Camponeses do Araguaia: A guerrilha vista por dentro

16/12/2011

O Governo do Presidente João Baptista Figueiredo tinha a responsabilidade de promover a chamada “Abertura Política no Brasil” e a Lei Nº 6.683, promulgada no dia 28 de agosto de 1979, foi o primeiro passo para a redemocratização do país. A Lei da Anistia, como ficou conhecida, concedia o perdão a “todos quantos, no período compreendido entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexo com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos ou aos servidores da Administração Direta e Indireta, de fundações vinculadas ao poder público, aos Servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares.

Hoje, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e várias entidades de direitos humanos consideram que a Lei da Anistia varreu a sujeira para debaixo do tapete e estão tentando uma revisão do texto no Supremo Tribunal Federal. Se a interpretação da lei e das ações políticas cometidas entre o início do Golpe Militar e a Abertura Política gera dúvidas e questionamentos no alto escalão do governo e na sociedade civil organizada, qual seria o impacto desse momento na vida de camponeses e pequenos proprietários de terra no interior do país?

Camponeses do Araguaia – A guerrilha vista por dentro de Vandré Fernandes faz essa pergunta e procura lançar um foco de luz num período ainda obscuro da nossa história. Vandré entrevista camponeses e moradores da região do Rio Araguaia, na bacia Amazônica, no coração do país, que conviveram com os guerrilheiros e com os militares nas décadas de 60 e 70. A câmera de Vandré não tem pressa, se posiciona em frente à pessoa, com o quadro aberto e apenas espera, ouve e absorve. Essa simples escolha é decisiva para entendermos a intenção do cineasta e para onde ele quer conduzir o filme.

Talvez Vandré tenha percebido que essas pessoas já passaram tantas vezes por interrogatórios que a proximidade da câmera, a distância do inquisidor, mesmo que na figura do diretor, poderia ser ofensiva demais. Ao invés disso prefere escutar, se afastar com o equipamento e esperar ser aceito. Uma decisão importante que mostra o cuidado que a direção teve com o tema, ainda um tabu na sociedade brasileira. O filme é investigativo sem ser invasivo. As histórias das torturas são impressionantes, tanto as físicas quanto as psicológicas, ainda mais quando ouvimos de pacatos senhores e senhoras de 60, 70 e até 80 anos de idade.

Vandré Fernandes acertou no tom da montagem e na divisão por capítulos que explica a história sem ser excessivamente professoral. Uma obra feita para a sala de cinema, mas que deveria ser obrigatória em outras salas: as salas de aula de todo o país, desde o ensino fundamental até os cursos de mestrado e doutorado. A história do Brasil não pode ter apenas uma versão.

Camponeses do Araguaia – A guerrilha vista por dentro (Peasants from Araguaia – The guerrilla inside view)

Brasil, 2010. 73 minutos

Direção: Vandré Fernandes

No meio do rio, entre árvores

02/11/2011

Jorge Bodansky mantém um profundo contato com a Amazônia e com a cultura ribeirinha. O projeto TV Navegar, criado por ele, tem como característica “dar voz à população local, capacitando-a a gerar seus próprios conteúdos, numa visão de dentro para fora” nas palavras do próprio cineasta. Bodansky vai e vem da Amazônia, e da região Norte do Brasil, desde a década de 60. Nesse período, o diretor realizou dezenas de documentários, vídeos, curtas e programas de TV sempre tirando imagens, informações, conteúdo de lá pra cá, ou seja, entrando na mata e explorando as riquezas para repassá-las ao mundo civilizado.

Claro que esse comentário não pode ser destacado do texto e muito menos analisado fora do contexto estabelecido aqui. As imagens de uma queimada no coração da floresta amazônica, ao longo da recém inaugurada Transamazônica, num angustiante travelling de quase um minuto, sem cortes, rodou o mundo e chocou nações numa época em que a preocupação com o meio ambiente ainda não estava na pauta mundial. “Iracema – Uma Transamazônica”, realizada em parceria com Orlando Senna, na década de 70, só foi liberado pela censura do regime militar em 1981, mas antes disso, o filme já tinha sido exibido de forma clandestina no Brasil e percorreu festivais pelo mundo todo.

