Archive for the ‘Festival do Rio 2007’ Category

Caramel

12/02/2010

A atriz Nadine Labaki estréia na direção de longa-metragem com um filme sensível e emocionante. Caramel (Caramel, 2007) é uma produção franco-libanesa e retrata a vida de cinco mulheres que moram em Beirute, capital do Líbano.

Nadine participou do projeto Residência do Festival de Cannes em 2005. A idéia de Gilles Jacob, presidente do festival, é reunir jovens talentos que queiram desenvolver um roteiro ou fazer o primeiro filme. Oito roteiristas e diretores dividiram um apartamento, alugado pelos organizadores, nos arredores de Paris e lá tiveram todo o conforto para compartilhar histórias e tocar seus roteiros. O diretor brasileiro Karim Ainouz ficou 18 meses na moradia experimental e concebeu “Madame Satã” (2002).

Nadine Labaki aproveitou a oportunidade e fez de Caramel uma declaração de amor à Beirute, sua cidade natal. Nadine escreveu o roteiro, dirigiu e ainda ficou com a personagem principal. Muito ego para pouco talento? Negativo. Poucas vezes o universo feminino foi abordado com tanta objetividade e transparência, e o maior mérito do filme é não querer passar uma lição de moral, apenas mostrar, questionar.

No salão de beleza Sibelle, cinco mulheres compartilham problemas, sonhos e decepções. A bela Layale, interpretada por Nadine, tem um relacionamento com um homem casado e passa o dia esperando o telefone tocar. Nisrine é de família mulçumana, mas está longe do estilo de vida que seus pais praticam, para piorar a situação está com o casamento marcado e não tem coragem de contar ao noivo que não é mais virgem. Rima sente atração por outras mulheres. Jamale é uma atriz veterana que não quer envelhecer. Rose é uma costureira que abdicou da felicidade para cuidar da irmã mais velha.

Nadine parte dessas cinco histórias para criar um roteiro bem trançado e lançar um olhar sobre a sociedade libanesa. Ao invés de lamentar, as personagens lutam, sonham e vivem numa cultura machista e dominada pelas tradições familiares. Temos a possibilidade de mergulhar no dia a dia de um povo que mantém a alegria e a esperança, apesar de todos os problemas. E nesse ponto eles se aproximam do jeito brasileiro.

Algumas passagens revelam as diferenças que existem entre o Ocidente e o Oriente de forma simples e direta. Layale quer alugar um quarto de hotel para passar uma tarde com o amante no dia do seu aniversário. Para isso ela tem que cruzar a cidade até encontrar um local que não lhe peça a identidade do marido, acaba numa espelunca e confundida com uma prostituta.

Nadine Labaki precisou deixar o país que ama para seguir na carreira que escolheu. Primeiro trabalhou como atriz e agora começa uma nova frente como cineasta. Nadine prova que suas personagens não são tão fictícias assim, ela é um exemplo do que vemos na tela.

Caramel foi selecionado para o Festival de Toronto 2007 e para a Quinzena dos Realizadores de Cannes 2007. Parece que Gilles Jacob sabia o que estava fazendo quando criou o projeto Residência.

Caramel (Caramel)

França, 2007. 95 minutos

Direção: Nadine Labaki

Com: Nadine Labaki, Yasmine Al Masri, Siham Haddad

Anúncios

Sombras elétricas

03/02/2010

É impossível não associar Sombras elétricas (Meng ving tong nian, 2004) do diretor Xiao Jiang ao “Cinema Paradiso” (1989) de Giuseppe Tornatore. E isso já é o suficiente para arrancar aplausos do público no fim da projeção.

Cinéfilos costumam gostar de filmes que falam sobre cinema, é a catarse máxima. A lista inclui sucessos como “Oito e meio” (1963) de Federico Fellini, “A noite americana” (1973) de François Truffaut, “Dirigindo no escuro” (2002) de Woody Allen, e esquecidos como “Vivendo no abandono” (1995) de Tom DiCillo e o ótimo documentário “Cinemania” que foi exibido no Festival do Rio 2002.

No Brasil, encontramos os recentes “Celeste & Estrela” (2005) de Betse de Paula e “Sal de Prata” (2005) de Carlos Gerbase, e o consagrado “Cabra Marcado para Morrer” (1984) de Eduardo Coutinho.

