Posts Tagged ‘François Truffaut’

Sombras elétricas

03/02/2010

É impossível não associar Sombras elétricas (Meng ving tong nian, 2004) do diretor Xiao Jiang ao “Cinema Paradiso” (1989) de Giuseppe Tornatore. E isso já é o suficiente para arrancar aplausos do público no fim da projeção.

Cinéfilos costumam gostar de filmes que falam sobre cinema, é a catarse máxima. A lista inclui sucessos como “Oito e meio” (1963) de Federico Fellini, “A noite americana” (1973) de François Truffaut, “Dirigindo no escuro” (2002) de Woody Allen, e esquecidos como “Vivendo no abandono” (1995) de Tom DiCillo e o ótimo documentário “Cinemania” que foi exibido no Festival do Rio 2002.

No Brasil, encontramos os recentes “Celeste & Estrela” (2005) de Betse de Paula e “Sal de Prata” (2005) de Carlos Gerbase, e o consagrado “Cabra Marcado para Morrer” (1984) de Eduardo Coutinho.

A trama de Sombras elétricas começa com uma explícita declaração de amor ao cinema. O entregador de água Mao Dabing separa o salário do mês para comida e aluguel, o resto ele gasta com filmes. Cada sessão custa três dias de trabalho, mas para Mao esse sacrifício vale cada centavo.

Certo dia, Mao pedala para casa pensando na próxima estréia quando derruba uma pilha de tijolos. Ao se levantar é atacado por uma jovem que ele não conhece. Dabing acorda no hospital, com a bicicleta quebrada e sem emprego. Na delegacia confronta a moça que o atingiu. Ela não fala, mas lhe escreve para ir alimentar os seus peixes, e lhe entrega as chaves de casa. Conformado com a situação Dabing resolve ajudar. Ao chegar ao apartamento descobre que a moça é tão apaixonada por filmes quanto ele.

Impressionado com a descoberta, Dabing começa a ler o diário da garota e mergulha num verdadeiro roteiro que conta a história de seus pais. A fotografia explora a terra vermelha do interior da China e se apóia nas belas paisagens para enquadrar a narrativa da misteriosa garota.

O diretor Xiao Jiang utiliza o conto para tocar em assuntos polêmicos como o preconceito com a mãe solteira, o machismo e a intolerância ao que é diferente. Os trabalhadores da cidade dizem amar o regime comunista, todos são iguais, mas a inveja e a cobiça são sentimentos enraizados em qualquer sociedade.

Jiang começou como roteirista criando programas de televisão e dirigiu três telefilmes antes de se aventurar na direção de um longa-metragem. O roteiro desenha uma história bem contada que perde um pouco o ritmo lá pelos 50 minutos de projeção, mas se recupera a tempo de ser agraciado com as já citadas palmas.

Sombras elétricas (Meng ving tong nian)

China, 2004. 95 minutos

Direção: Xiao Jiang

Elenco: Jiang Yihong, Xia Yu, Qi Zhongyang, Li Haibin

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Jean Vigo

20/07/2009

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Jean Vigo escrito por Paulo Emílio Salles Gomes é uma descoberta. Foi uma descoberta quando escrito em Paris no ano de 1957. Vigo, que morrera em 1934, ainda não era tido como um dos grandes do cinema francês, e a busca de um brasileiro em levantar dados precisos sobre o cineasta que produziu três longas e morreu antes dos trinta anos chamou a atenção da crítica especializada.

André Bazin, o grande crítico e líder da geração que formaria mais tarde a Nouvelle Vague, escreveu “Com um amor só igualado por sua paciência e erudição, Paulo Emílio Salles Gomes, responsável pela Cinemateca de São Paulo, escreveu sobre Jean Vigo uma obra que eu qualificaria de exemplar.

O livro serve para revelar dois grandes amantes do cinema, Jean Vigo e o próprio Paulo Emílio. Lançado em Paris e traduzido para o inglês em 1971 pela Universidade da Califórnia, só chegou ao Brasil em 1984, quase trinta anos depois de publicado na França.

Quando perguntado pela demora na publicação nacional de uma de suas maiores obras Paulo dizia “Não sei se Jean Vigo terá aqui o mesmo interesse.” Como não se interessar pelo cineasta que é citado nas memórias de Jean Renoir, Luís Buñuel e François Truffaut?

CAPAZERO

Depois de ler o trabalho de Paulo Emílio escrito em 1957 podemos ter a certeza que a obra continua atual e intacta. Tanto Vigo quanto o livro. Jean Vigo morreu pobre e tendo seu terceiro e último filme mutilado pelos produtores. Somente depois da guerra, na década de 50, L’ Atalante é relançado com quase todo o material que Vigo montou.