Com No meio do rio, entre as árvores, Bodansky continua nos trazendo imagens, belíssimas por sinal, da floresta, mas agora percebemos que o cineasta está mais preocupado em trocar experiências do que simplesmente absorver a cultura local através da lente de sua câmera. A ideia de levar oficinas de vídeo, circo e fotografia para os moradores das comunidades ribeirinhas do Alto Solimões, na Amazônia, por si só já seria de tirar o chapéu, mas Bodansky vai além, registra esses momentos e utiliza imagens feitas pelos próprios moradores dentro do filme, como corte para sua própria câmera. Um trabalho de troca, confiança e desprendimento por parte do autor que mostra estar em harmonia com o ambiente que o cerca há mais de 40 anos.

O gosto pela polêmica e pela denúncia continua o mesmo e Jorge Bodansky não se furta a ouvir reclamações dos moradores, presidentes de associação e professores. O poder público pouco avança dentro da mata e o descaso com a saúde é a principal queixa dos ribeirinhos. Aqui no Rio, e por todo o Sul Maravilha, estamos mais do que acostumados com essas reclamações vindas dos moradores de áreas de risco ou controladas pelo tráfico de drogas. Mas qual a desculpa para a falta de atenção com os moradores da Amazônia?

O documentário consegue alcançar o objetivo proposto que é nos mostrar as oficinas e o trabalho realizado pela equipe da expedição, mas também nos faz entrar no meio do rio, entre as árvores, como o próprio título adianta. O avanço da tecnologia digital foi fundamental nesse processo. Com uma pequena câmera de vídeo, que não chega a custar R$ 500,00, os moradores produzem entrevistas e as imagens já não possuem um abismo técnico quando contrapostas ao material profissional.

Algo impensável nas décadas de 70, 80 e até 90, a Era do S-VHS, único formato acessível à população e que perdia qualidade de forma absurda quando copiado de uma fita para outra. Justificativas para entender porque essa experiência não fora realizada antes? Quem sabe. Mas definitivamente esse era o momento e Bodansky mais uma vez conseguiu uma obra digna de aplausos. Quando vemos os créditos subindo, e percebemos que o filme acabou, ficamos com aquela sensação de quero mais. Será que Jorge Bodansky já está com saudades da Amazônia também?

No meio do rio, entre árvores (Within the river, among the trees)

Brasil, 2010. 72 minutos

Direção: Jorge Bodansky

Nélida Piñon: Mapas dos Afetos

02/11/2011

Nélida Piñon nasceu no Rio de Janeiro, em 1937, filha de pais espanhóis de origem galega, e ao completar dez anos mudou-se com a família para Borela, na Galícia, cidade natal de seu pai, onde assimilou costumes e tradições que acabariam por influenciar sua futura obra. O primeiro livro, “Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo”, foi publicado em 1961 e a crítica especializada considerou a linguagem inovadora. Ao todo, Nélida já publicou mais de vinte livros entre romances, contos e ensaios. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1989, sendo a primeira mulher a presidir a academia. Em 2005, a escritora foi agraciada com o Prêmio Príncipe das Astúrias tornando-se a primeira mulher e o primeiro escritor de Língua Portuguesa a receber esta homenagem.

O filme Nélida Piñon: Mapas dos Afetos (2010), roteirizado e dirigido por Júlio Lellis, reúne entrevistas realizadas com a escritora e imagens captadas em palestras, eventos e encontros. Nélida recorda o passado, conta histórias do avô, do pai e de como comprou a primeira máquina de escrever. Esse início consegue prender a atenção e o documentário parece seguir a trilha da cinebiografia, o que já seria um material muito interessante, mas ao invés disso se perde com uma montagem frouxa e sem direção.

As falas se sucedem, ora arrastadas, ora desnecessárias, travando a narrativa e impedindo o avanço da história. Não existe um fio condutor capaz de unir as entrevistas ou mesmo reforçar a ideia principal do filme: a relação de Nélida com os amigos. Os capítulos são apresentados como sendo o índice de um livro, uma boa sacada da edição, mas esse efeito visual não é o suficiente para segurar a atenção do público. Mas e os convidados famosos?

