A Milícia de Camarões

18/11/2009 por christianjafas

Em 2000, o presidente da República de Camarões cria um efetivo militar para reprimir o excesso de roubos e crimes em Douala, a cidade mais populosa do país. O Comando Operacional recebe carta branca do poder público para instaurar a lei e a ordem.

No início, a milícia é recebida com entusiasmo pelo povo, mas doze meses depois o resultado é um banho de sangue e mais de mil e seiscentos desaparecidos.

A imagem que a imprensa costuma divulgar pelo mundo afora é o retrato de um povo alegre. Quem não se recorda das cores vibrantes nas roupas? Das festas em cada vitória dos “Leões Indomáveis”? Das comemorações nos gols de Roger Milla e Omam-Biyik? Enquanto a Europa descobria o futebol de Samuel Eto’o, então atacante do Mallorca, centenas de pessoas eram assassinadas em Douala.

O título original de A Milícia de Camarões é “Une Affaire des Nègres”, o que significa um assunto de negros, e dessa forma o massacre foi deixado de lado pelos órgãos internacionais. As denúncias contra o governo camaronês foram abafadas e uma investigação superficial enterrou as esperanças de justiça dos familiares. A “democracia tropicalizada” atinge o ápice. É nesse contexto que a jornalista Osvalde Lewat-Hallade resolve voltar para Camarões e contar a história do Comando Operacional.

Logo na abertura do documentário percebemos o grau de envolvimento da realizadora com a obra: “Eu preciso fazer esse filme. Eu simplesmente tenho que fazer”. Osvalde passou quatro anos pesquisando e procurando familiares e sobreviventes. A pesquisa rendeu personagens fortes que aceitaram mergulhar no passado e relembrar um trauma ainda recente.

Mesmo com um precioso material em mãos, a diretora, talvez pela inexperiência, não permitiu que a montagem seguisse seu próprio caminho. Osvalde faz questão de marcar sua presença, seja fisicamente ou pela narração. O constante uso da voz em off enfraquece os depoimentos e deixa o filme arrastado. Em alguns casos o texto se torna pedante e desnecessário, os entrevistados repetem a mesma informação, só que com o vigor de quem vivenciou o assunto.

A câmera busca o sentimentalismo fácil através de um apressado zoom que se esforça para não perder uma lágrima que subitamente aparece. O efeito é o oposto do pretendido, pois na hora percebemos que aquilo é um zoom, que estamos no cinema e que nos esquecemos de pagar a conta de gás. Um erro infantil, característico de quem ainda está encontrando uma linguagem.

Mas a vontade de acertar também leva o filme a ter momentos mágicos. Osvalde reúne membros de uma família que teve vários parentes chacinados. A conversa acontece de noite, ao redor da fogueira e a luz vacilante do fogo parece jogar na tela a dor que estava escondida nas palavras.

Osvalde chega no máximo do envolvimento ao entrevistar um soldado que fez parte do Comando Especial. O homem não demonstra nenhum remorso e relata com detalhes o treinamento e as orientações recebidas do capitão. “Matei umas quatrocentas pessoas.”, diz com a simplicidade de quem estava cumprindo o dever. “Meu capitão nos elogiava. Nós fazíamos o trabalho muito bem”. Diante de tamanho cinismo, ou ingenuidade, a diretora se perde e começa a confrontar o personagem, impedindo que ele continuasse o relato de forma espontânea.

A condução das entrevistas foi realizada com o coração e movida por um olhar parcial, mas nunca covarde. A diretora optou por utilizar, de forma equivocada, uma linguagem televisiva, quase artesanal – a narração é desnecessária e deveria ser suprimida. Mesmo com tantos problemas, A Milícia de Camarões é um filme poderoso.

Osvalde apresenta o filme no Festival de Cannes

A milícia de Camarões (Une affaire de nègres)

França/Camarões, 2007. 90 minutos

Direção: Osvalde Lewat-Hallade

Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo

16/11/2009 por christianjafas

O título pouco convencional, Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo, é uma pista de que podemos estar diante de um documentário que foge ao lugar-comum, mas as surpresas desse delicioso filme não estão apenas no conteúdo. A diretora Yulene Olaizola tem apenas 24 anos, cursa o quinto período no Centro de Capacitación Cinematográfica, na Cidade do México, e este é seu primeiro longa-metragem.