De seus três filmes principais todos tiveram problemas. O primeiro A Propos de Nice (1929) sofreu com a produção, a falta de apoio e com o pouco interesse por parte da crítica, o segundo Zéro de Conduite (1933) foi censurado na estréia e antes disso Jean teve sérios atritos com o estúdio co-produtor a Gaumont-Franco-Film.

L’ Atalante nasceu dentro do medo. Poucos acreditavam nele e ter um filme censurado abalou a confiança dos produtores em Vigo. Antes de morrer Jean Vigo dizia que L’ Atalante era o responsável por sua doença. Vigo que sempre teve uma saúde fraca se submeteu a um verdadeiro martírio para concluir o filme e chegou a filmar com trinta e oito graus, febril, embaixo da neve.

Cena de Zéro de Conduite

Cena de Zéro de Conduite

Jean Vigo faleu em 5 de outubro de 1934 e seu filme cortado, mutilado e transformado no fracasso Le Chaland qui passe parece ter morrido junto com ele. Somente nas décadas de 50 e 60, o nome de Jean Vigo iria ressurgir na França, na Europa e até na América. Paulo Emílio afirma:

O lugar ocupado por Vigo no cinema francês é extraordinário. A lista de cineastas franceses cujas obras – sem levar em conta sua significação momentânea ou seu interesse histórico – constituem por seu valor permanente, uma contribuição à cultura cinematográfica (Méliès, Cohl, Linder, Gance, Clair, Renoir e Vigo) é curta e poderia ainda ser reduzida. Se, com rigor exagerado, reduzíssemos esta lista a quatro nomes, o de Vigo nela permaneceria. A obra principal de Vigo, situada entre Le Million e La Règle du Jeu, domina, com a de Renoir e Clair, o cinema francês moderno, isto é, o dos anos trinta.

Cena de Zéro de Conduite

Cena de Zéro de Conduite

Os bastidores de um filme

14/07/2009

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Quem tem acesso aos bastidores de uma super-produção? Conhecer os detalhes do roteiro, a criação do cenário e a escolha dos planos de filmagem é quase impossível. Agora imagine ter entrada livre no mundo do “melhor filme de todos os tempos”.

Essa é a proposta de Cidadão Kane: O Making Of escrito por Robert L. Carringer. O livro foi mais longe do que qualquer outra obra sobre Cidadão Kane. Além de ler e pesquisar todas as fontes disponíveis, Carringer conversou com antigos funcionários dos estúdios RKO Pictures (onde o filme foi rodado) e alguns importantes colaboradores nas áreas de som e fotografia. Mostra também rabiscos e plantas da cenografia e do figurino. Mas o maior trunfo do autor está no próprio Orson Welles que leu e releu os capítulos e forneceu informações precisas sobre a criação do filme que é aclamado há mais de três décadas como o melhor de todos.

Durante muitos anos Citizen Kane foi considerado uma obra autoral e talvez a primeira do cinema norte-americano. Nunca um diretor teve tanta liberdade para conduzir um filme como Welles. A grande discussão do livro se baseia na autoria total do diretor. O mito da criação absoluta de Welles não foi questionada por anos e o grande mérito de Carringer é justamente analisar de forma fria e séria o surgimento do filme, passo a passo, do roteiro ao lançamento e resgatando o crédito aos colaboradores de Orson Welles.

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Para entender por que Cidadão Kane é considerado um marco na história do cinema é preciso não só assistir ao filme, mas também entender o contexto social e político dos anos 30 e 40. Até hoje o filme é forte e atual. Os efeitos especiais, os planos e ângulos de câmera, a edição entrecortada e a cadência precisa do roteiro fizeram gerações de jovens no mundo todo sonharem em fazer cinema.

Como disse François Truffaut: “Filmar Cidadão Kane aos 25 anos de idade não é o sonho de todos os jovens freqüentadores das cinematecas?”. Ou ainda Jean-Luc Godard: “Quando Orson Welles realizou Cidadão Kane, tinha 25 anos. Desde então, jovens cineastas do mundo inteiro tem sonhado com nada menos do que realizar seu primeiro grande filme antes de atingir essa idade.”

O livro de Carringer passeia pela criação do filme e também mostra as decepções do jovem diretor que embora já famoso no rádio pelo episódio “A Guerra dos Mundos” teve a humildade de estudar e aprender com os melhores técnicos antes de rodar Citizen Kane.
Sobre cinema Welles disse uma vez “É o maior brinquedo que qualquer criança já teve nas mãos.”

Para muitos estudiosos e críticos de cinema a carreira de Orson Welles já começou em declínio. Ao filmar, aos 25 anos, o melhor filme de todos os tempos o jovem diretor passou o resto da vida tentando repetir a genialidade de Cidadão Kane.

Assista ao filme e leia o livro … quem sabe você não descobre a vocação de fazer cinema.

Cidadão Kane: O Making Of

Robert L. Carringer

Editora Civilização Brasileira