A trama de Sombras elétricas começa com uma explícita declaração de amor ao cinema. O entregador de água Mao Dabing separa o salário do mês para comida e aluguel, o resto ele gasta com filmes. Cada sessão custa três dias de trabalho, mas para Mao esse sacrifício vale cada centavo.

Certo dia, Mao pedala para casa pensando na próxima estréia quando derruba uma pilha de tijolos. Ao se levantar é atacado por uma jovem que ele não conhece. Dabing acorda no hospital, com a bicicleta quebrada e sem emprego. Na delegacia confronta a moça que o atingiu. Ela não fala, mas lhe escreve para ir alimentar os seus peixes, e lhe entrega as chaves de casa. Conformado com a situação Dabing resolve ajudar. Ao chegar ao apartamento descobre que a moça é tão apaixonada por filmes quanto ele.

Impressionado com a descoberta, Dabing começa a ler o diário da garota e mergulha num verdadeiro roteiro que conta a história de seus pais. A fotografia explora a terra vermelha do interior da China e se apóia nas belas paisagens para enquadrar a narrativa da misteriosa garota.

O diretor Xiao Jiang utiliza o conto para tocar em assuntos polêmicos como o preconceito com a mãe solteira, o machismo e a intolerância ao que é diferente. Os trabalhadores da cidade dizem amar o regime comunista, todos são iguais, mas a inveja e a cobiça são sentimentos enraizados em qualquer sociedade.

Jiang começou como roteirista criando programas de televisão e dirigiu três telefilmes antes de se aventurar na direção de um longa-metragem. O roteiro desenha uma história bem contada que perde um pouco o ritmo lá pelos 50 minutos de projeção, mas se recupera a tempo de ser agraciado com as já citadas palmas.

Sombras elétricas (Meng ving tong nian)

China, 2004. 95 minutos

Direção: Xiao Jiang

Elenco: Jiang Yihong, Xia Yu, Qi Zhongyang, Li Haibin

Os mal-criados

25/01/2010

A diretora Pia Marais nasceu em Johanesburgo, África do Sul e Os Mal-criados (Die Unerzogenen, 2007) é seu primeiro longa-metragem. Filha de pais hippies, Pia viveu em vários países do sul da África, na Suécia, na Espanha e essa bagagem serve de base para a construção da personagem Stevie. Podemos nos arriscar a dizer que seu filme de estréia tem muito de um auto-retrato.

Stevie é uma jovem de 14 anos que tenta ser normal mesmo vivendo com pais completamente desequilibrados. Álcool, drogas e promiscuidade são comuns no dia a dia de sua família. Quando eles se mudam para uma cidade do interior, ela acredita que vai começar um novo ciclo, a tão desejada vida normal.

Para fazer amizade com os adolescentes vizinhos, Stevie inventa que seus pais são diplomatas em missão no Brasil. Tudo vai caminhando bem e a jovem começa a freqüentar uma escola regular, mas as confusões recomeçam. O pai de Stevie, o ótimo Birol Ünel (Contra a parede, 2004), é um traficante que acabou de sair da cadeia e parece desesperado para voltar a ser preso. Mesmo vigiado pela polícia, ele prepara um novo carregamento de drogas para levar à Bélgica.

A família é composta pelos parceiros traficantes e pela mãe que vive na cama, fumando ou no quintal, fumando. E para contrariedade de Stevie, os jovens locais não demoram a perceber que na casa dos novos vizinhos drogas, álcool e sexo são liberados e isso arruína suas chances de ter uma vida normal.

Pia Marais trabalhou como assistente de direção e foi diretora de elenco antes de se aventurar como cineasta. Pia distribuiu os papéis com incrível precisão e buscou atuações intimistas, contidas que contrastam com o clima pesado do filme. A diretora mostra que conhece muito bem o universo adolescente e os problemas de uma família fora do convencional. Como formar um caráter vivendo no limite? Aos 14 anos tudo o que a jovem Stevie precisa são bons exemplos e conselhos, e isso é algo que ela não vai encontrar com a família.

O filme tem uma direção firme e seu desfecho escapa aos finais felizes, o que combina exatamente com o tom da obra. Nada mal para um trabalho de estréia. Resta saber se Pia vai acertar a mão com outros temas ou vai ficar marcada por rodar apenas projetos depressivos.