A casa de Rosa, avó de Yulene, fica na esquina das ruas Shakespeare e Victor Hugo, na Cidade do México. Rosa, viúva, decide abrir a residência e alugar quartos para jovens estudantes que tentam a sorte na capital mexicana. As memórias da mansão se confundem com as memórias da família, da avó e da própria Yulene.

Nos momentos de devaneio, os pensamentos de Rosa e Florência, a fiel governanta, se detêm na figura de Jorge Riosse. O rapaz morou oito anos na casa e conquistou a confiança e a amizade de Rosa. Histórias divertidas e curiosas se sucedem enquanto o roteiro avança revelando uma figura carismática e misteriosa.

Yulene assume o aspecto pessoal do filme e dosa com firmeza e convicção seu papel na trama. Como não poderia deixar de ser, ela assina a direção, produção, montagem, roteiro e também a fotografia. A câmera de Yulene segue os passos da avó de perto e consegue, sem esforço, captar depoimentos sinceros e emocionantes.

A jovem diretora Yulene Olaizola

A diretora Yulene Olaizola

A ação, centrada na figura de Riosse, se concentra na residência de Rosa. A lente da câmera só procura outra locação quando o entrevistado tem apenas ligações com Jorge. A direção demonstra uma coerência madura e precisa, nesses momentos Yulene se ocupa da entrevista e deixa a função com o fotógrafo Ruben Imáz.

Quando a vida de Jorge Riosse parece estar desenhada e o ritmo da montagem diminui, temos a sensação que Yulene irá perder o controle da trama e deixar escapar um final à altura da proposta inicial. Mas é nesse momento que somos apresentados ao verdadeiro mote do documentário. Uma virada surpreendente, guardada com cuidado e plantada aos poucos durante a primeira parte do filme.

Fosse Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo uma película de ficção, o espanto com a reviravolta já seria grande, mas em se tratando de documentário, a capacidade de Yulene de controlar as peças, mostrar apenas o necessário e na hora certa, é digno de aplausos.

O tema incomum e a condução brilhante de Yulene Olaizola fazem deste documentário algo raro e precioso, uma brincadeira estética de forma e conteúdo que permanece na nossa memória após a projeção.

Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo (Intimidades de Shakespeare y Victor Hugo)

México, 2008. 83 minutos

Direção: Yulene Olaizola

Um gângster bem britânico

13/11/2009 por christianjafas

gangsterposter3Nos primeiros cinco minutos de projeção somos obrigados a perguntar se estamos vendo uma ficção ou um documentário. A figura de Dominic Noonan, chefe de uma famosa família de mafiosos irlandeses, em primeiro plano, dizendo: “Olá, eu sou Don e está é Manchester, minha cidade.”, só pode ter saído de um roteiro de Quentin Tarantino ou das tiras de Frank Miller.

Um gângster bem britânico é a estréia de Donal Macintyre como diretor de documentários e nos mostra o dia a dia de Don e sua família mafiosa. Donal trabalhou como jornalista investigativo da BBC, se infiltrou em diversas facções criminosas na Inglaterra e ainda realizou reportagens em Beirute, na Bósnia e no Congo.

Dominic Noonan e o diretor Donal Macintyre

Dominic Noonan e o diretor Donal Macintyre

Macintyre utiliza pequenas câmeras digitais para acompanhar Dominic durante seus passeios por Manchester e realiza uma série de entrevistas onde pergunta tudo ao temido bandido, até se ele é gay! A agilidade da equipe de filmagem permite cenas inusitadas e divertidas. Don é preso numa mega-operação policial, os demais membros da gangue não são detidos e o segundo no comando tem apenas 17 anos. O que vemos a seguir é típico de uma comédia pastelão: os rapazes discutem no meio da rua, minutos após a polícia deixar o local, e as armas são visíveis na altura da cintura. Nem Woody Allen faria melhor.

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Dominic passeando pelas ruas de Manchester

A montagem dinâmica e sugestiva deixa espaço para o público respirar e rir livremente. É impossível segurar o riso quando Don explica ao diretor que obriga o bando a se vestir com terno e gravata porque “Estamos sempre sendo fotografados e filmados. Não quero ir preso sem estar bem vestido.” Na seqüência, o diretor faz um pequeno clipe com a música clássica de Pulp Fiction e fotos dos bandidos em preto e branco. Hilário.