As participações especiais funcionam apenas para abrilhantar o cartaz de divulgação da fita: vemos a atriz Fernanda Montenegro em duas raras aparições, a cantora Maria Bethânia dirige poucas palavras para a câmera e a escritora Lygia Fagundes Telles sequer foi entrevistada. Apenas o escritor Mario Vargas Llosa, amigo de Nélida, conversa de forma tradicional com a equipe, mas até nesse momento algo não funciona. Mario e Nélida contam a mesma história e ao invés da montagem encadear um complementando a fala do outro – e assim restabelecer a agilidade perdida – decide fazer o oposto e contrapor quase as mesmas frases, ditas pelos dois personagens.

A fotografia é outro problema sério: as imagens são desnecessariamente tremidas, vemos a câmera se ajeitar de um lado para o outro e isso passa um desconforto visual que casa perfeitamente com a monotonia da montagem, ou seja, é quase impossível ficar dentro do filme, mergulhar na proposta e escutar o que Nélida Piñon tem a dizer. E convenhamos que uma senhora de 73 anos merece uma fotografia bem trabalhada e não uma imagem que parece sair de uma S-VHS.

Durante 85 minutos, com exceção ao breve início, vemos Nélida ir e voltar nas memórias, em momentos pessoais que são importantes apenas para a própria personagem. Faltou distanciamento crítico ao diretor-roteirista Júlio Lellis na hora da montagem, na hora de decidir o que cortar e o que usar do material filmado. Após os créditos finais, ainda vemos um prólogo que se estende por bons minutos e nesse momento é possível recordar uma frase dita pela escritora: “Peço a Deus que me ajude a conviver com as diferenças do mundo.”

Nélida Piñon: Mapas dos Afetos (Nélida Piñon: Maps of Affections)

Brasil, 2010. 85 minutos

Direção: Júlio Lellis

Agreste

02/11/2011

A fotografia do filme nos traz imagens de uma beleza impressionante! Um trabalho de câmera primoroso e sensível. Controle da luz, foco e desfoque, movimentos precisos, firmeza na mão, quase uma aula de cinematografia. Quem sabe essa não tenha sido a intenção dos três operadores: mostrar que sabem todos os truques e técnicas de uma câmera digital. Ou pensando melhor, será que eles sabiam o que estavam fazendo ou tudo foi um mero acaso, um achado na ilha de edição? Questões complexas que ficam sem explicação. Como saber se um desfoque foi intencional e não um erro bem encaixado pelo montador? Ficaremos sem respostas e sendo assim que cada um formule sua própria teoria. E isso tem importância?

A capacidade técnica dos realizadores me parece inquestionável. A montagem une pequenos fragmentos isolados que nunca irão se encontrar, mas que são editados com perfeição. A não-linearidade dos eventos foi uma escolha consciente da direção e que permeia toda a narrativa. Narrativa? Não, de forma alguma, o certo seria dizer que “a não-linearidade dos eventos foi uma escolha consciente da direção e que permeia toda a não-narrativa imposta pelo não-roteiro escrito por Paula Gaitán”. Confuso? Complicado? Experimente assistir ao filme. São setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos. Setenta e seis. Setenta. E seis. Longos minutos.

A experimentação da equipe assume uma forma mais contundente tanto na edição de som quanto na formulação da trilha sonora. Outra vez o trabalho é impecável. O excesso de adjetivos é a única saída para explicar de forma direta e sem rodeios como alguns elementos chamam a atenção. Isolados formam uma pequena obra de arte, mas juntos não conseguem estabelecer um diálogo com o expectador. Cada parte da estrutura, aí incluindo o elenco, ou o não-elenco, cumpre o seu papel com eficiência, mas a soma dessas partes não faz um filme. A soma desses elementos não funciona. Tudo parece separado demais. Isolado demais. Solto demais. Parece um vídeoarte para ser utilizado na instalação de algum artista plástico.

Para compreendermos melhor, ou não compreendermos melhor – quem se importa? – com o que vimos na tela é preciso saber mais sobre os realizadores. Paula Gaitán, roteirista, câmera, diretora e montadora, é “artista visual, fotógrafa e cineasta. Formada em Artes Visuais e Filosofia pela Universidad de los Andes, Colômbia, é professora de Cinema e Vídeo na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, no Rio de Janeiro. Trabalha como cineasta desde 1978, quando participou como diretora de arte de Idade da Terra, de Glauber Rocha. Sua carreia autoral inclui documentários, videoartes e instalações”.