Os mal-criados (Die Unerzogenen)

Alemanha, 2007. 95 minutos

Direção: Pia Marais

Elenco: Birol Ünel, Ceci Chuh, Pacale Schiller, Georg Friedrich

Vá logo e volte tarde

19/01/2010

A peste negra ou morte negra foi uma epidemia de peste bubônica e peste pneumônica que devastou mais de um terço da população européia no século XIV. A falta de higiene pessoal, de infraestrutura nas cidades, a maioria com esgoto correndo a céu aberto, e a limitação da medicina, a Igreja Católica acusava de bruxaria quem fizesse experimentos científicos, resultaram num ambiente propício para a disseminação da doença.

Os porões dos navios chegavam da China abarrotados de especiarias e de um visitante indesejado: ratos contaminados com o bacilo da peste. Os roedores rapidamente se multiplicaram nas ruas e nos esgotos e infestaram as cidades.

Os livros de História pouco abordam esse assunto que é tabu até hoje em algumas regiões do continente. Famílias inteiras pereceram e pequenas vilas tiveram o número de habitantes zerado.

Em Il Decamerone (1351), Giovanni Boccaccio (1313-1375) descreve com precisão o que aconteceu em Florença, no ano de 1348, considerado o início da peste:

Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano bem farto da Encarnação do Filho de Deus de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por iniciativa dos corpos superiores ou em razão de nossas iniqüidades, a peste atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais, há alguns anos. Tal praga ceifara, naquelas plagas, uma enorme quantidade de pessoas vivas. Incansável, fora de um lugar para outro; e estendera-se, de forma miserável, para o Ocidente”.

Vá logo e volte tarde (Pars vite et reviens tard, 2007) de Regis Wargnier mistura elementos policiais e místicos para fugir do lugar-comum do filme de suspense, e podemos perceber isso no título, já que essa expressão era usada pelos purificadores que combatiam a peste.

O policial Jean-Baptiste investiga a aparição de estranhos desenhos pintados nas portas das casas de Paris. O que poderia ser um trote, uma simples brincadeira, acaba em crime quando corpos aparecem, nos prédios atacados, com indícios da peste negra. A notícia do retorno da doença, erradicada no século XV, assusta a população e leva caos ao departamento de polícia.

Wargnier ganhou o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1993, com “Indochina” (1992) e dirigiu ainda “Leste-Oeste – O amor no exílio” (1999) e “O elo perdido” (2004). Seu primeiro longa-metragem, “La femme de ma vie“, foi vencedor do César de Melhor Diretor Estreante, em 1986. Esse currículo talvez explique o tratamento diferenciado que os atores recebem na trama, Wargnier utiliza os truques do bom cinema policial nas cenas de ação e suspense, mas consegue mergulhar mais do que o normal na construção dos personagens.

O que seria um mero filme policial ganha força com a inclusão do misticismo que envolve a Idade Média e o combate à peste. Em alguns momentos achamos que a história vai se aproximar de Seven (1995) ou Jogos Mortais (2004), mas Regis Wargnier faz a trama voltar ao cotidiano e foge das soluções mágicas para encontrar motivações mais carnais do que ritualísticas para os assassinatos.

Vá logo e volte tarde (Pars vite et reviens tard)

França, 2007. 111 minutos

Direção: Regis Wargnier

Elenco: José Garcia, Lucas Belvaux, Marie Gillain

A garota do lago

15/01/2010

Numa pequena e pacata cidade do interior da Itália, uma menina de seis anos está desaparecida e os policiais locais chamam o inspetor Sanzio para ajudar. A garota reaparece e tudo não passa de um mal-entendido, mas durante a investigação os policiais descobrem o corpo de uma jovem assassinada.

Essa pequena sinopse é o ponto de partida que Andrea Molaioli transforma num filme simples, eficiente e enxuto. O roteiro não é original, foi baseado no livro Don’t Look Back, de Karim Fossum.

A montagem parece evoluir lentamente, mas na verdade caminha com um ritmo marcado e firme que represa o suspense até a conclusão do mistério. O público que está acostumado aos cortes rápidos e frenéticos pode estranhar essa forma compassada que Molaioli usa para conduzir a ação. A simplicidade dos movimentos de câmera e uma fotografia quase neutra (apesar das belas paisagens) forçam a atenção para dentro do que está sendo dito, para dentro da história, não há desvios ou pirotecnia para disfarçar possíveis equívocos de roteiro.