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Gang em estilo Vincent Vega

Alguns críticos ingleses disseram que Macintyre deu toques de sofisticação ao mafioso e não revelou sua verdadeira face. O filme acompanha quatro anos na vida de Dominic Noonan, incluindo suas idas e vindas do tribunal e da cadeia, e se isso não é o suficiente para deixar claro quem é o personagem principal, bem, só com uma confissão de culpa assinada.

No momento mais tenso do documentário vemos a reação de Don ao assassinato do irmão, o mais temido membro da família, e suas palavras deixam claro o que vai acontecer a seguir: “Eu sei quem foi. Ele está morto, ele já está morto. Ele sabe que está morto. Está acabado.

O funeral de Desmond Noonan parou Manchester

O funeral de Desmond Noonan parou Manchester

Macintyre abusa das perguntas inconvenientes e dispara: “Você não acha que já correu sangue demais?” Dominic responde sem pestanejar: “O quê? Isso está só começando. Esse é só o começo“. No primeiro dia que passa na cadeia, o traficante que matou Desmond Noonan é esfaqueado e transferido para uma prisão de segurança máxima.

Poucas vezes o mundo da máfia foi retratado tão de perto e de forma tão simples e direta. Macintyre não usa câmera escondida ou filma disfarçado, ele anda na rua com sua PD-150 em punho, lado a lado com Dominic Noonan e freqüenta os bares e restaurantes com a gangue. “Não estou vendo você comer nada, Donal. Coma.”, sugere calmamente o chefe mafioso.

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Católico como todo bom mafioso

O documentário não registra apenas o cotidiano de Don, o diretor também quer saber como é a família Noonan na intimidade e conversa com a irmã, sobrinhos e amigos. A relação de Dominic com os filhos recebe uma atenção especial no filme – seria uma homenagem à saga O poderoso chefão de Mario Puzo e imortalizada por Francis Ford Coppola?

Um gângster bem britânico está longe de ser um filme que faz apologia ao crime organizado, é uma denúncia, um tapa na cara das autoridades britânicas. Macintyre usa elementos da cultura pop para contar uma história tão antiga quanto a coroa da rainha.

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Um gângster bem britâncio (A very british gangster)

Reino Unido, 2007. 87 minutos

Direção: Donal Macintyre

Lucio: Anarquista, Falsificador e Ladrilheiro

10/11/2009 por christianjafas

posterlucio1Lucio Urtubia nasceu em 1931, na cidade de Cascante, província de Navarra, na Espanha, mas foi em 1954, na França, em Paris, que se tornou o maior falsificador da história.

O jovem Lucio começa suas atividades na informalidade ainda no exército, onde descobre como burlar os registros de suprimentos e fardas. Numa época de crise e racionamento, o mercado negro recebe uma enxurrada de botas, cintos e latas de conserva. O esquema é descoberto e o recruta precisa desertar para fugir da prisão militar.

Esse simples delito direciona a vida de Lucio como foragido. “Resolvi pegar a estrada, e naquele tempo todos os caminhos levavam a Paris”. O rapaz sem estudo e de família humilde logo se adapta, consegue emprego numa fábrica, faz novas amizades e descobre, na Cidade Luz, que não era comunista e sim anarquista. Lucio abraça a bandeira da Revolução Cubana e luta com todas as forças contra o regime franquista.

Perfil 1Os diretores espanhóis Aitor Arregi e Jose Mari Goenaga conduzem a história com humor, inteligência e muita criatividade. A excelente pesquisa de imagens concede um realismo necessário ao material e nos torna cúmplices de Lucio.

Eu expedi cinco mil passaportes italianos em um mês. Ora, eu substituí o Governo Italiano. Quem precisa deles? Você quer ir e vir? Eu faço um passaporte francês ou alemão. Isso é liberdade.

Lucio esteve envolvido, direta ou indiretamente, em praticamente todos os atos conspiratórios dos grupos extremistas durante as décadas de 60 e 70. Tinha ligações com os Panteras Negras, o grupo separatista basco ETA, guerrilheiros latino-americanos e muitos outros grupos e siglas, mas quase nunca foram encontradas provas contra ele. Lucio esteve sob investigação de diversas agências de vários países, incluindo a poderosa CIA.

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Identidade falsa de Lucio

Mas nem todos acreditavam nas histórias de falsificação e nas aventuras. Para a família, Lucio Urtubia era simplesmente um ótimo pedreiro e ladrilheiro. Para os companheiros de obra, era um funcionário que nunca faltava ao trabalho e dono de um acabamento perfeito que os clientes adoravam. “Eu não acredito que ele fez tudo isso. Eu não acredito que ele esteve com Che Guevara.”, nos revela um antigo colega.

