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Luz nas Trevas

11/05/2012

Rogério Sganzerla tinha o sonho de continuar a história de Luz Vermelha, o mítico personagem vivido por Paulo Villaça nos cinemas e livremente inspirado na vida de João Acácio Pereira da Costa, o famoso Bandido da Luz Vermelha e que foi preso em São Paulo no fim da década de 60. Sganzerla faleceu em 9 de janeiro de 2004 sem conseguir iniciar as filmagens do novo filme. O texto com mais de 700 páginas foi deixado inacabado, Rogério estava começando a transformar as idéias e anotações em roteiro.

Helena Ignez, musa e companheira na ficção e na realidade, não aceitava deixar o material parado, perdido no tempo e sem receber o merecido destino: a tela de cinema. Helena partiu para a árdua tarefa de adaptar o texto e desenvolver o roteiro respeitando as anotações e observações do marido. O resultado desse trabalho é o longa-metragem Luz nas Trevas que mostra o bandido Tudo-ou-Nada seguindo os passos de Luz Vermelha, o pai que nunca conheceu.

Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes esperando a câmera rodar

Temos que agradecer e muito a Helena por não ter se conformado em deixar o texto de Sganzerla de lado. Como ela mesma diz: “Não fiz isso por mim, fiz pelas novas gerações que perderiam essa oportunidade de conhecer o texto do Rogério. E o texto no cinema nacional está tão carente.” O roteiro de Sganzerla, adaptado por Helena, apresenta diálogos impagáveis para personagens fantásticos em situações surreais. Uma obra de rara felicidade e inspiração numa época em que o cinema abraçou o debate social, mas com amargura e tristeza. Helena e Sinai Sganzerla, filha de Rogério e produtora do longa, utilizam trechos de filmes anteriores do cineasta para formar um mosaico colorido e cheio de referências cinematográficas.

Os fãs de Quentin Tarantino e Robert Rodrigues irão se impressionar com o uso da linguagem pop e a inserção de histórias em quadrinhos como imagem de cobertura. Os ângulos de câmera e a montagem bem cadenciada podem levar o público mais jovem a lembrar de Kill Bill Vol.01 (2003) e Sin City (2005). O texto ácido e os diálogos ligeiros certamente remeterão a Pulp Fiction (1994), mas a influência de Luz nas Trevas vem mesmo da obra de Rogério Sganzerla. É uma boa oportunidade para rever o clássico O Bandido da Luz Vermelha, filmado em 1968.

Um elenco estelar para um conjunto de personagens impagáveis!

O tema central da história é a busca de Tudo-ou-Nada pelo pai inexistente, mas o pano de fundo abriga a inquietação de Sganzerla contra o sistema judiciário brasileiro que condena os pobres e absolve os ricos. A luta contra a desigualdade social percorre a trama, mas sem afetá-la diretamente ou aparecer de forma panfletária. Uma aula de roteiro! Com muita criatividade, Helena mantém o discurso político e ainda assim faz um filme policial empolgante. Os agentes da lei, a polícia, não escapam do deboche e o bordão do delegado nos atinge com firmeza: “Preto parado é suspeito. Correndo é culpado”. Os políticos também não são esquecidos e a corrupção rola solta, mas sem punição. Ora, não é neste Brasil que vivemos?

Helena e Sinai conseguiram reunir uma constelação de estrelas da cena cultural brasileira para dar vida ao texto de Sganzerla: Paulo Goulart, Simone Spoladore, Bruna Lombardi, Maria Luisa Mendonça, José Mojica Marins, André Guerreiro Lopes, Djin Sganzerla, Sandra Coverloni, Arrigo Barnabé, Sérgio Mamberti, Mário Bortolloto, Cacá Carvalho, Duda Mamberti, Otávio Terceiro e a incrível participação de Ney Matogrosso como Luz Vermelha. A presença de Ney é uma grata surpresa para o público e o final, inesquecível, fecha com perfeição um trabalho feito com amor e paixão.

O cartaz do filme de 68 e Ney em cena, sim até o cartaz parece atuar…

Luz nas Trevas (Light in Darkeness)

Brasil, 2010. 83 minutos

Direção: Helena Ignez e Ícaro Martins

Com: Ney Matogrosso, Bruna Lombardi, Maria Luisa Mendonça, Paulo Goulart, Simone Spoladore

Por um cinema sem limite

15/08/2009

porumcinemasemlimiteRogério Sganzerla já fazia cinema antes mesmo de aproximar-se de uma câmera, o que pode ser constatado nas páginas que se seguem. Metade desses textos datam do início da década de 1960 e, portanto, de antes do curta Documentário e da deslumbrante estréia nos longas com O Bandido da Luz Vermelha, quando seu excepcional talento para a direção revelaria-se de maneira inequívoca.” O texto, extraído da orelha do livro e escrito por Paulo Sacramento, dá uma dimensão exata do que o leitor irá encontrar nas páginas assinadas por Sganzerla.

Rogério escreveu sobre cinema no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo numa época onde os críticos não se satisfaziam em dizer se um filme era bom ou ruim. A coletânea de artigos está longe de parecer datada e a força de sua escrita é surpreendentemente atual. Algo preocupante.

Em Por um cinema sem limite, o autor pensa, critica, observa, elogia e discute criadores e obras, indo do prático ao teórico e conseguindo um efervescente debate com suas constantes contradições.

sganzerla02Durante a leitura, iremos aplaudir e discordar enfaticamente de argumentos e conclusões, mas não sairemos impunes de pensar e tentar formular idéias próprias. Mais do que querer ensinar cinema, Sgarzela parece buscar o diálogo, talvez fomentar a discussão e assim elevar o nível tanto de realizadores quanto do público.

Por definição o cinema é ritmo e movimento, gesto e continuidade. Em tudo o que vemos, temos que considerar três aspectos: a posição do olho que olha, a do objeto visto e a da luz que ilumina a realidade. Assim, o cinema não tem a função de preencher um buraco na parede já que a sua missão é bem maior – ser uma janela sobre o mundo.

Por um cinema sem limite

Rogério Sganzerla

Azougue Editorial

Sganzerla filmando O Bandido da Luz Vermelha, em 1968

Sganzerla filmando O Bandido da Luz Vermelha