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Fellini & Rossellini

10/09/2009

federico-felliniPoucos cineastas conquistaram o direito de serem chamados de artistas. Federico Fellini criou um mundo tão particular em seus filmes que é impossível sair do cinema sem compartilhar um pouco dessa visão.

Fellini por Fellini reúne textos escritos pelo próprio diretor. É um livro difícil de ser achado, a ultima edição saiu em 1986 – mas pode ser encontrado em sebos.

Federico Fellini – Fazer um filme é uma chance de conhecer o cineasta através de sua obra. Fellini tenta explicar como surge a criação, como as idéias nascem e como o filme vai ganhando forma no meio do caminho.

Nunca imaginei me tornar diretor, mas do primeiro dia, da primeira vez que gritei: ‘Luz! Câmera! Ação! Corta!’, pareceu-me sempre ter feito aquilo, não poderia fazer nada diferente, aquilo era eu e aquela era minha vida.

maoFellini fala sobre o mundo do circo que tanto o apaixona, comenta a escolha de elenco, conta histórias dos bastidores, a amizade com Mastroianni. Um livro para ficar na cabeceira.

Eu, Fellini escrito por Charlotte Chandler é nas palavras do próprio Fellini um livro definitivo: “Eu só tenho uma vida, e eu a contei a você . Esse é o meu testamento, pois nada mais tenho a dizer.

O diretor sempre odiou entrevistas e nunca gostou de festas e recepções, mas nesse livro Fellini mostra uma paciência sem limites, fala de todos os filmes, discute a crítica cinematográfica, se derrama de amores pela sua Giulietta e revela pensamentos antes desconhecidos.

Era de se pensar que Fellini seria um grande diretor. Seu primeiro trabalho no cinema foi como assistente de direção de Roberto Rossellini em Roma, cidade aberta.

O script de Roma città aperta foi obra de uma semana. Fui contratado como roteirista e assistente de direção. Eu merecia aquele trabalho, mas nem todo mundo nos dá o que merecemos. Robertino jamais foi avarento com algo.

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A admiração era mútua. Em Fragmentos de uma autobiografia, Roberto Rossellini fala de seus filmes e das idéias de um novo cinema. Rossellini deixou Hollywood de lado para se dedicar ao seu próprio cinema. Poucos diretores teriam essa coragem.

Roberto Rossellini morreu antes de terminar o livro. “O texto fica tal como o cineasta o deixou: fragmentos no plano autobiográfico, mas um trabalho articulado quanto à interpretação. Rossellini escrevia por fragmentos (mas não era também assim que filmava?).”

Para quem acha que o neo-realismo foi um movimento pensado, estudado … que tal ler o que o chamado ‘pai do neo-realismo’ tem a dizer?

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Fellini por Fellini

Editora L&PM

Federico Fellini, Fazer um filme

Civilização Brasileira

Eu, Fellini de Charlotte Chandler

Editora Record

Roberto Rossellini, Fragmentos de uma autobiografia

Editora Nova Fronteira

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Fragmentos de um cineasta

17/07/2009

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Diferente da maioria dos grandes diretores de cinema de seu tempo, Roberto Rossellini procurou não somente contar histórias, mas também ajudar os homens a se conhecerem. E podemos conhecer mais sobre Rossellini em Fragmentos de uma Autobiografia. Roberto morreu em 1977 e deixou o texto inacabado. Mas isso não significa incompleto.

Rossellini não procura apenas contar um pedaço de sua vida ou falar sobre seus filmes: “Este livro é um ato deliberadamente político, pois denuncia o espetáculo: quero dizer, a insignificante ficção a que se encontra reduzida a expressão audiovisual em nossa sociedade, bem como o contágio de que esta foi vítima e que a transformou em uma sociedade de espetáculo.”

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Roberto Rossellini nasceu na Itália onde crescia o ideal fascista. A Itália do Império Romano e de tantas guerras, mas também a mesma Itália que se recusa a crescer e a se americanizar. Quando os americanos desembarcaram em Roma não esperavam encontrar uma sociedade tão diferente da sua. Existe a história do italiano e do soldado americano. O italiano estava deitado repousando ao sol e o soldado não resistiu: “O que você está fazendo?” “Nada.” – foi a resposta. “E você não se envergonha?” – continuou o americano. “Não. De quê?”, perguntou o italiano. “Se você trabalhasse, poderia ter um salário. Poderia construir uma família, ter filhos. Seus filhos iriam à escola; cresceriam; você compraria uma pequena casa no campo e, depois dos filhos casados, poderia aposentar-se. E aí você descansaria.” – finalizou o profético soldado americano. O italiano bocejou, fitou o yankee nos olhos e disparou: “Ora, é exatamente o que estou tentando fazer.

Da Itália, Rossellini nos leva até a França de Jean Renoir, Jean Cocteau, Pagnol, e lamenta a americanização da França. Mas não passa impune. “Com que direito esse italiano nos julga?” Rossellini sempre foi o alvo de duras críticas e também responsável por fazer duras críticas.

Bergman e Rossellini na Itália

Bergman e Rossellini na Itália

O sucesso de Roma, cidade aberta e depois Paisà não foi capaz de dobrar o pensamento do diretor. Foi procurado pelos grandes estúdios de Hollywood, passando por David Selznick, Samuel Goldwyn, Daniel Zanuck e até Howard Hughes. Resistiu a todas as propostas e se tornou a ovelha negra entre os cineastas.

O casamento dentro e fora das telas com a maior estrela de Hollywood fez com que fosse odiado nos Estados Unidos. “Ele destruiu a carreira dela!”, era o comentário mais simpático que o casal recebia. Ingrid Bergman se apaixonou pelo cineasta Rossellini e pelo homem Roberto, o casamento trouxe três filhos.

Roberto Rossellini sempre esteve à margem, destacado e resumi sua história numa frase: “A solidão é meu território”.

Roberto e a pequena Isabela

Roberto e a pequena Isabela