Para azar dos invejosos e sorte dos diretores, a imprensa e a polícia estiveram atentas aos passos do anarquista durante décadas. Volumosas pastas de arquivo, pilhas de documentos, milhares de fotos e metros de filmes foram gastos para descobrir como Lucio conseguia fornecer passaportes falsos para perseguidos políticos e ir ao trabalho todos os dias. E não é que vemos, preto no branco, Che e Lucio, lado a lado, durante uma visita do líder cubano à Paris?

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Cheques falsificados por Lucio

O ponto alto do documentário é o famoso golpe que Lucio aplica no First National Bank (hoje Citibank), dos Estados Unidos. O bando de falsificadores – comandados por Lucio – espalhou milhares de Traveller Checks (cheques de viagem) pelo mundo todo, o que resultou num prejuízo aproximado de vinte milhões de euros (em valores corrigidos da época).

LUCIO1O longa-metragem de 93 minutos fica pequeno diante das estripulias de seu personagem, mas a montagem dinâmica e o roteiro bem entrelaçado preenchem as lacunas do tempo. Lucio nunca foi preso mais do que poucos meses, hoje vive em Paris e esteve presente na estréia do documentário, no Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha, no meio de 2008.

Lucio: Anarquista, Falsificador e Ladrilheiro

Espanha, 2007. 93 minutos

Direção: Aitor Arregi e Jose Mari Goenaga

Já que nascemos

03/11/2009 por christianjafas

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Já que nascemos é o terceiro documentário do casal Andréa Santana e Jean-Pierre Duret. Andréa estudou Arquitetura na Universidade do Ceará e Geografia na Universidade de São Paulo. Engenheiro de som em filmes de Claude Chabrol, Agnès Varda e Louis Malle, Jean-Pierre Duret assina seu primeiro documentário, Un beau jardin, par exemple, em 1986. A colaboração de Andréa com o marido começou com Romances de terre et d’eau, realizado em 2001.

Andréa e Duret podem agradecer aos céus por terem encontrado personagens tão impressionantes como Cocada e Nego. Os dois amigos moram no município de São Caetano, em Pernambuco, e passam o tempo de forma completamente diferente das outras crianças: trabalhando.

JAQUE4O expectador mais atento irá observar que o trabalho infantil é muito comum no Brasil e nos demais países do Terceiro Mundo – ou países em desenvolvimento para ser politicamente correto. A diferença aqui, e acreditem faz toda a diferença, é que Cocada e Nego precisam trabalhar. Eles não trabalham por dinheiro, não trabalham para ajudar a família, não trabalham obrigados pelos pais, eles simplesmente precisam trabalhar.

Cocada, quatorze anos, e Nego, treze, decidiram passar o dia trabalhando para fugir da sina que persegue os meninos pobres da região. Cocada sabe que a sedução das drogas e das armas é forte, o pai morreu em seus braços quando ele tinha dez anos. “Eu não penso em matar ninguém. Eu nunca vou entrar nisso, matar. E também não vou ser ladrão.”

Os dois vagueiam pelo posto de gasolina na beira da rodovia e fazem todo tipo de serviço: lavam carros, caminhões, ajudam o camelô aleijado a montar a mercadoria, encontram clientes para comprar os santinhos e até vendem no lugar do dono da barraca. E tudo isso sem salário, sem pagamento combinado, eles apenas fazem e quando aparece um real, é sempre bem-vindo.

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Com o cair da noite, os caminhões são substituídos pelos ônibus de viagem e Nego pede alguns trocados aos passageiros. O amigo Cocada lhe dá uma bronca: “Não gosto de ver você pedindo esmola.” Eles iniciam mais uma conversa-confissão, algo comum entre os dois, e falam do futuro, do passado e do que irão ser quando crescerem. Cocada, por ser o mais velho, dá conselhos a Nego e lhe ensina a conseguir emprego, quando chegar a hora.

A desenvoltura dos meninos quase nos faz acreditar que estamos diante de uma obra de ficção, de um roteiro muito bem amarrado e de uma direção de atores impecável. Mas o que a lente da câmera registra é o retrato de dois jovens talentosos que estão condenados a viver o presente sem direito ao futuro.