Ver, observar e analisar: nunca fazemos isso no cinema policial, no cinema de suspense. O realizador passa a ser o explicador, é ele quem vai mostrar o bandido fugindo, um detalhe, um plano fechado numa faca. Ao expectador sobra a tarefa de dizer sim e aceitar tudo o que é apresentado na tela.

A intenção de Molaioli é fazer a platéia descobrir o assassino no mesmo passo que o inspetor Sanzio, e para isso percorremos com o policial cada anotação, vemos a cena do crime longamente e entramos na sala de interrogatório. Nesse tempo de estudo também conhecemos a família do inspetor e avaliamos seus problemas pessoais. Será que ele vai ter o discernimento necessário para julgar quem é culpado ou inocente?

A garota do lago (La ragazza del lago, 2007) é o primeiro longa-metragem do italiano Andrea Molaioli que começou a carreira como assistente de direção e trabalhou para cineastas como Nanni Moretti (O quarto do filho, 2001) e Daniele Luchetti (Meu irmão é filho único, 2007). Antes de se aventurar em longas, dirigiu o making of de alguns filmes e séries de televisão.

A garota do lago (La ragazza del lago)

Itália, 2007. 95 minutos

Direção: Andrea Molaioli

Elenco: Toni Servillo, Nello Mascia, Valeria Golino

Um táxi para a escuridão

08/01/2010

Em 2006, o diretor Alex Gibney perdeu o Oscar de Melhor Documentário para Marcha dos Pingüins (2005), na ocasião concorria com Eron: Os mais espertos da sala (2005) que investigava a falência da sétima maior empresa dos Estados Unidos. O caso foi um grande escândalo no mundo corporativo: os executivos simplesmente fugiram com bilhões de dólares deixando funcionários e acionistas sem um tostão.

Durante a festa de premiação, em meio à ressaca pela perda da estatueta dourada, um grupo de advogados sugeriu para Gibney se meter em outra polêmica questão e investigar as denúncias envolvendo tortura e abusos dos militares norte-americanos no Afeganistão.

Em 2005, o jornalista Tim Golden, do The New York Times, publicou uma série de reportagens amparado em documentos oficiais mostrando que a prática da tortura era comum nas prisões de Abu Ghraib, em Bagdá, e na Base Aérea de Bagram, no Afeganistão.

As investigações do jornal começaram em 2002, após a morte do jovem taxista Dillawar, de apenas 22 anos. Preso e acusado sem provas de pertencer ao regime talibã, o afegão foi espancado e mantido em pé, algemado pelos pulsos. Na certidão de óbito, emitida pelo exército norte-americano, constava morte por homicídio. O documento estava escrito em inglês, e foi entregue à família da vítima que não fala a língua do Tio Sam. Em 2004, fotos que mostravam presos sendo humilhados por soldados na base de Abu Ghraib correram o mundo, mas a cúpula do exército considerou o caso como ‘obra de maçãs podres’.

Realizar Um táxi para a escuridão (Taxi to the dark side, 2007) foi a forma encontrada pelo diretor Alex Gibney para fazer um povo acostumado ao audiovisual questionar as políticas de seu governo. O documentário contou com a colaboração dos correspondentes de guerra dos principais veículos da imprensa norte-americana e pelos jornalistas do NYT que divulgaram a morte de Dillawar dois anos antes.

Alex Gibney e a montadora Sloane Klevin sabiam que estavam mexendo num barril de pólvora. Quem ousava questionar os métodos do ‘imperador‘  George Bush sofria sérias represálias por parte da máquina de poder da Casa Branca. Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 elevaram o grau de tolerância da população com o que era permitido fazer para defender a América.

Um táxi para a escuridão entrevista soldados que estavam nas bases militares de Abu Ghraib e Bagram, jornalistas, assessores militares e chega ao alto escalão de George Bush. O documentário parte do caso isolado do jovem taxista Dillawar e segue o rastro até a base norte-americana de Guantánamo, em Cuba, onde a CIA e o exército desenvolveram e criaram métodos de tortura e testaram nos detentos.

