Posts Tagged ‘Festival do Rio’

Aqui, doido varrido não vai pra debaixo do tapete

27/09/2014

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Rodrigo Séllos estava no primeiro período de cinema na UFF quando decidiu registrar o dia a dia dos pacientes, ou melhor, clientes do Serviço de Atenção Diária do Espaço Aberto ao Tempo, do Instituto Municipal Nise da Silveira, localizado no Engenho de Dentro, na cidade do Rio de Janeiro. Em 2005, durante seis meses, Rodrigo freqüentou o instituto conversando e gravando com clientes, psicólogos, psiquiatras, funcionários e familiares. Esse material foi mostrado ao amigo Rená Tardim, estudante de jornalismo da Uerj, e os dois decidiram deixar as fitas descansarem enquanto amadureciam, estudavam e aprendiam mais em suas faculdades.

Não podemos precisar o que aconteceria se os jovens tivessem editado e finalizado o material logo após as filmagens, isso seria um exercício leviano e displicente, mas podemos afirmar, ao menos, que o produto nascido dessa espera mantém o frescor e a inocência de um primeiro trabalho. Entre 2009 e 2010, Rodrigo e Rená tiveram que rever todo o material filmado e pensar que documentário poderia surgir daquelas imagens e entrevistas que estavam adormecidas há quatro anos.

aquidoido01O trabalho de montagem é primoroso e respeita a imaturidade e a jovialidade do material captado. As entrevistas são intercaladas com os momentos do dia a dia na clínica, como o jogo de futebol, a aula de música e a preparação do almoço no refeitório, o que permite um espaço, uma reflexão entre as falas, por vezes difíceis de serem absorvidas pelo conteúdo impactante e tão diferente da nossa realidade dita “normal”. As imagens nos ajudam a entender melhor esse mundo distante e ao vermos a seriedade com que a partida de futebol é disputada, gol a gol, lance a lance, nos aproximamos desses excluídos que nós, sociedade, preferimos trancar e esconder.

A liberdade que a equipe de filmagem encontrou para trabalhar é espantosa e a relação de confiança estabelecida com os pacientes comove e faz pensar na responsabilidade que esses dois jovens tiveram ao montar e preparar o documentário. No início, Rodrigo vai chegando devagar e conquistando a confiança de Bruno, um jovem pouco falante e sempre agarrado a um inseparável tambor. Essa timidez de Bruno escondia o intenso interesse pela câmera e pelo filme. Logo Bruno já está com a câmera na mão, filmando e conversando com os pacientes, depois entende que o papel de entrevistador é mais divertido e assume o microfone para nos brindar com tiradas e perguntas delirantes! A interação de Bruno com a equipe desata o resto de resistência que poderia existir e permite que a câmera esteja sempre no centro das atenções e das conversas.

Aqui, doido varrido não vai pra debaixo do tapete é um filme para ser aplaudido de pé! Rodrigo, Rená,aquidoido04 e claro, Bruno, nos levam por uma viagem fantástica onde o preconceito é jogado para escanteio, o bom humor impera, mas os assuntos delicados são respeitados e tratados de forma direta e sem rodeios. É impossível levantar da cadeira até o fim dos créditos finais. Os dois realizadores merecem o acadêmico dez com louvor!

Aqui, doido varrido não vai pra debaixo do tapete (Here wackos are not swept under the rug)

BRASIL, 2010. 81 minutos

Direção: Rodrigo Selló e Rená Tardin

 

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Os Representantes

27/09/2014

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O Nordeste brasileiro sofre com duas pragas há décadas: a seca, que parece ser eterna, e os políticos locais, que estão longe de mudar a maneira como governam a região. As mudanças climáticas que preocupam ambientalistas pelo mundo inteiro já ameaçam a maior bacia hidrográfica do planeta e, por incrível que pareça, a seca está chegando aos afluentes do Amazonas. E seca lembra Nordeste, que lembra verba extra, que lembra ajuda humanitária, doações, políticos, desvio de dinheiro…

O cineasta Felipe Lacerda, co-diretor de Ônibus 174 (2002), assina seu primeiro trabalho como realizador-solo partindo para o interior do país tentando mostrar como funciona a distribuição de alimentos para a população ribeirinha. O documentário tinha a intenção de registrar a logística operacional, o transporte e a entrega das cestas básicas, mas logo o diretor percebeu que uma história maior esperava para ser contada. O filme que seria voltado para a preocupação ambiental assume outros contornos, revelando os bastidores do circo político no Brasil.