Andréa e Jean-Pierre

Andréa e Jean-Pierre

Jean-Pierre Duret poderia ter caprichado mais no som do filme. Em alguns momentos é impossível compreender o que é dito, menos mal que a película tinha legendas em inglês. Mas esse defeito não deve incomodar os realizadores, afinal o destino de Já que nascemos é o mercado europeu.

O filme foi produzido, editado e finalizado por franceses em Paris. Será que eu estou sendo preconceituoso?

JAQUE5Os enquadramentos no tripé ou com a câmera estática são precisos, mas basta entrar em movimento para termos a sensação de que a direção queria tremer, queria dar uma idéia de precariedade, confusão. Algo absolutamente desnecessário nessa realidade. Nenhum grande fotógrafo seria capaz de eclipsar a presença daquele lugar ou a verdade que transborda dos dois amigos.

Andréa e Duret merecem crédito por terem encontrado os meninos e darem forma ao material, mas é inegável que a força de Já que nascemos vem do carisma e da inteligência de Cocada e da rebeldia ingênua de Nego. Um filme tipicamente brasileiro, mesmo que venha com selo de importação.

Já que nascemos (Puisque que nous sommes nés)

França/Brasil, 2008. 90 minutos.

Direção: Jean-Pierre Duret e Andréa Santana

O livro das férias

25/09/2009 por christianjafas

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O jovem Ali (Tayfun Gunay) acorda cedo e vai para a escola. O último dia de aula do semestre passa lentamente, mas sem grandes surpresas. Antes de liberar os alunos, o professor entrega o livro das férias e recomenda que os meninos estudem e façam os exercícios para não voltarem sem lembrar da matéria. Na porta do colégio um menino mais velho arranca o livro das mãos de Ali e foge correndo. O garoto percebe que suas férias não serão nada normais.

O roteirista e diretor Seyfi Teoman utiliza um recorte da família do jovem Ali para mostrar as angústias e desesperanças dos moradores de uma pequena cidade próxima a Istambul. O irmão mais velho de Ali também está de férias, ele retorna para casa depois de mais um ano na academia militar. Veysel (Harun Ozua) não suporta a vida militar, pensa em desistir da carreira e toma coragem de contar a decisão ao pai, um austero e avarento agricultor que nem cogita a possibilidade do filho desistir do futuro certo como oficial do exército turco.

livrodasferias2Veysel compartilha do problema com o tio Hasan (Taner Birsel) e pede ajuda para pagar a multa de mil liras turcas. Hasan que não tem o dinheiro, já que a quantia é considerada alta, administra o açougue deixado de herança pelo pai e sempre discuti com o irmão mais velho por não ter conseguido vencer na vida sozinho.

Mustafá (Osman Inan) não quer que seu filho mais novo, Ali, siga os passos rebeldes do tio Hasan e do irmão mais velho e mantém o garoto sempre por perto. Com medo, Ali não conta que teve o livro das férias roubado e sem ter nada para fazer é obrigado a acompanhar o pai ao trabalho e vê seus dias de brincadeira se tornarem um sonho impossível.

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Güler (Ayten Tokun) sente a tristeza dos filhos e resolve interceder junto ao marido. Na verdade, Güller quer um pretexto para discutir e arrancar o nome da amante que ela jura que Mustafá sustenta.

Com esse mosaico de problemas e confusões estabelecido, Seyfi Teomam nos mostra que as dúvidas são as mesmas em qualquer parte do mundo. O que vou fazer quando crescer? Qual profissão vou escolher? Eu sou um bom pai? Estou acertando em trilhar esse caminho?

Teomam não fez um filme contemplativo e não deixou seus personagens sem rumo, ao contrário, fez questão de colocar mais fogo na lenha. Mustafá sofre um derrame cerebral quando voltava de viagem. Ao recobrar a consciência, o velho só consegue dizer ao jovem Ali que deixou muito dinheiro no carro e pede que o garoto vá buscar antes que alguém o roube. Está instalada a confusão. Güller tem certeza que o dinheiro era para a amante, Veysel vê a oportunidade de escapar do exército, Ali precisa voltar para a escola e sobra para Hasan a tarefa de recuperar o carro, o dinheiro e a honra do irmão.

Teomam nasceu na Turquia, em 1977, e estudou Direção Cinematográfica na famosa Escola Nacional de Cinema de Lodz, Polônia, a mesma de Roman Polanski. Em 2004, fez seu primeiro curta-metragem, Apartman, selecionado para vários festivais. O livro das férias, seu primeiro longa-metragem como diretor, venceu seis prêmios internacionais, entre eles o Zenith de Bronze no Montreal World Film Festival.