A produção do filme conseguiu pilhas de documentos oficiais entregues por fonte anônima que relatam passo a passo a aplicação da chamada engenharia da tortura: eletrochoque, LSD, mescalina, pentatol de sódio (soro da verdade) e uma série de métodos para induzir a privação sensorial.

A capitã Carolyn Wood, oficial encarregada dos interrogatórios em Abu Ghraib e Bagram, nunca foi processada e é mantida intocável pelo exército norte-americano.

Imperador Bush visitando as tropas na colônia rebelde

Um táxi para a escuridão (Taxi to the dark side)

Estados Unidos, 2007. 105 minutos

Direção: Alex Gibney

Temporada de seca

04/01/2010

O diretor e roteirista Mahamat-Saleh Haroun nasceu na República do Chad, em 1969. O Chad e outros três países formavam a antiga África Equatorial Francesa. Os franceses tomaram a região em 1905 e a independência só veio em 1960. O presidente François Tombalbaye era ligado às tribos do sul, de maioria católica, e os muçulmanos, no norte, foram deixados em segundo plano pelo governo instaurado. A crise que começou como guerrilha explodiu numa guerra civil que devastou o país.

Em 1991, o coronel Idriss Deby assume o poder e prepara o governo de transição para a democracia. Em 1994, depois de três décadas de conflitos, Deby anistia todos os presos políticos. Temporada de seca (Daratt, 2006) começa exatamente nesse momento. O jovem Atim e seu avô acompanham pelo rádio a anistia aos criminosos de guerra. Em seguida, Atim, de 16 anos, recebe a arma do pai e o conselho do avô: “Seja prudente, seja esperto”.

Atim deixa as montanhas e parte para sua missão. Na capital, ele busca por Nassara, um famoso criminoso de guerra, agora velho e doente, dono de uma pequena padaria e que passa os dias rezando na Mesquita. O jovem perambula pela cidade e sem dinheiro começa a praticar pequenos golpes como roubar as lâmpadas da rua e revender na feira. A miséria, a falta de emprego e a constante presença de militares e mutilados revelam a intenção do diretor em retratar e denunciar o dia a dia do país.

Mahamat-Saleh Haroun poderia contar a história do jovem órfão que parte em busca de vingança contra o assassino do pai. Certamente Haroun faria esse filme se fosse norte-americano, mas o diretor vai além, deixa as explosões de lado e nos leva para ver as feridas de um povo que passou o último século em guerra.

Fugindo dos clichês e atalhos de roteiro, Haroun narra com força e vitalidade o embate dos dois personagens. O diretor estudou em Paris e antes de se dedicar ao cinema trabalhou vários anos como jornalista, talvez venha daí esse olhar direto, seco. A fotografia não busca os planos belos que a África proporciona e a montagem não é acelerada, não tem pressa. Os atores perseguem uma atuação contida, íntima, pouco é dito e o olhar é a nossa única pista, a única forma de imaginar o que pode acontecer.

O desfecho certamente não vai agradar aos fãs do cinema convencional, mas é coerente e objetivo com a mensagem que Haroun quer passar. Um filme triste e sincero que carrega as dores de um povo que está cansado de lutar.

Temporada de Seca (Daratt)

França, 2006. 95 minutos

Direção: Mahamat-Saleh Haroun

Elenco: Ali Bacha Barkai, Youssouf Djaoro, Aziza Hisseine

O Engenho de Zé Lins

29/12/2009

José Lins do Rego Cavalcanti nasceu no Engenho Corredor, município de Pilar, no Estado da Paraíba, em três de julho de 1901. Cursou a escola secundária em Itabaiana e se formou em Direito, no Recife, em 1923.

Vladimir Carvalho nasceu em Itabaiana, no dia 31 de janeiro de 1935. Formado Bacharel em Filosofia, mas cineasta por natureza.

O Engenho de Zé Lins (2006) já seria imprescindível se fosse um documentário sobre um dos maiores escritores brasileiros, mas Vladimir Carvalho não ficou apenas no superficial e na pesquisa. A ligação entre os dois intelectuais vai além do estado de nascimento. “Meu pai contava as histórias como se fossem dele, eu ouvia isso desde pequeno. Quando aprendi a ler vi que meu pai misturava a vida dele em Itabaiana com trechos de Menino de Engenho”, relembra Vladimir.