Agreste é um trabalho experimental, duro, indireto, sem preocupação com o público, sem vontade de agradar, sem meio, sem início, sem narrativa, mas felizmente com fim. São setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos minutos. Setenta e seis longos. Setenta e seis. Setenta. E seis. Longos minutos.      

Agreste (Drylands)

Brasil, 2010. 76 minutos

Direção: Paula Gaitán

Com: Marcélia Cartaxo, Sara Antunes, Zabé da Loca e Maíra Senise

180º

20/09/2011

O primeiro longa-metragem do diretor carioca Eduardo Vaisman é um daqueles filmes difíceis de serem classificados. Policial? Suspense? Romance? É um thriller? Ou seria uma combinação de estilos. Suspense policial? Romance policial? Drama com suspense? 180º é de difícil classificação, mas é um trabalho fácil de elogiar. A história nasce com um velho e batido “triângulo amoroso”, mas o que se desenrola do ponto de partida é o que faz a diferença neste caso. Nada é o que parece, as aparências realmente enganam e o público vai mudando de opinião com o passar do tempo, com o andar da história.

Claudia Mattos assina o texto desse intrincado suspense, ou melhor, romance e nos mostra que é possível fazer um filme com elementos policiais e sem apelar para soluções mágicas. O roteiro segue os personagens no presente, mas usa o também batido flashback para acrescentar dúvidas, desatar alguns nós que ficaram atados e colocar ainda mais dúvidas no meio do caminho. O vai e vem no tempo, a apresentação não-linear da trama é bem construída e em nenhum momento ficamos perdidos. O que acontece é uma constante mudança de posição em relação aos personagens. Quando parece que encontramos a verdade, descobrimos que ela ainda está longe de chegar.

A montagem é outro ponto forte do filme. O roteiro pede pelo flashback e encaixar com precisão as idas e vindas exige um trabalho delicado e de muita observação. Nem sempre a estrutura que está no papel, no roteiro, funciona quando vista na tela, quando intercalada com outras duas cenas. A edição de sons também tem uma função fundamental nessa transição entre o passado e o presente. Em alguns momentos ouvimos a mudança antes dela se tornar visual e, mesmo sem perceber, já imaginamos que seremos jogados dentro dos pensamentos do personagem.

180º possui uma direção segura, um texto inovador, uma montagem precisa e uma fotografia minimalista que trabalha para unificar a diversidade de tempo-espaço utilizada na trama. A produção possui um esmero técnico de tirar o chapéu e mostra o tamanho da evolução dos profissionais brasileiros que não devem nada ao milionário mercado externo. Mas todo esse trabalho seria desperdiçado se o filme não contasse com um elenco capaz de assumir as mudanças exigidas pelos personagens e incorporar os detalhes ocultos que serão apresentados nos minutos finais.

Eduardo Moscovis faz um jornalista consagrado, idolatrado pelos colegas, um líder que agrega e apaixona. Num momento de ruptura, após a súbita morte do pai, desiludido, resolve abandonar a profissão e se dedicar ao negócio da família, no interior do estado. Moscovis faz essa passagem com perfeição. Vemos que o homem outrora brilhante ainda está lá, mas agora apagado, desbotado, insatisfeito. A atuação de Eduardo Moscovis pontua a mudança dos outros personagens e é ele quem sempre dá o tom do tempo presente e do passado. Com essa orientação bem definida, Malu Galli e o estreante Felipe Abib formam um triângulo que nunca é apresentado como equilátero.

Eduardo Vaisman faz sua estreia como diretor com um longa-metragem bem acabado, que possui uma história inquietante e que nos deixa pensativos do início ao fim da sessão. As lacunas abertas são fechadas pelas escolhas do público mostrando que não é preciso maquininhas, votações e sessões interativas para que possamos escolher o melhor final para um filme, ou pelo menos, o final que nos agrade mais.

