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Mário Filho: O Criador das Multidões

29/05/2011

O Brasil é o país do futebol por excelência! Cinco vezes Campeão do Mundo! Berço de craques como Zizinho, Heleno de Freitas, Leônidas da Silva, Didi, Nilton Santos, Zagallo, Mané Garrincha e, claro, o Rei Pelé. Sediou o primeiro Mundial do pós-guerra, em 1950, e para tanto construiu o Maior Estádio do Mundo, o Maracanã. Qualquer garoto sabe que as “cinco estrelas” nasceram de uma vitória heróica, de virada, em solo europeu – fato inédito, contra os suecos, donos da casa. Mas essa história teve um capítulo conturbado com a derrota para o Uruguai em 1950. E o jornalista Mário Filho teve participação decisiva em todos esses eventos.

Mário Filho e o irmão Nelson Rodrigues defenderam com ardor a construção do Maracanã quando os políticos discutiam a viabilidade do projeto. Para Mário era preciso mostrar ao mundo que o Brasil poderia organizar uma competição como aquela e que tinha a capacidade de construir um gigante que se tornaria o maior estádio do mundo. Hoje, o Maraca é motivo de orgulho nacional e recebe turistas vindos de toda parte do mundo. E não vamos sediar outra Copa em 2014?

Mário Filho e Nelson Rodrigues lutaram pela construção do Maracanã!

Após a derrota de 50, os críticos colocaram a culpa nas costas de Barbosa e dos demais jogadores negros da seleção brasileira. Um dossiê chegou a ser preparado pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos) indicando que o jogador mestiço, mulato, negro ou índio não conseguiria suportar a pressão de vencer uma final de Copa do Mundo. A nossa raça era frágil e pouco competitiva. A ordem era pra “embranquecer” a seleção brasileira.

Mário Filho foi a voz dissonante e a história provou quem tinha razão. Pelé, aos 18 anos, fez dois gols na final – o primeiro um golaço! – e era negro. Didi, mulato, foi eleito o melhor jogador do mundial e apelidado pela imprensa estrangeira de Mr. Football. E para completar a salada multicultural, hoje vista como uma característica positiva do nosso povo, Mané Garrincha tinha sangue índio nas veias. Tudo muito óbvio hoje em dia. Quem pensaria em barrar Pelé e Garrincha? Quem questionaria Romário? Ou Jairzinho? Ou Paulo César Lima? Se hoje pensamos assim, em parte devemos agradecer à máquina de escrever de Mário Filho.

Djalma Santos, Garrincha, Didi e Pelé na Seleção Brasileira de 1958

O cineasta Oscar Maron Filho, de posse do catálogo de imagens da Atlântida Cinematográfica, reconstrói o Rio de Janeiro do início do século XX e nos faz mergulhar numa época onde o futebol era um esporte de elite, “coisa de inglês”. Difícil imaginar cenário assim, não? Pois foi nesse momento histórico que o jornalista começou a reinventar a crônica esportiva brasileira. O filme tem o mérito de conseguir explicar a importância de Mário Filho através de seus textos e ações, mas para isso a volta ao passado era fundamental.

O trabalho de montagem é primoroso e logo somos transformados em “geraldinos e arquibaldos” vibrando com gols, lances de perigo e bolas na trave. Maron faz um documentário tão emocionante quanto os grandes clássicos do futebol brasileiro, tão emocionante quanto o amado “Fla-Flu” de Mário Filho. A bela fotografia envelhecida do material de arquivo poderia ser atrapalhada pelo excessivo colorido contemporâneo, mas, acertadamente, o diretor decidiu usar o preto-e-branco como tom dominante nas entrevistas captadas e mesmo em algumas imagens atuais. Graças a essa simples concepção foi possível passear pelo Rio Antigo e ouvir os relatos de amigos, estudiosos e jornalistas que conviveram com Mário Filho sem perder a relação espaço/tempo proposta pela montagem.

Mário Filho: O Criador das Multidões é um trabalho cuidadoso e planejado nos mínimos detalhes. Oscar Maron Filho realiza uma obra de paixão pelo futebol e amor ao Brasil, exatamente as mesmas paixões que cercavam a vida do jornalista. Quem gosta de futebol irá se deslumbrar com imagens do Maracanã lotado para ver jogos de Santos, Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, América e Olaria. Quem gosta de cinema poderá apreciar um documentário enxuto, organizado, emocionante, bem dirigido e com uma montagem impecável.