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O livro das férias (Tatil Kitabi)

Turquia, 2008. 92 minutos

Direção: Seyfi Teoman

Before the rains

25/09/2009 por christianjafas

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O diretor Santosh Sivan está longe de ser um principiante, mas Before the rains (sem tradução para o português) é seu primeiro longa-metragem em inglês e uma co-produção entre Índia e Estados Unidos. Ao primeiro olhar, uma parceria entre Bollywood e Hollywood pode causar estranhamento, mas Sivan não utiliza a linguagem comum aos filmes de seu país, o musical.

Nascido na Índia, Sivan se formou no Instituto de Cinema e Televisão e começou a carreira como diretor de fotografia. Antes de se aventurar na direção, assinou a câmera de quarenta e cinco longas de ficção e quarenta e um documentários. Em 1995, realiza Halo, seu primeiro filme como diretor. O reconhecimento do mundo ocidental chegaria com dois trabalhos exibidos no Festival de Toronto: The Terrorist (1999) e Asoka (2001).

Santosh Sivan em ação

Santosh Sivan em ação

Essa introdução é necessária para compreender escolhas que o cineasta faz durante o percurso do roteiro. O aristocrata britânico Henry Moores (Linus Roache) se estabelece no sul da Índia como negociante de especiarias. O comércio com a Europa se intensifica, mas as monções duram meses, destroem as estradas e interrompem o fornecimento de mercadoria, transformando um negócio certo em investimento arriscado.

Apostando no futuro da região, Moores consegue um vultuoso empréstimo junto a um banco inglês para construir uma estrada ligando a sua fazenda ao ponto de distribuição. O projeto é caro e ambicioso.

Na década de 30, o movimento para a independência da Índia começa a ganhar forma e Moores precisa da ajuda de seu fiel empregado para convencer os trabalhadores locais a abraçarem a empreitada. T.K. (Rahul Bose) é um jovem indiano formado nas escolas britânicas que utiliza sua influência na vila para transformar o sonho do patrão em realidade.

Partindo dessa premissa, o diretor escolheu apontar sua câmera para a vida dentro da casa britânica em solo indiano e relegou para segundo plano um olhar mais atento aos moradores da vila e seus costumes. Santosh Sivan poderia percorrer o caminho inverso e nos mostrar o dia a dia na vila e as mudanças que décadas de contato com os britânicos fizeram a uma sociedade secular.

atores 1O diretor resolve esperar o momento certo para colocar o dilema tradição versus progresso. Apesar de ser um bem sucedido homem de negócios, Moores não consegue resistir aos encantos da jovem Sajani (Nandita Das) e o envolvimento dos dois compromete a frágil estabilidade local.

Santosh Sivan também acumulou a direção de fotografia e isso poderia ser um problema para a direção de elenco, mas a presença de atores pouco conhecidos, porém experientes, facilitou o trabalho. Rahul Bose é considerado o Sean Penn do cinema oriental, Nandita Das estrelou filmes como Fire (1996), Earth (1999) e foi membro do júri do Festival de Cannes 2005 e Linus Roache ficou conhecido do grande público em Batman Begins (2005).

Before the rains mostra um período conturbado da história da Índia de forma distante. Talvez querendo atingir um público maior ou seguindo orientações da produção norte-americana, Sivan não mergulha como poderia nas questões políticas, dando apenas uma pincelada superficial. Mesmo não tendo a pretensão de fazer um filme histórico, o diretor poderia ter ousado mais nos embates entre tradição e progresso.

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Before the Rains

Estados Unidos, Índia, 2007 98 minutos

Direção: Santosh Sivan

Katyn

25/09/2009 por christianjafas

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Polônia. 1939. O exército polonês enfrenta as forças alemãs no lado Ocidental e a traição russa no front Oriental. A invasão é eminente. Diante do poderio bélico soviético, não resta alternativa senão baixar armas. Os soldados são dispensados, mas milhares de oficiais poloneses são transferidos para um campo de prisioneiros pelo comando russo.