180º (180º)

Brasil, 2009. 85 minutos

Direção: Eduardo Vaisman

Com: Eduardo Moscovis, Malu Galli, Felipe Abib

Mário Filho: O Criador das Multidões

29/05/2011

O Brasil é o país do futebol por excelência! Cinco vezes Campeão do Mundo! Berço de craques como Zizinho, Heleno de Freitas, Leônidas da Silva, Didi, Nilton Santos, Zagallo, Mané Garrincha e, claro, o Rei Pelé. Sediou o primeiro Mundial do pós-guerra, em 1950, e para tanto construiu o Maior Estádio do Mundo, o Maracanã. Qualquer garoto sabe que as “cinco estrelas” nasceram de uma vitória heróica, de virada, em solo europeu – fato inédito, contra os suecos, donos da casa. Mas essa história teve um capítulo conturbado com a derrota para o Uruguai em 1950. E o jornalista Mário Filho teve participação decisiva em todos esses eventos.

Mário Filho e o irmão Nelson Rodrigues defenderam com ardor a construção do Maracanã quando os políticos discutiam a viabilidade do projeto. Para Mário era preciso mostrar ao mundo que o Brasil poderia organizar uma competição como aquela e que tinha a capacidade de construir um gigante que se tornaria o maior estádio do mundo. Hoje, o Maraca é motivo de orgulho nacional e recebe turistas vindos de toda parte do mundo. E não vamos sediar outra Copa em 2014?

Mário Filho e Nelson Rodrigues lutaram pela construção do Maracanã!

Após a derrota de 50, os críticos colocaram a culpa nas costas de Barbosa e dos demais jogadores negros da seleção brasileira. Um dossiê chegou a ser preparado pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos) indicando que o jogador mestiço, mulato, negro ou índio não conseguiria suportar a pressão de vencer uma final de Copa do Mundo. A nossa raça era frágil e pouco competitiva. A ordem era pra “embranquecer” a seleção brasileira.

Mário Filho foi a voz dissonante e a história provou quem tinha razão. Pelé, aos 18 anos, fez dois gols na final – o primeiro um golaço! – e era negro. Didi, mulato, foi eleito o melhor jogador do mundial e apelidado pela imprensa estrangeira de Mr. Football. E para completar a salada multicultural, hoje vista como uma característica positiva do nosso povo, Mané Garrincha tinha sangue índio nas veias. Tudo muito óbvio hoje em dia. Quem pensaria em barrar Pelé e Garrincha? Quem questionaria Romário? Ou Jairzinho? Ou Paulo César Lima? Se hoje pensamos assim, em parte devemos agradecer à máquina de escrever de Mário Filho.

Djalma Santos, Garrincha, Didi e Pelé na Seleção Brasileira de 1958

O cineasta Oscar Maron Filho, de posse do catálogo de imagens da Atlântida Cinematográfica, reconstrói o Rio de Janeiro do início do século XX e nos faz mergulhar numa época onde o futebol era um esporte de elite, “coisa de inglês”. Difícil imaginar cenário assim, não? Pois foi nesse momento histórico que o jornalista começou a reinventar a crônica esportiva brasileira. O filme tem o mérito de conseguir explicar a importância de Mário Filho através de seus textos e ações, mas para isso a volta ao passado era fundamental.

O trabalho de montagem é primoroso e logo somos transformados em “geraldinos e arquibaldos” vibrando com gols, lances de perigo e bolas na trave. Maron faz um documentário tão emocionante quanto os grandes clássicos do futebol brasileiro, tão emocionante quanto o amado “Fla-Flu” de Mário Filho. A bela fotografia envelhecida do material de arquivo poderia ser atrapalhada pelo excessivo colorido contemporâneo, mas, acertadamente, o diretor decidiu usar o preto-e-branco como tom dominante nas entrevistas captadas e mesmo em algumas imagens atuais. Graças a essa simples concepção foi possível passear pelo Rio Antigo e ouvir os relatos de amigos, estudiosos e jornalistas que conviveram com Mário Filho sem perder a relação espaço/tempo proposta pela montagem.