Para aplaudir de pé e gritar Gooooooooooool!

Copa do Mundo de 1950: Maracanã lotado esperando pelo título brasileiro!

Mário Filho: O criador das multidões (The Creator of Crowds)

Brasil, 2010. 78 minutos

Direção: Oscar Maron Filho

Complexo: Universo Paralelo

31/03/2011

O poder público conferiu ao Complexo do Alemão o status de bairro em 1993, mas os problemas continuaram os mesmos. Estima-se que 160 mil pessoas vivam na região formada por dezesseis comunidades que fazem divisa com os bairros da Penha, Ramos, Olaria, Inhaúma e Bonsucesso, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O complexo de favelas é considerado um dos locais mais perigosos do Rio e a Vila Cruzeiro ficou conhecida mundialmente depois do assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002. Durante os Jogos Pan-Americanos, em 2007, uma ação conjunta orquestrada pela Polícia Militar e a Força Nacional ocupou a região para diminuir o poder das facções criminosas que atuam na cidade.

Foi nesse contexto que dois irmãos portugueses adentraram no Complexo do Alemão para filmar o novo cotidiano dos moradores, agora sob a proteção do Estado. Os dois resolveram fixar residência na região para acompanhar de perto o dia da comunidade e, claro, encontrar personagens para o filme. Seu Zé, presidente vitalício da Associação de Moradores, Dona Célia, mãe de oito filhos, e MC Playboy, conhecido funkeiro, se encarregam de mostrar as peças do quebra-cabeças que será montado na edição. Mário Patrocínio assina a direção do documentário, enquanto a câmera do irmão Pedro procura capturar um universo diferente e desconhecido.

E é justamente através das imagens que temos a primeira dica de como o olhar estrangeiro absorve e devolve a rotina que o cerca na favela. A câmera nunca é apontada diretamente para a ação, ela está sempre fugindo, à espreita, como que com vergonha ou medo de observar. Será que estamos vendo a Estética do Medo? Os homens da Força Nacional faziam poses para as lentes do Jornal Nacional, mas aqui são fotografados de longe, com reverência, com medo. As imagens são tremidas, estão sempre em movimento e raramente conhecem repouso para contemplar ou ver melhor. Não existe tempo para ver mais uma vez, o corte logo chega acompanhado de outra imagem.

A fotografia das entrevistas segue a mesma linha de raciocínio e por vezes não conseguimos focalizar o rosto, os olhos, a expressão da fala. A luz estourada, ou a falta de luz, nos deixa apenas com o som, apenas com as palavras. É verdade que em alguns momentos chega a ser belo, mas seria essa a intenção? Os olhos possuem o recurso para regular a entrada da luz e da mesma forma a câmera. A ideia da não intervenção, de filmar a realidade, de capturar a verdade do momento pode não ter sido a mais apropriada para as entrevistas, mas ao menos é coerente com o todo.

A montagem não usa legendas para marcar a passagem do tempo, apenas aceitamos que os dias estão se sucedendo, sempre iguais, num ciclo contínuo e monótono na vida dos personagens. A inserção de pequenos clipes entre uma entrevista e outra, para aliviar e dar respiro ao filme, não consegue se encaixar de forma orgânica e causa certa estranheza.

O ponto mais polêmico do documentário começa após um desses momentos clipados, quando traficantes armados ensinam como funciona o respeito na favela e qual o exato papel da polícia nisso tudo. Ao dar voz a um lado, a do tráfico, e negar espaço a outro, ao Governo, o filme se posiciona e assume uma postura político-social que aparentemente tentava negar ou anular.

O envolvimento afetivo dos cineastas com o Complexo do Alemão deve ter pesado na hora da edição e o inevitável “Happy End”… não foi evitado. Seu Zé continua lutando contra os políticos corruptos que só querem saber de ganhar os votos do povo na época das eleições; Dona Célia perdeu um filho, mas continua acreditando que tudo vai dar certo e MC Playboy segue cantando e criando suas músicas.

Tecnicamente bem acabado, Complexo: Universo Paralelo (2010) não acrescenta novidades dentro do rico cenário de produções sobre violência e favela quando pensamos apenas no conteúdo, mas, sem dúvida, a Estética do Medo desenvolvida aqui irá agradar ao mercado estrangeiro.

Complexo: Universo Paralelo (Complexo: Parallel Universe)

Portugal, 2010. 75 minutos

Direção: Mário Patrocínio