Floresta de Katyn, Smolensk, URSS, 1943. O exército alemão controla a região e descobre, em imensas valas, os corpos dos oficiais poloneses, cerca de 15 mil. O alto comando soviético acusa a Alemanha pelo massacre. O governo de Hitler convoca a Cruz Vermelha Internacional para exumar os cadáveres. Documentos e recortes de jornal datam de abril de 1940, ou seja, durante a ocupação soviética. Um jogo político mascara a verdade que só vem à tona décadas depois. Estima-se que um terço dos oficiais poloneses foram assassinados. O massacre de Katyn torna-se uma mancha nas relações internacionais e uma ferida aberta no povo polonês.

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Katyn de Andrzej Wajda reconta essa história e revela ao mundo informações ocultas pelo regime socialista. Na prisão, o Capitão Andrzej (Artur Zmijewski) passa os dias anotando, num pequeno caderno, tudo o que considera relevante. Andrzej quer que Anna, sua esposa, saiba exatamente o que está acontecendo. Anna (Maja Ostaszewska) não desiste de confrontar as autoridades nazistas para saber o paradeiro do marido.

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O roteiro preenche as lacunas que ficaram abertas utilizando um vasto material da investigação de 1951, realizada por uma junta internacional. Fotos da autopsia, manchete de jornais, registros oficiais, laudos e um impressionante registro audiovisual realizado pelos alemães, ainda em 1943, enriquecem o filme e colaboram para a sensação de angústia que Wajda planeja passar.

A trama avança por dois caminhos, ora estamos com os militares na prisão, ora com os parentes e sua busca pela verdade. A escolha da direção em seguir por linhas paralelas se mostra acertada quando a luz dos fatos rompe a estrutura e faz com que esses dois mundos se encontrem.

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O excesso de personagens que permeiam a segunda metade da projeção parece enfraquecer e confundir o roteiro, mas Wajda sabe conduzir com perfeição esse momento. Tão rápido quanto surgem, os elementos partem e deixam como herança marcas profundas no andamento da trama.

O pai de Andrzej Wajda foi assassinado no massacre de Katyn quando ele tinha 13 anos e o diretor parece não ter poupado esforços para fazer deste um filme definitivo. Fotografia, figurino e direção de arte se combinam para criar um retrato poderoso da Polônia durante a II Guerra Mundial. No fim, a verdade nua e crua recebe um tratamento quase documental. Wajda não faz concessões e joga na tela o sangue coagulado, congelado por décadas, que agora jorra sujando mãos e lavando memórias.

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Exumação dos cadáveres em 1943

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Polônia, 2007 118 minutos

Direção: Andrzej Wajda

Patrick Swayze em cinco momentos

15/09/2009 por christianjafas

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Patrick Swayze não foi o galã que Hollywood esperava, mas deixou alguns personagens marcantes e fez filmes desacreditados que se tornaram fenômenos de bilheteria. Dirty Dancing, lançado em 1987, esteve prestes a ser cancelado e o sucesso ao redor do mundo certamente deu um nó na cabeça dos executivos da indústria.

Swayse e Jennifer Grey em Dirty Dancing

Swayze e Jennifer Grey em Dirty Dancing

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Em 1989, Patrick Swayze deixa a dança de lado e leva a carreira para outro rumo ao fazer Matador de Aluguel. O filme, que pegou carona na moda Jean-Claude Van Damme, fez grande sucesso nas locadoras brasileiras. Swayze conseguiu equilibrar uma boa atuação com cenas de luta bem coreografadas. O veterano Sam Elliot, uma belíssima Kelly Linch e um roteiro enxuto fizeram um filminho de ação virar uma diversão interessante.  Outro ponto positivo para o ator que mostrou ser possível misturar artes marciais com uma história certinha.

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Os anos 90 foram os melhores da carreira do ator. Quem não se lembra de Ghost – Do outro lado da vida? A história do casal formado por Swayze e Demi Moore, no auge da beleza, rendeu milhões de dólares e o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Whoopi Goldberg. Após dois filmes leves e românticos que renderam boas críticas e bilheterias estrondosas, o ator parecia ter encontrado um lugar na indústria cinematográfica.

caçadores de emoção 5Apostando na diversidade de papéis e com ótimo feeling para farejar novos sucessos, Swayze embarca em outro projeto fadado a ser apenas mais um filminho de ação. Caçadores de Emoção reuniu um elenco afinado, encabeçado por Patrick Swayze, Keanu Reeves e Gary Busey, um roteiro interessante e uma fotografia de cair o queixo! Tudo isso combinado a boa direção de Kathryn Bigelow resultou em novo sucesso para Swayze e um grande empurrão para Keanu Reeves que começaria a escrever seu nome nos projetos de ação.