Outubro de 2005. Felipe chega no dia da votação do Plebiscito Nacional sobre o Desarmamento e, sem conhecer a região, decide seguir os passos de um líder comunitário que conseguiu se eleger vereador. Em todos os ambientes, o assistencialismo e os constantes pedidos de ajuda, emprego, dinheiro e remédio se mostram parte da rotina do vereador, quase uma liturgia sagrada e obrigatória. Todos querem um benefício individual e uma palavra de conforto, querem ouvir que tudo será resolvido, não importa qual seja o problema. Mesmo sabendo que não pode solucionar todos pedidos, o político é obrigado a balançar a cabeça concordando.

repre05A montagem conta duas histórias que logo se transformarão em uma. Vemos a Base de Operações do Exército, onde militares, políticos e conselheiros decidem a estratégia de ação. E as andanças do vereador e dos assessores do governador preparando o terreno para receber o auxílio vindo do Governo Federal, mas que “foi totalmente costurado e intermediado através do poder do Governo Estadual”, como gostam de afirmar os assessores. Desde a base de operações, passando pelos sucessivos embarques e desembarques, até a distribuição final, as cestas básicas são tratadas como uma mina de ouro, um cartão de visitas dos políticos locais.

A lente da câmera de Lacerda é atrevida, busca a fala escondida pela mão, pelo abraço amigo dos políticos, mas sabe respeitar a dor e angústia dos populares que mesmo com a vergonha precisam pedir, precisam tentar conseguir ajuda da forma que seja. O único momento em que Lacerda se detém é ao entrar na Prefeitura para participar de uma reunião entre os vereadores e o prefeito. A câmera fica sempre alguns passos atrás dos políticos e não sabemos se ela terá permissão para registrar a conversa. Do alto da escadaria, enquanto conversa animadamente com os outros políticos, o vereador-personagem acena discretamente para a equipe continuar em movimento, continuar seguindo seus passos até entrar sem aviso, sem preparação, quase que no susto na sala do prefeito.

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Felipe Lacerda, na montagem, valoriza esse momento, repetindo e colocando em câmera lenta a mão do vereador dando o discreto sinal para a câmera. Sim, isso é um filme, é um filme político onde alianças são costuradas. Se o governador faz questão de desembarcar com as cestas básicas, abraçar a população e receber o crédito pela ajuda, Felipe deixa claro qual o papel do vereador-personagem dentro do filme e faz questão de mostrar isso de forma bem explícita.

Os Representantes faz um recorte preciso da situação política do interior do Brasil – será só no interior? – mostrando que os dois lados da moeda, os governantes e o povo, jogam em times diferentes, mas que conhecem as regras do jogo. Como bem disse um vereador no filme: “Antes era só chegar com cinquenta reais, um saco de cimento e pronto. Agora, não. É preciso fazer alguma coisinha…”

OS REPRESENTANTES (The Representatives)

BRASIL, 2010. 71 minutos

Direção: Felipe Lacerda

Luz nas Trevas

11/05/2012

Rogério Sganzerla tinha o sonho de continuar a história de Luz Vermelha, o mítico personagem vivido por Paulo Villaça nos cinemas e livremente inspirado na vida de João Acácio Pereira da Costa, o famoso Bandido da Luz Vermelha e que foi preso em São Paulo no fim da década de 60. Sganzerla faleceu em 9 de janeiro de 2004 sem conseguir iniciar as filmagens do novo filme. O texto com mais de 700 páginas foi deixado inacabado, Rogério estava começando a transformar as idéias e anotações em roteiro.

