrevida, busca a fala escondida pela mão, pelo abraço amigo dos políticos, mas sabe respeitar a dor e angústia dos populares que mesmo com a vergonha precisam pedir, precisam tentar conseguir ajuda da forma que seja. O único momento em que Lacerda se detém é ao entrar na Prefeitura para participar de uma reunião entre os vereadores e o prefeito. A câmera fica sempre alguns passos atrás dos políticos e não sabemos se ela terá permissão para registrar a conversa. Do alto da escadaria, enquanto conversa animadamente com os outros políticos, o vereador-personagem acena discretamente para a equipe continuar em movimento, continuar seguindo seus passos até entrar sem aviso, sem preparação, quase que no susto na sala do prefeito.

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Felipe Lacerda, na montagem, valoriza esse momento, repetindo e colocando em câmera lenta a mão do vereador dando o discreto sinal para a câmera. Sim, isso é um filme, é um filme político onde alianças são costuradas. Se o governador faz questão de desembarcar com as cestas básicas, abraçar a população e receber o crédito pela ajuda, Felipe deixa claro qual o papel do vereador-personagem dentro do filme e faz questão de mostrar isso de forma bem explícita.

Os Representantes faz um recorte preciso da situação política do interior do Brasil – será só no interior? – mostrando que os dois lados da moeda, os governantes e o povo, jogam em times diferentes, mas que conhecem as regras do jogo. Como bem disse um vereador no filme: “Antes era só chegar com cinquenta reais, um saco de cimento e pronto. Agora, não. É preciso fazer alguma coisinha…”

OS REPRESENTANTES (The Representatives)

BRASIL, 2010. 71 minutos

Direção: Felipe Lacerda

Before the rains

25/09/2009

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O diretor Santosh Sivan está longe de ser um principiante, mas Before the rains (sem tradução para o português) é seu primeiro longa-metragem em inglês e uma co-produção entre Índia e Estados Unidos. Ao primeiro olhar, uma parceria entre Bollywood e Hollywood pode causar estranhamento, mas Sivan não utiliza a linguagem comum aos filmes de seu país, o musical.

Nascido na Índia, Sivan se formou no Instituto de Cinema e Televisão e começou a carreira como diretor de fotografia. Antes de se aventurar na direção, assinou a câmera de quarenta e cinco longas de ficção e quarenta e um documentários. Em 1995, realiza Halo, seu primeiro filme como diretor. O reconhecimento do mundo ocidental chegaria com dois trabalhos exibidos no Festival de Toronto: The Terrorist (1999) e Asoka (2001).

Santosh Sivan em ação

Santosh Sivan em ação

Essa introdução é necessária para compreender escolhas que o cineasta faz durante o percurso do roteiro. O aristocrata britânico Henry Moores (Linus Roache) se estabelece no sul da Índia como negociante de especiarias. O comércio com a Europa se intensifica, mas as monções duram meses, destroem as estradas e interrompem o fornecimento de mercadoria, transformando um negócio certo em investimento arriscado.

Apostando no futuro da região, Moores consegue um vultuoso empréstimo junto a um banco inglês para construir uma estrada ligando a sua fazenda ao ponto de distribuição. O projeto é caro e ambicioso.

Na década de 30, o movimento para a independência da Índia começa a ganhar forma e Moores precisa da ajuda de seu fiel empregado para convencer os trabalhadores locais a abraçarem a empreitada. T.K. (Rahul Bose) é um jovem indiano formado nas escolas britânicas que utiliza sua influência na vila para transformar o sonho do patrão em realidade.

Partindo dessa premissa, o diretor escolheu apontar sua câmera para a vida dentro da casa britânica em solo indiano e relegou para segundo plano um olhar mais atento aos moradores da vila e seus costumes. Santosh Sivan poderia percorrer o caminho inverso e nos mostrar o dia a dia na vila e as mudanças que décadas de contato com os britânicos fizeram a uma sociedade secular.

atores 1O diretor resolve esperar o momento certo para colocar o dilema tradição versus progresso. Apesar de ser um bem sucedido homem de negócios, Moores não consegue resistir aos encantos da jovem Sajani (Nandita Das) e o envolvimento dos dois compromete a frágil estabilidade local.