Vladimir Carvalho

Insatisfeito com as verdades que aí estão – como todo documentarista – Vladimir parte para descobrir detalhes da vida de Zé Lins e investigar a razão da melancolia que se abatia sobre o escritor. “Ele tinha variações grandes de humor, ia da tristeza à alegria em instantes”, revela o diretor. “Tinha sempre a morte rondando sua mente. Queria muito saber a causa disso”.

O resultado desse questionamento é um documentário de apenas 81 minutos, digo apenas, pois este é um daqueles filmes que não queremos que termine tão cedo. Vladimir percorre o Brasil para encontrar pessoas ligadas ao escritor e registra depoimentos únicos. A lista de entrevistados vai de familiares, como as primas com mais de noventa anos, Carlos Heitor Cony, Ariano Suassuna, e ainda vemos uma das últimas entrevistas de Raquel de Queiroz, grande amiga e confidente de Zé Lins.

Para narrar as passagens da infância no Engenho Corredor, a equipe de filmagem vai até o local e encontra a fazenda ocupada pelo Movimento dos Sem-terra e as casas quase destruídas. Como mostrar a beleza do engenho, das máquinas, da cana, do melaço? Como voltar ao passado e fazer o público de hoje ver essas imagens? A resposta foi utilizar cenas de “Menino de Engenho” (1965) de Walter Lima Júnior como se fossem documentais. Walter rodou o filme no verão de 1965 e essas imagens são as mais próximas que existem da infância de Zé Lins e da época áurea dos Engenhos de Açúcar.

Vladimir Carvalho e o montador Renato Martins intercalam cenas do filme de Walter com as recentes feitas pela equipe. Num desses momentos encontram Sávio Rolim, o ator que viveu o menino Carlinhos em 65. Ficção e documento se misturam: o menino Sávio deixa as imagens em preto-e-branco e percorre com saudade os locais onde a trupe se aventurou há quase 50 anos.

Sávio Rolim: presente e passado

Ao ser confrontado com a realidade do lugar, a invasão do MST, a disputa pela terra, o documentário absorve essas questões e dá voz aos novos moradores do Engenho. Vladimir percebe que essa situação não é nova e que as mudanças ficam mais pelo efeito do tempo nas edificações do que nas relações humanas. “Eles me mostraram a foto de um companheiro que morreu na invasão. Eu vi ali um novo João Pedro Teixeira, um novo moleque Ricardo. Era a história se recontando”.

O documentário ganha sua forma definitiva nos retoques da ilha de edição e Vladimir percebe que é incoerente não se posicionar como personagem nessa história. O cineasta assume sua paixão pela obra e vida de Zé Lins e cria um filme único, onde o diretor questiona e percorre junto com o público as trilhas de um Brasil que está perto de desaparecer.

O Engenho de Zé Lins

Brasil, 2006. 81 minutos

Direção: Vladimir Carvalho

Pálpebras azuis

21/12/2009

Pálpebras Azuis (Párpados Ázules, 2007) do diretor Ernesto Contreras foi eleito o Melhor Longa-metragem Iberoamericano de Ficção no Festival de Guadalajara 2007 e foi selecionado para a Semana da Crítica em Cannes 2007. O filme mostra Marina uma jovem que mora sozinha, trabalha numa confecção e não tem amigos. O seu dia se resume em ir para o trabalho e voltar para casa. Um dia, Marina é sorteada e ganha uma viagem de dez dias para uma praia paradisíaca, mas o pacote vem com direito a acompanhante.

Erneso Contreras utiliza essa situação curiosa para mostrar que a solidão está mais presente no nosso dia-a-dia do que pensamos. O que vemos a seguir é uma seqüência de piadas e gags que força aquele riso abafado. Nós rimos e nos divertimos com os apuros de Marina, mas no fundo sabemos o que ela está sentindo. Quem nunca ficou pendurado no telefone, sábado à noite, tentando achar uma alma para ir naquela festa de última hora? Quem nunca debulhou as páginas da agenda telefônica e viu que não tem tantos amigos assim?

Marina percebe o desespero quando encontra um conhecido do tempo de escola. Victor fala dos amigos em comum, das aulas, dos professores, mas Marina não se lembra de ninguém, não reconhece ninguém, para piorar a situação, ela também não se lembra de Victor. Marina está completamente isolada do mundo e não sabe o que fazer para sair dessa bolha que ela mesma criou, é preciso coragem e inovar. Marina decide convidar Victor para a viagem na praia. Marina vive uma solidão solidária.