Helena Ignez, musa e companheira na ficção e na realidade, não aceitava deixar o material parado, perdido no tempo e sem receber o merecido destino: a tela de cinema. Helena partiu para a árdua tarefa de adaptar o texto e desenvolver o roteiro respeitando as anotações e observações do marido. O resultado desse trabalho é o longa-metragem Luz nas Trevas que mostra o bandido Tudo-ou-Nada seguindo os passos de Luz Vermelha, o pai que nunca conheceu.

Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes esperando a câmera rodar

Temos que agradecer e muito a Helena por não ter se conformado em deixar o texto de Sganzerla de lado. Como ela mesma diz: “Não fiz isso por mim, fiz pelas novas gerações que perderiam essa oportunidade de conhecer o texto do Rogério. E o texto no cinema nacional está tão carente.” O roteiro de Sganzerla, adaptado por Helena, apresenta diálogos impagáveis para personagens fantásticos em situações surreais. Uma obra de rara felicidade e inspiração numa época em que o cinema abraçou o debate social, mas com amargura e tristeza. Helena e Sinai Sganzerla, filha de Rogério e produtora do longa, utilizam trechos de filmes anteriores do cineasta para formar um mosaico colorido e cheio de referências cinematográficas.

Os fãs de Quentin Tarantino e Robert Rodrigues irão se impressionar com o uso da linguagem pop e a inserção de histórias em quadrinhos como imagem de cobertura. Os ângulos de câmera e a montagem bem cadenciada podem levar o público mais jovem a lembrar de Kill Bill Vol.01 (2003) e Sin City (2005). O texto ácido e os diálogos ligeiros certamente remeterão a Pulp Fiction (1994), mas a influência de Luz nas Trevas vem mesmo da obra de Rogério Sganzerla. É uma boa oportunidade para rever o clássico O Bandido da Luz Vermelha, filmado em 1968.

Um elenco estelar para um conjunto de personagens impagáveis!

O tema central da história é a busca de Tudo-ou-Nada pelo pai inexistente, mas o pano de fundo abriga a inquietação de Sganzerla contra o sistema judiciário brasileiro que condena os pobres e absolve os ricos. A luta contra a desigualdade social percorre a trama, mas sem afetá-la diretamente ou aparecer de forma panfletária. Uma aula de roteiro! Com muita criatividade, Helena mantém o discurso político e ainda assim faz um filme policial empolgante. Os agentes da lei, a polícia, não escapam do deboche e o bordão do delegado nos atinge com firmeza: “Preto parado é suspeito. Correndo é culpado”. Os políticos também não são esquecidos e a corrupção rola solta, mas sem punição. Ora, não é neste Brasil que vivemos?

Helena e Sinai conseguiram reunir uma constelação de estrelas da cena cultural brasileira para dar vida ao texto de Sganzerla: Paulo Goulart, Simone Spoladore, Bruna Lombardi, Maria Luisa Mendonça, José Mojica Marins, André Guerreiro Lopes, Djin Sganzerla, Sandra Coverloni, Arrigo Barnabé, Sérgio Mamberti, Mário Bortolloto, Cacá Carvalho, Duda Mamberti, Otávio Terceiro e a incrível participação de Ney Matogrosso como Luz Vermelha. A presença de Ney é uma grata surpresa para o público e o final, inesquecível, fecha com perfeição um trabalho feito com amor e paixão.