Santosh Sivan também acumulou a direção de fotografia e isso poderia ser um problema para a direção de elenco, mas a presença de atores pouco conhecidos, porém experientes, facilitou o trabalho. Rahul Bose é considerado o Sean Penn do cinema oriental, Nandita Das estrelou filmes como Fire (1996), Earth (1999) e foi membro do júri do Festival de Cannes 2005 e Linus Roache ficou conhecido do grande público em Batman Begins (2005).

Before the rains mostra um período conturbado da história da Índia de forma distante. Talvez querendo atingir um público maior ou seguindo orientações da produção norte-americana, Sivan não mergulha como poderia nas questões políticas, dando apenas uma pincelada superficial. Mesmo não tendo a pretensão de fazer um filme histórico, o diretor poderia ter ousado mais nos embates entre tradição e progresso.

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Before the Rains

Estados Unidos, Índia, 2007 98 minutos

Direção: Santosh Sivan

Katyn

25/09/2009

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Polônia. 1939. O exército polonês enfrenta as forças alemãs no lado Ocidental e a traição russa no front Oriental. A invasão é eminente. Diante do poderio bélico soviético, não resta alternativa senão baixar armas. Os soldados são dispensados, mas milhares de oficiais poloneses são transferidos para um campo de prisioneiros pelo comando russo.

Floresta de Katyn, Smolensk, URSS, 1943. O exército alemão controla a região e descobre, em imensas valas, os corpos dos oficiais poloneses, cerca de 15 mil. O alto comando soviético acusa a Alemanha pelo massacre. O governo de Hitler convoca a Cruz Vermelha Internacional para exumar os cadáveres. Documentos e recortes de jornal datam de abril de 1940, ou seja, durante a ocupação soviética. Um jogo político mascara a verdade que só vem à tona décadas depois. Estima-se que um terço dos oficiais poloneses foram assassinados. O massacre de Katyn torna-se uma mancha nas relações internacionais e uma ferida aberta no povo polonês.

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Katyn de Andrzej Wajda reconta essa história e revela ao mundo informações ocultas pelo regime socialista. Na prisão, o Capitão Andrzej (Artur Zmijewski) passa os dias anotando, num pequeno caderno, tudo o que considera relevante. Andrzej quer que Anna, sua esposa, saiba exatamente o que está acontecendo. Anna (Maja Ostaszewska) não desiste de confrontar as autoridades nazistas para saber o paradeiro do marido.

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O roteiro preenche as lacunas que ficaram abertas utilizando um vasto material da investigação de 1951, realizada por uma junta internacional. Fotos da autopsia, manchete de jornais, registros oficiais, laudos e um impressionante registro audiovisual realizado pelos alemães, ainda em 1943, enriquecem o filme e colaboram para a sensação de angústia que Wajda planeja passar.

A trama avança por dois caminhos, ora estamos com os militares na prisão, ora com os parentes e sua busca pela verdade. A escolha da direção em seguir por linhas paralelas se mostra acertada quando a luz dos fatos rompe a estrutura e faz com que esses dois mundos se encontrem.

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O excesso de personagens que permeiam a segunda metade da projeção parece enfraquecer e confundir o roteiro, mas Wajda sabe conduzir com perfeição esse momento. Tão rápido quanto surgem, os elementos partem e deixam como herança marcas profundas no andamento da trama.

O pai de Andrzej Wajda foi assassinado no massacre de Katyn quando ele tinha 13 anos e o diretor parece não ter poupado esforços para fazer deste um filme definitivo. Fotografia, figurino e direção de arte se combinam para criar um retrato poderoso da Polônia durante a II Guerra Mundial. No fim, a verdade nua e crua recebe um tratamento quase documental. Wajda não faz concessões e joga na tela o sangue coagulado, congelado por décadas, que agora jorra sujando mãos e lavando memórias.

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Exumação dos cadáveres em 1943

Katyn (Katyn)

Polônia, 2007 118 minutos

Direção: Andrzej Wajda