Solidão sf. Estado de quem se acha ou vive só.

Solidariedade sf. 1. Laço ou vínculo recíproco de pessoas ou coisas independentes. 2. Apoio a causa, princípio, etc., de outrem. 3. Sentido moral que vincula o indivíduo à vida, aos interesses dum grupo social, duma nação, ou da humanidade.

As duas palavras aparecem no Dicionário Aurélio assim, uma depois da outra. A personagem Marina parece viver nesse antagonismo, ela ama a vida, mas está sempre só. Ela gosta da companhia de Victor, mas não quer conversar, impõe o silêncio.

Erneso Contreras acerta o tempo das piadas e usa a montagem paralela para enfatizar a solidão dos dois personagens com muita habilidade. A atriz Cecília Suárez (do grande sucesso mexicano “Sexo, pudor e Lágrimas”, 1999) tem uma atuação contida, quase um clow, e consegue passar a tristeza de Marina sem afetação.

Pálpebras azuis é uma pequena fábula sobre solidão, um bom retrato dos nossos tempos. Diverte e faz pensar.

Pálpebras azuis (Párpados Ázules)

México, 2007. 98 minutos

Direção: Ernesto Contreras

Elenco: Cecília Suárez, Enrique Arreola, Ana Ofélia Murguía

Sem fôlego

16/12/2009

O diretor sul-coreano Kim Ki-Duk só começou a dirigir filmes depois dos 35 anos, mas já aparece com destaque no cenário internacional. Kim recebeu o Leão de Prata de Melhor Diretor no Festival de Veneza 2004 por Casa Vazia (2004) e Primavera, verão, outono, inverno… e primavera (2003) foi o vencedor do Prêmio do Público no Festival de San Sebastián 2003. Em Sem fôlego (Soom, 2007), o diretor questiona valores básicos do mundo oriental e mostra que homens e mulheres reagem de formas diferentes quando postos numa situação limite.

Yeon (Park Ji-a) segue a cartilha do dia a dia de toda mulher oriental, submissa ao marido, devota a casa e cuidadosa com a filha. Yeon é sempre deixada de lado e parece estar resignada com seu papel na família e na sociedade. O máximo de rebeldia que consegue é jogar no lixo a camisa branca do marido. O marido (Ha Jung-Woo) também acredita que tem uma vida perfeita ao lado da esposa, e claro, arruma tempo para ter uma amante. A descoberta da traição quebra a linha tênue que mantém Yeon domesticada. Num primeiro momento ela se recusa a falar, relega suas tarefas e mostra a insatisfação ao marido que não percebe sua mudança de comportamento.

Nesse ponto, o diretor começa a construir o alicerce para o desenrolar da trama que seria completamente equivocada sem essa base bem fundamentada. Achamos que a seqüência da história será banal ou até mesmo normal, outro filme sobre traição e reconciliação, mas Kim não está interessado no óbvio e sim em incomodar.

Yeon resolve visitar um detento condenado à execução e que está nos noticiários por tentar o suicídio pela terceira vez. O diretor do presídio curioso com as intenções da moça que diz ser uma antiga namorada permite que eles se encontrem. Jin (Chen Chang) sabe que não conhece aquela pessoa, mas como recusar uma visita estando no corredor da morte? O diretor do presídio aproveita a situação para viver um reality show particular e utiliza as câmeras de segurança para acompanhar cada momento.

Com as peças no tabuleiro, Kim Ki-Duk conduz o roteiro com precisão, ora faz rir, ora faz calar, e aproveita o inusitado da situação para analisar e criticar comportamentos já enraizados na cultura oriental. Só percebemos algumas verdades quando elas são expostas à luz do ridículo.

No fim, Kim Ki-Duk nos deixa com a sensação de ‘termos ido longe demais’, ficamos com a culpa de ver tantos pecados íntimos expostos e compartilhamos os segredos dos personagens com tristeza. Para quem acha que a vingança coreana se resume ao cru Old Boy (2004) aí vai uma grata surpresa.

Sem fôlego (Soom)

Coréia do Sul, 2007. 84 minutos

Direção: Kim Ki-Duk