180º

O primeiro longa-metragem do diretor carioca Eduardo Vaisman é um daqueles filmes difíceis de serem classificados. Policial? Suspense? Romance? É um thriller? Ou seria uma combinação de estilos. Suspense policial? Romance policial? Drama com suspense? 180º é de difícil classificação, mas é um trabalho fácil de elogiar. A história nasce com um velho e batido “triângulo amoroso”, mas o que se desenrola do ponto de partida é o que faz a diferença neste caso. Nada é o que parece, as aparências realmente enganam e o público vai mudando de opinião com o passar do tempo, com o andar da história.

Claudia Mattos assina o texto desse intrincado suspense, ou melhor, romance e nos mostra que é possível fazer um filme com elementos policiais e sem apelar para soluções mágicas. O roteiro segue os personagens no presente, mas usa o também batido flashback para acrescentar dúvidas, desatar alguns nós que ficaram atados e colocar ainda mais dúvidas no meio do caminho. O vai e vem no tempo, a apresentação não-linear da trama é bem construída e em nenhum momento ficamos perdidos. O que acontece é uma constante mudança de posição em relação aos personagens. Quando parece que encontramos a verdade, descobrimos que ela ainda está longe de chegar.

A montagem é outro ponto forte do filme. O roteiro pede pelo flashback e encaixar com precisão as idas e vindas exige um trabalho delicado e de muita observação. Nem sempre a estrutura que está no papel, no roteiro, funciona quando vista na tela, quando intercalada com outras duas cenas. A edição de sons também tem uma função fundamental nessa transição entre o passado e o presente. Em alguns momentos ouvimos a mudança antes dela se tornar visual e, mesmo sem perceber, já imaginamos que seremos jogados dentro dos pensamentos do personagem.

180º possui uma direção segura, um texto inovador, uma montagem precisa e uma fotografia minimalista que trabalha para unificar a diversidade de tempo-espaço utilizada na trama. A produção possui um esmero técnico de tirar o chapéu e mostra o tamanho da evolução dos profissionais brasileiros que não devem nada ao milionário mercado externo. Mas todo esse trabalho seria desperdiçado se o filme não contasse com um elenco capaz de assumir as mudanças exigidas pelos personagens e incorporar os detalhes ocultos que serão apresentados nos minutos finais.

Eduardo Moscovis faz um jornalista consagrado, idolatrado pelos colegas, um líder que agrega e apaixona. Num momento de ruptura, após a súbita morte do pai, desiludido, resolve abandonar a profissão e se dedicar ao negócio da família, no interior do estado. Moscovis faz essa passagem com perfeição. Vemos que o homem outrora brilhante ainda está lá, mas agora apagado, desbotado, insatisfeito. A atuação de Eduardo Moscovis pontua a mudança dos outros personagens e é ele quem sempre dá o tom do tempo presente e do passado. Com essa orientação bem definida, Malu Galli e o estreante Felipe Abib formam um triângulo que nunca é apresentado como equilátero.

Eduardo Vaisman faz sua estreia como diretor com um longa-metragem bem acabado, que possui uma história inquietante e que nos deixa pensativos do início ao fim da sessão. As lacunas abertas são fechadas pelas escolhas do público mostrando que não é preciso maquininhas, votações e sessões interativas para que possamos escolher o melhor final para um filme, ou pelo menos, o final que nos agrade mais.

180º (180º)

Brasil, 2009. 85 minutos

Direção: Eduardo Vaisman

Com: Eduardo Moscovis, Malu Galli, Felipe Abib

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3 Respostas to “180º”

  1. Cláudia Mattos Says:

    Existe o amargo e existe o doce.

  2. Claudia Says:

    Muito obrigada pelas palavras doces, Christian.
    bjs

    • christianjafas Says:

      Oi Cláudia, tudo bem?

      Assistir ao filme foi uma experiência muito interessante. Me lembro do debate realizado no Cinema Nosso, no Festival do Rio 2010.

      Tomara que 180º tenha uma bela carreira nos cinemas! Quero ver outra vez!

      Beijos.

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