Mário Filho: O Criador das Multidões é um trabalho cuidadoso e planejado nos mínimos detalhes. Oscar Maron Filho realiza uma obra de paixão pelo futebol e amor ao Brasil, exatamente as mesmas paixões que cercavam a vida do jornalista. Quem gosta de futebol irá se deslumbrar com imagens do Maracanã lotado para ver jogos de Santos, Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, América e Olaria. Quem gosta de cinema poderá apreciar um documentário enxuto, organizado, emocionante, bem dirigido e com uma montagem impecável.

Para aplaudir de pé e gritar Gooooooooooool!

Copa do Mundo de 1950: Maracanã lotado esperando pelo título brasileiro!

Mário Filho: O criador das multidões (The Creator of Crowds)

Brasil, 2010. 78 minutos

Direção: Oscar Maron Filho

Marvel Studios

10/05/2011

Quando a Marvel Comics anunciou que iria produzir os próprios filmes muitos fãs espalhados pelo mundo comemoraram a coragem dos executivos que antes já tinham conseguido livrar a empresa da falência. Apesar do grande sucesso das adaptações de X-Men, Homem-Aranha e Hulk, a interferência dos produtores de Hollywood sempre foi vista como negativa entre os chefões da Marvel – sentimento compartilhado pelos fãs e críticos de cinema.

Personagens como Justiceiro, Demolidor, Elektra e Motoqueiro Fantasma resultaram em filmes decepcionantes quando analisamos a matéria-prima disponível para a construção do roteiro cinematográfico. Mesmo os filmes que tiveram uma boa bilheteria, como é o caso do Quarteto Fantástico, não conseguiram agradar aos exigentes e fanáticos leitores de histórias em quadrinhos.

A Marvel Studios foi criada com a intenção de controlar todo o processo criativo e deixar apenas a distribuição a cargo dos grandes estúdios. Dessa forma erros e acertos seriam de responsabilidade interna dos executivos da Marvel que pela primeira vez iriam experimentar uma total liberdade artística desde a escolha do elenco até a contratação do diretor.

Com o caminho livre, Avi Arad, Kevin Feige e Joe Quesada atacaram primeiro personagens que não tinham os direitos de adaptação presos a algum estúdio, assim Homem de Ferro (2008), dirigido por Jon Favreau, e O Incrível Hulk (2008), dirigido por Louis Leterrier, foram aclamados por crítica e público mostrando que a Marvel tinha realmente feito a escolha certa ao “se separar” de Hollywood.

As receitas de bilheteria excederam as expectativas e Homem de Ferro, orçado em U$ 140 milhões, faturou mais de U$ 580 milhões em todo o mundo. O Incrível Hulk não teve tanto fôlego nos cinemas e com um orçamento de U$ 135 milhões arrecadou “apenas” U$ 265 milhões, mas vendeu quase U$ 60 milhões em DVD e Blu-Ray só no mercado norte-americano.

A ideia sempre foi levar para a telona um grande filme dos Vingadores, um projeto ambicioso que só poderia ser realizado se os principais heróis pertencessem a um mesmo estúdio. Com o controle dos personagens, a Marvel Studios lançou a base do ousado empreendimento fazendo primeiro os filmes solos dos heróis.

A ótima recepção de Homem de Ferro 2 (2010), novamente a cargo de Jon Favreau, mostrou que o público estava acompanhando a empreitada e que continuaria fiel. O projeto segue firme com o Thor (2011), dirigido por Kenneth Branagh, e o inédito Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), de Joe Johnston, que tem estreia marcada para 29 de julho no Brasil.

Thor foi orçado em U$ 150 milhões e em 11 dias de exibição já arrecadou mais de U$ 242 milhões, ou seja, o suficiente para encher os cofres da Marvel, estabelecer um novo padrão para os filmes de super-herói e preparar o caminho para a tão aguardada primeira aventura dos Vingadores – que tem previsão de lançamento para 4 de maio de 2012.

Resta saber se a equipe criativa terá o mesmo sucesso com um personagem polêmico como o Capitão América. Apesar da presidência de Barak Obama, as cores da bandeira norte-americana não andam muito em alta e após o cruel assassinato de Osama Bin Laden a mania estadunidense de ser “a polícia do mundo” e o “guardião da moral e bons costumes” não tem grande aceitação fora da terra do Tio Sam. Um novo desafio para a Marvel encarar.