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Em 1992 estrelou A cidade da esperança, de Roland Joffé, e esse talvez seja seu último bom papel nos cinemas.  Swayze é Max Lowe um jovem médico norte-americano, atormentado pela culpa após perder um paciente na mesa de cirurgia, que parte para a Índia buscando conforto para suas angústias. O filme não obteve grande êxito comercial, mas fez uma considerável carreira nas locadores de vídeo e merece uma olhada mais atenta.

Professor de dança, leão-de-chácara, executivo, surfista e médico, personagens distintos e que possuíam um carisma marcante. Não gosto de rotular ou empregar termos  de forma exagerada, mas acompanhando cinco momentos de Swayze, o termo cult veio à tona.

Patrick Swayze não foi o galã ou o ator que a indústria do entretenimento almejava, mas foi, sem dúvida, um ícone dos anos 80 e 90. Para a geração que cresceu com os esquecidos VHS e que fazia da ida à locadora uma verdadeira festa, Patrick Swayze e seus filmes foram exatamente o que eles estavam procurando. Swayze encantava as meninas sem enciumar os namorados, “Ora, o cara é mesmo maneiro”, era a frase comum para definir o galã.

Pois é, vale a pena rever esses cinco filmes. O cara é mesmo maneiro.

Reeves e Swayse em Caçadores de Emoção

Reeves e Swayze em Caçadores de Emoção

Fellini & Rossellini

10/09/2009 por christianjafas

federico-felliniPoucos cineastas conquistaram o direito de serem chamados de artistas. Federico Fellini criou um mundo tão particular em seus filmes que é impossível sair do cinema sem compartilhar um pouco dessa visão.

Fellini por Fellini reúne textos escritos pelo próprio diretor. É um livro difícil de ser achado, a ultima edição saiu em 1986 – mas pode ser encontrado em sebos.

Federico Fellini – Fazer um filme é uma chance de conhecer o cineasta através de sua obra. Fellini tenta explicar como surge a criação, como as idéias nascem e como o filme vai ganhando forma no meio do caminho.

Nunca imaginei me tornar diretor, mas do primeiro dia, da primeira vez que gritei: ‘Luz! Câmera! Ação! Corta!’, pareceu-me sempre ter feito aquilo, não poderia fazer nada diferente, aquilo era eu e aquela era minha vida.

maoFellini fala sobre o mundo do circo que tanto o apaixona, comenta a escolha de elenco, conta histórias dos bastidores, a amizade com Mastroianni. Um livro para ficar na cabeceira.

Eu, Fellini escrito por Charlotte Chandler é nas palavras do próprio Fellini um livro definitivo: “Eu só tenho uma vida, e eu a contei a você . Esse é o meu testamento, pois nada mais tenho a dizer.

O diretor sempre odiou entrevistas e nunca gostou de festas e recepções, mas nesse livro Fellini mostra uma paciência sem limites, fala de todos os filmes, discute a crítica cinematográfica, se derrama de amores pela sua Giulietta e revela pensamentos antes desconhecidos.

Era de se pensar que Fellini seria um grande diretor. Seu primeiro trabalho no cinema foi como assistente de direção de Roberto Rossellini em Roma, cidade aberta.

O script de Roma città aperta foi obra de uma semana. Fui contratado como roteirista e assistente de direção. Eu merecia aquele trabalho, mas nem todo mundo nos dá o que merecemos. Robertino jamais foi avarento com algo.

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A admiração era mútua. Em Fragmentos de uma autobiografia, Roberto Rossellini fala de seus filmes e das idéias de um novo cinema. Rossellini deixou Hollywood de lado para se dedicar ao seu próprio cinema. Poucos diretores teriam essa coragem.

Roberto Rossellini morreu antes de terminar o livro. “O texto fica tal como o cineasta o deixou: fragmentos no plano autobiográfico, mas um trabalho articulado quanto à interpretação. Rossellini escrevia por fragmentos (mas não era também assim que filmava?).”

Para quem acha que o neo-realismo foi um movimento pensado, estudado … que tal ler o que o chamado ‘pai do neo-realismo’ tem a dizer?

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Fellini por Fellini – Editora L&PM

Federico Fellini, Fazer um filme – Civilização Brasileira

Eu, Fellini de Charlotte Chandler – Editora Record

Roberto Rossellini, Fragmentos de uma autobiografia – Editora Nova Fronteira