O cartaz do filme de 68 e Ney em cena, sim até o cartaz parece atuar…

Luz nas Trevas (Light in Darkeness)

Brasil, 2010. 83 minutos

Direção: Helena Ignez e Ícaro Martins

Com: Ney Matogrosso, Bruna Lombardi, Maria Luisa Mendonça, Paulo Goulart, Simone Spoladore

Reidy, A Construção da Utopia

06/07/2010

Affonso Eduardo Reidy nasceu na França, em Paris, em 1909, mas seu nome está marcado de forma indelével na história de outra cidade tão famosa quanto a capital francesa. Reidy foi diretor do Departamento de Urbanismo do Rio de Janeiro, coordenou a radical transformação que modificou o centro do Distrito Federal no fim da década de 40 e foi um dos pioneiros do brutalismo arquitetônico no Brasil. O projeto do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1953, foi o primeiro em concreto aparente do país.

Reidy, A Construção da Utopia (Reidy, Building Utopia, 2008) faz tanto uma análise minuciosa da carreira do arquiteto quanto uma homenagem merecida ao homem que projetou e desenhou um dos símbolos da carioquice, o Aterro do Flamengo. Em 2005, Ana Maria Magalhães dirigiu o documentário para TV “Reidy, Saudades do Futuro” e percebeu que a linguagem televisiva não era a ideal para seus propósitos.

Ana resolveu dar outro olhar para o material, evitando o excesso de informação e assim assumindo uma abordagem menos didática. O novo filme pode não ter as informações básicas sobre o arquiteto, mas procura mergulhar fundo nos seus textos e pensamentos – que sempre foram vistos como utópicos.

Ana Maria contou com o olhar de Dib Lufti para fotografar o documentário

A cineasta tem uma ligação afetiva com o personagem, já que Carmem Portinho, companheira de Reidy na vida pessoal e profissional, era sua tia. Carmem, além de ser engenheira da prefeitura, era a diretora da Revista Municipal de Engenharia do Distrito Federal e uma das principais divulgadoras do trabalho do urbanista no Brasil e no mundo.

A engenheira lidera a lista de entrevistados que esmiúçam o trabalho e a utopia de Reidy. Ana conversou ainda com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, com Roland Castro, fundador do Movimento de Utopia Concreta (MUC) e candidato à presidência da França em 2007, e colheu um raro depoimento de Lúcio Costa.

A montagem privilegia o discurso, mas não deixa de abrir espaços para a contemplação dos projetos, maquetes e das obras acabadas. Mesmo com a intenção de fugir do tom professoral, Ana nos permite vislumbrar e entender as diferenças entre o que estava no projeto elaborado por Reidy e que o foi aprovado e construído pelo governo. Na tentativa de ilustrar e evitar o uso simplista da narração, a diretora introduz um ator para ler os manuscritos deixados pelo urbanista. Um toque ficcional que não brigou com a estética proposta para o filme e ainda trouxe um ar nostálgico e poético.

O Conjunto Habitacional Pedregulho é um marco na carreira de Reidy

Reidy projetou o Aterro e o Parque do Flamengo, o MAM/RJ e participou da equipe de criação do Ministério da Educação e Saúde, marco fundamental na história da arquitetura moderna brasileira. Mas sua principal contribuição para a arquitetura foram os projetos de habitação social. O Conjunto Habitacional Pedregulho, construído em 1946, e o Conjunto Marquês de São Vicente, inacabado desde 1952, ganharam reconhecimento internacional e recebem a visita de estudantes de arquitetura do mundo todo.

Ana Maria tinha duas grandes preocupações antes de fazer o filme, a primeira era debater o caráter utópico das obras de Reidy – desculpa dada por críticos e pelo governo para a não realização completa de muitos de seus trabalhos, e a segunda era assegurar que o nome do arquiteto fosse definitivamente associado ao projeto do Aterro do Flamengo. “O Aterro é do Niemeyer, é do Carlos Lacerda, é do Burle Marx, o Reidy quase nunca é citado. Ele já sonhava em fazer esse parque desde os anos 30, desde o morro do Castelo. Era preciso falar sobre isso.”

Reidy, A Construção da Utopia traça um paralelo entre homem e obra com precisão matemática.

Reidy, A construção da utopia (Reidy, Building Utopia)

Brasil, 2008. 77 minutos

Direção: Ana Maria Magalhães

Fotografia: Dib Lufti