Gretchen Filme Estrada

05/04/2011

Gretchen Filme Estrada (2010) começa a surpreender o público já com o estranho título, pouco comum para um documentário. As surpresas vão surgindo na tela enquanto viajamos com a Rainha do Bumbum em duas aventuras distintas, mas que são incrivelmente semelhantes no Brasil. Nos fins de semana, a cantora Gretchen percorre o interior do país, o Nordeste para ser preciso, fazendo aparições em pequenos circos itinerantes que cobram R$ 3,00 pelo ingresso da Geral. Na segunda pela manhã, após viajar de carro centenas de quilômetros, encontramos Gretchen, agora candidata ao governo da pequena Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, discutindo com membros do partido detalhes da campanha eleitoral.

A narrativa tem um início lento nos primeiros minutos de projeção e um espectador mais ansioso poderia vaticinar que a produção estaria fadada ao fracasso. Nada disso! Passada a confusão inicial, Eliane Brum e Paschoal Samora retomam o controle da história, passam a intercalar as duas vidas da cantora-candidata e constroem um rico perfil de um ícone da cultura brasileira. Deixando de lado o gosto pessoal ou até mesmo um pré-conceito, é preciso admitir que poucas pessoas conseguiram entrar no imaginário popular como Gretchen. Pelos quatros cantos do Brasil é difícil encontrar alguém que nunca tenha escutado esse nome antes.

A força de Gretchen não reside mais no requebrar de suas cadeiras e nas avantajadas curvas. Não, não mais, a força de Gretchen está no nome, no mito. A cantora sabe disso e nos raros momentos em que conversa com a câmera revela que já não suporta ouvir as mesmas músicas. “É uma prisão. Eu cumpri 30 anos. Quero ser livre.” A liberdade tem um preço e alto. A vida política substituiria a vida artística e o nome Gretchen seria útil uma última vez antes de ser relegado ao passado. O peso de tal decisão, ou reflexão, parece abalar a cantora que agora vê a campanha eleitoral como uma porta de salvação.

O filme consegue perceber esse momento de transição, de mudança na personagem e usa essa ruptura para alterar também a estrutura da narrativa. Antes estávamos vendo um típico exemplar da escola do cinema direto norte-americano, ou seja, a equipe invisível, a câmera como uma mosca na parede e apenas o personagem interagindo com o mundo que o cerca, como no famoso Primary (1960) de Robert Drew. Os diretores são confrontados pela personagem que exige um distanciamento da equipe para poder tocar a campanha que está “indo de mal a pior”. Esse repentino embate não é negado e sim absorvido pela montagem.

Desse momento em diante, a equipe se faz presente – como no cinema-verdade francês – uma câmera registra a outra, a diretora segura o microfone e resolve entrevistar os eleitores nas ruas, vemos os técnicos de som tentando captar o melhor áudio possível no meio da multidão e o foco é dividido entre a estrela Gretchen e sua própria equipe de filmagem. Bem ao estilo Eduardo Coutinho – que ele não me leia! – acompanhamos os inúmeros pedidos de “Autorização do Uso de Imagem” sendo assinados nas filas dos circos e até mesmo Gretchen, após o show, regendo o público: “Eu autorizo o uso da minha imagem para o filme Gretchen Filme Estrada”. Uma ousadia sem dúvida, mas recompensada pelos risos da plateia.

Eliane Brum e Paschoal Samora fizeram um filme sensível, uma homenagem justa, mas sem fazer concessões à personagem ou mesmo apelar para o sentimentalismo fácil. Altamente indicado para estudantes de cinema e para aqueles que gostam de um bom Road Movie.

Gretchen Filme Estrada (Gretchen The Road Movie)

Brasil, 2010. 90 minutos

Direção: Eliane Brum e Paschoal Samora

Complexo: Universo Paralelo

31/03/2011

O poder público conferiu ao Complexo do Alemão o status de bairro em 1993, mas os problemas continuaram os mesmos. Estima-se que 160 mil pessoas vivam na região formada por dezesseis comunidades que fazem divisa com os bairros da Penha, Ramos, Olaria, Inhaúma e Bonsucesso, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O complexo de favelas é considerado um dos locais mais perigosos do Rio e a Vila Cruzeiro ficou conhecida mundialmente depois do assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002. Durante os Jogos Pan-Americanos, em 2007, uma ação conjunta orquestrada pela Polícia Militar e a Força Nacional ocupou a região para diminuir o poder das facções criminosas que atuam na cidade.

Foi nesse contexto que dois irmãos portugueses adentraram no Complexo do Alemão para filmar o novo cotidiano dos moradores, agora sob a proteção do Estado. Os dois resolveram fixar residência na região para acompanhar de perto o dia da comunidade e, claro, encontrar personagens para o filme. Seu Zé, presidente vitalício da Associação de Moradores, Dona Célia, mãe de oito filhos, e MC Playboy, conhecido funkeiro, se encarregam de mostrar as peças do quebra-cabeças que será montado na edição. Mário Patrocínio assina a direção do documentário, enquanto a câmera do irmão Pedro procura capturar um universo diferente e desconhecido.

E é justamente através das imagens que temos a primeira dica de como o olhar estrangeiro absorve e devolve a rotina que o cerca na favela. A câmera nunca é apontada diretamente para a ação, ela está sempre fugindo, à espreita, como que com vergonha ou medo de observar. Será que estamos vendo a Estética do Medo? Os homens da Força Nacional faziam poses para as lentes do Jornal Nacional, mas aqui são fotografados de longe, com reverência, com medo. As imagens são tremidas, estão sempre em movimento e raramente conhecem repouso para contemplar ou ver melhor. Não existe tempo para ver mais uma vez, o corte logo chega acompanhado de outra imagem.

A fotografia das entrevistas segue a mesma linha de raciocínio e por vezes não conseguimos focalizar o rosto, os olhos, a expressão da fala. A luz estourada, ou a falta de luz, nos deixa apenas com o som, apenas com as palavras. É verdade que em alguns momentos chega a ser belo, mas seria essa a intenção? Os olhos possuem o recurso para regular a entrada da luz e da mesma forma a câmera. A ideia da não intervenção, de filmar a realidade, de capturar a verdade do momento pode não ter sido a mais apropriada para as entrevistas, mas ao menos é coerente com o todo.

A montagem não usa legendas para marcar a passagem do tempo, apenas aceitamos que os dias estão se sucedendo, sempre iguais, num ciclo contínuo e monótono na vida dos personagens. A inserção de pequenos clipes entre uma entrevista e outra, para aliviar e dar respiro ao filme, não consegue se encaixar de forma orgânica e causa certa estranheza.

O ponto mais polêmico do documentário começa após um desses momentos clipados, quando traficantes armados ensinam como funciona o respeito na favela e qual o exato papel da polícia nisso tudo. Ao dar voz a um lado, a do tráfico, e negar espaço a outro, ao Governo, o filme se posiciona e assume uma postura político-social que aparentemente tentava negar ou anular.

O envolvimento afetivo dos cineastas com o Complexo do Alemão deve ter pesado na hora da edição e o inevitável “Happy End”… não foi evitado. Seu Zé continua lutando contra os políticos corruptos que só querem saber de ganhar os votos do povo na época das eleições; Dona Célia perdeu um filho, mas continua acreditando que tudo vai dar certo e MC Playboy segue cantando e criando suas músicas.

Tecnicamente bem acabado, Complexo: Universo Paralelo (2010) não acrescenta novidades dentro do rico cenário de produções sobre violência e favela quando pensamos apenas no conteúdo, mas, sem dúvida, a Estética do Medo desenvolvida aqui irá agradar ao mercado estrangeiro.

Complexo: Universo Paralelo (Complexo: Parallel Universe)

Portugal, 2010. 75 minutos

Direção: Mário Patrocínio

Elvis Presley

16/08/2010

“Ele era e ainda é o Rei.” B. B. King.

“Se não fosse por Elvis nós não existiríamos.” John Lennon.

“Não existe nada antes ou depois de Elvis. Ele é tudo.” Bruce Springsteen.

“Procuro ver e aprender com ele no palco. E passar um pouco do que ele fazia nos nossos shows.” Bono Vox.


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